4.2 Tidligere beboeres situasjon
4.3.3 Oppsummering: Tidligere beboeres situasjon
Esta pesquisa adota o materialismo histórico-dialético como método. Iniciamos a exposição com uma breve apresentação desse pensamento que provocou profundas transformações no modo de conceber a realidade e ao mesmo tempo na pesquisa das ciências humanas. Marx (1818-1883) nasceu em Trier, na Renânia, doutorou-se em filosofia na Universidade de Jena, em 1841, período que marca o início de sua trajetória teórica. O diálogo com intelectuais que “dominavam” o pensamento ocidental e ao mesmo tempo a participação em associações e partidos políticos operários foram determinantes para sua obra, comprometida com a crítica teórica radical e sua militância política. A produção de Marx, de base materialista, é fundamentada no estudo da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês (NETTO, 2009). Esses foram os três pilares sobre os quais ele construiu seus pressupostos teórico-metodológicos e que possibilitou a análise da sociedade burguesa concreta. É importante ressaltar que, em princípio, a finalidade de Marx não era produzir uma teoria e/ou método, mas apreender o movimento da realidade e, sobretudo, transformá-la.
A compreensão marxista de teoria e método como unidade impede a leitura fragmentada desses elementos em suas obras. Segundo Netto (2009, p. 5), a teoria “[...] é o real reproduzido e interpretado no plano ideal (pensamento)”. O método é o que permite apreender a essência da realidade, ou seja, as múltiplas determinações que a constituem. Não há teoria sem método, assim como a teoria (como expressão ideal do real), em um processo dialético, norteia o método. Nas palavras de Lênin (1989, apud NETTO, 2009, p. 7), o interesse de Marx era “como conhecer um objeto real e determinado” e não “como conhecer”. O método torna possível o conhecimento (teórico) do objeto. Em outras palavras, não se faz teorização sem método; são ambos faces da mesma moeda.
Embora Marx não separe método e teoria, há concordância entre alguns autores de que determinadas obras apresentam mais explicitamente suas formulações metodológicas. São elas: Manuscritos de Kreuznach; A Ideologia Alemã; A Miséria da Filosofia e na Introdução, particularmente, n’O Método da Economia Política. Neste texto serão trabalhadas as três
últimas obras mencionadas.
Para compreender os postulados teórico-metodológicos de Marx é necessário, sobretudo, conhecer suas concepções de homem e de mundo, assim como as relações que se estabelecem entre elas. Marx nega as concepções idealistas (precisamente em Hegel) e
mecanicistas (Feuerbach), não no sentido puro da negação, mas para superá-las. Nessa perspectiva, para apreender a realidade em sua concentricidade não poderia ser adotado qualquer método. Marx e Engels (2012) compreendem a realidade como produto da atividade humana construída historicamente, ou seja, são as condições de existência, criadas pelo homem por meio de suas relações com a natureza e com outros homens que engendram o real. Dessa forma, a realidade “[...] não é uma coisa dada imediatamente por toda a eternidade e sempre igual a si mesma [...]”, mas “[...] um produto histórico, o resultado da atividade humana de toda uma série de gerações [...]” (p. 136).
A história não é fruto das ideias, assim como o materialismo também não o é (no sentido de existir) sem a história. Em outras palavras, a história é materialista e o materialismo é histórico, assim, estabelecem uma relação dialética, tornando-os inseparáveis. Para ilustrar esse pressuposto, Marx e Engels (2012) mencionam quatro momentos que elucidam as relações históricas originárias e que caracterizam o desenvolvimento humano. O primeiro ato histórico do homem é a produção dos meios para satisfazer suas necessidades básicas (comer, beber, vestir, morar etc.). O segundo é a criação de novas necessidades, mais complexas, que surgem a partir das primeiras (básicas). O terceiro ato é a procriação, em que ao satisfazer a necessidade de se relacionar, são criadas novas relações (constituição da família, outras relações sociais). E o quarto ato histórico é a produção coletiva, criando um “estado social” ou a sociabilidade. Esses momentos não ocorrem separadamente, mas um determina o outro de forma a complexificá-los.
