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6.4 Tiltak ved aktivitetssentrene
Apresentamos, inicialmente, o livro Estrutura do Comportamento, de Merleau-Ponty (2006a), por apontar sua preocupação com o que estava sendo apresentado pela psicologia e pela fisiologia, principalmente, no que se refere
ao problema da relação consciência e natureza, afirmando que seu objetivo nessa obra é "[...] compreender as relações entre a consciência e a natureza - orgânica, psicológica e mesmo social" (p.1). Para iniciar essa discussão, o autor parte da análise do comportamento em suas bases orgânicas, para fazer oposição aos dados da consciência proposto por Husserl, pois entende que, "a análise científica do comportamento foi inicialmente definida por oposição aos dados da consciência" (p.5). Sua principal tese, nesse livro, é que o comportamento possui intenções e significados, não devendo ser compreendido e reduzido à uma explicação causal. Já, desde então, assinalando a relação homem e mundo (COELHO JUNIOR; CARMO, 1991).
Inicialmente, Merleau-Ponty se esforça na crítica sobre à Psicologia positivista ou à Psicologia de laboratório no que diz respeito às suas problematizações sobre o comportamento. Portanto, acentua sua crítica sobre a reflexologia de Pavlov com sua concepção clássica de funcionamento nervoso, tomando como referência a noção de experiência natural e ingênua descrita no último Husserl. Para isso, recorre aos estudos da psicologia da forma que busca descrever os fenômenos sem separá-los do contexto, visando à compreensão da totalidade. Abbagnano (1984) assinala que, nesse livro, Merleau-Ponty discute a relação dialética do comportamento, apontando que a sua estrutura ocorre na distinção entre esta e o significado, sendo a estrutura o que é visível, e o meio pelo qual o sujeito se torna acessível. Para ele, é somente pelo sentido que, de fato, se acessa o sujeito, mesmo que se incorra em equívoco e se fique só com o aparente.
Ante essas questões, afirma que o seu objetivo é compreender as relações entre consciência e natureza, sejam elas psicológicas, fisiológicas ou sociais. Entende que não há natureza em si, pois esta existe sempre em relação ao mundo, e afirma que "[...] nada existe no mundo que seja estranho ao espírito. O mundo é o conjunto das relações objetivas sustentadas pela consciência" (MERLEAU-PONTY, 1942/2006a, p. 1). Com isso, acusa a psicologia de ter concentrado suas afirmações na noção de natureza em si, fazendo com que fosse pensada como uma ciência natural, pois permanecia fiel ao pensamento realista e causal. Assinala ter sido esse o grande equívoco da Psicologia - se sustentar pela teoria clássica do reflexo -, pois a fisiologia contemporânea já havia ultrapassado esse modelo.
O erro, nesse caso, consistiu em se assegurar de um método básico que não possibilitava alcançar processos que se justapõem nessa relação, reduzindo, assim, os atos da consciência à associação de conteúdos reais. Portanto, o organismo não pode ser entendido como um mero reagente ao estímulo, posto que contribui para a sua constituição. Merleau-Ponty exemplica essa relação afirmando que cada vez que se realiza um movimento respondendo à estimulação externa, esta, por sua vez, produz, conjuntamente ao movimento que foi exposto à alguma influência, outra reação. Desta feita, assegura que as propriedades do objeto estão relacionadas com a intenção do sujeito. Ressalta que, "o organismo, ao contrário, não pode ser comparado com um teclado no qual os estímulos exteriores tocariam, desenhando a forma que lhes é própria; isso pela simples razão que ele contribui para constituí-la" (p.14). Assevera, ainda, que
[...] a crítica da teoria reflexo e a análise de alguns exemplos mostram que deveríamos considerar o setor aferente do sistema nervoso como um campo de forças as quais exprimem simultaneamente o estado intra-orgânico e a influência dos agentes externos; essas forças tendem a se equilibrar de acordo com certos modos de distribuição privilegiados e obtêm das partes móveis do corpo os movimentos próprios para isso (p.68).
Aqui, parece-nos que se evidencia um anúncio do que, em obras posteriores, exibe quanto ao entrelaçamento e interdependência entre sujeito e mundo.
Merleau-Ponty, nessa obra, assenta seu pensamento na Gestalt teoria ou Psicologia da Forma, quando discute a relação entre o orgânico, o psicológico e o social, apontando que o fenômeno corpo é a relação dialética entre o econômico, o social e a natureza cultural. Assinala que a Gestalt teoria indica a existência de três formas de gestalt: a ordem física, a ordem vital e a ordem humana. Para o filósofo, o que define essa última ordem é a capacidade do homem de criar estruturas além das já existentes, tornando clara a diferença entre o homem e o macaco, que acontece no interior da relação entre a consciência e natureza, aí incluído o corpo, que utiliza três estruturas dialéticas: a física, a vital e a humana. Entende, dessa forma, que a relação sujeito e objeto é dialética. Para tal, é preciso retornar à percepção (KOJIMA, 2002).
