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Embora da proposição anterior fique claro que  é autovalor de T ⇔ é uma raiz do polinômio característico p( ) da matriz [ ]T , poderíamos nos perguntar se p( ) depende da base  es- colhida. O aspecto fundamental em relação a esse ponto é que o polinômio em questão independe da escolha da base. Para ver isto, vamos considerar duas bases  e ' e lembrar que existe uma matriz inversível P tal que 1

'

[ ]T =P− [ ]T P (ou seja, [ ]T é

semelhante a [ ]T '). Logo, usando o fato de que

1

det ( ) det (P P− ) 1= (esse resultado será mostrado no capítulo seguinte), obtemos

1

det ([ ]T −I)=det (P− ) det ([ ]T −I) det ( )P =d − − = −

1 ' ( ) det (P [ ]T P I) det ([ ]T I)         − − − = − = − = − .

Isso mostra que as matrizes [ ]T e T' têm o mesmo polinômio

característico. No que diz respeito aos autovetores, temos a equi- valência

[ ] v v

Tv=vT x =x , em que nx1

v

x ∈ℜ é o vetor de coordenadas do autovetor v de T na

base . A discussão acima justifica a definição a seguir.

Definição: Seja uma base de um espaço vetorial V de dimen- são finita. O polinômio característico de um operador linear

:

Vejamos agora alguns exemplos que ilustram características as- sociadas a autovalores e autovetores de operadores lineares ainda não observadas nos exemplos anteriores.

Exemplo 7: Seja V o espaço das funções polinomiais de grau me-

nor ou igual a 1 e considere a base  ={ , } {1v v1 2 = +x, 4+x}. Seja

o operador linear definido por T v( )1 = +5 2x, e T v( )2 = −2 (4+x).

Assim, já que T v( )1 = +v1 v2 e T v( )2 = −2v2 (verifique!), segue que

a matriz de T na base  é [ ] 1 0 1 2

T =  

 , portanto o polinômio característico de T é p( ) =det ([ ]T −I)= −(1 ) ( 2− −) e os au- tovalores são  =1 1 e  = −2 2. A partir daí observamos facilmente

que o autovetor de [ ]T associado a  =1 1 é x=[3b b]T, com b

real não-nulo e arbitrário. Usando o fato de que as componentes do autovetor x são os coeficientes do autovetor de T expresso

como combinação linear dos vetores da base , o autovetor de T

associado a  =1 1 é v=3bv1+bv2 =b(3(1+ + +x) (4 x))=b(7 4 )+ x ,

com b não-nulo e arbitrário. Procedendo analogamente verifica-

se que o autovetor de [ ]T associado a  = −2 2 é Ax=[0 b]t, com

b real não-nulo e arbitrário. Assim, o autovetor de T associado a

2 2

 = − é x=0v1+bv2 =bv2, b não-nulo, ou seja, o vetor v2 é um

autovetor do operador associado ao autovalor  = −2 2.

Exemplo 8: Suponha no exemplo anterior que, em lugar de

2

( ) 2 (4 )

T v = − +x , o operador T satisfaz T v( )2 =(4+x). Proceden- do da maneira usual, a matriz de T na base  é [ ] 1 0

1 1

T =  

 . Logo, o polinômio característico é 2

( ) ( 1)

p  = − e os autovalores são 1= 2 =1. Ou seja, o operador tem dois autovalores repeti-

dos. Busquemos agora os autovetores associados. Seja x=[a b]T o autovetor procurado. Logo,

1 1 1 (1 ) 0 0 ([ ] ) 0 1 (1 ) 0 a b T x a b     − + =  − = ⇔  + − = 

e esse sistema se reduz à expressão a=0. Dessa forma, o au- tovetor associado a 1=2 =1 é [0 ]

T

x= b , em que b é real e

não-nulo, e assim o autovetor de T associado a 1= 2 =1 é

1 2

0 (4 )

terior, aqui vemos que o operador T não possui mais que um

autovetor linearmente independente.

A conclusão que podemos tirar do exemplo acima é que o nú- mero de autovetores linearmente independentes associados a um autovalor repetido nem sempre coincide com a multiplicidade do autovalor como raiz da equação característica. Esses fatos moti- vam as definições a seguir.

Definição: A multiplicidade algébrica de um autovalor  é o número de vezes que ele aparece como raiz do polinômio carac- terístico; se  aparece somente uma vez, ou seja, se sua multipli- cidade algébrica for um, então dizemos que  é um autovalor

simples. A multiplicidade geométrica de  é a dimensão de V,

o subespaço próprio associado.

Baseados nessa definição podemos concluir que a multiplicidade algébrica e a multiplicidade geométrica de  =1 no exemplo 7 são iguais a 1. No entanto, se considerarmos o exemplo 8, enquanto a multiplicidade algébrica de  =1 é 2, a sua multiplicidade geométri- ca é 1, pois a dimensão do subespaço próprio V=1 associado é 1.