Dessa forma, Marx compreende a história como produto da existência humana; logo, é resultado da atividade social do homem, direcionada à satisfação de suas necessidades. Nas palavras dos autores,
Mostra-se, portanto, desde o princípio, uma conexão materialista dos homens entre si, conexão que depende das necessidades e do modo de produção e que é tão antiga quanto os próprios homens – uma conexão que assume sempre novas formas e que apresenta, assim, uma “história” [...]. (MARX, ENGELS, 2012, p. 141).
Na concepção de homem e de mundo de Marx, o mundo é construído pelo homem que, ao construí-lo, também se transforma. O homem se humaniza pelo/no mundo, ou seja, ele se torna um ser essencialmente social na medida em que se relaciona com a natureza que ele, pelo trabalho, transforma. Marx e Engels expressam tais concepções, em suas obras, notadamente quando apresentam a consciência e a linguagem como uma conquista histórica, fruto da atividade humana. Para Marx e Engels (2012),
A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é a consciência real, prática, que existe para os outros homens e que, portanto, também existe para mim mesmo; e a linguagem nasce, tal como a consciência, do carecimento, da necessidade de intercâmbio com os outros homens. Desde o início, portanto, a consciência já é um produto social e continuará sendo enquanto existirem os homens (p. 141).
Em contraste, as ideias anteriores a Marx concebiam a consciência como expressão pura do pensamento, que se autodetermina, ou o reflexo da realidade transposta idealmente, na qual o sujeito é passivo. O indivíduo chega em um mundo historicamente construído e ao mesmo tempo em que se apropria dele também o ressignifica. Essa é a lei que rege a humanidade, a história. Ela é, para Marx e Engels (2012), a
[...] relação que cada geração recebe da geração passada, uma massa de forças produtivas, capitais e circunstâncias que, embora seja, por um lado, modificada pela nova geração, por outro lado prescreve a esta última suas próprias condições de vida e lhe confere um desenvolvimento determinado, um caráter especial - que, portanto, as circunstâncias fazendo os homens assim como os homens fazem as circunstâncias (p. 151).
A consciência é para Leontiev (1978) um processo psíquico que caracteriza o desenvolvimento humano. Nas palavras do autor, “[...] é o reflexo psíquico da realidade, refratada através do prisma das significações e dos conceitos linguísticos, elaborados socialmente” (LEONTIEV, 1978, p. 88, grifos do autor). Nesse sentido,
A consciência é capaz de discriminar, sem dissociar, as relações objetivas daquelas subjetivas, relações estas que são estabelecidas entre o homem e a realidade. O que permite tal distinção é o reflexo psíquico consciente, considerado como o produto das relações estabelecidas entre o homem e a realidade, de modo que o indivíduo é capaz de compreender o mundo para além da percepção imediata e se apropriar deste efetivamente. Todo esse processo é possível pelas construções socialmente elaboradas ao longo da história da humanidade e que propiciou no homem o surgimento dos processos psíquicos [...] (FÁTIMA; SILVA, 2013).
Assim, a consciência e a linguagem, são unidades que se constituem reciprocamente e surgem a partir da atividade do homem no mundo, precisamente, do trabalho. Para o autor, os elementos constitutivos da consciência são o conteúdo sensível, o significado e o sentido pessoal. O conteúdo sensível é as sensações, imagens perceptivas e representações; em outras palavras, é a base material da consciência que possibilita à realidade ser transposta idealmente, ou ainda, que lhe permite existir na dimensão subjetiva. Entretanto, ao abstrair o conteúdo sensível, ele se torna um reflexo mecânico. Para tanto, há outros elementos da consciência que traduzem a sua base material e que revelam a
dialeticidade entre o sujeito e a realidade, eles são o significado e sentido. Segundo Leontiev (1978),
A significação é a generalização da realidade que é cristalizada e fixada num vetor sensível, ordinariamente a palavra ou a locução. É a forma ideal, espiritual da cristalização da experiência e das práticas sociais da humanidade. A sua esfera das representações de uma sociedade, a sua ciência, a sua língua, existem enquanto sistemas de significações correspondentes. A significação pertence, portanto, antes de mais, ao mundo dos fenômenos objectivamente históricos (p. 94).
