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4.5 Oppsummering: Et bilde av beboerne

5.1.2 Samarbeid innad i Ungbo

Para se conhecer a origem e desenvolvimento da formação de Rodolfo, apresentar-se-á a análise em três momentos: (1) a formação no ballet, que compreende como surgiu a dança na sua vida, o papel da família nesse processo, o cenário (cidade e escola de formação) em que se passou essa história e como as relações pessoais foram estabelecidas nesse período; (2) a formação acadêmica, marcada pela formação no ensino superior e formação continuada; e, por último, (3) os sentidos atribuídos à dança/ballet e as transformações destes durante o processo.

Rodolfo deixa subentendido que provém de uma família tradicional do interior de São Paulo e com razoável poder aquisitivo, considerando as condições de vida e educação que lhe foram oferecidas. Seus pais foram professores universitários. O pai e o irmão de Rodolfo se graduaram em educação física, o que, segundo ele, determinou seu interesse pela dança. Ele sempre enfatiza a participação do pai nesse processo, tal como no trecho:

[...] como meu pai era da educação física, foi uma época também que começou a aparecer a aeróbica. Então, meu pai comprou uns discos, que era como se fosse uma aula cantada e falada e ilustrada, porque na capa tinha as figuras e eu achava um máximo aquilo. Eu gostava muito e o meu pai foi secretário de esportes da cidade, então, no

interior existia um campeonato de dança chamado Gymnaestrada41,

e uma vez ele me levou, eu devia ter de quatro para cinco anos e eu fiquei encantado com aquilo. Ele já tinha percebido [...] o meu talento, o meu dom, que eu tinha jeito para isso e foi quando eu pedi ele para fazer ballet.

O nível de complexidade técnica que o ballet adquiriu ao longo de seu desenvolvimento tornou o público praticante mais seletivo. Desde então começou a se estabelecer o corpo ideal, necessário para realizar os movimentos específicos do ballet. O

próprio Luis XIV, que levou essa arte para a França e instaurou L'Académie Royale de la

Musique et de Danse, parou de dançar por estar fora dos padrões (FARO, 2011). Tanto esses fenômenos sócio-históricos quanto a própria especificidade do ballet (tecnicismo e virtuosismo) contribuíram para determinar não apenas um estereótipo, mas também para a naturalização de tais habilidades. Não se pode negar que as características físicas (força, flexibilidade, resistência etc.) são de ordem biológica, entretanto, elas só serão desenvolvidas a partir das condições objetivas, isto é, na relação com a dança. Pode-se dizer que, nesse relato, Rodolfo apresenta, aparentemente, uma concepção inatista sobre suas habilidades, quando ele se refere a elas como dom e talento. Vigotski (2006) esclarece esse ponto ao enfatizar: “[...] a realidade social é a verdadeira fonte de desenvolvimento, a possibilidade de que o social se transforme em individualvi” (p. 264). Em outras palavras, alguns biotipos

podem ser mais favoráveis que outros, mas o social é que vai determinar a direção desse desenvolvimento. Embora Rodolfo revele essa concepção inatista de desenvolvimento, ele também reconhece o quanto a formação da família, no ensino superior, foi determinante nesse processo, especialmente por mediar sua relação com a dança.

Rodolfo começou a fazer ballet por incentivo do pai. Foi ele quem o matriculou na escola de dança e o levava para fazer as aulas. A mãe não apenas se opôs, como revelou preconceito pela ideia e, por isso, inicialmente Rodolfo fazia ballet escondido, apoiado somente pelo pai. Ele se mostra muito afetado pelo momento em que a mãe descobriu e diz:

Foi muito traumático porque minha mãe ficou louca. A minha mãe me levou para a sala dela, me bateu muito, apanhei muito.

E ainda complementou:

Ela não aceitava. Era uma briga, era sempre um conflito entre minha mãe, meu pai e eu por essa questão [...].

Rodolfo também relata o quanto a dança foi um meio de coerção, aparentemente utilizado pela mãe, durante a infância e a adolescência:

Então eu também me senti em vários momentos chantageado, porque, às vezes, eu queria alguma coisa, pedia e não tinha, exatamente porque eu estava dançando. Foi bem difícil.

