2.4 Matematikk i skolen: Læringsteoretisk, politisk og historisk
2.4.6 Tilpasset opplæring og spesialundervisning i matematikk; ulike tilnærminger . 75
Fonte: Nicole
Eu sou uma mulher normal, com uma vida profissional normal, casa e marido. Simplesmente gosto de ter os meus amigos, que conheço por aqui, com quem tenho sexo. O que tenho em mente... Não procuro muitos clientes, gosto de criar empatia e de me envolver no momento (por isso levo 250 euros por 1 hora). Sou desinibida, gosto realmente de sexo e excita-me particularmente ter sexo com desconhecidos. Não sei se correspondo de algum modo ao que procuras. Mas tu dir-me-ás....
Onde está o sociólogo neste processo contínuo de atracção, erotização, sedução e selecção?
Esta forma de prostituição apresenta-se ao investigador da mesma forma como aparece aos olhos de qualquer pessoa, homem ou mulher. O sociólogo confronta-se com imagens erótico-sexuais daquelas que serão pessoas-objecto de pesquisa. Isto é, o seu primeiro olhar para estas mulheres é, inevitavelmente, de carácter erótico e sexual.
O investigador fica obrigado a uma constante tradução do olhar. Este exercício é feito com auxilio de um diário de campo visual que, por um lado, permite recolher de forma automática as imagens das acompanhantes que maior interferência produzem no processo de pesquisa, fazendo o olhar sociológico navegar para o imaginário erótico-sexual. Por outro, partir dessas imagens para um exercício auto-reflexivo que permitisse traduzir a interferência erótica no processo de pesquisa em preocupações de carácter metodológico sobre o trabalho de terreno, nomeadamente em torno da forma como se delimita esse terreno e se condiciona a selecção de pessoas-objecto. De forma concreta, o diário de campo visual é um instrumento que ajuda a responder a perguntas simples mas a que o investigador não deve fugir: serão as imagens um obstáculo à pesquisa ou uma forma de motivação? Terão as imagens das acompanhantes capacidade de atracção, determinando quem ele irá contactar? De que forma a erotização inicial a partir dos anúncios afecta a relação de pesquisa?
Diário de campo Sempre que pesquiso mais um anúncio de uma acompanhante, sempre que procuro chegar ao contacto com mais uma acompanhante sou vítima da capacidade de atracção que estas mulheres e os seus anúncios têm sobre mim: homem, heterossexual e sociólogo. Muitas vezes dou por mim a navegar na net, passado de anúncio em anúncio, de site em site, percebendo que para além da motivação sociológica e da necessidade de encontrar parte dessa navegação é feita à luz do meu olhar sobre o corpos das acompanhantes – minhas potenciais futuras acompanhantes. Por que não dizê-lo, este é um olhar guiado pela atracção física, um olhar orientado pelo desejo e pela fantasia. Neste sentido, o sociólogo não será muito diferente do comum dos homens (clientes).
Mas, os anúncios, as fotografias, os vídeos e o seu potencial erótico ou a sua interferência erótica na investigação, são apenas a porta de entrada para a realidade. Se, por um lado, as imagens formatam e dão consistência ao terreno de pesquisa e à realidade prostitucional vivida quotidianamente por acompanhantes e clientes, por outro, “os temas que se deixam revelar pela fotografia possuem um estatuto ontológico muito matizado, e qualquer tentativa para legislar quanto à ordem da realidade assim representada arrisca-se a sofrer uma desilusão” (Goffman,1999: 155). As imagens enquanto objectos significantes revelam e congelam um instante de uma realidade. Neste sentido, as fotografias das acompanhantes contam uma realidade contida, congelada e captada num determinado instante, são um instantâneo, uma snapshot que conta alguma coisa acerca de dimensão
sexual da realidade. O que é diferente de assumir que as imagens reflectem fielmente essa dimensão da realidade.
A fotografia em si não interessa o que importa é a vida, diria Cartier-Bresson. Por isso, devemos olhar para estas imagens como quem olha indiscretamente para uma janela, percebendo que os anúncios e as imagens das acompanhantes são como os quadros de Edward Hoper que retractando a realidade quotidiana e dessacralizando o vivido, vivem permanentemente na angústia de olhar o interior e a intimidade a partir do exterior. Um olhar interrogativo sobre uma situação mundana que a torna intrigante e nos deixa indagar sobre as pessoas, o que vivem, o que fazem, o que pensam.
