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Figura 6: Crianças brincam e comem doces no terreiro

Festa de criança é marcada pelas brincadeiras: roda, ciranda, trenzinho, cambalhotas e algumas danações. Os erês na umbanda representam espíritos que desencarnaram jovens, não necessariamente na idade que hoje consideramos como própria à infância; há quem diga que alguns erês, como a Tapuia menina, é na verdade uma moça já com 17 ou 18 anos de idade, porém ainda infantil devido à inocência da época em que viveu na terra.

Sabemos, entretanto, que tal informação é controversa, pois a concepção de infância é um fenômeno moderno, bem como o que é considerado próprio das crianças. A explicação dentro da doutrina é que, espiritualmente, quem desencarna jovem teve pouco tempo para a evolução, de forma que carrega traços jovens.

Quem pensa que os erês chegam ao terreiro para brincar, engana-se. A linha das crianças na umbanda é considerada uma das mais fortes e perigosas, pois tais espíritos parecem agir naturalmente por impulso e diversão, sem o discernimento moral do que é certo e errado; dessa forma, são constantemente vigiados em seus trabalhos, pois podem

prejudicar alguém por brincadeira.

É raro o Pai de Santo incorporar tais entidades. Ele diz que no início de toda gira firma o ponto do terreiro de forma que não trabalhe com os erês, pois as crianças que recebe são por demais peraltas: gostam de subir em árvores, correr para esconder-se nos recantos da casa e comem muitos doces, divertindo-se ao lambuzar a assistência e o

cavalo com mel, refrigerante ou garapa.

Assim, poucas vezes vi o zelador da casa incorporado com crianças. Isso ocorre uma vez ao ano, no dia dos erês, comemorado próximo ao dia de Cosme e Damião, os gêmeos da Igreja Católica condenados precocemente à morte por exerceram a medicina pela fé, sem cobrar dos fiéis. Os relatos mais comuns de sua história contam que foram acusados de bruxaria, sendo degolados.

A batida para as crianças do ano de 2012 foi no dia 29 de setembro. Particularmente, não é uma data por mim muito apreciada, pois acho as giras cansativas e é difícil cambonar certas entidades, pois elas são teimosas, algumas não dominam o idioma de forma a se fazerem inteligíveis e aparentam sempre estar zombando dos filhos de santo e da assistência, de maneira que sempre parece arriscado tentar distinguir o momento do trabalho sério das brincadeiras; são entidades muito ambíguas e cheias de vontade.

Nos preparativos, muitos bombons, chocolates e pirulitos foram arrumados em um recipiente grande de palha. Bolos e tortas foram levados por filhos de santo, um deles com a imagem de Cosme e Damião. Muitos refrigerantes foram gelados, mel e água de coco separados para o momento da gira. Algumas frutas também, como maracujá e goiaba, preferências respectivamente da Menina do Maracujá e da Tapuia, uma indiazinha. Os doces foram posicionados à frente do altar entre as imagens de um Preto e uma Preta Velha. O ponto foi firmado com velas brancas. Os médiuns tem a permissão de usarem adereços ou peças de roupas em tons rosados, a cor das crianças. A gira inicia com a saudação à linha de Cosme e Damião, puxada pela ogã e o Pai de Santo enquanto os filhos entram no terreiro, recebem as guias e posicionam-se em seus respectivos locais. Instruções são dadas aos cambones e à corrente. Dentre elas, o Pai de Santo pergunta sobre a cachaça, que ainda não estava no terreiro e pede para levá-la.

Não é comum as crianças ingerirem bebidas alcoólicas. A preferência é por mel, guaranás, garapas de água com açúcar, água de coco ou a combinação destas, como a água de coco adoçada com mel. Apenas algumas, a depender da firmação do médium e

do trabalho que esteja sendo feito, tem permissão para beber e fumar, ainda assim em pequenas quantidades, como que só para atender um capricho.

Faz parte de suas danações pedirem bebidas com álcool e cigarros, ao que geralmente não são atendidas sob as reprimendas de que “você não pode, é coisa de adulto”. A resposta que se segue é malcriada e sucedem imitações de bêbados ou gestos como se estivessem fumando, o que acarreta risadas e transforma o clima de tenso à risível.

