A estruturação metodológica, hoje atribuida à Sociologia Militar, tem a paternidade dos sociólogos norte-americanos Morris Janowitz e Edward Shils que, durante a Segunda Guerra Mundial, foram adstritos ao Departamento de Guerra Psicológica do Exército (conhecido como Psychological Warfare Division, Intelligence Branch) e iniciaram estudos de caso, desde Junho de 1944, sobre o Exército Alemão.
Inicialmente foi-lhes dada a missão de entender o porquê do espírito voluntarioso dos soldados alemães que, apesar de estarem em situação difícil, continuavam a combater abnegadamente. O questionamento de partida para o estudo foi o seguinte: A moral dos alemães dever-se-á à capacidade de resistência ou a uma coesão e vontade de lutar impregnada pela ideologia política do nacional socialismo, ou, em alternativa, será que a sua eficiência combativa, a coesão e o espírito de corpo se devem a uma interacção conseguida e a uma dinâmica de grupo muito própria dos grupos primários?
As conclusões destes sociólogos validaram a ideia de que os soldados alemães não dependiam da sua coesão, da eficiência combativa ou do espírito de corpo, nem dos símbolos políticos, ideológicos e culturais do nazismo. O seu espírito de combate era, essencialmente, produto de um sistema de interacção gerado por uma dinâmica de grupo, própria dos laços primários. Por outras palavras: existia uma relação muito afectiva entre os oficiais alemães e os seus homens. A organização do sistema hierarquizado alemão constituia-se como um grupo primário, onde fluia uma interacção forte de compromisso na acção. Foi a partir desta resposta que Janowitz vaticinou deverem as forças armadas ser analisadas como um sistema social (cf. Pinillos 2007: 94-103; Gavidia 2006: 30).
As grandes contribuições para o desenvolvimento e conquista da legitimidade científica, por parte da Sociologia Militar, estão ligadas à criação do Research Branch Arm’s Information and Education em 1941, onde se empenharam vários cientistas sociais; entre eles, Samuel Stouffer veio a dirigir o projecto The American Soldier
(1949), edição em quatro volumes, com mais de meio milhão de entrevistados e duas centenas de questionários, considerado o primeiro estudo sistemático de Sociologia
Militar (in Rayan 2010: 100-137).
Na mesma linha está o estudo de Edward Shils e Morris Janowitz centrado na coesão e desintegração do Exército Alemão na Segunda Guerra Mundial (Cohesion and Disintegration in The Wehrmacht in World War II, 1948), e teoria do «Estado-Quartel» desenhada por Harold Lasswell em 1941, que se encontra na génese de posteriores estudos na área das relações civil-militares. Aí s e caracteriza a instituição militar como a instância onde se processa aadministração da violência legal organizada e se qualifica o militar como «gestor da violência». As publicações, em 1956 The Power Elite de Wright Mills, e em 1957 The Soldier and the State de Samuel Huntington (Universidade Harvard), deram contribuições inestimáveis para o aclaramento de problemáticas (cf. Cobra 2005: 32-34).
O desencadeamento da guerra na Europa fez florescer a psicologia social e a sociologia nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Desenvolveram-se estudos sobre: o moral das tropas e dos quadros; a população civil na guerra e no pós-guerra; a reinserção dos combatentes e a sua readaptação à vida civil; as formas para a resolução de problemas com os prisioneiros de guerra; a mentalidade e o comportamento militares. Mais tarde, emergem outras preocupações em redor das seguintes temáticas: profissão e organização militar; relações civil-militares; recrutamento e composição social das Forças Armadas; as Forças Armadas como sistema social. Na década de Cinquenta/Sessenta a maior apreensão da Sociologia Militar centrou-se no estudo da carreira dos oficiais e na profissionalização das Forças Armadas, bem como na ruptura vivente entre a sociedade civil e a militar e na (re)construção da sua necessária inter- relação. Charles Moskos (1971, 1973, 1978, 1986, 1988, 1991), Morris Janowitz (1960, 1967, 1985, 1990), Samuel Huntington (1985, 1996) e Sam Sarkesian (1972), embora muitas vezes em desacordo, deram contributos inestimáveis para o aclaramento de muitas daquelas problemáticas em discussão. Questionaram uns e defenderam outros, a suposta imutabilidade das profissões militares e envolveram-se na apetecida discussão entre o que é ser soldado profissional versus ser soldado ocupacional (cf. Pinillos 2007: 94-103).
Há estudos que são referências permanentes e citações obrigatórias dos trabalhos académicos actuais. Mencionam-se por exemplo: os relacionados com o conceito de profissão militar, a que estiveram ligados, entre outros, Charles Moskos (1978, 1988), Harold Lasswell (1941), Morris Janowitz (1960, 1967, 1990) e Samuel Huntington
(1996); os modelos de profissionalização militar que mereceram a melhor atenção de Charles Moskos (1988) e Frank Wood (1988); as relações civil-militares e forças armadas-sociedade em que Huntington (1985, 1996) era exímio; a sociologia das organizações militares (perspectiva sociológica da organização, evolução da organização) que recebeu as reflexões valiosas de Charles Moskos (1988), Kurt Lang (1972), Morris Janowitz (1985, 1990) e David Segal (1984, 1993, 1990). Também Vilfredo Pareto (1991) se debruçou sobre as ascensões militares por méritos de guerrra, a causa mais directa da circulação de elites, um circuito de ascenção mais rápido que o proporcionado pelos partidos políticos e oligarquias. Wright Mills (1956, 1959, 1982) tratou aprofundamente as elites e analisou os diversos actores que estruturavam o poder nos Estados Unidos, apelidados pelo cientista de “altos círculos ou elites”. Neles incluiu o grupo social militar que escalpeliza. Menciona “os senhores da guerra” e investiga a sua ascendência nos diferentes grupos de poder do país. Por último, acolhe-se a polemologia onde brilharam Gastón Bouthoul (1964, 1974, 1979, 1991) e Raymond Aron (2009) [cf. Pinillos 2007: 94-103].