Será da dificuldade de relacionar interior e exterior que emerge a necessidade de entrar no objecto. Como acontece entre acompanhantes e clientes também para o sociólogo a base tecnológica desta forma de prostituição não substitui o encontro face-a-face e a interacção em co-presença no processo de pesquisa. Porque, só a entrada no terreno nos permite, quando voltamos ao ponto focal inicial, compreender aquilo que víamos. A etnografia acompanhada pelo método biográfico significa, precisamente, essa passagem do exterior para o interior. Isto é, da contemplação para o encontro com os outros, para a entrada na sua vida.
A entrada do sociólogo no terreno de pesquisa e o contacto inicial com as mulheres acompanhantes não difere muito da forma como clientes e acompanhantes estabelecem os seus primeiros contactos. Tal como eles, eu sou homem. Tal como eles, eu soube da existência destas mulheres porque as vi mais ou menos nuas em anúncios na internet. Tal como eles, entro em contacto com elas por telefone ou e-mail.
Literacia tecnológica e condições objectivas de trabalho
O recente desenvolvimento tecnológico e na sua utilização no comércio sexual tem sido frequentemente percebido uma nova forma de abuso e violência (Gillespie, 2000; Hughes, 2004). Estas posições descrevem o crescimento da prostituição facilitada pelo uso da internet como um meio global de abuso e exploração sexual das mulheres e de normalização do abuso e da violência (Hughes, 2001 e 2004). Contudo, este tipo de visões não permitem ver outros aspectos fundamentais, talvez os mais relevantes para os actuais desenvolvimentos da indústria sexual, e onde podem estar alojadas algumas das explicações para a persistência e surgimento de novas formas de trabalho sexual na prostituição, como é o caso específico das acompanhantes. De forma mais concreta, são posições que se tornam míopes para verem como a relação entre a indústria do sexo e a internet permite às mulheres acompanhantes controlarem o seu trabalho, as interacções com os clientes e, em certa medida, imporem as suas regras e padrões de actuação em contexto de uma sexualidade profissional (Sanders et al, 2009; Bersntein, 2007a; Coelho, 2009a; Oliveira e Coelho, 2010).
A tecnologização da actividade prostitucional tem consequências não só ao nível da expansão interaccional e erótica mas também ao nível das condições objectivas para o exercício da actividade ou
ainda no que diz respeito ao estabelecimento de novas bases de recrutamento de mulheres prostitutas e de homens clientes.
De forma genérica, podemos dizer que a internet veio alterar os padrões predominantes do comércio sexual, possibilitando novas oportunidades e benefícios para algumas trabalhadoras do sexo. As novas tecnologias oferecem novas possibilidades às trabalhadoras do sexo, sobretudo porque se afirmam como ferramentas de organização do trabalho e de optimização da sua actividade e remuneração. Para as acompanhantes tornou-se mais fácil trabalhar sem a intervenção de uma terceira pessoa, permitindo um elevado grau de independência na actividade e afastando alguns riscos associados à exploração económica, e aumentando os dividendos da actividade.
Continuando a um nível relativamente genérico podemos considerar que, por um lado, o mercado do sexo baseado na internet cresceu consideravelmente muito pelo efeito da entrada de novas e mais jovens mulheres para a actividade prostitucional. Estas mulheres, no momento da sua entrada na prostituição, decidiram usar a internet como plataforma privilegiada de divulgação da sua existência profissional. Isto é, as transformações tecnológicas e no modo de funcionamento podem ser entendidas como uma razão para a entrada no universo do trabalho prostitucional de mulheres das novas classes médias intelectuais (Bernstein, 2007a e 2007b), ou pelo menos, como atractivo para mulheres com origens sociais e backgrounds escolares e culturais disruptivos das teses que entendem a prostituição como um efeito da destituição material das mulheres. Por outro, é possível entender que esta forma de trabalho independente e discreto (por via das novas tecnologias) atrai clientes detentores de mais recursos económicos (Bernstein, 2007a, 2007b; Sanders, 2005a, 2005c e 2008; Sanders et al, 2009) dispostos a pagar valores mais elevados pelos seus serviços. Seleccionar homens com maior disponibilidade financeira tem outras vantagens, nomeadamente no que respeita às suas condições de segurança (Sanders, 2005a). Na medida em que, os anúncios situados na internet têm mais possibilidades de captar audiências masculinas das novas classes médias, dada a facilidade de acesso e o carácter comum da utilização destes meios tecnológicos por indivíduos nestas posições sociais (Sanders, 2005a).