A significação, nesse aspecto, são os conceitos, regras e valores estabelecidos socialmente e que foram cristalizados na linguagem; logo, é ela que possibilita a transmissão de significados para as gerações posteriores e o avanço no conhecimento da realidade, já que o homem, nas relações sociais, se apropria do que foi construído anteriormente.
O sentido pessoal é o mais amplo, pois é a síntese do conteúdo sensível e significação articulado com as emoções, afetos e sentimentos. É o modo como o indivíduo percebe o objeto determinado pelas suas relações no mundo.
[...] o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. Como se sabe, em contextos diferentes, a palavras muda facilmente de sentido. O significado, ao contrário, é um ponto imóvel e imutável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra em diferentes contextos. Foi essa mudança de sentido que conseguimos estabelecer como fato fundamental na análise semântica da linguagem. O sentido real de uma palavra é inconstante (VIGOTSKI, 2001, p. 465).
Tal como aponta Fátima e Silva (2013)
o conteúdo sensível, significação e sentido pessoal estabelecem relações indissociáveis. As imagens perceptivas que constituem o conteúdo sensível são “traduzidas” pela significação, em que simultaneamente, essa imagem vai ocasionar algo particular para o indivíduo (sentido pessoal) (p. 131).
A arte (ao se pensar na dança), por exemplo, constitui-se de uma imagem perceptiva vinculada a ela (conteúdo sensível), que é significada como um meio de trabalho,
hobby ou contemplação e, ao mesmo tempo, possui regras e conceitos para se apropriar dela; de tal forma que emite, por meio da zona dos sentidos, sentimentos bons ou ruins dependendo das experiências ligadas a ela.
Diante dessas concepções, como apreender a realidade (e no caso de Marx, a sociedade burguesa) se esta não é para ele expressão do pensamento, assim como o pensamento não é puramente a realidade? Qual seria o método capaz de apreender esse homem e esse mundo que se constituem mutuamente em um processo dialético? Como
apropriar-se desse homem que constrói suas condições de vida, que constitui sua consciência em um processo ativo e recíproco? Como conhecer esse homem real e determinado, constituído histórica e socialmente?
Essas repostas não foram dadas imediatamente, mas por meio de uma construção, ao longo de sua trajetória de pesquisador. As formulações que respondem a essas perguntas constituem seus pressupostos teórico-metodológicos, cuja finalidade é elevar-se do abstrato ao concreto.
A realidade se manifesta no pensamento e nas relações cotidianas em forma de aparência, isto é, como resultado das determinações e não em seu processo constitutivo. A aparência não dá o conhecimento do objeto (em estudo), mas é o ponto de partida para ele.
O concreto é concreto, porque é síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso, o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação (MARX, 2012a, p. 255).
Ao negar as ideais até então vigentes, Marx supera-as, apresentando suas concepções de homem e de mundo fundamentadas no materialismo histórico-dialético33. A
concreticidade do real só pode ser conhecida em suas múltiplas determinações34, isto é, por
meio de seu processo constitutivo, que não se dá naturalmente. Por exemplo, a burguesia propunha uma sociedade fundamentada na igualdade, liberdade e fraternidade. Para conhecê- la (a sociedade burguesa), era necessário apreender a estrutura e a dinâmica em que se constituíram essas concepções. Não basta concebê-la no plano das ideias, mas ir além da aparência, do que é possível ver imediatamente. Marx e Engels (2012) afirmam
[...] se portanto, desconsiderarmos os indivíduos e as condições mundiais que constituem o fundamento dessas ideias, então poderemos dizer, por exemplo, que durante o tempo em que a aristocracia dominou dominaram os conceitos de honra, fidelidade etc. enquanto durante o domínio da burguesia dominaram os conceitos de liberdade, igualdade etc (p. 157).
Esses pressupostos permitiram a Marx concluir que seu objeto de estudo (sociedade burguesa) só poderia ser compreendido pela análise das condições materiais, isto é, a partir das leis que regem o modo de produção. Ele considera que, assim como o homem produz o alimento, ele também cria as relações sociais e estas são determinadas pelos meios de produção. Ao se reorganizar as forças produtivas, as relações sociais também se modificam. Engels (2008) ainda afirma que
33 O materialismo histórico-dialético foi apresentado sem o “e” intencionalmente. No sentido de não separá-los,
já que só podem ser compreendidos de modo articulado, como unidade.
