4.1 Erfaringer med bosituasjonen
4.1.3 Tiltak knyttet til Ungbo
Em busca de coerência entre o método que orienta esta pesquisa e a forma de sua exposição, iniciar-se-á este capítulo discorrendo sobre a arte. Entende-se que ela é síntese da relação entre homem e mundo; portanto, ela revela o processo de humanização. Em outras palavras, a arte é considerada como uma totalidade que se constitui de outras totalidades, bem como atividade (e dentro dela como atividade criadora e/ou práxis) e linguagem. Assim, a proposta é apreender o todo do qual a arte é parte, ou melhor, partir em busca de um todo estruturado. Nessa perspectiva pode-se dizer que a arte, como um todo articulado, é uma das formas humanas mais complexas de atividade e linguagem; logo, por meio daquela (arte) é possível entender estas (atividade e linguagem) e vice-versa. Neste trabalho, a arte (especificadamente o ballet e a dança) será apreendida a partir da categoria atividade.
Vigotski não produziu conhecimentos sobre o ballet e nem qualquer outro gênero da dança, mas além de seus pressupostos teórico-metodológicos nortearem este trabalho, a análise crítica que realiza sobre arte, prioritariamente literária, e sua articulação com a psicologia, nos permite fazer uma leitura do ballet a partir seus apontamentos. Este capítulo não se propõe a analisar esta arte tal como Vigotski o faz em suas obras, mas compreendê-la sob sua perspectiva, o que se constitui como grande desafio. As obras que versam sobre a arte referem-se às suas primeiras sistematizações; nesse sentido, as proposições de uma psicologia histórico-cultural ainda estavam em construção (BARROCO, 2007).
Vigotski (1999) criticava as concepções de arte que se centravam ora no sujeito, ora no objeto. Para tanto, propôs um método objetivo-análitico pelo qual pôde compreender o comportamento, no que diz respeito às reações estéticas26, por meio da análise das condições
objetivas, isto é, da obra de arte, que também é constituída pela dimensão subjetiva de quem a cria. Para Barroco e Superti (2014),
[...] o autor destaca a necessidade de uma íntima relação entre psicologia e arte, pois considera que esta exprime a sociedade que lhe dá origem e objetiva na obra, objeto cultural, características psicológicas complexas. Ao mesmo tempo, possibilita a apropriação de tais características humanas pelos
26Para Vigotski, as reações estéticas são "[...] organização consciente de sistemas de estímulos referentes a
fatores socioculturais [...]" (BARROCO, 2007, p.4); ou ainda "[...] forma específica de conhecimento, relacionada aos sentimentos humanos, que são parte constituinte da composição do conteúdo da obra" (BARROCO, 2003, apud BARROCO, 2007, p. 4).
indivíduos. Podemos entender que a natureza social da arte traz em si a relação com a psicologia, uma vez que a sociedade e toda realidade humana é forjada pelos homens nas relações sociais, por meio do trabalho e, neste mesmo movimento, as funções psicológicas superiores são elaboradas e objetivadas, isto é, deixam de ser funções meramente biológicas. Assim, ao se produzir arte e ao dela se apropriar, funções psicológicas dos sujeitos também são formadas e desenvolvidas (p. 23).
Segundo Vigotski (1999), a estrutura da obra de arte é determinada pela relação entre conteúdo (ou material) e forma. Pelo primeiro entende-se que é "[...] tudo o que o poeta usou como já pronto - relações do dia-a-dia, histórias, casos, o ambiente, os caracteres [...]"; e o segundo, isto é, a forma, é "[...] a disposição desse material segundo as leis da construção artística no sentido exato do termo" (p. 177). Assim, a arte nada mais é do que a realidade reelaborada, pelos processos psíquicos do homem, os quais emergem em criação. A forma reconfigura o conteúdo, que até então é disposto como uma sucessão de acontecimentos lineares e atribui-lhe nova propriedade.