O que se torna claro é que não conseguimos entender a forma como as novas tecnologias se conjugam com o trabalho sexual e, em particular, com as condições objectivas para o exercício da actividade das acompanhantes, sem percebermos que essas mudanças tecnológicas e a expansão desta forma de prostituição para o ciberespaço é socialmente situada.
Primeiro, a possibilidade de exercício da actividade prostitucional com graus de independência e autonomia mais alargadas e a emergência e consolidação do trabalho por conta própria de que as prostitutas acompanhantes são exemplo paradigmático (Bernstein, 2007a; Sanders, 2005a; Sanders et al, 2009) resulta, pelo menos parcialmente, da conjugação deste recrutamento junto das classes médias e da posse de competências e literacia tecnológica que tornam possível dispensar o envolvimento de terceiros, conduzindo a sua própria actividade com interferência mínima e aumentando o rendimento
do trabalho prostitucional e permitindo especializarem-se em tipos de clientela específica – homens- alvo (Bernstein, 2007a e 2007b; Sanders, 2005a).
Segundo, a literacia tecnológica e o acesso quotidiano às novas tecnologias de informação e comunicação são profundamente marcados por dimensões sociais e económicas estruturais que actuam de forma estruturante sobre as vidas de mulheres acompanhantes e homens clientes. De forma breve, a capacidade de aceder às tecnologias é determinada por razões objectivas, pela inserção no espaço social e pela posse de recursos económicos, escolares (Sanders, 2004b, 2005c).
Terceiro, como a literacia tecnológica é um recurso desigualmente distribuído e como essa desigualdade distributiva revela importantes clivagens sociais, o exercício independente e autónomo da actividade prostitucional baseada nas tecnologias traduz-se num indicador objectivo não só das condições de trabalho mas também de desigualdades entre as mulheres acompanhantes. As mulheres desprovidas de competências tecnológicas são excluídas dos lugares centrais desta forma de prostituição, ficando subalternizadas pelo exercício da actividade prostitucional como acompanhantes em regimes laborais por conta de outrem (espécie de assalariamento de base).
Clientes reunidos em comunidades imaginadas e virtuais
Uma das mais importantes transformações introduzidas pela expansão do quadro de interacção prostitucional para o ciberespaço está fortemente associada a processos de construção e consolidação de comunidades virtuais (Rheingold, 1993) ou comunidades imaginadas (Anderson, 1983). A internet permitiu o crescimento do comércio sexual não apenas pela possibilidade de fornecer aos clientes um acesso mais rápido e directo, mas também por facilitar a constituição de uma comunidade entre indivíduos que de outra forma seriam percebidos (e percebiam-se a si mesmos) como marginais ou inscritos em actividades desacreditadas (Bernstein, 2007b Sanders, 2005c e 2008; Lane, 2000; Sharp and Earle, 2003).
A internet permite aos clientes a criação de sites especializados na avaliação de acompanhantes e no debate de assuntos do interesse da clientela masculina (Bernstein, 2007b; Sanders, 2005c; 2008). Será na órbita deste tipo de sites que se consolidam as comunidades de homens clientes. Os homens clientes, em Portugal22 como noutros países, criaram e têm à sua disposição um fórum orientado pela vontade de promover a troca de informação acerca da prostituição, de mulheres prostitutas, de agências ou bordeis. Como na generalidade dos fórum na internet, as discussões são livres e abertas, podendo qualquer membro fazer o upload de comentários, avaliações ou sugestões acerca da prostituição ou de determinadas mulheres prostitutas, o debate é moderado pelos
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Em Portugal segue-se a tendência internacional inaugurada no Reino Unido em 1999 com a criação de um site e fórum de clientes chamado ‘punternet’. Tal como noutros países europeus, no caso português, este site original funciona como referência primordial.
administradores do fórum. Importa registar que as mulheres prostitutas acompanhantes também têm direito de acesso e participação no fórum, tendo espaços específicos para a sua apresentação comercial, mas também podendo participar em qualquer discussão activa ou lançar temas para debate.