[...] todas as relações sociais e estatais, todos os sistemas religiosos e jurídicos, todas as ideias teóricas que brotam na história somente podem ser compreendidas quando forem compreendidas as condições materiais de vida da época em questão e quando se conseguir explicar tudo aquilo por essas condições materiais [...] (p. 276).
Para Marx, “Os homens, ao estabelecerem as relações sociais de acordo com o desenvolvimento de sua produção material, criam também os princípios, as ideias e as categorias, em conformidade com suas relações sociais” (1976, p. 105). Então, em princípio, Marx propõe a apreensão da realidade a partir das categorias. Para ele, estudar o desenvolvimento da sociedade burguesa é estudar as categorias, pois elas são expressão teórica das relações de produção, por isso são consideradas por ele como categorias ontológicas, isto é, diz respeito ao ser no mundo. Essas concepções são apresentadas como críticas a Proudhon, que trata as categorias como princípios espontâneos, que independem do real e, ao mesmo tempo, ao método da Economia Política, que se apropria de tais princípios como dogmas e organiza-os baseados em uma sucessão lógica. Afirma Marx: “As categorias econômicas não são mais que expressões teóricas, abstrações das relações sociais de produção [...]. Portanto, essas ideias, essas categorias, são tão pouco eternas como as relações às quais servem de expressão. São produtos históricos e transitórios” (1976, pp. 104-105).
Dentre as categorias ontológicas apresentadas por Marx na análise da sociedade burguesa, algumas são consideradas nucleares e essenciais na apreensão da realidade qualquer que seja o objeto de estudo. Elas são: totalidade, mediação e contradição. A totalidade não é para Marx a soma das partes, mas um todo “estruturado e articulado” que comporta outras totalidades de menor grau de complexidade (NETTO, 2009). Este (grau de complexidade) não representa a importância (no sentido hierárquico) das totalidades, mas indica o quão (macro ou micro) são determinadas por outras. O todo só pode ser compreendido pelo movimento revelado nas contradições e pela mediação expressa nas relações que são constituintes da totalidade. A contradição não é para Marx o lado bom e mal de um todo, mas representa a unidade dos contrários. A totalidade comporta sempre uma negação em busca da superação: “A natureza dessas contradições, seus ritmos, as condições de seus limites, controles e soluções dependem da estrutura de cada totalidade [...]” e “também cabe à pesquisa descobri- las” (NETTO, 2009, p. 17). A mediação pode ser entendida como a dinâmica entre as totalidades. Nenhuma totalidade é constituída diretamente ou imediatamente; não é um reflexo ou uma relação mecânica, mas a determinação entre diferentes totalidades. A mediação também não provém do meio, ao contrário, ela é constituinte do fenômeno. O real só é conhecido quando são reveladas as mediações que o constitui. Ao conhecer as
contradições e as mediações da realidade é possível apreendê-la como uma totalidade concreta e, então, ascender, do abstrato ao concreto, isto é, atingir a essência do fenômeno.
Marx não produziu conhecimento em psicologia, mas deu condições para que os processos psicológicos fossem compreendidos e analisados a partir do materialismo histórico- dialético. Vigotski apropriou-se dos pressupostos marxistas para construir uma nova psicologia. Em seus estudos, buscou superar as concepções idealistas e mecanicistas, fundamentando sua produção nas proposições teóricas de Marx e Engels.
Lev Semionovich Vigotski, de origem judaica, nasceu em 1896, em Orsha, Bielo- Rússia, e cresceu em Gomel. Estudou direito na Universidade de Moscou e, simultaneamente, filosofia e história na Universidade Popular de Chaniavski. Anos depois ingressou no curso de Medicina em Moscou. Lecionou disciplinas tais como literatura, psicologia e pedagogia. Integrou o Instituto de Psicologia Experimental de Moscou e produziu importantes estudos relacionados à então denominada defectologia. É precursor da psicologia histórico-cultural e, apesar das obras interrompidas devido a sua morte prematura, em 1934, apresenta significativas contribuições para a compreensão do psiquismo humano (PRESTES; TUNES, 2011).
