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6.7 Opptrappingsplanens betydning
6.7.4 Kjennskap til Opptrappingsplanen
Ante nossa tarefa de explanar o pensamento de Merleau-Ponty, mais especificamente, no que diz respeito à noção de Lebenswelt, reconhecemos na obra O olho e o Espírito (1961) uma nova retomada em sua crítica à ciência moderna, e, portanto, em sua ênfase no Lebenswelt, assinalando a impossibilidade da dicotomia entre a visão e o visível, entre a aparência e o ser, proposta tão acentuada no pensamento científico moderno. Nessa obra, Merleau-Ponty retoma um ensaio já publicado no livro Sentido e
das obras do pintor, em favor da ideia do entrelaçamento homem e mundo. E, acentua que a filosofia precisa dialogar com a arte e com a literatura para sair de uma posição metafísica, entendendo que é por esse distanciamento que a filosofia está em crise (Merleau-Ponty, 1996).
Em O olho e o espírito, Merleau-Ponty (1961/2009a), toma como referência as pinturas impressionistas de Cézanne e expõe sua compreensão acerca da relação sujeito e objeto, visível e invisível, contorno e identificação do objeto, demonstrando a existência de uma reversibilidade entre ver e ser visto (COELHO JUNIOR; CARMO, 1991). Esclarece que, quando percebemos o mundo, o percebemos sob uma perspectiva que depende da disposição do conjunto de elementos que se apresenta na relação homem e mundo. Assim como nas pinturas de Cézanne, os contornos que definem os objetos não são concebidos como uma linha divisória, tal como na ciência, em sua crença na capacidade de reflexão e explicação do mundo devido à delimitação rígida e objetiva dos elementos que o compõem. Para o pensamento de Merleau-Ponty, tem-se clara a ideia da existência de contornos que são apenas limites, que nos possibilitam ver uma coisa em profundidade e sob certa perspectiva. Em defesa da ideia desses contornos, o autor argumenta que:
Não marcar nenhum contorno seria tirar a identidade dos objetos. Marcar apenas um seria sacrificar a profundidade, isto é, a dimensão que nos dá a coisa, não estirada diante de nós, mas repleta de reservas, realidade inesgotável (19612009a, p.117).
É importante sublinhar que, nessa compreensão de como conhecemos as coisas, o contorno de um elemento capta e cria a possibilidade do contorno de outro elemento, como um "[...] dançando de um outro [...]” (p. 117). Para que o mundo seja restituído em sua espessura é preciso que tomemos como ponto central a experiência vivida, o Lebenswelt, pois é do mundo vivido que os sentidos se lançam. Merleau-Ponty toma a pintura, no caso a pintura de Cézanne, como uma forma de expressão da indivisibilidade daquilo que constitui a relação homem e mundo, expondo que
se o pintor quer exprimir o mundo, é preciso que a composição das cores traga em si este Todo indivisível; de outra maneira, sua pintura será uma alusão às coisas e não as mostrará numa unidade imperiosa, na presença, na plenitude insuperável que é para todos nós a definição do real (p.118).
Com essas afirmações, o autor assinala que aquilo que conhecemos e chamamos de real é tão somente uma ilusão. O que conseguimos apreender são suas impressões, é o que existe. Entendemos que essa apreensão é sempre uma tarefa contínua e infinita, pois assim como o pintor captura pela visão e interpreta o mundo em suas telas, nós também interpretamos o mundo sem separá-lo daquilo que vemos do mundo. Ver o mundo e interpretar o mundo são ações inseparáveis, haja vista que "o espírito vê-se e lê-se nos olhares que são apenas conjuntos coloridos. Os outros espíritos só se oferecem a nós encarnado, aderente a um rosto e a um gesto" (p. 118). Tal como afirmado em outro momento, tudo isso só é possível se tomarmos o
Lebenswelt como condição de expressão da inseparabilidade e do
entrelaçamento homem e mundo.