Como uma constatação do que foi visto no exemplo anterior, é im- portante observar que a multiplicidade geométrica de um autova- lor não pode exceder sua multiplicidade algébrica (ver Boldrini et al, 1996).

Seja V um espaço vetorial real de dimensão n e TL V V( , ). Sabemos que L V V( , ) é um espaço vetorial de dimensão m=n2.

Uma conseqüência desse fato é que o conjunto de m+1 vetores ( 2

, , , , m

I T TT ) é linearmente dependente em L V V( , ) porque nesse espaço não podem existir mais que m vetores linearmente

independentes (lembrar que 2

T = T T, 3 2

T = T T etc). Assim,

existem constantes reais a a0, ,1 ,am não todas nulas tais que

1 0 0

m m

a T + + a T+a I = , 0∈L V V( , ).

Isto é, o operador T satisfaz p T( )=0, em que

1 0

( ) m m

p x =a x + + a x+a , e nesse caso dizemos que o polinômio p anula o operador. Lembramos que um polinômio p x( ), cujo coeficiente da maior potência em x é 1, é chamado de polinômio

mônico. Dentre vários polinômios que anulam o operador T, um

deles recebe um nome especial, conforme veremos a seguir.

Definição: Seja V um espaço vetorial real de dimensão finita. O

polinômio minimal de um operador TL V V( , ), denotado por ( )

pm  , é o polinômio mônico de menor grau que anula T.

Exemplo 9: Vamos considerar a matriz 1 1

0 1

A=  

  e achar o polinô- mio minimal associado. Com efeito, o polinômio característico de

A é det (A−I)=2−2+ =1 (−1)2. Após algumas operações al- gébricas, observamos que o polinômio característico de A anula a

matriz A, isto é, a matriz A satisfaz 2

2 ( ) ( ) 0

AA I+ = A IA I− =

(verifique!). Como 0 1 0 0 0

A I− =

  , porém, concluímos que o polinômio minimal é 2

( ) 2 1

pm  =  − + .

Exemplo 10: Considere agora a matriz

48 10 10 90 17 20 135 30 27 B − −     = − −    .

Nesse caso, pode-se ver que o polinômio característi-

co é 2

( ) ( 2) ( 3)

p  = − + − . Pode-se ver também que (B+2 ) (I B−3 )I =0, e que (B+2 )I ≠0, e (B−3 )I ≠0 (ve- rifique!), portanto o polinômio minimal da matriz B é

( ) ( 2) ( 3)

pm  = + − .

Os exemplos acima sugerem dois fatos: em geral,

1) p( ) ≠ pm( ) ;

ambos os polinômios têm as mesmas raízes.

2)

Uma prova formal do item 2 é dada na proposição a seguir.

Proposição: Seja V um espaço vetorial de dimensão n≥1 e ( , )

TL V V , então p( ) e pm( ) têm as mesmas raízes a menos de multiplicidades.

Prova: Sem perda de generalidade, vamos supor que todas as

raiz de p( ) , precisamos provar que p( ) = ⇔0 pm( ) =0. Com efeito, se  é raiz de p( ) , então  é um autovalor de

T e, para algum vetor não-nulo v V∈ , temos T v( )= v. Daí

decorre que Tk( )v = kv para cada k≥1. Agora, assuma que

0 1

( ) s

pm x = +b b x+ + x . Como pm T( )=0 (lembrar a definição de polinômio minimal), segue que

0 1 0= pm T v( ) =(b I+b T+ + Ts)v 0 1 s b v b v  v = + + + 0 1 (b b s)v pm( ) v = + + + =

e por conseguinte pm( ) =0, pois v≠0. Logo,  é uma raiz de pm( ) . Reciprocamente, se  é raiz de pm x( ), pela con- dição de minimalidade no grau do polinômio pm x( ) segue que

( ) ( ) ( )

pm x = x− q x com q T( )≠0 e, portanto, existe uV tal

que v=q T u( ) ≠0. Usando novamente o fato de que pm T( )=0, temos

0= pm T v( ) =(T−I q T u) ( ) =(T−I v) ,

e, portanto, Tv=v. Isto é,  é um autovalor de T e, assim,

( ) 0

p  = , como queríamos provar.

Análogo ao exemplo 8, em que o polinômio característico da ma- triz A anula a matriz A, pode-se verificar no exemplo 9 que o

polinômio característico deB anula B. Esses não são resultados

devido ao acaso. Eles são conseqüências de um resultado geral conhecido como teorema de Cayley-Hamilton.

Proposição (Teorema de Cayley-Hamilton): Seja V um espaço

vetorial de dimensão finita e TL V V( , ). Se p( ) é o polinômio característico de T, então p T( )=0.

Prova: Seja  uma base de V de dimensão n. Para simplificar

a notação, escrevemos A=[ ]T . A prova está baseada na pro-

priedade

( ) det ( )

Adj A A= A I

em que Adj A( ) é a adjunta clássica da matriz A. O conceito em

que os elementos de Adj A( ) são obtidos via cálculo do determi- nante de certas submatrizes de A de ordem n−1. Continuando a prova, seja B=Adj A( −I). Da observação acima, segue que os elementos bij de B são polinômios em  de grau no máximo n−1, isto é, para cada par i j, , temos

(0) (1) (n 1) n 1

ij ij ij ij

b =b +b  ++b −  − .