São de realçar os modelos contrastantes, concebidos e reflectidos para as Forças Armadas por Huntington e Janowitz, respectivamente designados por “modelo divergente ou institucional” e “modelo convergente ou ocupacional”(Cobra 2005: 177), e o “modelo plural, segmentado e híbrido” e conciliador, desenvolvido por Moskos (1978: 41; 1988: 16-75) que se referirá mais adiante.
Todo este viveiro sociológico, no espaço da Sociologia Militar, também se deve à criação em 1962, no âmbito da Associação Internacional de Sociologia, do
Research Comité on Armed Forces and Society, hoje denominado Armed Forces and Conflict Resolution, em redor do qual se tem desenvolvido investigação especificamente sociológica, conduzida por sociólogos de várias proveniências geográficas, ideológicas e políticas (Cobra 2005: 34).
Há e houve, sem dúvida, um sem número de cientistas sociais a produzirem conhecimento nesta área de especialização. NcNamara (in Câmara 2008: 12)
…já tinha notado que se a I Guerra Mundial foi a Guerra dos químicos, e a II Guerra Mundial a
Guerra dos físicos, poderia bem acontecer que a III Guerra Mundial viesse a ser a dos cientistas sociais. Pensa-se que a III guerra já aconteceu, sob curiosa designação de Guerra-Fria, sendo efectivamente, em larga medida, a guerra dos cientistas sociais (Câmara 2008: 12).
Nela se podem englobar as três frentes da Guerra do Ultramar: de Angola, da Guiné e de Moçambique. Fazia-se sentir, principalmente na Guiné, o papel operacional
dos cientistas sociais e dos instrumentos produzidos pelos seus labores. A sua presença era já bem notada no recrutamento, na selecção, no treino, na avaliação e na adequação do pessoal militar, como o foi no caso dos Capitães do Fim, bem como em acções de persuasão, na propaganda e na contra propaganda, no controlo e na adesão das populações e também na acção psicológica – a bem conhecida «psico»9.
A Sociologia Militar tem vindo a colher alguns adeptos em Portugal. A percursora foi Maria Carrilho, em 1985, com uma tese de doutoramento proposta ao Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, que é um esclarecimento sociológico do papel dos militares. Estudou, de acordo com a opinião de Medeiros Ferreira, “os militares perante a mudança política, mas, em momentos fortes, atomizados no tempo: 5 de Outubro de 1910, 28 de Maio de 1926, 25 de Abril de 1974” (Ferreira 1992: 18). Seguiram-se algumas outras investigações em campos de estudo diversos. Entre 2000 e 2010, destacaremos, de entre outras, as de: Helena Carreiras (2004) – As mulheres e as Forças Armadas; Saudade Baltazar (2005) – Caracterização das forças armadas e seus relacionamentos com a sociedade civil; Lurdes Fonseca (2002, 2008, 2009) – Sociologia da profissão militar; David Rosado (2009) – Organização de ensino militar; Proença Garcia (2010) – Sociologia da guerra; Manuel Rebocho (2009) – Elites Militares na Guerra de África; António Rosinha (2003, 2009) – Conhecimento tácito em contexto militar. Algumas delas serão suporte significativo ao trabalho.
Através de mestrados, de doutoramentos e de projectos de investigação integrados em centros de investigação, algumas instituições de ensino superior português vão desbravando uma área científica que, há mais de 50 anos, já era considerada pelo General António Pinheiro (1985: 9) de importância estratégica para as Forças Armadas. De destacar, ainda, os doutos contributos pessoais: de Adriano Moreira (1979, 2000, 2001, 2009, 2011) com imensos estudos já efectuados, por exemplo, sobre as campanhas de África, natureza das Forças Armadas e privatização da guerra; de Pezarat Correia (1988, 1994, 2000, 2002, 2004, 2005, 2010) sobre a descolonização, recrutamento africano, geoestratégia e geopolítica, teoria do combate e evolução do pensamento estratégico; de Loureiro dos Santos (1983, 2006), que abordou estratégia militar e democratização. Muitos outros autores serão mencionados.
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Bem-vinda é a recente Revista de Sociologia, editada pelo Centro de Psicologia Aplicada do Exército, criado em Fevereiro de 1993 pelo Decreto-Lei n.º 50, no âmbito das “reorganizações do Exército” e actual herdeira do Centro de Estudos Psicotécnicos do Exército10, instituição responsável pela selecção dos Capitães do Fim, que, pela primeira vez, estuda conjuntamente a Psicologia e a Sociologia Militar. No historial do organismo alude-se, a certa altura, ter-se o CPAE multiplicado numa “série de novas actividades e estudos que muito têm contribuído para o desenvolvimento da Psicologia e da Sociologia Militar e para o prestígio do Exército” (CPAE 2001). Para além da selecção, “muitas áreas da Psicologia e da Sociologia surgem hoje ligadas a factores humanos, a factores ambientais, a liderança, a psicologia clínica e a psicologia das organizações”. (CPAE 2001).
1.2. O ensino superior da Sociologia Militar: o caso da Academia Militar