O ballet e/ou a dança é uma das manifestações da arte mais complexas para análise, pois além de reunir outras formas artísticas - como, por exemplo, a música e a literatura - é também a única que possui o corpo como instrumento de construção e materialização da obra de arte, tendo em vista que é por meio do movimento corporal que ela se realiza. Contudo, entende-se que nesse gênero (no caso da dança como um todo), o conteúdo é o que da realidade foi utilizado para construir a história ou tema da apresentação e a forma é como e sob quais movimentos corporais essa história será representada. Um exemplo de conteúdo seriam os amores impossíveis relatados no ballet romântico, no qual a moça rica se apaixona pelo rapaz pobre e, por isso, são impedidos de se casar. Há elementos da realidade, mas também há reelaboração e criação a partir deles. Um exemplo de forma é a representação, para o público, dessa história sob a técnica e virtuosismo, típicos do ballet.
A síntese desses elementos constitutivos da obra de arte (conteúdo e forma) provoca reações estéticas que Vigotski (1999) nomeou de catarse. Em outras palavras, a forma incita um sentimento diferente daquele suscitado pelo conteúdo, de modo que a articulação desses sentimentos se transforma em algo novo, que não pode ser encontrado em nenhum dos elementos estruturais separadamente. Para o autor "[...] toda obra de arte implica uma divergência interior entre conteúdo e forma, e que é precisamente através da forma que o artista consegue o efeito de destruir ou apagar o conteúdo" (p. 272). É esse movimento que explica a catarse e o autor ainda completa que esse termo (catarse) traduz de forma plena e clara
[...] o fato, central para a reação estética, de que as emoções angustiantes e desagradáveis são submetidas a certa descarga, à sua destruição e transformação em contrários, e de que a reação estética como tal se reduz, no fundo, a essa catarse, ou seja, à complexa transformação dos sentimentos (p. 270).
Essa contradição existente entre a emoção provocada pelo conteúdo e pela forma é superada na/pela catarse; logo, a emoção é, para Vigotski (1999), a base da reação estética. Nesse sentido, infere-se que a arte suscita combinações e conflitos de emoções que são catárticos, assim como a arte também contém em si a catarse cristalizada, pois ela é expressão (catártica) de quem a produz. Por exemplo, quando a bailarina apresenta uma coreografia, ela experencia tanto os sentimentos do personagem que representa, como no caso do papel de Odette e Odille27, na história do Cisne Negro, quanto os sentimentos que são suscitados pela
apresentação como um todo (o medo de errar, a ansiedade, satisfação, a preocupação com a perfeição técnica, entre outros).
Observem o quão contraditório são os sentimentos entre o conteúdo e a forma. No conteúdo é preciso transmitir a paixão de Odette pelo príncipe (dentre os vários sentimentos a ser transmitidos na história), já a forma provoca insegurança e medo (de falhar na técnica - pirueta, fouette etc. - do ballet e na expressão na qual é preciso transmitir). O produto da arte provoca um sentimento, tanto no artista quando no espectador, que supera aquele da forma e do conteúdo. No espectador, além do sentimento suscitado pela história do Cisne Negro (conteúdo), há também aquele revelado na beleza do ballet (forma). Esses sentimentos e emoções são contraditórios e produzem algo novo, a síntese, que passa a ser a referência de sentimento da apresentação como um todo e não das partes; logo, a arte também possui essa peculiaridade, isto é, de ampliar os sentimentos tanto do artista quanto do espectador (VIGOTSKI, 1999). Nas palavras de Vigotski (1999)
[...] ao tecido de relações perfeitamente reais e cotidianas, entrelaça-se algum motivo irreal, que começamos a interpretar também como motivo real em termos absolutamente psicológicos, e a luta entre esses dois motivos incompatíveis é o que produz a contradição, que deve necessariamente ser resolvida na catarse e sem a qual não existe arte (p. 298).
