• No results found

30 As eleições para presidente da República passaram a ser indiretas a partir do Ato Institucional nO 2,

de 27 de outubro de 1 965

Luís Gonzaga do Nascimento e Silva nasceu em 24 de janeiro de 1 9 1 5, em Minas Gerais Bacharel em Direito, foi chefe do departamento jurldico do Banco Nacional dQ Desenvolvimento EconÔmico (BNDE,l. de 1957 a 1961 De 1964 a 1965 foi consultor jurídico do Ministério do Planejamento e Coordenação Económica e, em 1 964, delegado governamental em missão enviada ã União Soviética Em 1965 assumiu a presidência do Banco Nacional de Habitação (BNH), que passou por inúmeras reformulaç6es Em 27 de jUlho de 1 966 assumiu o Ministério do

Trabalho e Previdlnóa Socjal, onde permaneceu até 1 5 de março de 1967 De 1 ° dejulho de 1974 à 15 de março de 1979 foi titular do recém criado Ministério da Previdência e ssistência Social (agora separado do Ministério do Trabalho), Ver DH8B, 1984

Em 11 de novembro de 1965 a senhora se demitiu da presidência do BNH ...

Pedi demissão quando o presidente Castelo tomou aquela decisão de acabar com as eleições diretas para presídente 30 Com isso, a candidatura do governador Carlos Lacerda estava liquidada e, por muito tempo, eu nem imaginava quanto, o país voltaria a ser comandado por um poder não escolhido pelo povo, livremente. Escrevi ao presi­ dente uma dura carta, que me custou muito, pois eu gostava dele. Depois, reuni minha diretoria e disse: " Estou saindo por uma razão política. Vocês não são políticos. Por favor, fiquem! Senão, vem aí um maluco qualquer e vai acabar com nosso Banco. Eu estou saindo porque não estou de acordo com o AI-2, não aceito que o Carlos Lacerda não

possa sequer disputar a presidência da República, Já engoli muitos sapos, porém agora

não dá mais. Estou indo embora. Mas, por favor, fiquem ! " Não houve jeito; assinaram

uma carta de solidariedade, saíram todos. Até mesmo alguns, que eram amigos pessoais do ministro Roberto Campos, como o extraordinário dr. Arnaldo Blank.

Até novembro de 1 965, quando deixei a presidência, o BNH tinha implantado

mais de 50 Cohabs pelo país. E estava estimulando ao máximo as cooperativas, que vinham dando muito certo. A partir do momento em que uma delas se organizava e obtinha registro no órgão que representava o BNH na sua cidade, a cooperativa passava a ser dona do seu destino. Eram eles, os cooperativados, que escolhiam o terreno, esco­ lhiam uma empresa para fazer o proJeto, encarregavam-se de fiscalizar as compras de material, para sair o metro quadrado mais barato possível. Assim se constituíram cerca de quatro mil cooperativas.

Esse modelo é praticado no mundo inteiro Nunca inventei a roda e me nego a fazer isso até hoje. Essas cooperativas foram feitas para fixar a noção de que não é preciso depender só do Estado para fazer as coisas. O Estado tem que dar o dinheiro, para dar o pontapé inicial, mas as pessoas são responsáveis. Se amanhã a parede rachar, foram elas que não fiscalizaram direito a obra.

Quando meu substituto, ministro

Nascimento

Silva, assumiu, ele vinha com

ordens de fazer uma devassa na minha desastrada administração Ele mesmo me informou disso. Disse-lhe que, por mim, tudo bem. Estava tão tranqüila que ia sair para merecidas férias Quando retornei, encontrei uma beleza de carta, na qual ele me contava que, tendo examinado tudo, de alto a baiXO, não haviam encontrado uma vírgula fora do lugar.

Quando o dr Nascimento Silva assumiu o Ministério do Trabalho, o ministro Robeto Campos indicou o dr. Mário Trindade, que era homem de sua confiança, para

• o que fazer com a populaçío pobre? A favela nos anos 60

presidir o BNH. O novo diretor da Carteira de Cooperativas, o empresário João Fortes, resolveu mexer no sistema, criando o mal afamado INOCOOP (Instituto de Orientação às Cooperativas Hab·'tacionais). Foi um erro colossal.

