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Dando continuidade à discussão do entrelaçamento homem e mundo, no O visível e o invisível (2009b), Merleau-Ponty inicia seu texto interrogando-se acerca do que é o mundo e do modo como vemos as coisas. Afirma que pela redução, podemos aprender a ver o mundo como se nunca o tivéssemos visto. A redução nos dá a possibilidade de "[...] efetuar a passagem

olhando ativamente [grifo do autor], despertando para o mundo [...]" (2009b,

p.19), significando que podemos sair do lugar de meros espectadores do mundo para ocupar o espaço daquele que está desperto no mundo, pois

[...] é olhando, é ainda com meus olhos que chego à coisa verdadeira, esses mesmos olhos que há pouco me davam imagens monoculares, simplesmente, funcionam agora em conjunto e como que a sério. assim, a relação entre as coisas e meu corpo é decididamente singular: é ela a responsável de que, às vezes, eu permaneça na aparência, e outras, atinja as próprias coisa; ela produz o zumbir das aparências, é ainda ela quem emudece e me lança em pleno mundo (p. 20, grifo do autor).

Não se trata, aqui, de uma síntese, mas de uma dialética sem síntese, pelo próprio inacabamento do olhando.

O autor demonstra, nessa obra, que o seu interesse é pensar sobre o problema, o mundo. E essa problematização é que faz com que o pensar na filosofia seja diferente do pensar na ciência. Esta crê na correlação entre o saber e o ser, quando afirma poder retirar "[...] os predicados atribuídos às coisas no nosso encontro com elas" (p. 25). A filosofia, por sua vez, questiona

aquele que é posto em questão. Enquanto a ciência separa o objetivo do subjetivo, a filosofia afirma a existência de uma negação e uma afirmação dessa relação, ao mesmo tempo. Portanto, compreender o mundo é compreender a experiência de habitar o mundo. E, novamente, é pela redução que sou capaz de renunciar a um aspecto e outro para apreender um e outro. Assim, assinala que

o filósofo, portanto, somente suspende a visão bruta para transpô-la para a ordem do expresso, ela permanece seu modelo ou sua medida, é sobre ela que deve abrir-se a rede de significações que ela organiza para reconquistá-la (p.44-45).

O sentido de ambiguidade é expresso, mais definitivamente, nessa obra, quando o filósofo argumenta que homem e mundo estão justapostos e que aquilo que percebo como eu e mundo é um deslizamento de um sobre o outro. É a vivência de mundo, pois o meu mundo não é mais exclusivamente meu, é meu-mundo-outrem, este o lugar da coexistência. O mundo é entendido como o lugar originário que nós somos. Para o filósofo,

[...] é preciso que não suspenda a fé no mundo a não ser para vê-lo, para ler nele o caminho por ele seguido ao tornar-se mundo para nós, é preciso que nele procure o segredo de nossa ligação perceptiva com ele, que empregue as palavras para dizer essa ligação pré-lógica e não conforme sua significação preestabelecida, que mergulhe no mundo ao invés de dominá-lo [...] (1964/2009b, p.47).

Com isso, Merleau-Ponty critica a filosofia reflexiva de Descartes e Husserl, apontando que ambas reduzem o mundo ao que se pensa sobre o mundo. Com relação ao pensamento de Descartes, para o autor, é mais clara essa redução do mundo à sua reflexão, mas no que diz respeito a Husserl, que buscou uma fenomenologia transcendental que, de certo modo, o conduzia a uma fenomenologia existencial, esse modo reflexionante de filosofar só fica explícito quando expõe que

[...] toda redução transcendental é também de redução eidética, isto é, todo esforço para compreender de dentro e a partir das fontes o espetáculo do mundo exige que nos separemos do desenrolar efetivo de nossas percepções e de nossa percepção do mundo [...] (p.53).

Fica evidente que ocorre um distanciamento entre o pensamento de Merleau-Ponty e o de Husserl, o que não estava tão explícito nas obras anteriores. Conforme vemos na afirmação de Merleau-Ponty:

Meu acesso pela reflexão a um espírito universal, longe de descobrir enfim o que sou desde sempre, está motivado pelo entrelaçamento de minha vida com as outras vidas, de meu corpo com as coisas visíveis, pela confrontação de meu campo perceptivo com o de outros, pela mistura de minha duração com as outras durações (1964/2009b, p.56).

E

refletir não é coincidir com o fluxo desde sua fonte até suas últimas ramificações; é o desembaraçar das coisas, das percepções, do mundo e da percepção do mundo, submetendo-os a uma variação sistemática, núcleos inteligíveis que lhe resistem, caminhando de um a outro de tal maneira que a experiência não desminta, mas nos dê apenas seus contornos universais (p.53).