Merleau-Ponty, mediante a Psicologia da Forma, compreende que o funcionamento nervoso passa pela dialética que se estabelece entre o organismo e o mundo percebido, pois a forma como o organismo excitante reage é criada pelo modo como esse organismo se disponibiliza às ações externas. Com isso conclui que
as relações do indivíduo orgânico com seu meio são verdadeiramente relações dialéticas, e essa dialética faz surgir relações novas, que não podem ser comparadas com as de um sistema físico e com aquilo que o rodeia, nem mesmo entendidas quando reduzimos o organismo à imagem que a anatomia e as ciências físicas dele apresentam. Suas reações, mesmo elementares, nãp podem ser classificadas, como dissemos, segundo os sistemas nos quais realizam, mas segundo seu significado vital (1942/2006a, p. 232-233). Para o autor, isso implica pensar que o meio se apresenta ao organismo segundo a forma como este se movimenta, ou seja, o movimento não ocorre pela soma de estímulos, mas sim, pelo conjunto das estimulações externas que fazem sentido num dado momento. Merleau-Ponty parte da noção de forma, considerada, mais que a conjunção ou consequência do material que a compõe, uma unidade que não se pode decompor e que não se pode apreender pela soma. Porque a própria forma adquire propriedades que transcendem as suas partes, definindo-se, assim, pelo seu todo, que se organiza a cada momento e que depende do estado de equilíbrio entre suas partes.
O autor expressa que o comportamento só pode ser entendido no processo de percepção, que possibilita identificar nele o modo qualitativo do funcionamento nervoso, articulando a explicação fisiológica com a descrição psicológica. O que significa entender que uma lei do comportamento é estabelecida quando se vinculam as reações observadas a dispositivos do meio num dado momento, evidenciando a interdependência entre o sistema nervoso total e as intervenções do meio. Isso indica que há uma flexibilidade nessa relação, se pensarmos que cada parte do sistema pode ser ora o estímulo, ora o estimulado, fazendo com que o ponto central da relação esteja no todo e na parte, ao mesmo tempo. O filósofo acentua que
as ações não são determinadas, em nenhum grau, pela natureza intrínseca da situação, mas inteiramente pelas conexões
preexistentes. A situação intervém apenas como um agente que gira a chave, aperta o botão, liga a máquina (1942/2006a, p.49).
Para Merleau-Ponty, a psicologia descrevia, sob o olhar da teoria clássica do reflexo, os fenômenos do organismo em termos anatômicos e fisiológicos, mas não atentava para a sua estrutura, acentuada em sua importância por ele. O autor demonstra que a estrutura não se observa, apenas se entende, pois não se pode deduzir o comportamento pelo seu conteúdo, mas pela sua organização, de natureza qualitativa. Com isso, o filósofo reconhece que as experiências da consciência e do organismo não são formadas por acontecimentos separados e distintos um do outros, mas pelo seu modo de organização e de integração.
O comportamento é pois feito de relações, ou seja, ele é pensado e não em si, como qualquer outro objeto, aliás; é isso que nos teria mostrado a reflexão [...] o comportamento não é uma coisa, mas também não é uma ideia, não é um invólucro de uma pura consciência e, como testemunha de um comportamento, não sou uma pura consciência. É justamente o que pretendíamos ao dizer que ele é uma forma (1942/2006a, p. 199).
Com essas asseverações, Merleau-Ponty aponta para a importância do processo de percepção e assegura que a parte está sempre relacionada com o todo. Portanto, o comportamento não se constitui parte por parte, mas pelo modo como percebemos a excitação e o meio. Para ele,
a percepção é um momento da dialética viva de um sujeito concreto, participa de sua estrutura total e, correlativamente, tem como objeto primitivo não o sólido não organizado mas as ações de outros sujeitos humanos (p.258).
Com essa ideia, o filósofo pretendia superar o pensamento atomista do funcionamento nervoso com a análise da percepção. E essa análise ocorre pela compreensão de que o processo de percepção acontece pela relação entre figura e fundo, que, por sua vez, só tem sentido no mundo percebido. Assim, "o percebido seria explicável apenas pelo próprio percebido, e não pelos processos fisiológicos" (p. 145).
Merleau-Ponty, com a ideia de processo de percepção como experiência originária - o nos faz conhecer existências e não essências - garante que a estrutura do comportamento não é pura consciência ou mesmo
algo objetivo, tornando-a opaca. O comportamento é feito de relações, portanto, ele é uma forma, um conjunto percebido. Sendo assim, a psicologia só consegue alcançar a compreensão da interseção na multiplicidade dessas relações.
Com a discussão acerca da dialética das relações, temos a redefinição da noção de consciência, que passa a ser entendida como uma rede de intenções significativas, resultando no abandono da ideia da consciência como função universal da organização da experiência. Merleau- Ponty define consciência como "[...] mais uma rede de intenções significativas, por vezes claras para elas mesmas, ao contrário, mais vividas que conhecida" (p.270). Nessa concepção de consciência, o filósofo intenta romper com a ideia de uma consciência ingênua, que apreende o mundo sem juízos e preconceitos. Critica a noção de consciência transcendental apontada por Husserl e afirma que, "[...] a consciência transcendental, a plena consciência de si não está inteiramente feita, está por fazer, ou seja, por realizar na existência" (p.341). O que significa que, agora, em seu entendimento, a consciência deve ser pensada como experiência que se realiza na existência.