Podemos pensar que este espaço virtual ganha o carácter de comunidade imaginada (Anderson, 1983) a partir do momento em que se torna significante para quem nele participa. Enquanto comunidade imaginada, este fórum de homens clientes torna-se significante ao permitir pensar o que é ser cliente, definir o que é ser um homem que recorre a acompanhantes, ou debater anonimamente com outros desconhecidos os problemas, desafios, dúvidas e angústias que afectam cada um de forma individual: do prazer sexual ao desgosto sentido com determinada acompanhante, a dúvida em torno de quem é verdadeiramente explorado (elas ou eles que pagam elevados valores pelos encontros?), do sentimento de instrumentalização e objectivação das mulheres ao medo de se apaixonarem por elas. O que estes debates revelam é que não haverá nada mais social do que os problemas pessoais, na exacta medida em que eles não são um exclusivo de um homem cliente mas antes algo partilhado e comum a outros indivíduos (Lahire, 2002 e 2004).
Ao mesmo tempo, este espaço de partilha anónima entre homens clientes, pode ser entendido como uma comunidade virtual, na medida em que o fórum de clientes se constitui como uma plataforma onde ocorrem interacções on-line com um carácter repetido entre homens que têm interesses comuns ou cujas identidades são particularmente contestadas (Rheingold, 1993). Mais, as discussões que aqui têm lugar duram o tempo suficiente para a formação de redes de relações pessoais no ciberespaço (Rheingold, 1993). Porque, em primeira instância, estes homens conhecem-se pelas suas alcunhas. Em segundo lugar, reconhecem-se porque partilham experiências semelhantes (Jones, 1995). Finalmente, porque percebem neste espaço interaccional no ciberespaço a segurança necessária para que a comunicação se desenrole sem terem de ser postas em prática estratégias de ocultação ou negação na indústria do sexo (Jones 1995), porque sabem que o anonimato relativamente às suas identidades fora do contexto do ciberespaço prostitucional está garantido.
Se no processo de narração das histórias sexuais, o processo de contar é tão importante quanto o conteúdo daquilo que se conta (Plummer, 1997), também não será menos verdade que não podemos ficar pelas ferramentas facilitadoras do discurso. Quando olhamos aquilo que se produz, a comunidade revela-se um lugar onde, paradoxalmente, coexistem movimentos de desconstrução e reprodução do que é ser cliente, mas sobretudo, do que é ser-se homem.
Por um lado, os homens clientes desconstroem premissas fundamentais da sua socialização masculina, rompendo com a ocultação das suas emoções (Aboim, 2010a; Seidler, 2006; Kimmel, 1996, 2005b e 2012; Connell, 1987 e 1995; Connell e Messerschmidt, 2005) e deixando de temer os outros homens com quem competem no espaço das masculinidades e aproveitando o anonimato do espaço interaccional aberto pelas novas tecnologias para exporem as suas emoções, sentimentos e incertezas. As conversas on-line onde homens clientes trocam experiências protegidos pelo anonimato, tornam-se numa forma de partilha e revelação dos aspectos emocionais implícitos nas relações sexuais
por dinheiro. Isto é, a comunidade virtual e imaginária revela-se um espaço onde se desmascaram as lutas que os homens têm com os seus próprios sentimentos por estarem a pagar por sexo. Na verdade, a comunidade virtual e imaginária revela-se produtora de ferramentas para os homens lidarem com o potencial estigma de se ser cliente, permitindo que o recurso a este tipo de serviços sexuais pagos possa ser experimentado sem a incorporação da culpa associada à ideia de que um cliente é um violador e explorador das mulheres, sem o sentimento de que estão a fazer a pior coisa do mundo. De igual forma, esta comunidade é também o espaço para alguns homens colocarem entre parenteses a sua incapacidade de encantamento e sedução de mulheres sem que tenham de lhes pagar.
Para o investigador, encontrar este tipo de discurso indagador e desconstrutivo indicia a abertura de um trilho de acesso aos homens clientes sempre tão inatingíveis no processo de pesquisa. Se os homens eram difíceis de encontrar, a verdade é que demonstram desejo de partilhar a sua vida, as suas emoções e este lado secreto da sua existência quotidiana (recurso a prostitutas acompanhantes).