É possível identificar algumas contradições nessa relação (familiar); uma delas é o preconceito da mãe e o incentivo do pai. Em geral é o pai (ou a figura masculina) que, comumente, reprime e discrimina os homens42 que fazem ballet. Esse não foi o caso de

Rodolfo, que sofreu preconceito por parte da mãe. Ainda que a formação do pai fosse em educação física, considerando que sua especificidade são as manifestações da cultura corporal e a dança é uma delas, pode-se dizer que existe uma tendência da educação física ao esporte e não à arte, logo, esse fato, particularmente, não explica, por si só, o apoio do pai. Entretanto, pode ter sido um dos meios que contribuíram para a ressignificação e superação dessas concepções cristalizadas.

O preconceito com a figura masculina no ballet possivelmente provém do século XIX, quando, no ballet romântico, o papel feminino passa a ser idealizado e os homens perdem o prestígio. Se antes eles representavam, na dança, ambos os papéis sociais (de homem e mulher), nesse período eles se tornam, no máximo, um suporte para o virtuosismo feminino (FARO, 2011). A ascensão da mulher torna o ballet uma manifestação tipicamente feminina, o que contribuiu para a marginalização dos homens que dançavam. O homem não perdeu seu papel na dança, mas há um período em que aqueles que dançam tornam-se vítimas de estereótipos e preconceitos. Possivelmente, a mãe de Rodolfo também pensava o quanto ele poderia sofrer preconceitos por ser um bailarino e reproduzia esse discurso também como uma forma de proteção.

O que possibilitou que Rodolfo continuasse dançando e, ao mesmo tempo, amenizasse os desentendimentos em casa, foram as regras criadas pelo pai, tal como revela sua fala

O meu pai, por ter vindo, por estar na área do esporte, então a gente começou a negociar algumas regrinhas, tipo eu gostava de nadar... “Então você vai fazer natação, vai competir e vai continuar

dançando” ou “você vai jogar vôlei, que você gosta e vai continuar dançando”, estando ali a par e atrelado a algum tipo de esporte. E eu sou muito grato a tudo isso.

Ele não apenas aceitou as regras, como entendeu positivamente as decisões do pai. Pode-se dizer que seu apoio e incentivo tornou-o a figura idealizada em casa, especialmente por ter possibilitado a realização daquilo que Rodolfo denomina de sonho. Nas suas palavras:

Porém (apesar das dificuldades que ele encontrou), eu continuei dançando. Meu pai sempre me orientando que caminho seguir porque ele achava que não tinha o direito de cortar o meu sonho, de romper o meu sonho, de não deixar eu fazer aquilo que eu gostava, com tanto carinho, sabe, com tanta leveza. E ele foi então me orientando, me mostrando [...].

Outra contradição explícita nas determinações familiares é a persistência de Rodolfo, mesmo sob as condições impostas, para continuar dançando. Essa contradição pode ser explicada pela catarse, isto é, a "complexa transformação dos sentimentos" (VIGOTSKI, 1999, p. 270). Ele relata o amor pela dança e o quanto ela representava um desafio para ele. Porém, além de suportar o preconceito, ele também precisava renunciar a alguns desejos de criança, devido às chantagens sofridas em casa. Esses sentimentos se unem e formam outro, que não pode ser explicado por nenhum dos anteriores separadamente (isto é, os sentimentos envolvidos na paixão pela dança, no preconceito, nas renúncias etc.), porque são a síntese de todos eles. É esse sentimento síntese que o impulsiona a continuar. Tal como Vigotski (1999) afirma:

Ainda sabemos muito pouco de fidedigno sobre o próprio processo da catarse, mas mesmo assim conhecemos o essencial, isto é, sabemos que a descarga de energia nervosa, que constitui a essência de todo sentimento, realiza-se nesse processo em sentido oposto ao habitual, e que a arte assim se transforma em um poderosíssimo meio para atingir as descargas de energia nervosa mais úteis e importantes. Achamos que a base desse processo é a natureza contraditória que subjaz à estrutura de toda obra de arte (p. 270).

