• No results found

Tone Mapping

In document Perception-inspired Tone Mapping (sider 24-31)

Do trabalho de análise emergiram elementos convergentes para a dificuldade de garantir a permanência dos alunos no SOME. Tais elementos foram classificados em subcategorias empíricas ligadas à categoria “evasão escolar”, conforme demonstrativo a seguir.

Tabela 5 – Demonstrativo de análise de conteúdo temática: evasão escolar

Unidades de registro Subcategorias empíricas Categorias empírica

"[...] A desmotivação, tristeza, era essa da falta de professor." (E2)

desmotivaçãodiscente decorrente da instabilidade na oferta modular

evasão escolar

“[...] falta de professor. Quando faltava professor, a gente ia duas, três vezes à noite lá e nunca tinha professor e ninguém sabia dar nenhuma informação pra gente. E isso desmotivava.” (E4)

“Muitas vezes é por isso que muitos desistem, porque custa a ir professor, e quando vai é rápido.”

(E6)

"[...] A dificuldade era da locomoção. A gente tinha que batalhar. Eu trabalhava não era pra comer, nem vestir, era pra despesa

só da gasolina." (E2) indisponibilidade de transporte escolar

“[...] Muitos não aguentavam por causa do gasto que era muito grande, todo dia gasolina. Muitos paravam até no primeiro mês já.”

(E5)

"[...] tem muitos pais de família, que tem filho, tem mulher e precisam do trabalho. E como eles

precisam mais do trabalho, eles

optam pelo trabalho." (E3) oposição emprego x estudos "[...] e a partir do momento em que

eu saí (do emprego) eumelhorei mais meus estudos." (E1) Fonte: elaboração do autor

Analisando as unidades de registro em um plano contextual, percebemos as subcategorias empíricas como desencadeadoras do fenômeno da evasão.

Destacou-se, de modo bastante recorrente, a referência à desmotivação

discentedecorrente da instabilidade na oferta modular, o que revela que a dificuldade em

garantir o cumprimento do calendário escolar – tratada no tópico anterior – contribui para o fenômeno da evasão. Isso fica claro na fala de E6, que nos diz: “Muitas vezes é por isso que muitos desistem, porque custa a ir professor, e quando vai é rápido.”, ou, ainda, na reclamação de E3:

O que desmotivava era que às vezes a gente ia estudar e o professor não estava ou às vezes a gente ficava uma hora esperando o professor, ele chegava em outro horário... Aí tinha essa deficiência, os professores marcavam um horário, chegavam em outro e a gente acabava estudando só um pouquinho.

Também emergiu com bastante força nas falas dos sujeitos a questão da

atende à demanda proveniente não só da própria vila, mas também de outras às proximidades ou até mais distantes. Com efeito, o falta do transporte tem sido um obstáculo à garantia do acesso e permanência no SOME dos alunos oriundos de localidades mais distantes, configurando-se também como uma das grandes limitações do sistema, conforme expresso na fala de E2:

A dificuldade era da locomoção. A gente tinha que batalhar. Eu trabalhava não era pra comer, nem vestir, era pra despesa só da gasolina. Porque de lá eu gastava dois litros de gasolina, e naquele período tinha aumentado já, cinco reais o litro. Todo dia dez reais. Às vezes eu ia de casco. De casco eram duas horas e meia. Às vezes de casco eu saia três horas da tarde remando. Cinco e meia tava na casa dos colegas. Levava roupa e tudo, tomava banho pra ir. Quando era no outro dia, seis da manhã, remo de novo!

A questão da ausência de transporte escolar aos alunos do SOME é também evidenciada nos trabalhos de Oliveira, R. M. (2010), Queiroz (2010) e Silva, Barros e Oliveira (2014), mostrando-nos que se trata de um aspecto que merece especial atenção nas discussões em torno dessa temática.