Por outro lado, a comunidade virtual e imaginada dos clientes encerra em si um enorme potencial normativo e regulador que, em última análise, funciona como mecanismo de reprodução . O carácter conservador e normativo desta comunidade de clientes esconde-se em narrativas sobre experiências e encontros com prostitutas acompanhantes: os ‘field reports’ ou ‘test drives’. Estes relatos são escritos na primeira pessoa num estilo impressionista tendo, aparentemente, apenas como preocupação informar, partilhar o que aconteceu (incluindo descrições explícitas ao estilo de um conto pornográfico), com quem (identificação da acompanhante e as suas características físicas), onde (sítio de encontro, localização na cidade, facilidade de estacionamento), como (qual o valor do encontro, duração do serviço e outras condições, regras e restrições para o encontro) e porquê (quais as competências sexuais ou outras que fazem o encontro com uma determinada acompanhante recomendável).
A potência normativa contida nestes relatos deve-se, pelo menos em parte, ao facto deles fornecerem dicas sobre as maneiras gerais de comportamento de um homem com uma trabalhadora sexual (Sanders, 2005c), definindo referências para o comportamento, etiqueta e padrões gerais da interacção sexual entre cliente e prostituta. Isto é, a produção destas narrativas sexuais confessionais são uma parte significativa dos mecanismos de normalização dos comportamentos e desejos sexuais que os clientes utilizam. Esta normalização passa fundamentalmente pela construção do recurso à prostituição como um acto aceitável, não ameaçador e normal no quadro dos guiões sexuais masculinos. Num cenário largamente não regulamentado, esta capacidade normativa da comunidade virtual e imaginária de homens clientes ganha particular importância, revelando-se uma das poucas possibilidades para clientes e prostitutas de forma colectiva regularem o mercado (Sanders, 2005c), ou simplesmente, definirem aquilo que são e aquilo que fazem ou devem fazer enquanto acompanhantes ou clientes. Desta forma, entender estes relatos como uma forma de ciber-exploração, como descrições
degradantes, personificando a mercadorização e objectivação das mulheres (Hughes, 2001), revela-se uma interpretação apressada (Sanders, 2008; Sharp e Earle, 2003).
Mas, a capacidade normativa não se restringe a isto. Estes relatos pessoais fornecem prescrições sobre a sexualidade masculina, reforçando o vínculo entre sexualidade e masculinidade. Os ‘field reports’ ou ‘test drives’ acabam por ser mais sobre os próprios homens do que sobre as mulheres prostitutas acompanhantes que pretensamente avaliam, traduzindo-se em são narrativas textuais de selfs sexuais, funcionando como lendas de excitação sexual, prazer, vergonha, estigma, romance, experimentalismo, perigo, desapontamento e entusiasmo. São narrativas pessoais sobre a intimidade que encontram voz e audiência no ciberespaço.
Os relatos das experiências prostitucionais (field reports ou test drives) assumem contornos de narrativas de auto-afirmação em que os indivíduos criam o seu próprio mundo, ou uma esfera em que afirmam a sua existência pelo relato das experiências sexuais – eu existo pela sexualidade. São uma forma de exposição que implica um processo em que os indivíduos se transformam em objectos biográficos socialmente organizados, construindo lendas e contos em torno da sua intimidade – narrativas destinadas a serem lidas ou ouvidas por outros como testemunhos de complexos mundos sociais (Plummer, 1997).
Estes relatos pessoais são formas de afirmação da sua pertença a uma forma de masculinidade hegemónica (Connell, 1995;Connell e Messerschmidt, 2005) através da publicitação das suas competências sexuais e dos seus encontros sexuais. Estas performances públicas dos actos sexuais promovem auto-narrativas das performances sexuais num cenário aberto a quem quiser ler. São narrativas da vida real, contudo torna-se muito difícil distinguir as dimensões ficcionais, ou que derivam de fantasias sexuais, ou que correspondem a narrativas ideais para a construção de uma masculinidade adequada e bem posicionada no quadro competitivo das masculinidades, daquilo que realmente se passou no encontro entre homem cliente e mulher prostituta.
Muitos clientes, pese embora a sua prática possa assumir um registo contra-hegemónico, continuam, paradoxalmente, a reproduzir o sistema ideológico dominante por via de narrativas ficcionadas, através das quais omitem e/ou a manipulam, com algum sentido estratégico, elementos factuais e situações das suas vivências reais no contexto da prostituição. Nestes casos, os relatos das