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Para Rodney Stark (2004), seres humanos buscam o que percebem ser recompensa e evitam o que percebem ser custos. A ação humana é, assim, direcionada por um complexo processamento de informação que funciona para identificar problemas e tentar solucioná-los. É importante salientar que Stark sempre levou em conta a existência de um componente cognitivo bastante explícito e significativo para compor a teoria da religião que ele se propôs a elaborar. Algumas recompensas desejadas são limitadas, outras sequer existem (no mundo físico). Associado ao conceito de recompensas, ele cria também o conceito de compensadores (STARK, 2004, p. 6).

Eu também introduzi a noção de compensadores, apesar de nunca ter gostado dessa palavra – por achar que ela traz conotações negativas implícitas. No entanto, não achei uma melhor que a pudesse substituir. Compensadores seriam como substitutos para recompensas desejadas. Ou seja, eles fornecem uma explicação sobre como a recompensa desejada (ou um equivalente) pode ser obtida, mas propõe um método de obtenção da recompensa que é, por sua vez, complexo e demorado. Geralmente a obtenção será no futuro distante ou mesmo em outra realidade, e a verdade da explicação será bastante difícil, se não impossível, de ser verificada com antecedência. Quando uma criança pede uma bicicleta e o pai propõe que ela deixe seu quarto limpo e não tire nenhuma nota baixa durante um ano, período após o qual ela ganhará seu presente, um compensador foi determinado no lugar da recompensa desejada. Pode-se distinguir compensadores de recompensas por que uma é a coisa desejada, e a outra é a proposta feita para que se ganhe a recompense.

Ainda na visão de Stark (ibid, p. 6):

Enquanto seres que buscam recompensas, os humanos irão sempre preferir a recompensa ao compensador, mas freqüentemente não se tem opção, já que algumas das coisas que queremos não podem ser obtidas em quantidade suficiente e, outras, às vezes, sequer podem ser obtidas, aqui e agora, por ninguém.(...) A maioria das pessoas deseja a imortalidade. Ninguém sabe como alcançá-la no aqui e no agora – a Fonte da Juventude continua sendo algo ilusório. Mas muitas religiões fornecem instruções sobre como essa recompensa em particular pode ser obtida em longo prazo. Quando o comportamento se pauta por esse conjunto de instruções, a pessoa aceitou o compensador. Dessa forma, se está também demonstrando comprometimento religioso, uma vez que as instruções sempre incluem certas exigências frente a frente com o divino. De fato, geralmente é necessário entrar em uma relação de troca em longo prazo com o divino e com instituições divinamente inspiradas, de maneira a seguir as instruções: as igrejas se baseiam nessas relações de troca.

Acrescenta Stark que pessoas poderosas ou ricas simplesmente buscarão as recompensas – luxo material, por exemplo. Pessoas que não ocupam tal posição tendem a aceitar compensadores que, por exemplo, lhes garantam a recompensa que se renunciarem de bens materiais nessa vida os obterão na outra. É isto que, sociologicamente, chamamos de “compromisso religioso sectário”. Essa forma de compromisso está intimamente ligada com as instituições religiosas do tipo igrejas.

As firmas religiosas consolidadas (essencialmente, igrejas), em baixa tensão com o meio social, fornecem recompensas de caráter social, econômico, estatal e político. Ela oferece à sua clientela um conjunto de elementos aceitos socialmente. “As recompensas remetem a uma sensação de maior pertencimento social, seja ao promover a socialização das crianças de acordo com as normas culturais ou morais, seja ao fornecer um determinado status aos indivíduos como membros participantes de uma organização religiosa específica” (OLIVEIRA E FOINA, 1999, p. 231-232). Desse modo, elas se opõem categoricamente (conceitualmente) às seitas com estruturas religiosas em alta tensão com o meio social.

Por outro lado, encontramos alguns concorrentes das igrejas que são os magos, especialistas em praticas mágicas ou especialistas no fornecimento de compensadores mágicos.

Dessa maneira, a teoria da escolha racional cria alguns postulados e estabelece algumas definições bem interessantes para o nosso estudo14. Dentre eles, destacaremos aqui doze:

Definição 18: Compensadores são postulações de recompensa de acordo com

explicações que não estão prontamente suscetíveis para uma avaliação não- ambígua.

Definição 19: Compensadores que se colocam no lugar de recompensas únicas e

específicas são chamados compensadores específicos.

Definição 20: Compensadores que substituem um conjunto de recompensar e

recompensas de escopo e valor amplos são chamados de compensadores gerais.

14 As proposições que seguem foram extraídas do texto de Rodney Stark. Trazendo a Teoria de Volta. Tradução de Rodrigo Inácio de Sá. In Revistas de Estudos da Religião. No. 4. 2004. p. 13, 14 e 15.

Definição 22: A Religião se refere à sistemas de compensadores gerais baseados

em assunções sobrenaturais15.

Definição 52: Magia se refere a compensadores específicos que prometem

providenciar recompensas desejadas desconsiderando evidências concernentes aos meios designados. Assim, os magos seriam especialistas em cultura cuja principal atividade é providenciar compensadores específicos.

Proposição 91: A magia é mais suscetível à falsificação do que a religião.

Proposição 92: Não é do interesse dos especialistas religiosos arriscar que os

compensadores que fornecem caiam em descrédito. Por isso acrescenta Stark:

Proposição 93: Especialistas religiosos, ao longo do tempo, tendem a reduzir a

quantidade de magia que fornecem.

Proposição 94: Na medida em que a demanda por magia continua, mesmo após os

especialistas religiosos terem parado de fornecê-la, outros se especializarão em fornecê-la.

Proposição 95: Os papéis dos especialistas religiosos e dos magos tendem a serem

diferenciados, da mesma maneira que, geralmente também, tendem a cultura religiosa e mágica.

Proposição 99: Magos são bem menos poderosos que especialistas religiosos.

Se, por algum motivo, as instituições religiosas predominantes em uma sociedade continuarem a oferecer sua própria marca de magia (como era o caso da Igreja Medieval, mas também o caso brasileiro da IURD), Stark (2004, p.15) deduz na Proposição 104: “(...) A religião... tenderá a combater a magia fora de seu sistema”. Isso explica julgamentos de bruxaria na Idade Média, por exemplo, ou a condenação da IURD às praticas mágicas das religiões afro-brasileiras. Já apontamos alguns elementos acima, mas é importante aprofundarmos a relação entre oferta e demanda dentro de uma economia religiosa.

15 Stark nota quedentre as recompensas de maior escopo, estão as explicações acerca da condição humana: a vida tem um propósito? Por que estamos aqui? O que podemos esperar? A morte é o fim? Por que sofremos? Existe justiça? Como o universo surgiu? Ademais, respostas para perguntas como essas constituem o que geralmente é chamado de Teologia.