Percebemos, ainda, a relação de oposição emprego x estudos em evidência nas entrevistas, dado que o jovem estudante do SOME é, via de regra, estudante-trabalhador ou trabalhador-estudante, conforme fica claro na fala de E3: “É complicado porque até hoje se for lá observar a maioria das pessoas que estão no ensino médio trabalham, a maioria.” Essa constatação faz mais sentido à medida que consideramos o contexto que delineia as condições de produção do conteúdo em questão. Assim, conforme já exposto anteriormente, a vila Mainardi é caracterizada como uma propriedade privada que, atualmente, possui três núcleos principais de produção: serraria, fábrica de gelo e indústria de beneficiamento de açaí em polpa para exportação. Também vimos anteriormente que Marx e Engels, em A Ideologia Alemã, nos dizem que a propriedade privada é a expressão mais flagrante da subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, a uma determinada atividade que lhe é imposta. No caso da Mainardi, percebemos que a relação de emprego estabelecida entre a empresa e os alunos trabalhadores do SOME se constitui como obstáculo ao desenvolvimento dos estudos no ensino médio.

A lógica produtiva do setor privado local exige prontidão e disponibilidade do trabalhador para o cumprimento das metas de produção, não raro induzindo o aluno a ter de escolher entre trabalhar ou estudar, como ocorreu com E3. A entrevistada, ao se ver diante dessa necessidade de escolha, que lhe teria sido comunicada pessoalmente por seu chefe à época, disse não ter hesitado em optar pelo SOME. No entanto, ela afirma que somente pôde

fazer esta opção por ser solteira e contar com a colaboração dos pais, o que não era o caso de outros alunos, inclusive colegas seus: “Tem muitos pais de família, que tem filho, tem mulher, e precisam do trabalho. E como eles precisam mais do trabalho, eles optam pelo trabalho.” (E3). A fala de E6 também nos traz essa mesma constatação, conforme segue.

Pessoal que trabalha na empresa ou com negócio de venda mesmo, negócio de venda de açaí, no tempo de açaí, ou na fábrica de gelo, muita gente que trabalha lá na fábrica de gelo, desistem... Por causa do horário, porque tem professor que marca cinco horas para ir e então liberar mais cedo [...] E aí eles não tinham como ir. Alguns conversavam com os professores e iam levando, mas muitos desistiam.

Essa subordinação dos trabalhadores à divisão do trabalho no local tem um elemento que a agudiza ainda mais: o fato de a moradia ser condicionada à relação de emprego, uma vez que as residências são de propriedade da empresa. Quando a relação empregatícia é desfeita, como ocorreu com o pai de E1 no início do ano de 2015, o ex-empregado deve entregar a moradia e sair do local. É o que destaca E3: “Lá quando tu sai, quando eles te mandam da empresa, tu tem que deixar a casa, porque quando tu sai provavelmente já tá entrando outro, aí a casa já vai pra quem já tá entrando... Lá tudo é cobrado.”. Assim, a manutenção do vínculo empregatício é também, para alguns, a única garantia (ainda que temporária) de um lugar para morar, o que torna a relação de dependência ainda mais brutal.

Por outro lado, as próprias empresas do local absorvem o público egresso do SOME, beneficiando-se de sua formação no ensino médio: “Os alunos que entram no ensino médio lá na Mainardi eles entram só pra estudar mesmo e querer terminar o ensino médio pra sair pra trabalhar [...] Tem um primo meu que terminou o ensino médio e se empregou na vila, lá na empresa...” (E1)

Os entrevistados nos disseram que o ano letivo iniciava com as turmas superlotadas: mais de cinquenta, até mais de sessenta alunos, o que revela o descumprimento com a quantidade máxima de quarenta alunos por turma, estabelecida no inciso III do artigo 5º e no inciso III do artigo 15 da Lei do SOME. Não obstante, os alunos também informaram queesse quantitativo ia se reduzindo rapidamente, conforme relatou E6: “A nossa turma sempre foi a mais cheia, mas vai desistindo, desistindo... Agora se tiver é uns vinte e pouco.”.

Da análise empreendida neste tópico, concluímos que a evasão escolar no SOME – e seus condicionantes, arrolados em subcategorias empíricas – constituem uma das limitações do sistema na ótica dos egressos entrevistados. De certo, não devemos descartar a possibilidade de haver outros condicionantes, tão ou mais expressivos que os aqui arrolados. No entanto, os que citamos foram os que emergiram dos próprios sujeitos entrevistados, chamando a atenção para a necessidade de o poder público voltar o seu olhar de modo

maissistêmico para essa realidade, buscando agir, dentro de sua área possível de atuação, no combate às causas desse fenômeno para amenizar a problemática, promovendo níveis mais elevados de acesso e permanência com sucesso do aluno no SOME.

In document Perception-inspired Tone Mapping (sider 24-31)