A função dele era, supostamente, a de orientar as Cooperativas Habitacionais, mas, na realidade, ele passou a ter o direito de fazer aquilo que era responsabilidade das próprias cooperativas. Com o correr do tempo, montaram-se dezenas de esquemas lá dentro. Escolhas de terrenos, de construtoras, de engenheiros, de arquitetos, de fornecedores, de materiais de construção. Só que eles não sugeriam, impunham. Ou compra esse terreno aqui, ou não tem financiamento. Ou constrói com fulano, ou não tem dinheiro .. Um horror! Parece que muita gente saiu de lá milionária.

Foi assim que o BNH começou a entrar em parafuso, porque emprestava dinheiro para grupos de amigos. Sociedades de crédito imobiliário, associações de poupança, cooperativas falsas, mercado de hipotecas, todos trabalhando com o dinheiro que era do FGTS e tinha de ser corretamente remunerado. As suntuosas sedes, no Rio e em outras cidades. Falido, teve que ser extinto. Mas o rombo ficou.

E quando isto aconteceu, espantaram-se todos porque a minha voz não se levantou em sua defesa. Muitos funcionários me xingaram bastante. Eu respondi: "Não posso defender apenas uma sigla. Poderia defender uma idéia e uma instituição; a idéia original não existe mais, acabou, e atualmente a instituição é uma das coisas mais podres que conheço! "

Em 1 967, O presidente Castelo passou o governo ao general Costa e Silva. O novo ministro do Interior, o general Albuquerque Lima, criou a Coordenação da Habitação de Interesse Social da Area Metropolitana do Grande Rio. A CHISAM tinha como objetivo centralizar a política de favelas para a Guanabara e o estado do Rio, com poderes maiores do que os do governo estadual. Esse grupo provocou uma grande retomada na área da construção civil, partindo para a edificação de dezenas de prédios de apartamentos populares, em vários conjuntos. Utilizaram com fatura os muitos terrenos federais existentes no Rio.

Por lodo O subúrbio do Rio de Janeiro, eles espalharam esses conjuntos, onde acomodaram a população de mais de 37 favelas da cidade. Atuaram também em Niterói e na Baixada. Num caso, pelo menos, cometeram uma ação terrível: tocaram fogo na favela da Praia do Pinto - está provado que tocaram fogo -, tiraram os moradores de lá, em plena madrugada, e depois entregaram toda a área para cinco cooperativas de militares, que construíram a Selva de Pedra.

É

até um bairro razoável, jeitoso. Com uma boa solução arquitetônica. Uma parte da imprensa e dos chamados pesquisadores brasilianistas joga este episódio, até hoje, em nossas costas. A pesquisadora Licia Valladares, por exemplo, acata todas essas versões. Um de seus livros chama-se Pasa­ se esta casa; ali ela afirma que as pessoas removidas ficavam um tempinho nas novas

casas e logo passavam-nas adiante 31 Ora, basta ir à Vila Kennedy, à Vila Aliança ou à 31 Uoa Valladares. 1980

Vila Esperança para ver que mais de 80% dos moradores originais ainda estão lá. Quer

dizer, ela lança um dado falso, mas que virou dado mundial.

Ao se reassentar um favelado em outro local, busca-se, para ele, uma promoção social. Dois excelentes trabalhos acadêmicos, que tratam desse assunto, trouxeram um grande consolo para mim. O primeiro é uma tese de doutorado em arquitetura da professora da UFJ, Paula Nader, sobre a Vila Kennedy, 30 anos depois. Ah! Lavei a

Sandra Cavalcanti ·

minha alma! Nem sabia que ela estava fazendo isso. E, engraçado, ela só me procurou quando terminou O trabalho. A idéia da tese era mostrar o erra colossal que foi a

remoção e a construção da Vila Kennedy. Aliás, é o que dizem todos esses livros que

saem por aí, só que não provam, não é? A professora Nader se surpreendeu com o que encontrou. O segundo trabalho, do professor Júlio Rodrigues, é uma tese, defendida na Sorbonne e aprovada com nota máxima, sobre "a promoção social alcançada pelos processos de reassentamento." Atualmente, a terceira geração de moradores da Vila Kennedy está na universidade. Isso é que é promoção social, o resto é conversa fiada.

Nos anos 70, os políticos chaguistas transferiram para