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4. Empirical findings

5.4 Time orientation

o arquiteto Hélio Modesto (1921-1 980) formou-se em 1 946 e fez curso de urbanismo em Londres (1949-51) Funcionário municipal, chefiou o Serviço de Planejamento da FundaçãD da Casa Popular (1952) e o esaitÓfi' tecnico, pelo lado brasileiro, de elaboraçJo do

Plano Doxiadis (1963-65); parlícipou a Comissao Nacional de Localização da Nova Capital (1955), da Com�sdO de Planejamento do Aterro do Flamengo e da equipe do PU6·Rio (1978) Trabalhou no projeto da Sagmacs para as favelas do

Ro de JaneilO Proessor de urbanismo da AU-UFRJ. eu tamém cus e urbanismo e de planejamento urbano no fbam Participou de órgâos de classe dos

arquitetos, do IAB, do Clube de Engenharia Foi consultor, assessor,

professor de cursos no fbam e autor do projeto de sua sede Ver Maria Cristina a Silva ee (cod ). 1999

Carlos Nelson paticipou dos cursos de especialização oferecidos pelo

Ibam?

Dava alguns módulos, mas não coordenava; os cur;os eram dados pela Ensur, a Escola Nacional de Seviços Urbanos. Em geral, as pessoas gostavam muito. O Curso Especial de Metodologia do Urbanismo e Administração Municipal, o Cemuam, por exemplo, foi importantlssimo para a área do urbanismo, pOis tratava de metodologia e projetos de desenvolvimento urbano Foi iniciado pelo Hélio Modesto e pela Adina

Mera, uma urbanista argentina, figura muito importante; os dois tinham uma

perspectiva de voltar o desenvolvimento urbano para os municipios, para uma visão local.

Um importante teórico dessa metodologia de conhecimento para o desenvolvimento das cidades era o Francisco Whitaker Ferreira, que tinha toda uma discussão sobre como realizar trabalhos locais, dentro do planejamento urbano. Nos anos 60, esse era um campo em que atuava o Serfhau, Serviço Federal de Habitação e Urbanismo, do governo federal; os municípios eram absolutamente dependentes do poder central. Então, a proposta, muito cara aos objetivos do Ibam, era a de viabilizar o desenvolvimento urbano municipal a partir das necessidades locais.

Essa visão era defendida pelo Hélio Modesto e a Adina Mera, que criaram o Cemuam, um curso de especialização que durava oito meses. Alguns módulos eram aulas teóricas dadas no Rio de Janeiro, e para isso eram chamadas pessoas que trabalhavam com infra-estrutura e urbanização em geral; depois os alunos passavam três meses num município e tinham que elaborar um plano de desenvolvimento com viabilidade econômica, social e política.

A

época em que eu fiz o curso, isto era muito delicado, pois estávamos em pleno governo Médici, 1972, 73; era, no mínimo, suspeito, chegar no município para fazer um plano de desenvolvimento

Os coordenadores desses cursos do Cemuam eram pessoas com visão local;

João Carlos Serran, Marcos Mayerhofer Rissin e Alexandre Carlos de Albuquerque Santos, além da própria Adina Mera, foram alguns dos coordenadores do Cemuam.

• o arquiteto que virou antropólogo: Carlos Nelson Ferreira ds Santos

Qual era a clientela desses cursos?

Em geral, funcionários das prefeituras, muita gente de outros estados. A Ensur tinha essa função: capacitação das prefeituras. Havia aulas de administração pública, orçamento, cadastro, e a parte mais pragmática, de ensinar como lidar com os instrumentos de gestão do município. O Ibam sempre esteve voltado para o municlpio, a capacitação do poder público local. Eu mesma era funcionária do estado e fui fazer o Cemuam; era muito ligada ao Hélio Modesto, com quem iniciei minha relação com o urbanismo.

Hélio Modesto fez pate do grupo que foi estudar urbanismo no exterior?

Sim. O Hélio estudou em Londres com um grande urbanista chamado Johnson Marshall, que era da Universidade de Edimburgo, na Escócia, escola que foi referência fundamental para várias gerações de urbanistas. Já a história da Adina Mera só conheço de livro. Sei que era uma mulher lindíssima, tinha sido modelo na Argentina; alta, bonita, supercriativa. Veio para o Brasil e se interessou em estudar urbanismo; fez o curso da UFRJ e se tornou urbanista, junto com esse grupo do Hélio Modesto e do Hélio Marinho. Foi esse grupo que iniciou a institucionalização do planejamento no poder público. Essa história eu só conheço de livros. Muitos urbanistas de hoje passaram pelo Ibam, como Marlice Azevedo, diretora da Escola de Urbanismo da UFF, que cursou o Cemuam e depois foi para a França.

