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Neste capítulo são analisadas as falas das educandas do Programa Integrar de

Alagoinhas, relativas ao significado da escolarização, aos motivos que as levaram a retomar aos estudos, às dificuldades encontradas nesse retorno,à sua compreensão em relação ao trabalho e às perspectivas de continuidade dos estudos. As trajetórias revelaram que suas vidas são reguladas pela luta cotidiana, pela sobrevivência e pela tentativa de provar aos outros e a si mesmas que são dignas trabalhadoras. As suas trajetórias de vida anunciam as marcas das relações de gênero e denunciam as dimensões materiais e simbólicas, referentes ao lugar que ocupam na sociedade.

Destacaram-se, pois, fragmentos de suas trajetórias de vida para que se pudesse aquecer com as vozes das trabalhadoras nesse início de diálogo em que se pretendeu ir buscando caminhos para a compreensão dos conteúdos, analisando e interpretando os discursos e seus significados. Assim, apresentou-se por meio de quadros sínteses, a caracterização dos sujeitos, suas condições socioeconômicas e culturais e os resultados das entrevistas. Discutiram-se as trajetórias de vida das mulheres a partir de quatro eixos temáticos: condição feminina e

consciência de gênero; o significado do trabalho e as alternativas de ocupação; o significado da escolarização e suas atitudes e perspectivas.

4.1 - Caracterização do grupo: Quem são elas?

Para melhor conhecimento do grupo pesquisado, sistematizaram-se no Quadro 3 algumas características das trabalhadoras entrevistadas. Estes dados, sempre que pertinente, serão ressaltados, conforme as análises e interpretações dos eixos temáticos que nortearam o estudo.

Quadro 3 – Caracterização das entrevistadas

Nomes Esmeralda Manuela Valquiria Sarita Paloma Zaíra Madalena Sulamita Carmencit

a

Salamandra

Idade 27 anos 34 anos 36 anos 32 anos 33 anos 41 anos 41 anos 33 anos 47 anos 31 anos No. de

filhos/as

2 filhos 3 filhos 1 filho 2 filhos 2 filhos 3 filhos 5 filhos 3 filhos 3 filhos 3 filhos Situação no mercado de trabalho Desempregada /Procurando emprego Desempre gada/ Procurand o emprego Empregada doméstica Empregada doméstica Desempreg ada/ Procurando emprego Empregada doméstica Empregada doméstica Desempre gada Cozinheira de um restaurante Empregada doméstica Estado conjugal Amigada/casa da sem registro

Casada Divorciada Amigada/ca sada sem registro Amigada/ casada sem registro

Separada Separada Amigada/ casada sem registro Casada Casada Renda do grupo familiar 2 sm Não declara da 3 sm ½ sm 1 sm 1 sm e 1/2 3 sm 4 sm 1 sm ½ sm Concluiu o Ensino Fundamental no programa Integrar

sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim

Raça/cor declarada

Negra e índia Branca e negra

Negra e índia

Negra e índia

Negra Negra Negra Negra Negra e

índia

Branca e negra

Essas educandas, cujas trajetórias se constituíram em objeto de análise, são mulheres trabalhadoras, característica comum a muitas outras das camadas populares. Todas são trabalhadoras que contam com as desvantagens históricas de permanecer, por longo tempo, isoladas no mundo privado, seja no espaço doméstico sem remuneração, seja em atividades domiciliares ou extradomiciliares remuneradas. Mas esse grupo diferencia-se pelo fato de que todas elas driblaram as situações de subordinação e dominação e elaboraram estratégias, que se desenvolveram tanto no espaço doméstico quanto na comunidade, para garantir a sua escolarização e melhorias no mundo do trabalho.

Com idade entre 27 e 47 anos, com renda familiar total entre meio e quatro salários mínimos, quase todas elas vivem em núcleos familiares que não correspondem ao que alguns autores identificam como modelo referencial de “família” nas camadas populares, em que há complementaridade nos papéis: homem – provedor, autoridade responsável pela respeitabilidade da família; mulher – cuidadora, chefe da casa, responsável pela unidade do grupo, gestora dos recursos valorizados nos grupos de camadas populares.

