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A passagem da religião para o mundo privado possibilitou a formação de uma esfera religiosa cada vez mais diferenciada e apartada das outras esferas da vida com suas particularidades e lógicas específicas. É, portanto, no processo de perdas e ganhos para a esfera religiosa (perda de hegemonia e ganho no enriquecimento de sua diversidade) que esta passa a se reorganizar na nova configuração social promovendo a liberdade religiosa.

A reorganização da relação entre público e privado, e a promoção do desenvolvimento do individualismo moderno, ou seja, no momento em que o indivíduo se torna capaz de pensar sobre a religião capacita-se também para criar e recriar a religião salvaguardando seus direitos individuais e seu gosto particular.

Liberdade religiosa refere-se, aqui especificamente, a oposição da idéia de religião que encontramos na Idade Média onde a Igreja tendia a identificar-se com o Estado e tinha poderes ilimitados, avançando pelas fronteiras de outros países. À medida que o processo de secularização avança e a diferenciação das esferas da vida se consolida, o Estado se mostra cada vez menos interessado em defender e/ou resguardar os antigos privilégios da Igreja. Wilson (1980, p. 137-142) chega a fazer referência ao abandono da terminologia

Igreja, no mundo moderno. Para ele, essa categoria só tem seu significado pleno na Idade

Média. No mundo moderno, a Igreja perde gradativamente seu poder e o novo ethos em vigor demanda e obriga o Estado a defender as vontades e a liberdade individual.

Os credos vão se tornando particulares, não somente em cada nação, como também no interior destas. O país que mais avança nesse processo é, sem dúvida, os Estados Unidos, que cimentam a liberdade religiosa na Constituição. Tocqueville é bastante perspicaz ao perceber que as transformações aceleradas na sociedade americana, inclusive as religiosas, tendiam a se disseminar para todo o resto do Ocidente.

Quando os interesses privados passam a ser defendidos pelo Estado moderno, a esfera religiosa, não somente, se amplia, mas também se complexifica; os indivíduos tornam-se mais livres para a participação nessa esfera e para a criação de novas alternativas. A tolerância religiosa pregada pelo Estado moderno incentiva também os movimentos dissentistas e o seu resultado óbvio é a ampliação de seitas e denominações por todas as partes dos países democráticos, mas, em especial, entre as novas nações.

Conclui-se que na esfera religiosa moderna os indivíduos agem de maneira livre, recriando as relações entre eles e o sagrado, havendo como pressuposto social garantido pelo Estado um determinado grau de liberdade e igualdade entre os agentes, entre as diversas religiões e entre as igrejas.

O desenvolvimento da esfera religiosa significou para a Sociologia uma mudança tanto interna quanto externa da vida religiosa. No momento, em que ela deixa de ser global, torna-se necessário seu estudo nesse mundo secularizado, pois os indivíduos possuem maior participação dentro dela como produtores e consumidores de bens de salvação. Não é por outra razão que o interesse sociológico sobre essas mudanças não deve restringir-se à mera descrição de suas mudanças. É necessário ver as conseqüências desse processo para a construção da própria sociedade moderna.

A ação social dos indivíduos é norteada, agora, por princípios de liberdade religiosa e por novos valores religiosos. Entre estes, a liberdade de pensamento torna-se condição essencial. É a guinada fundamental que imprime novos rumos nas relações entre os indivíduos e a religião.

Alguns elementos ainda precisam ser pontuados. Primeiro; o desenvolvimento do individualismo influenciou decididamente na nova relação entre a esfera religiosa e a sociedade. Segundo; a Reforma traz um novo ethos, cujo potencial modificou a relação do fiel com o sagrado. E terceiro, a esfera religiosa confere ao indivíduo uma maior autonomia e maior capacidade de desenvolvimento e inovação pessoal, abrindo as possibilidades para o desenvolvimento de gostos religiosos específicos.