Embora Vigotski tenha se dedicado à análise da reação estética e reconhecido a importância dos sentimentos e emoções suscitados pela arte, o autor enfatiza o equívoco em atribuir-lhe, como fim, apenas o contágio. Nas suas palavras "a arte está para a vida como o vinho para a uva - disse um pensador, e estava coberto de razão, ao indicar assim que a arte recolhe da vida o seu material mas produz acima desse material algo que ainda não está nas
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propriedades desse material" (VIGOTSKI, 1999, p. 307-308). Nesse sentido "[...] a arte parece completar a vida e ampliar suas possibilidades" (VIGOTSKI, 1999, p. 313).
O autor refere-se à arte como um ato criador e ainda menciona que o sentimento vivo e intenso não é suficiente para produzi-la. Ela é síntese (do sentimento e da realidade) justamente porque se constitui a partir deles, mas supera-os apresentando elementos novos; logo, se não há um processo criativo, não pode ser considerado um produto artístico.
Eis por que a percepção da arte também exige criação, porque para essa percepção não basta simplesmente vivenciar com sinceridade o sentimento que dominou o autor, não basta entender da estrutura da própria obra: é necessário ainda superar criativamente o seu próprio sentimento, encontrar a sua catarse, e só então o efeito da arte se manifestará em sua plenitude (VIGOTSKI, 1999, p. 314).
O ballet não pode ser entendido como produto unicamente do sentimento (seja do bailarino ou dos criadores da obra), assim como também não é arte devido à técnica, música, coreografia e/ou pela história que transmite. São esses elementos de forma articulada que a produzem e permitem que tanto a sua vivência (como no caso do bailarino) quanto a sua apreciação (no caso do espectador) seja uma experiência catártica.
A arte é também para Vigotski (1999) o social em nós. O fato de ser produzida ou contemplada por um indivíduo, não a torna individual. Tendo em vista que o homem é determinado pelas relações sociais e sua consciência se constitui pela/na apropriação do mundo, qualquer produção humana é, necessariamente, histórica e social. Ele escreve: "[...] a arte é uma técnica social do sentimento, um instrumento da sociedade através do qual incorpora ao ciclo da vida social os aspectos mais íntimos e pessoais do nosso ser" (p. 315). E então conclui: "seria mais correto dizer que o sentimento não se torna social mas, ao contrário, torna-se pessoal, quando cada um de nós vivencia uma obra de arte, converte-se em pessoal sem com isto deixar de continuar social" (p. 315).
O social está explícito na dança e/ou ballet, pois ela é síntese da criação de vários homens e gerações (e consequentemente de sentimentos diferentes); é produto das relações humanas históricas e é destas que nos apropriamos. É social porque é construído na relação com o mundo e com as pessoas; o próprio criador é o social internalizado, logo, o que ele cria é também social. Consequentemente, experienciar a arte (como espectador ou bailarino) permite a vivência de sentimentos e emoções, assim como da apropriação de conhecimentos produzidos pela sociedade; portanto, o ballet e a dança são também o social em nós.
A riqueza da arte é, então, revelada por Vigotski. Dessa forma, pode-se inferir que ela é ao mesmo tempo ponto de chegada e de partida para o desenvolvimento humano: ponto
de chegada porque ela atingiu a forma mais complexa de uma atividade tipicamente humana, tendo em vista os processos psíquicos que permitem sua realização; e partida porque ela pode ser um meio efetivo de aprendizagem e desenvolvimento, já que uma vez cristalizada se torna produto da cultura e esta é que possibilita a humanização. Segundo o mesmo autor, a "arte é antes uma organização do nosso comportamento visando ao futuro, uma orientação para o futuro, uma exigência que talvez nunca venha a concretizar-se, mas que nos leva a aspirar acima da nossa vida o que está por trás dela" (VIGOTSKI, 1999, p. 320).