Das dez entrevistadas, oito se consideram negras. Todas residem no município de Alagoinhas, na zona urbana da cidade, e o número de filhos variou: uma tem somente um filho, quatro têm dois filhos, outras quatro têm três filhos e uma tem cinco filhos. Suas trajetórias de vida revelaram um forte interesse pela maternidade. Do total, três são casadas, cinco convivem maritalmente, uma é divorciada e outra separada. Estas duas últimas vivem sozinhas e se consideram mulheres chefes de família. Das seis que trabalham, cinco são mulheres provedoras, independentemente de residirem ou não com um companheiro.

Como podemos verificar no Quadro 3, alguns elementos apresentados devem ser ressaltados a partir dos depoimentos das trabalhadoras. Primeiro, em relação à situação de quase

entrada no mercado de trabalho, principalmente para as mulheres com baixa escolaridade e que supostamente não tinham uma qualificação. Além disso, em relação à questão de raça25, oito delas se declararam negras, reafirmando a nítida desvantagem de inserção das mulheres negras no mercado de trabalho brasileiro26.

Mesmo não sendo objeto de estudo desta pesquisa, é importante destacar que a desigualdade das mulheres torna-se ainda mais gritante se considerada sua condição de raça/etnia, pois a 'feminização' da pobreza é racializada. Como afirma Tomel (2003, apud Melo, 2005), a pobreza é mais acentuada entre mulheres negras e provenientes de minorias étnicas.

As mulheres negras têm sido, ao longo de sua história, as maiores vítimas da desigualdade de gênero somada à racial, pois, os estudos realizados revelam um quadro dramático que não está apenas nas precárias condições sócio-econômicas em que vivem, mas, sobretudo, na negação cotidiana de ser mulher negra, através do racismo e do sexismo que permeiam todas as esferas de sua vida (DIEESE, 2003).

Em muitos momentos de suas trajetórias ocupacionais percebeu-se que as relações étnicos/raciais foram apresentadas como um empecilho na busca do emprego, conforme ilustram as falas seguintes:

Por eu ser negra, influencia no trabalho, bem, porque hoje em dia o pessoal dá mais a capacidade pras pessoas brancas, se for um preto e um branco a prioridade é mais do branco. No trabalho em qualquer coisa,.é assim, o pessoal dá mais prioridade aos brancos do que os pretos e eu acharia, que isso tudo deveria acabar, por que a gente é humano [...] por que? Por causa da cor? do cabelo? Isso pra mim é básico. Tinha que dá pelo menos uma primeira chance pra saber se realmente aquilo que vai intuir na pessoa, a cor... (Esmeralda, 27).

Acredito, que o fato de eu ser negra sim, dificulta no emprego, geralmente pra ser secretaria, eles querem de cor mais clara, que tenha boa aparência, olhos verdes, cabelo lisos (Paloma,33).

25

Usamos o termo “raça” não em sentido biológico, mas sim como indicadores de origens e trajetórias históricas comuns, ou seja, um “atributo socialmente elaborado”(HASENBALG,1992).

26

Porque às vezes a gente chega num lugar e só porque a gente tem uma pele mais morena as pessoa se afastam, se recuam, né? O preconceito que as pessoas têm, não é em todo mundo, mais ainda existe né? No meu trabalho eu não me sinto descriminada por ser negra, mas também eu sou empregada doméstica, tem que ser negra mesmo!(Madalena, 41).

Em alguns momentos das entrevistas essa questão perde a centralidade, mas não a relevância. Entretanto considero importante questionar o fato de que a desigualdade social abarca a desigualdade racial; ou seja, que ao trabalharmos com as classes populares estamos, conseqüentemente, levando em conta a desigualdade racial, pois a população negra encontra-se nas classes populares. Pois se é certo que negros e negras compõem, majoritariamente, a base da pirâmide social, evidência comprovada pelos dados estatísticos, que já não conseguem mais camuflar os efeitos maléficos de uma sociedade racista, por outro lado, diluir a questão racial numa discussão de classe não dá visibilidade a ela e minimiza a possibilidade de luta contra- hegemônica, visando a superação da desigualdade racial.

Outro elemento a ser destacado, é o estado civil como é chamado oficialmente por Aurélio Buarque (1986), refere-se à situação jurídica de uma pessoa em relação à família ou à sociedade. Esta lei universal rege o meio social independentemente de sua divisão política e geográfica. O estado conjugal se modifica com as transformações sociais. Além das condições de solteira, casada, viúva e divorciada, acrescentamos a de separada (que já foi casada e separou sem uma legalização) e vive maritalemente (aquela que vive com companheiro sem legalização).