Para Paiva (2003), apesar da concepção de indivíduo portador de direitos ter se originado na própria concepção judaico-cristã, esse potencial ficou preso e enclausurado até o final da Idade Média em um mundo indiferente, quando ainda predominava a visão orgânica do mundo onde a cada um estava assinalada uma função. Cabia aos homens apenas o desenvolvimento do papel que lhes fora ordenado por Deus antes de seu nascimento. Todavia, individualismo quebra com essa visão, pois, segundo a autora (ibid, p. 28):

É o resultado de um processo lento da passagem dessa visão orgânica do mundo – momento em que o indivíduo não tinha escolha fora da igreja e tudo se resumia a uma questão de ter mais ou menos crença – para um mundo que se abria aos poucos para a nova concepção de mundo inexistente até então.

Nesse novo momento social, em que reina o individualismo, a sociedade assume uma forma nunca vista antes, onde se expande a liberdade e autonomia. Haverá, certamente, uma mudança profunda dentro da própria esfera religiosa. O mundo organicista desmorona e cede lugar às relações baseadas na autonomia do sujeito passando a esfera religiosa a oferecer possibilidades e opções ao indivíduo com seus gostos particulares. Consolida-se a liberdade e o pluralismo torna-se crescente. O indivíduo surge com a possibilidade de ser agente produtor da religião. Dentro do campo protestante essas possibilidades tornam-se relevantes, pois o processo de modernidade está mais afinado com esses grupos. O Protestantismo torna-se a religião que mais desenvolveu este ideário no mundo moderno em termos de liberdade religiosa. Ele representa parte da esfera religiosa que melhor propiciou a liberdade imprimindo um novo sentido para a religião. Ora, se o individualismo, como afirma Turner (1991, p. 128), emerge da tradição protestante com ênfase na autonomia, liberdade e responsabilidade, é evidente que esses grupos religiosos causaram um aceleramento no ritmo de mudanças religiosas. Em nome desse ideário e inseridos em lutas constantes por ampliação da liberdade, o Protestantismo se fragmenta criando um leque de opções e um verdadeiro mercado religioso concorrencial.

As novas leis sobre liberdade, igualdade e individualidade que vão se estabelecendo e ampliando o conjunto de normas e costumes da sociedade nascente, vão também adquirindo contornos e representarão valores essenciais para essa esfera. A religião, como dito anteriormente, assume as características de seita (significando especificamente exclusão em oposição à idéia de igreja que representa o ideal de totalidade) e assunto em grande medida privado. A religião, como afirma Wilson (1980, p.142), torna-se uma questão individual e um assunto pessoal. E o Protestantismo mais do que qualquer outro movimento cristão incorpora esse ideário.

A importância sociológica dessas duas concepções de liberdade e igualdade vai significar valores imprescindíveis dentro da esfera religiosa, em especial entre os protestantes e suas ramificações. Liberdade é o pressuposto, o pano de fundo; e igualdade, a condição para que a esfera se diversifique. O mínimo de igualdade é o ponto crucial para a construção da autonomia e enriquecimento pessoal da dignidade do ser humano possibilitando uma maior participação na vida religiosa e com mais intensidade.

A liberdade religiosa propiciou ao Protestantismo a liberdade de pensamento, de opinião, de expressão e, particularmente, a liberdade de discordância. Diferentemente do direito cristão católico, dentro do Protestantismo não havia na obediência, no respeito e na hierarquia religiosa um caráter sagrado e inquestionável, mas sim a possibilidade, a partir desse ethos individualista, da liberdade e, também, da personalização religiosa.

Quanto mais a visão cosmocêntrica do Protestantismo se distancia da católica, mais intensamente aumentam os cismas religiosos e mais diversificada torna-se a subesfera religiosa evangélica. Weber argumenta que a liberdade de pensamento embutida na visão de mundo protestante é exacerbada no interior do Protestantismo praticado no novo mundo. Nessas congregações o indivíduo encontrou uma estrutura religiosa praticamente desprovida de dogmas (em seu sentido de resguardo da autoridade eclesiástica), próxima, organizacional e ideologicamente, das demais associações mundanas ou seculares. Pertencer a uma comunidade religiosa é semelhante a pertencer a um sindicato ou qualquer outra associação. Concomitantemente, montar uma organização religiosa (igreja ou congregação) não era tarefa para uma casta separada e poderia ser fundada também por homens comuns. A liberdade religiosa é o elemento essencial para o desenvolvimento do pluralismo religioso.