Após os ritos de abertura, a oração realizada pelo Pai de Santo é:

Oxalá, meu Pai. Hoje é dia de festa, dia de criança... Pedimos mais uma vez a tua força, a tua luz, a tua ajuda para que possamos girar em nome do bem e da caridade fazendo o bem àqueles que aqui vieram buscar o bem. Pedindo a todos os orixás, a todos os pretos velhos, a todas as pretas velhas também, que segunda feira, né... Vai chegar a netinha lá e pedir que as crianças deem força, muita luz, que os pretos velhos sigam a mão dos médicos para que façam um bom parto, que ela venha com saúde, muita felicidade... E hoje, vamos bater pras crianças, né? Uma criança tá chegando. Que as crianças vem para poder dar sempre muita inteligência, muita paz, muito amor para que ela possa ser uma grande mulher.

A oração referia-se à netinha do Pai de Santo que nasceria na semana seguinte e recebeu muitas orações ao longo de toda a gestação, embora os pais da criança não frequentassem o centro ou ao menos simpatizassem com ele.

Os trabalhos sobre os erês de umbanda não são numerosos. Os que se detém nas crianças como ponto de análise centram suas observações nas questões de educação/socialidade (BERGO, 2011) ou da marginalização do universo infantil (BAIRRÃO, 2004; 2009).

Em nosso centro, os erês aparecem, em geral, desvinculados de tais funções educativas ou minoritárias. Vêm como crianças tais quais a noção do senso comum, que gostam de brincar e comer doces, teimosas mas em geral obedientes. Estão vinculadas às linhas dos orixás maiores, conforme descreve Barros (2012):

Esses guias apresentam-se como personagens infantis alegres e brincalhões, sempre denotando infantilidade em suas ações. […] não possuem nem senso de moral nem de responsabilidade, por isso, fazem “brincadeiras”, nem sempre inocentes, mas que se explicam pelo fato de que “ainda não cresceram” e que não fazem suas travessuras por maldade. […] É possível também perceber na “giras” rituais essas entidades são consideradas “pequenos selvagens” no interior do domínio civilizado. (p.302).

vistos como delinquentes e maus, que “[...] apesar de sua pouca idade são considerados exus crianças. Acredita-se que esses espíritos infantis viveram nas ruas, afastaram-se das relações familiares já em idade tenra e foram expostos às mais perversas formas de discriminação social, além dos riscos de violência das grandes cidades” (p.314). Tal linha não trabalha em nosso terreiro e, quando perguntei sobre os exus-mirins na umbanda, o Pai de Santo respondeu, em tom de galhofa, que os mirins que ele conhecia eram só os que realizavam roubos e furtos nos semáforos e no centro da cidade.

É interessante perceber o descaso dos religiosos para com os estudos pretensiosamente científicos sobre a doutrina da umbanda, suas linhas e entidades. No geral, o que percebo no discurso de minha família de santo é não uma desconfiança, mas um descrédito acerca de trabalhos como o que venho desenvolvendo, no geral acusando os pesquisadores de exporem o que lhes promove enquanto cientistas e não o que corresponde à realidade da religião.

Seguros que são de que o modo de funcionamento de seus centros é o mais correto, embora não o único possível, tudo que diverge é encarado como leviandade ou charlatanismo, informações incorretas que, na melhor das hipóteses, pelo menos divulgam a religião e podem, em certa medida, dar-lhes um ar mais sério.

Figura 7: Médium incorporado com erê (à direita) lambuza filha de santo.

Em gira de criança, é o tom de brincadeira e leveza que predomina. É curioso observar que, quando incorporados, os médiuns tendem a minimizar as desavenças pessoais: neste dia, pessoas que costumam não interagir em tom pacífico de mãos dadas giraram na ciranda, repartiram bombons e em coro entoaram o “piuííiii” do trem que simulavam andar, com as mãos sobre os ombros umas das outras. Pirulitos passavam pelas bocas, garapas eram trocadas e guloseimas negociadas.

Foi um dos últimos momentos, do período recortado para esta narrativa, que tudo ocorreu sem maiores imprevistos ou indisposições. A partir desta data, com o nascimento da neta do Pai de Santo, a configuração hierárquica do terreiro alterou-se e o novo modelo favoreceu alguns, mas não todos os frequentadores do centro. Nos tópicos que se seguem, iniciarei a ênfase nas relações e conflitos do centro, dando continuidade ao calendário festivo anual e apresentando em maiores detalhes o perfil de meus interlocutores.