Entre as pesquisadas, as trabalhadoras amigadas (04) ocupam o primeiro lugar, em segundo estão as mulheres casadas (03) seguidas pelas mulheres que já foram casadas e se separaram dos seus esposos (03) seja legalmente ou não. Essas três mulheres consideram-se chefes de família e, segundo elas, conquistaram sua autonomia e a liberdade, conforme ilustra o depoimento seguinte:

minhas coisas, né? Não estudei antes porque [...] tive que criar meus filhos sozinha, risos[...] deixa pra lá[...](risos) [...] As vezes é a pior coisa pra uma mulher é a pessoa casar com um homem que não presta e aí ter que trabalhar pra sustentar uma casa toda sozinha! (Risos)[...] aí é ruim, né? (Madalena, 41).

Na composição familiar, observamos que três núcleos familiares são compostos por marido, esposa, filhos e a mãe das esposas. Dois são compostos por mãe, filhos, irmãs e cunhados. Em três se caracteriza a família nuclear, composta por marido, esposa e filhos, e dois são formados apenas por mulher e filhos. Conforme se verifica, a estrutura familiar dessas mulheres passou e passa por redefinições na medida em que os casamentos são desfeitos e em decorrência das necessidades econômicas.

Em relação ao número de filhos/as, mesmo considerando a importância da maternidade, as mães entrevistadas mostraram, em geral, a preocupação quanto à formação de famílias numerosas, principalmente em vista da falta de condições financeiras para manterem os filhos como desejam. Assim, nove delas opinaram que as mulheres devem ter poucos filhos, principalmente em razão de suas expectativas de vida, ou seja, a continuidade e permanência nos estudos e a sua inserção no mercado de trabalho.

A renda familiar das mulheres pesquisadas varia entre meio e quatro salários mínimos. A maior parte da renda é gerada pela população feminina, seja das esposas ou das aposentadorias recebidas pelas suas mães. Das oito mulheres que vivem com um companheiro, três destes estavam desempregados, um estava afastado do emprego em função de um acidente de trabalho e dois ganhavam salários menores do que a soma do salário das esposas e das filhas. Somente dois maridos tinham um salário mais elevado e sustentavam integralmente suas casas. A renda total dessas famílias provinha do setor de serviços (doméstico) e do setor informal.

Segundo Hasenbalg (2003 apud Melo, 2005), um dos grupos mais vulneráveis à pobreza é o de domicílios chefiados por mulheres, categoria social que cresceu significativamente, nas duas

últimas décadas, no amplo contexto da América Latina, particularmente nas regiões urbanas. No caso específico do Brasil, em 1999, contavam-se 9,9 milhões de domicílios chefiados por mulheres, dos quais 2, 5 milhões ou 22% eram pobres.

As mulheres chefes de família, que representam 25% das famílias brasileiras, concentradas principalmente no meio urbano, são, assim por sua vez, bastante empobrecidas, uma vez que contam com apenas uma fonte de renda, e essa é até 60% inferior à masculina. Nas famílias chefiadas por mulheres a incidência de pobreza é da ordem de 34% a 35% (MELO, 2005).

Todos esse elementos de caracterização apresentados serão retomados, sempre que pertinente, durante as análises das falas seguintes.

4.2- Condição feminina e consciência de gênero

Apresentamos no Quadro 4, as categorias sistematizadas a partir das opiniões das entrevistadas em relação à sua condição de mulher na sociedade, bem como quais as melhores e piores coisas que se enfrenta por ser mulher e as diferenças sociais existentes entre homens e mulheres por elas consideradas.

Nomes Ser mulher Melhores coisas Piores coisas Diferenças entre homens e mulheres Esmeralda

É coisa séria, é ter responsabilidade. A personalidade, o caráter da mulher e o respeito.

A violência contra a mulher

São poucas as diferenças entre homens e mulheres, hoje a mulher já trabalha, estuda, tem sua vida, não fica somente dependendo do marido.As diferenças diminuíram muito.

Manuela É lutar e conseguir vencer na vida, não é somente ser dona de casa.

A garra, a luta pela liberdade, determinação.

É ser dominada pelo marido, pela vida e pela comunidade.

São poucas diferenças, hoje as mulheres são tão capacitadas quanto aos homens.

Valquiria Ser mulher é mudar a vida. Conquista de alguns direitos.