Merleau-Ponty (2009a) destaca que por meio do que Cézanne pôde informá-lo sobre o modo de apreensão do mundo, compreendeu que estamos acostumados a ver o mundo a partir apenas das nossas ações, e que, nesse sentido, o mundo existe de forma habitual e inabalável. O autor ressalta que, ao invés, devemos suspender o habitual para ver o não visível, para entrar em contato com o estranhamento, com aquilo que se instala no humano. Ou ainda, para poder ver sem a familiaridade do que é visto, o que nunca se completa. Trata-se de ver em desconstrução, e "só um homem, contudo, é capaz justamente desta visão que vai até as raízes, aquém da humanidade constituída" (p. 118). O filósofo afirma que ver o mundo sem aprofundar-se nele é esperar que dele surja a verdade. Mais uma vez, estabelecendo uma relação entre a pintura e o modo como conhecemos, Merleau-Ponty afirma que, pensar que o conhecimento advém das formas exatas e rígidas demarcadas dos elementos do mundo, tal como aponta a ciência moderna com seu pensamento matematizado do mundo, é pensar que para se aprender a pintar, basta que se conheçam as formas, cores e estrutura geométrica do mundo. É como pintar e não ver o que se está pintando. E isso não significa descartar a importância da ciência ou do conhecimento das formas na pintura, apenas que não se pode reduzi-lo a essa única perspectiva. Portanto, para se ver em profundidade o mundo, faz-se
necessário ligar umas às outras todas as vistas parciais que o olhar tomava, reunir o que se dispersa pela versatilidade dos olhos 'associas as mãos errantes da natureza [...] e explicava que a paisagem deve ser circunscrita nem muito alta, nem muito baixa, ou ainda trazida viva numa rede que nada deixa passar (1961/2009a, p. 119).
Isso ocorre na experiência de estranhamento no mundo, numa experiência de "[...] existência incessantemente recomeçada" (p. 120). É a experiência como sendo sempre a que começava de novo, mas no sentido de como se fosse sempre a primeira vez, e de que não tivesse sido experienciada. O autor assevera que essa experiência originária e primeira (o
Lebenswelt) se constrói na cultura, em algo que é anterior à sua própria
expressão, e que o que conhecemos dessa experiência não pode ser reduzido a uma ideia, por constituir apenas o despertar de outras experiências, sempre recolocadas na existência. A ideia é apenas a textura da experiência.
O artista segundo Balzac e Cézanne não se contenta em ser um animal cultivado, assume a cultura desde o começo e a funda de novo, fala como o primeiro homem falou e pinta como se nunca se houvesse pintado (1961/2009a, p.120).
Ante tal questão, Merleau-Ponty assinala que somos apenas projetos de nós mesmos, o que nos torna impossível distinguir entre o dado e o criado, entre o hereditário e a nova maneira de se estar no mundo, pois é somente no mundo que podemos realizar nossa existência livremente.
Em O olho e o espírito, Merleau-Ponty (2009a) assegura sua compreensão acerca do entrelaçamento homem e mundo expondo que
um corpo humano está aí quando, entre vidente e visível, entre aquele que toca e o que é tocado, entre o olho e o outro, entre a mão e a mão acontece uma espécie de recruzamento, quando se ateia esse fogo que não cessará de arder, até que determinado acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria podido fazer [...] (p.22).
Ou ainda, que
uma vez que as coisas e o meu corpo são feitos do mesmo estofo, é necessário que a sua visão de alguma maneira se faça nela, ou melhor, que a visibilidade manifesta das coisas se desdobre nele numa visibilidade secreta [...] (p.23).
Portanto, Merleau-Ponty propõe que se veja o mundo no que ele nomeia de terceira dimensão, que nem é a minha visão e nem a visão do mundo, mas uma visão que inclui a minha e a do mundo. Essa terceira dimensão é paradoxal, e consiste em se ver o que não é visível ou se ver não vendo, pois aquilo que vemos sempre está em relação àquilo que não vemos, pondo o que é visto sempre em uma perspectiva de horizonte, como uma linha que une o que está em entrecruzamento - mundo natural e mundo histórico -, e não nos deixa estabelecer uma relação de hierarquias. E isso nos conduz a pensar que nunca uma visão conclui uma outra, e que nunca o que vemos é plenamente concluído, pois uma visão sempre cria outra visão.