Foram essas as pessoas que levaram adiante a institucionalização do planejamento urbano. O Ibam foi um núcleo de agregação dessas idéias no inicio dos anos 70, além de ter dado algumas crias importantes: em São Paulo, gente que passou pelo Ibam, como a Clementina D'Ambrósio e outros, criou um órgão do governo estadual ligado à administraçãO e ao desenvolvimento local dos municípios; na Universidade do Brasil, desde a década de 50 existia o curso de urbanismo, feito pela Adina Mera e pelo Hélio Modesto. Outro nicho impotante era a Secretaria de Planejamento do estado da Guanabara, onde estavam os Hélios, como eram conhecidos:

Hélio Modesto e Hélio Marinho, assim como Ieda Pitanguy e Lígia Oliveira. A partir de

1975, depois da fusão da Guanabara com o estado do Rio, parte desse grupo formou o núcleo de planejamento urbano na prefeitura do Rio de Janeiro.

Carlos Nelson também foi professor na Universidade Federal Fluminense, não é7

Foi. O curso da UFF está fazendo 30 anos; surgiu como Departamento de Arquitetura e Urbanismo dentro da Escola de Engenharia da UFF e depois tornou-se independente. O Carlos Nelson entrou depois de sua criação, substituindo Marlene Fernandes; ajudou a firmar o curso, junto com Afonso Accorsi, Marlice Azevedo e outros,

Mana Lals Pereira da Silva .

e ficou como professor quase até o final da vida. Sua tese de concuso para professor titular deu origem ao livro A cidade como um jogo de catas.

o que representou esta tese no conjunto de sua obra?

Naquele estudo, como de outras vezes, o Carlos Nelson mostrou sua capacidade de aliar reflexão e atuação prática; a própria tese nasceu de um plano elaborado no Ibam para seis municípios de Roraima. Ele já vinha pensando uma série de coisas a respeito das cidades; afastou-se um pouco dos problemas do loteamento, da periferia e começou a discutir a própria intervenção na cidade: o que é um plano diretor, o que é intervenção urbana. O trabalho, liderado por ele, foi realizado por uma equipe composta por Alberto Lopes, Maurício Kleiman, entre outros. O Carlos começa a pensar na vida da cidade como um jogo; para jogar é preciso conhecer as regras. O resultado é muito interessante, porque traduz as regras urbanísticas para todos: o prefeito e a população. O projeto tinha a intenção de ser objetivo e pedagógico, isto é, ensinar a população a "jogar o jogo da cidade", as regras que regem os diferentes jogadores. O Carlos Nelson começa a juntar a visão do que seria a intervenção urbana com o que estava se passando nas cidades brasileiras; isto é que vai culminar no A cidade como um jogo de cartas.

Foí seu último livro?

Sim. Depois só escreveu artigos. Seu último artigo tem apenas três ou quatro páginas e foi publicado na Revista de Administração Municipal, cinco meses antes de sua mote em julho de 1 989. Chama-se "Planos e diretores" e é muito simples, porque quan­ do foi chegando ao final da vida, o Carlos Nelson foi simplificando cada vez mais seu pensamento, fruto de uma trajetória teórica e prática altamente sofisticada. No fim, ele começou a pensar em projetos localizados de intervenção urbana - por isso o classificam de pós-modernista Suas idéias lembram um pouco o atual programa Rio Cidade.

Ele dizia: "Num país como o Brasil, qualquer coisa que e faça para melhorar, é

ótimo para a cidade; assim, devemos fazer coisas que potencializem o que existe. Não se deve pensar em grandes esquemas, grandes planos. E mesmo que se tenha uma idéia do que vai ocorrer, vai sempre acontecer diferente; sempre haverá uma nova e diferente síntese. E a cidade é feita de sínteses. Na hora em que e mexe nela, outras sínteses surgem." Essa era a sua visão!

Que leitura atualizada se pode fazer do pensamento de Carlos Nelson?

Esta leitura da intervenção urbana, hoje predominante, já era parte de suas

preocupações. O Carlos Nelson entendia que a cidade pode ser vista por várias óticas; a

cidade é esse conjunto, essa multiplicidade de óticas, e é isso que faz com que seja realmente uma cidade.