Até aqui foram apresentadas as condições (neste caso, familiares) que caracterizam o início da dança na vida de Rodolfo. Porém, quais foram as condições objetivas (ou seja, a cidade, a escola, as aulas e as relações sociais) que constituíram a formação de Rodolfo no ballet? Ele começou o ballet aos seis anos em uma cidade próxima a que ele morava, pois nesta não havia escola de formação. Segundo ele:

Minha cidade é muito pequena, não tinha escola formadora,

qualificada, uma escola especializada de ballet. Tinha academia de

dança de jazz, essas coisas assim. E aí eu fui para a cidade de [nome] e comecei a fazer ballet.

Pelo seu discurso, nota-se que fazer ballet foi algo planejado. Ele, com a ajuda do pai, foi ao encontro de uma escola de ensino específico e reconhecida, que demandava certa logística, tal como ele aponta:

[...] eu ia duas vezes na semana para a cidade de [nome de onde fazia ballet] e a aula era de 1 hora, 1hora e 30 minutos. Exceto quando ela estava coreografando para os espetáculos, que estendia um pouquinho mais. Era uma aula super pontual, com aquecimento, alongamento, barra, diagonais, centro.

Nessa mesma fala, ele revela a tradição e o conservadorismo das aulas de ballet e ainda finaliza a frase dizendo:

[...] tudo que uma aula de ballet tem mesmo;

ou seja, há uma padronização a ser respeitada nas aulas em geral.

Embora a conduta rígida dos professores nas aulas seja frequentemente relatada, inclusive como um dos motivos responsáveis do abandono do ballet (CARVALHO, 2005),

Rodolfo explicita o quão harmoniosa foi sua relação com a professora de ballet e ao mesmo tempo expressa admiração e carinho pela mesma, ao longo da entrevista:

A minha relação foi incrível. A minha professora foi Catarina, uma grande bailarina, de uma sensibilidade, tecnicamente tudo assim que eu pude aprender e sugar [...].

Ele também deixa subentendido o quanto um menino fazer ballet, na cidade do interior e naquele momento histórico, era considerado um escândalo:

Então, assim, eu sou de 1978, então imagina nos anos de 1980, em uma cidade que na época deveria ter uns 20, 25 mil habitantes; (menino) dançando ballet.

Essas condições também determinavam como se estabeleciam as suas relações, dentre elas o preconceito dos colegas da escola. Ele relata:

Eu me lembro de uma apresentação que era abertura de jogos, que foi no ginásio, e os meus amigos começaram a me jogar pedra e caco de vidro porque eu estava dançando.

Segundo Rodolfo, ele:

[...] não era o único menino, na cidade de [nome da cidade que fazia ballet], fazendo ballet. Tinham outros e aí nem todos seguiram, continuaram, se formaram. Alguns foram parando no caminho, mas eu fui até o final.

Após se formar no ballet, entre os 16 e 17 anos, Rodolfo também concluiu o ensino médio e prestou vestibular para ingressar no ensino superior. Ele graduou-se em comunicação social, em uma cidade do interior próximo à sua cidade natal e, muitos anos depois, já morando em São Paulo, fez faculdade de dança. Ele menciona o papel da mãe na escolha profissional quando diz que:

[...] e aí, antes um pouquinho, quando eu fui prestar vestibular, minha mãe fez uma outra chantagem, porque eu prestei [nome da instituição] em [nome da cidade], não ia fazer dança, ia fazer comunicação ou artes cênicas no Rio. E aí minha mãe resolveu montar uma escola, porque eu tinha acabado de formar em ballet... “eu monto uma escola aqui na cidade para você ficar na cidade” e aí foi o que aconteceu. Ela montou uma escola.

Diferente do período de formação no ballet, a mãe o apoiou e o incentivou nas escolhas profissionais. Pode-se supor que ela aceitou as escolhas do filho e, aparentemente, superou suas concepções preconceituosas; ou então, foi o meio que ela encontrou para mantê- lo na cidade e próximo à família. Talvez ambos.

A formação acadêmica de Rodolfo não encerrou após a graduação. Segundo ele

[...] sempre fui de fazer muitos cursos, investir, especializar [...].

Ele frequentou cursos ligados à dança contemporânea, eutonia, musicais e, também, especializações em dança educativa moderna e em estéticas contemporâneas.