Definitivamente, há um abandono da noção de consciência e um direcionamento rumo a uma filosofia da ambiguidade, a um pensamento dialético, sem síntese. Como afirma Merleau-Ponty, "se lograrmos descrever o acesso às próprias coisas, isso acontecerá unicamente através dessa opacidade e dessa profundidade que nunca param [...]" (19642009b, p. 81).

Sua filosofia da ambiguidade é afirmada com a noção de quiasma.

Quiasma é a radicalidade da crença no entrelaçamento homem e mundo.

Homem e mundo são um e outro numa simultaneidade. Trata-se, aqui, de uma imbricação que impossibilita a separação ou mesmo a fusão de um no outro, permitindo, por outro lado, a redescoberta de um e do outro. O visível e o invisível são partes fundantes do quiasma. Um trecho do referido livro explicita o que o autor (MERLEAU-PONTY, 2009b) quer dizer de quiasma, quando oferece o exemplo da experiência do tocar:

[...] um verdadeiro tocar o tocar, quando minha mão direita toca minha mão esquerda apalpando as coisas, pelo qual o 'sujeito toca' passa ao nível do tocado, descendo às coisas, de sorte que o tocar se faz no meio do mundo e como nelas (p.130).

A esse envolvimento do visível e do vidente, quando a experiência do tocar, como no exemplo, ocorre no tocando de forma simultânea, numa

dupla relação de distanciamento e aproximação, o filósofo nomeia de carne (NUNES, 2004). Carne é a textura que envolve o ser. Moreira (2007) destaca que o termo carne, traduzido para o português, não alcança a dimensão do que Merleau-Ponty quis dizer utilizando-se dele13. A autora afirma que tratar desse

conceito é retornar à discussão acerca da relação homem-mundo, que parte do entendimento de corpo sensível. Para Merleau-Ponty,

basta-nos apenas constatar que quem vê não pode possuir o visível a não ser que seja por ele possuído, que seja dele [carne], que, por princípio, conforme o que prescreve a articulação do olhar e das coisas, seja um dos visíveis, capaz, graças a uma reviravolta singular, de vê-los, ele que é um deles. Compreende-se então por que, ao mesmo tempo, vemos as próprias coisas no lugar em que estão, segundo o ser delas, que é bem mais do que o ser-percebido, e estamos afastados delas por toda a espessura do olhar e do corpo [...] (p.131).

E

ainda uma vez: a carne de que falamos não é a matéria. Consiste no enovelamento do visível sobre o corpo vidente, do tangível sobre o corpo tangente, atestado sobretudo quando o corpo se vê, se toca vendo e tocando as coisas de forma que, simultaneamente, como tangível, desce entre elas, como tangente, domina-as todas, extraindo de si próprio essa relação, e mesmo essa dupla relação, por deiscência ou fissão de sua massa (p.141, grifo do autor).

Dando prosseguimento a definição de Merleau-Ponty de carne, este afirma que,

o que chamamos de carne, essa massa interiormente trabalhada, não tem, portanto, nome em filosofia alguma. Meio formado do objeto e do sujeito, não é o átomo de ser, o em si duro que reside num lugar e num momento únicos: pode-se perfeitamente dizer do meu corpo que ele não está alhures, mas não dizer que ele esteja aqui e agora, no sentido dos objetos; no entanto, minha visão não os sobrevoa, ela não é o ser que é todo saber, pois tem inércia e seus vínculos (p.142- 143).

Merleau-Ponty, com esse conceito, enfatiza a ideia de intercorporeidade, apresentada nas obras Fenomenologia da Percepção e Na

Dúvida de Cézanne, como o que liga o homem à história, pois "[...] a vida

humana existe historicamente" (MOREIRA, 2007, p. 227). O homem, portanto, está implicado historicamente.

Em suma, com os conceitos de carne e quiasma, a fenomenologia de Merleau-Ponty renuncia a qualquer posição dicotômica entre consciência e

13 Em francês temos chair e viande com a tradução de carne. Chair foi o termo utilizado por Merleau- Ponty.

mundo, corpo e objeto. O que há é uma reversibilidade iminente entre esses elementos que, ao mesmo tempo, não será realizada de fato. Trata-se da mútua constituição homem e mundo (NUNES, 2004). Para Bidney (1989) e Moreira (2009), a fenomenologia de Merleau-Ponty é uma antropologia fenomenológica, que tem como eixo a noção de Lebenswelt, mundo vivido, de tal forma que quando o filósofo fala de mundo, está tratando da ideia de mundo cultural.