É não ter políticas que amparem a mulher

Hoje quase não existem diferenças, está quase igual.

Sarita É ter independência, é trabalhar fora. É ser empregada. É não ter emprego, não ter oportunidades de trabalho.

Não existem muitas diferenças, os direitos são quase os mesmos.

Paloma É ser mãe e esposa. Colocar uma vida no mundo, parir.

Falta de oportunidade de trabalho

Ainda existe diferença, pois o homem pode tudo e a mulher ainda tem que ficar em casa, cuidar dos filhos e da casa.

Zaíra Ë ser mãe e cuidar dos filhos. É trabalhar e ter os filhos Falta de chances para as mulheres,

comparadas aos homens.

Quase não existe diferença, as mulheres estão ocupando os espaços dos homens, mas no trabalho as chances ainda são mais para os homens. E a mulher tem que ficar cuidando da casa e dos filhos. Madalena É muito importante ser mulher. É ter liberdade É casar com um

homem preguiçoso e ter que sustentar a casa sozinha.

Não existe quase diferença nenhuma, diminuiu muito.

Sulamita Ë termos oportunidades de trabalho. É ser mulher. É ser humilhada, pelo seu próprio marido.

Existem poucas diferenças.

Carmencita Ser mulher é um privilégio. É ser mãe As dores do parto. Existe diferença sim, as mulheres continuam a serem discriminadas, sofrem discriminação social. Salamandra Ser mulher é uma dádiva de Deus. É poder cuidar dos filhos

e do marido.

Não ter opinião e não ter autonomia, tudo ter que consultar o marido.

Não existe diferença nenhuma atualmente.

Quadro 4 – Condição feminina e consciência de gênero Fonte: elaboração própria

Partindo do pressuposto de que a identidade27 feminina é socialmente construída e admitindo a afirmação de Beauvoir (1980), em seu clássico já citado, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, podemos afirmar que tanto a mulher quanto o homem vão se formando a partir de condicionantes biológicos, psicológicos e, sobretudo, sócio-culturais (BEAUVOIR, 1980, p. 9).

Mesmo com a mudança social ocorrida na segunda metade do século XX, quando as mulheres passaram a ocupar o espaço público, a concepção do grupo pesquisado ainda está atrelada ao espaço privado e à maternidade. A dicotomia entre o espaço público e o espaço privado, e a respectiva destinação de homens e mulheres a esses espaços, evidenciam claramente as diferenças biológicas e funcionais entre os dois gêneros, que têm se constituído na base da legitimação e institucionalização social vigente. Aqui a definição apoiou-se em Fraser (1993) que utiliza “âmbito público” para caracterizar tudo o que se situa fora do âmbito doméstico e familiar. A autora alerta que essa distinção tem conseqüências prático-políticas, a exemplo da divisão do trabalho entre homens e mulheres, analisada sob a perspectiva feminista. Essa discussão em relação à divisão sexual do trabalho será abordada nas análises seguintes.

Em relação à condição feminina, todas as dez entrevistadas demonstraram satisfação de ser mulher, e mas fizeram uma ressalva em relação à necessidade de as mulheres lutarem pela sua independência financeira e sua autonomia. Duas delas declararam a sua satisfação, mencionando a função de mãe; ou seja, gostar e cuidar de crianças – constructos associados à identidade feminina - e o papel de esposa, sugerindo o casamento como uma destinação do sexo feminino. As demais relacionaram sua satisfação com os direitos conquistados pelas mulheres e com a entrada das mesmas no mercado de trabalho, conforme observamos na fala seguinte:

27

Ser mulher hoje [...] ser mulher hoje é lutar, é conseguir vencer na vida, quando a gente é mulher que tem trabalho, emprego, alguma coisa que possa evoluir, mas quando a gente é só dona de casa a gente fica se sentindo [...] só naquilo [...] só dona de casa, se levantar, tomar conta de casa, toma conta de filho, lavar roupa, fazer comida, cuidar de marido, aí fica [... ]aí eu acho difícil a gente ser mulher, pro homem eu acho mais fácil,a vida de homem, ele nasceu homem, a gente já sabe, a vida dele é trabalhar,tem que evoluir, nasceu praquilo, pra trabalhar.Já a mulher é mais difícil, a vida da mulher é mais difícil (Manuela,34).