Chega-se a esse momento da história de Rodolfo com o seguinte questionamento: Qual o sentido da dança para uma criança, do sexo masculino, natural de uma cidade do interior de São Paulo, que aos seis anos começa a fazer ballet em uma outra cidade, enfrenta o preconceito da mãe e dos colegas e se forma sob todas essas condições? Como ele concebia a dança durante esse processo? Buscou-se apreender, em seu discurso, alguns sentidos atribuídos a esse período.

Para Rodolfo, quando criança, a formação no ballet era um hobby e não uma aspiração profissional. Ele dançava pelo sentimento, mas sem a intenção de tornar a dança sua profissão. Nas suas palavras:

[...] eu enfrentei e assim, não sabia, não almejava ser um bailarino profissional. Eu só não queria parar de dançar.

E ainda diz que:

[...] cada aula para mim era um desafio [...] era um sonho em executar e fazer, era sempre um desafio mesmo, sem a pretensão de me tornar um bailarino profissional.

Ele assinala a importância dessas aulas de formação tanto pela base técnica que lhe foi propiciada quanto pela disciplina, característica do ballet, que passou a constituí-lo. Rodolfo diz

[...] a minha formação me deu uma base incrível, técnica, e para eu entender o mecanismo do meu corpo, para eu entender de sustentar, de me sustentar, de me apoiar e de executar a dança técnica.

Também diz que:

[...] O que me marcou mesmo com relação a isso, você pode achar clichê, mas me deu tanta seriedade para eu me respeitar mesmo, sabe, e disciplina. São duas palavras que... Se você falar: Rodolfo, duas palavras para aquela faixa etária, como que você resume a sua relação fazendo aulas de ballet nessa escola, é isso. Acho que foi

seriedade, porque eu nunca levei uma coisa tão a sério, embora eu não pensava em virar bailarino, mas eu levava aquilo com todo meu respeito mesmo, todo meu carinho; e disciplina".

Após fazer essa leitura sobre o período de formação no ballet, Rodolfo complementa:

Só que Cíntia, nesse caminho eu descobri um outro caminho de se mover no tempo, corpo, tempo e espaço.

E ele revela em seu discurso o quanto a formação acadêmica reelaborou os significados que ele atribuía à dança e ao ballet, inclusive no que se refere à atuação profissional. Inicialmente (na infância), a dança não era um desejo profissional, mas se tornou um meio pelo acordo estabelecido com a mãe. Apesar disso, ele investiu no trabalho e ao mesmo tempo percebeu a necessidade de ter uma formação continuada, considerando a realidade objetiva da cidade em que morava, tal como ele diz:

Eu sempre fui de fazer muitos cursos, investir, especializar e como interior também não tem profissional, por esse motivo eu acabava fazendo tudo, mas eu também trazia algumas pessoas da região para dar aula na escola.

Ele enfatizou uma determinada especialização que transformou sua concepção sobre o ensino da dança, e afirma:

Eu fiz a pós. Morando ainda no interior, eu fiz a dança educativa moderna, em [nome]. E foi essa pós que abriu o meu olhar de possibilidades de trabalhar com a dança. Porque, até então, a minha dança era uma dança acadêmica, uma dança técnica, né? Eu vi

aquilo, existia o meu lado artista-criador, ok. Mas eu não sabia dessas possibilidades. E foi com essa técnica, do Laban, que eu falei: “uau, acho que eu quero trabalhar com arte-educação, sabe. Vamos, eu quero chegar mais perto disso".

É possível perceber, nesse relato, a elaboração de novos sentidos a partir do acesso a outros conhecimentos relacionados à dança. O que antes era apenas uma atividade passiva diante do acordado com a mãe, transforma-se em um querer trabalhar com a arte. Ao conhecer as novas possibilidades de atuar na dança, cria-se um novo sentido.