Com essa notação a matriz B pode ser escrita como 1 0 1 1 n n B=B +B+ + B  − , em que ( ) ,

(Bk i j) =bijk , 0≤ ≤ −k n 1. Usando a propriedade da ad- junta clássica descrita acima, obtemos que

( ) det ( )

B A−I = A−I I.

Agora, note que, enquanto o lado esquerdo dessa igualdade pode ser escrito como

1

0 ( 1 0) ( 1 2) 1

n n

n n n

B A+ B A B− + + B A B  − −B  ,

o lado direito é o polinômio característico do operador T vezes

a matriz identidade: 1

0 1 1

( ) n n n n

pI =a I+a I+ + aI − +a I . Comparando os coeficientes de ambos os polinômios obtemos o seguinte conjunto de igualdades:

0 0 1 1 0 2 2 1 1 1 2 1 ( ) ( ) ( ) n n n n n a I B A a I B A B a I B A B a I B A B a I B − − − − =   =   = −     =  = −  

Multiplicando essas equações por 2

, , , , n

I A AA , respectivamen-

te, e somando, obtemos

1

0 1 1

( ) n n n n 0

p A =a I+a A+ + a A − +a A = ,

como queríamos provar.

Note que, devido ao teorema de Cayley-Hamilton, o polinômio característico é um candidato ao polinômio minimal. Mais adian- te veremos que o polinômio minimal é importante, pois a partir da multiplicidade das raízes dele pode-se determinar se o opera- dor linear possui uma base de autovetores.

Exercícios

1)

Mostre que o conjunto formado pelos autovetores de um ope- rador linear T V: →V associados a um autovalor  e o vetor nulo

é um subespaço vetorial de V .

2)

Para cada , seja 2 2

:

R ℜ → ℜ o operador definido por

( , ) ( cos , cos )

R x y = x −y seny +x sen . Mostre que o opera-

dor R não tem nem autovalores nem autovetores.

3)

Mostre que a matriz 1 2 3 2 A=     é semelhante a 4 0 0 1      .

4)

Sejam 1 1 1 1 A=     e 1 1 a B a   =  

 . Ache uma matriz não-singu- lar P tal que 1

P AP− e 1 P BP− são diagonais.

5)

Seja 5 3 3 5 A=   −  . Mostre que A e T A têm um autovetor co- mum.

6)

Seja A uma matriz inversível e seja  um autovalor de A.

Mostre que 1 / é um autovalor de 1 A− .

7)

No exemplo 7 vimos que os autovalores de uma matriz trian- gular inferior 2 2× eram os elementos da diagonal principal. Ge- neralize esse resultado para uma matriz triangular inferior L

n n× , isto é, prove que os autovalores da matriz L são os elemen-

tos Ljj da diagonal principal. Idem para matrizes triangulares

superiores.

8)

Uma matriz A n n× é dita idempotente se A2 =A.

Mostre que, se

a)  é um autovalor de uma matriz idempoten- te, então  tem que ser igual a 0 ou 1.

Seja

b) v um vetor unitário em ℜn×1 (usando a norma eucli-

deana) e T

um autovetor de A. Qual é o autovalor associado? Quantos

autovalores nulos podemos encontrar?

Seja

c) 3 [1 1 1]

3

T

v= − . Ache os autovalores da matriz

T

A=vv e os autovetores correspondentes.

9)

Seja A uma matriz quadrada e seja B= +AI, em que I é a

matriz identidade e  um escalar. Qual a relação entre os autova- lores de A e de B? Explique.

10)

Seja A uma matriz quadrada. Mostre que A e AT têm o

mesmo polinômio característico e, logo, os mesmos autovalores. Podemos concluir que A e AT têm os mesmos subespaços pró-

prios?

11)

Seja 2 2

:

T ℜ → ℜ , T x y( , )= −( 12x−19 , 7y x+11 )y . Mostre que T não tem autovalores em ℜ. Determine os autovalores comple-

xos de T e autovetores correspondentes.

12)

Ache a transformação linear 2 2

:

T ℜ → ℜ , tal que T tenha

autovalores -2 e 3 respectivamente associados aos autovetores (3 , )y y e ( 2 , )− y y .

13)

Seja T V: →V um operador linear. Assim: a) Se  =0 é au- tovalor de T, mostre que T não é injetora; b) A recíproca é ver-

dadeira?

14)

Seja S o subespaço das funções reais gerado pelas funções

2

( )

x

e sen x , e2xcos ( )x , e2 x, e considere o operador linear D S: →S

definido por D f( )= f ′. Determine:

A matriz de a) D em relação à base 2 2 2 {e sen xx ( ) , e xcos ( ) ,x e x}  = de S. Os autovalores de

b) D e as funções de S que são autovetores