É importante destacar que, em relação à consciência de gênero, o cotidiano das trabalhadoras pesquisadas é pontuado por insatisfações e conflitos, principalmente para aquelas que vivem com o companheiro. Segundo os depoimentos, o relacionamento dos casais se torna polêmico quando a decisão da mulher fere a autoridade e o poder masculino. Os maridos se consideram menosprezados e desrespeitados, por exemplo, quando a mulher volta a estudar. Alguns maridos, para afirmarem sua autoridade, tentam anular tal decisão, como anunciam e denunciam as falas seguintes:

Na minha família? Tive [...] assim impedimento do meu ex-marido, que me separei, que ele sempre estava vivendo com meu filho e ele ficava interferindo, falando coisas[...] mais aí eu fui até o fim (Valquíria, 36).

Encontrei dificuldade para voltar a estudar, foi assim [...] familiar [...] mais parte de casa [...] do que no colégio. A minha dificuldade foi mais dentro de casa [...] pensativa [...], a minha dificuldade foi assim por parte do meu marido porque ele não queria [...] eu estudei, foi um ano e 4 meses de luta, por que ele não queria de jeito nenhum e quando passou pro curso de informática no comércio, ai é que ele não queria mesmo, foi pior [...] Eu ainda tive começo de depressão e tudo ... tudo por causa disso porque ele não queria de jeito nenhum, ele achava que eu não ia estudar, que eu ia fazer outras coisas [...], então a minha dificuldade foi mais na família, com meu marido (Sarita, 32).

As relações de gênero, historicamente construídas, são relações de poder, de hierarquia, de prestígio que solidificaram a dominação masculina e destinaram às mulheres a subalternidade e a submissão. Como afirma Foucault (1987), trata-se de um poder que “... se exerce mais do que se possui, que não é o ‘privilégio’adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de

suas posições estratégicas – efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominados ”(FOUCAULT,1987, p.29).

Desta forma, o poder masculino passa a ser redefinido quando a mulher conquista sua autonomia e começa a questionar as relações de poder no lar e rediscutir a sua condição principalmente, quando esta começa a contribuir no sustento da família. Conforme verificamos nas falas, as determinações sociais de gênero interferem no cotidiano das mulheres. Os fatores que advêm da relação desigual entre os sexos, seja na relação familiar, bem como nas definições de papéis masculinos e femininos, frutos das relações de gênero, são determinantes nesse processo de dominação. Entre as trabalhadoras pesquisadas, sete delas demonstraram um processo de amadurecimento e de conscientização social referente às relações de gênero e da sua condição de mulher na sociedade.

Esse processo de conscientização social das trabalhadoras se dá a partir de um conjunto de fatores que estimulam a prática de ações coletivas, estando, portanto, associados à esfera pública. O pensar crítico e o aprendizado construídos por sua participação nos cursos de elevação de escolaridade, na religião, são observados nos depoimentos seguintes:

Porque no Integrar é assim, você tinha que ler, interpretar, entender o que você tava lendo, então é mais assim com pesquisa, por estudar e ler e entender. Entender o que você tá fazendo, saber o que está acontecendo no mundo, do seu papel na comunidade. Quando você ler um relatório, uma coisa, você tinha que entender aquilo, saber como foi escrito e o que o autor tava dizendo, você tinha que ler muito, ter aquela capacidade de aprender desse jeito e depois passar pras colegas o que você aprendeu, então é um ensino diferente, foi bom, pois mudou a minha cabeça, meu jeito de pensar, eu aprendi muito no Integrar! Por que eu estudei muito, fazia pesquisa, era trabalho, era tanta coisa! Era tudo diferente (Manuela, 34).

Eu gostaria de falar assim [...] a minha vida enquanto mãe, mulher, esposa, eu sei o meu papel, a minha responsabilidade, só tenho que ter mais capacidade pra levar a vida pra frente! Mais se um dia essa gravação chegar aos ouvidos dos “grandes”, que eles aprendam a ter responsabilidade, e tentar seguir as responsabilidades, porque a gente faz o quê? Vota numa pessoa, dando confiança que ele mande esse Brasil pra frente e ele faz tudo ao contrário! Então hoje em dia a gente não sabe mais nem em que votar e nem em que ter confiança. Então, que eles aprendam a pegar os votos que todas as pessoas, a confiança que todos nós damos a eles e tocar a vida pra frente e fazer o

nem existiu! Porque você joga seu sonho na mão de uma pessoa e ele pega e pisa em