A psicologia histórico-cultural, também conhecida por Escola de Vigotski, tem suas origens na URSS, no início do século XX. Em busca de produzir conhecimentos que explicassem o psiquismo do homem concreto, necessário para a construção de um novo homem para a nova sociedade (pós-revolução russa), Vigotski adotou como base filosófica e teórico-metodológica o materialismo histórico-dialético a fim de compreender a estrutura e a dinâmica do psiquismo.
A psicologia histórico-cultural opõe-se às ideias que caracterizam o homem como dotado de aptidões inatas nas quais o meio é apenas uma fonte de aprimoramento. Segundo Bock (2011), “[...] já não podemos mais pensar a realidade social, econômica e cultural como algo exterior ao Homem, estranho ao mundo psicológico, que aparece como algo que o impede, o anula ou o desvirtua” (p.25). Sobre a relação entre indivíduo e meio, Vigotski (1991) menciona que “a abordagem dialética, admitindo a influência da natureza sobre o homem, afirma que o homem, por sua vez, age sobre a natureza e cria, através das mudanças provocadas por ele na natureza, novas condições naturais para sua existência” (pp. 69-70).
O homem é entendido como um ser histórico e sociocultural; por conseguinte, são as condições de vida e educação que possibilitam sua humanização. Em outras palavras, é a apropriação da cultura historicamente acumulada, pelo processo de aprendizagem, que garante ao homem as características tipicamente humanas (VIGOTSKI, 2000).
Para Vigotski (2000), as características tipicamente humanas - atenção voluntária, fala, memória semântica, ação voluntária e consciente, percepção significante e pensamento verbal-lógico - são designadas funções psicológicas superiores. Essas funções têm origem e se desenvolvem nas relações do indivíduo com o mundo e, ao mesmo tempo, em que o psiquismo se complexifica, suas ações também se tornam qualitativamente mais elaboradas.
Vigotski (2000) aponta, em seus estudos, a necessidade de superação dos métodos de pesquisa vigentes em sua época, uma vez que eles não conseguiam apreender de maneira concreta a conduta tipicamente humana. O autor revela sua preocupação em apreender o indivíduo em sua totalidade e não como a soma ou integração de elementos, sobretudo quando menciona que “[...] não é decompor o todo psicológico em partes e inclusive em fragmentos, mas destacar do conjunto psicológico integral determinadas características e momentos que conservem a primazia do todo (VIGOTSKI, 2000, pp. 99-100, tradução nossa)i.
As teorias psicológicas que se preocupavam em não fragmentar os processos psíquicos, acabavam por não transcender a pura descrição dos fenômenos. Dessa forma, Vigotski (2000) assinalou três princípios fundamentais para analisar o fenômeno psíquico: (1) distinguir a análise do processo e do produto final, em busca de apreender o objeto no seu processo de constituição, isto é, em movimento. Por outras palavras, “a análise do objeto deve contrapor-se à análise do processo, o qual, de fato, se reduz à explicação dinâmica dos momentos importantes que constituem a tendência histórica de dado processo” (p. 101, tradução nossa)ii. Nesse sentido conhecer o objeto em estudo é ir ao encontro da sua história;
só existem as partes porque elas correspondem a um todo, ou seja, é o todo quem confere às partes a sua coerência interna e o movimento próprio; logo, deve-se partir do processo para seus momentos isolados e não o contrário; (2) explicar, em vez de descrever, uma vez que somente a descrição não revela a essência dos fenômenos estudados, apenas sua aparência. Para Vigotski (2000),
[...] a verdadeira missão da análise em qualquer ciência é justamente a de revelar ou pôr em evidência as relações e nexos dinâmico-causais que constituem a base de todo fenômeno. Nesta proporção, a análise se converte de fato em explicação científica do fenômeno que se estuda e não somente sua descrição a partir do ponto de vista fenomênico (p.101, tradução nossa)iii. O objeto não é tal qual se manifesta. Ele é a síntese, portanto, que incorpora um processo que não está dado imediatamente. Ao buscar as contradições e mediações que a constituem (a síntese), o objeto é ressignificado, logo será percebido de um modo diferente.
Para tanto o autor propõe uma análise genética35 e fenotípica36, ou seja, que o fenômeno seja
apreendido por sua origem e desenvolvimento, dessa forma a aparência é explicada a partir