Sobre o movimento de escolha profissional e se de fato esta escolha ocorre, Bock (2008) expõe que:

O sujeito escolhe, e essa escolha é um momento de seu processo pessoal de construção de sentidos. Mas essa construção utiliza como recurso ou matéria prima não só a irredutível existência singular dos sujeitos, suas experiências e os afetos que dedica a cada momento vivido, mas o conjunto de significações e de formas de relacionamento e produção social em que acontecem e que circunscrevem as experiências por ele vividas. A vida social, na qual estão os determinantes importantes das escolhas profissionais, como a ideologia dominante, as formas de trabalho, o funcionamento do mercado, o papel da educação, os valores, os grupos de pertencimento, não é algo externo ao indivíduo. Ao construir sentidos subjetivos sobre a escolha ou sobre o futuro profissional, o sujeito estará também, e ao mesmo tempo, internalizando a vida social e contribuindo para a construção da subjetividade, que é coletiva. Sujeito e sociedade são âmbitos de um mesmo processo. O sujeito escolhe e, para compreender o seu processo de escolha, é preciso estudar seu movimento pessoal (seus sentidos) e o conjunto de significações e condições objetivas e sociais onde está inserido (p.145).

Por meio da formação continuada, ele atribuiu um novo sentido ao trabalho e a sua relação com a arte de dançar. O relato a seguir explicita essa transição nas significações e a reelaboração na percepção da dança e do ballet:

Então eu comecei a fazer muito curso de dança contemporânea, dança moderna e os professores... fiz curso do [nome do professor formado pela Escola da Cidade de São Paulo] também, vários cursos [...] que é uma pessoa [esse professor] que quando me olha fala “tira esse bailarino do seu corpo, senta diferente, apoia os pés diferente no

chão, pisa diferente, olha para sua coluna de uma outra forma”, porque eu ainda sou engessado. Por isso que quando eu falo de desconstrução cotidiana, não é que eu quero desconstruir. Eu adoro minha postura, acho incrível e eu acho que o Rodolfo é assim, foi o corpo que eu construí durante muitos anos. O desconstruir não é ficar largado, é olhar para o meu corpo descobrindo sempre esse movimento, de descobrir possibilidades, de que eu não preciso mais sabe... e que eu posso fazer de uma outra forma [...]. É um caminho de várias incertezas, várias descobertas, de se encontrar, de se alimentar. E aí quando eu disse de se mover... é o meu corpo descobrindo possibilidades de se mover nesse espaço meu, que é a vida, que eu estou nesse movimento constante assim.

O discurso de Rodolfo, no que diz respeito a sua formação, é feito sempre sob uma avaliação positiva. Ele destaca o que a rigidez, a tradição e o conservadorismo no ballet lhe foram benéficos e, sobretudo, como esse modelo de formação o constituiu. Mas ele também aponta a superação do mesmo ao longo da sua trajetória acadêmica. Tal como Faro (2011) menciona, muitos bailarinos buscam a dança moderna ou a contemporânea, porque não se submetem às exigências do ballet e por isso o negam, mas não o superam. Eles permanecem na crítica aparente e não a transcendem. Rodolfo não apenas reconhece a importância da técnica como também obteve sucesso na mesma43, porém sentiu necessidade

de algo além, que permitisse a criação e a reconstrução da sua visão de homem e de mundo. Assim, segundo a concepção de Vázquez (1977), é possível ponderar o processo de formação de Rodolfo como uma práxis criadora que se constituiu pela práxis reiterativa (quando dançou

ballet), mas foi superada pelo/no contemporâneo. Ele relata que essa liberdade de construção do movimento corporal e de si, ele não encontrou no ballet, mas a partir dele é que surgiu essa necessidade. Nesse sentido, a aprendizagem do ballet não deve ser entendida como um fim, mas como um meio para se atingir novas possibilidades.

É importante ressaltar que durante a entrevista, Rodolfo não dicotomiza seu processo de formação. Por outras palavras, ele se reconhece na dança e reconhece como a dança o constitui.Pode-se dizer que a formação do eu e a formação no ballet são processos tão imbricados que constituem faces da mesma moeda; são inerentes.

Rodolfo, diferente da visão cartesiana apresentada no ballet, não dicotomiza corpo e mente. Ele expressa uma visão de totalidade sobre o movimento, que transformou à sua leitura do mundo, de si e dos outros. As possibilidades de se mover não se restringem a seu corpo, mas a esse corpo que se relaciona, que vive e que se comporta. Na dança que ele construiu e reconstruiu o conhecimento e se tornou um bailarino pesquisador, que valoriza a necessidade de formação continuada.