• o JQUieto que virou JntropólO}O: Carlos Nln �rà s Sanrs

Pode-se considerar o Programa Favela-Bairro um "filhote" das idéias de Carlos Nelson?

Em parte sim, mas no final da vida o Carlos Nelson estava trabalhando muito mais com planejamento e inteNenção urbanística do que com a favela, por isso mencionei o Rio Cidade. Mas concordo que a concepção do Favela-Bairro é próxima das idéias do Carlos.

o prefeito Luiz Paulo Conde e seu secretário de Habitação, Sérgio

Magalhães, referem-se aos livros de Carlos Nelson?

Já vi referências do Sérgio Magalhães a respeito, principalmente à questão da cultura, do lado simbólico, coisa de que o Carlos Nelson falava muito. Foi na antropologia que ele encontrou esse lado da importância da representação, do simbólico como um elemento de identificação da cidade. Mas, para mim, quem primeiro iniciou a redescoberta da importância do pensamento de Carlos Nelson foi Ermlnia Maricato, quando era secretária de Habitação do governo Luiza Erundina em São Paulo. Ela veio ao Rio para um seminário e falou do Carlos Nelson, da experiência de Brás de Pina e como estava sendo importante para o seu trabalho, Nesta ocasião, aliás, estava presente na platéia, entre outros representantes dos movimentos sociais, o padre Artola, um catalão, figura central em Brás de Pina. Ele reagiu contra, já que fora um dos que se sentiram ameaçados pela atuação do Carlos Nelson. Outro que sempre se referiu ao Carlos Nelson, fora do pequeno grupo de estudiosos da Cidade e urbanistas, foi o João Carlos Sampaio, que foi prefeito de Niterói entre 1993 e 1 997.

Atualmente, estou muito satisfeita porque há um revival do pensamento de Carlos Nelson. A Lícia Valladares recuperou Carlos Nelson e vem falando publicamente de sua importância; pesquisando no Urbandata, constatou que ele foi o autor que mais escreveu sobre favelas - e as pessoas não dizem nada a respeit0 3B

O Carlos Nelon era realmente uma pessoa polêmica. Era capaz, por exemplo,

de dizer desaforos em público para alguém, num debate. Lembo da visita do Manuel

Castells ao Brasil; o Carlos estava no auge de sua critica ao Castells, que ele considerava formalista. O Castells dizia que não havia uma cultura urbana, enquanto ele dizia o contrário, que o urbano tinha uma especificidade cultural. Houve um grande seminário na ABI. e chamaram o Carlos Nelson para compor a mesa com o Castells; ele foi, disse uma frase malcriada e foi embora. Ficou todo mundo pasmo. Quer dizer, era uma pessoa capaz de dizer as piores na frente do sujeito, por isso suscitou muita hostilidade. Acho que isto explica um pouco esse esquecimento, esse ostracismo. Só agora se começa a falar novamente em Carlos Nelson.

Mas era tambêm uma pessoa extremamente interessante. Por exemplo, apesar de ter brigas fantásticas com pessoas do BNH, ele conseguiu convencer o Banco a contratar o CPU do Ibam para fazer uma grande pesquisa de avaliação dos conjuntos habitacionais. Foi um trabalho de dois anos, em que ele conseguiu introduzir a

38 Banco de dados de informações o

pesquisa urbana no Brasil, o Urbandata reúne dados bibliográfiCOS sobre prod�ao cientlfica, Instituições de

planejamento urbano e psquisadores do Brasil urbano Ver esite a Bibliografia

o sociólogo espanhol Manuel Castells

(1 942) é, desde 1979, catedrático de sociologia e planejamento urbano e regional na Universidade de Berkeley, Califórnia. FOI professor na tcole

des Hautes �tudes em Science5 Sociales em Paris. Ira3JholJ em centros uniersiários em Madri. arcela e foi professor visitante em 15 universidades

da América Latina Publicou 20 livros

trduzios m várias IInguas Entre seus lvros publicados nD Brasil, encontra-se Cidade, democracia e socialismo (RJ, Paz e Terra, 1 980), obra funoameo I

para tds os que se dedicam

Maria Lafs ereira da Silva .

metodolgia que queria, ao lado da metodologia dese

j

ada pelo Departamento de Pesquisa do BNH. O Carlos Nelson brigou, brigou e conseguiu. Apesar de alguns atritos extremamente sérios, ele tinha uma tremenda capacidade de trabalho e conseguia o reconhecimento das pessoas. Elas diziam: "Vamos deixá-lo lazer, porque vai sair um bom trabalho" . Considero isso o máximo de respeito.