3.4 Resultatkvalitet
3.4.4 Arbeidsmarkedsmuligheter, økonomisk-administrativ utdanning og lektorutdanning
Iemanjá é a senhora das águas salgadas. É a orixá mais popular do Brasil, tendo sua festa em várias capitais amplamente divulgadas e conta, em certa medida, com a complacência de fiéis de outras religiões que a admiram enquanto fenômeno cultural ou folclórico, de forma que podemos supor que sua imagem se encontra mais associada ao nosso universo lendário, como a Mãe D´água (CASCUDO, 2001) do que com as religiões de matriz africana.
Em Fortaleza ela é celebrada em 15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Assunção, a padroeira do município. É feriado, o que contribui para que as praias estejam lotadas de fiéis, turistas e da comunidade local em busca de lazer. No ano de 2012, a Associação Espírita de Umbanda São Miguel organizou, na véspera (dia 14), o início dos festejos. Na Praia do Futuro, a partir das 20h, aglomeram-se os terreiros, alguns luxuosos, outros humildes e há a abertura oficial dos trabalhos.
Tal evento contempla tanto anseios políticos, de afirmação e reconhecimento da religião, quanto o desejo de alguns centros em participarem de um ritual mais organizado, com menos pessoas e mais asséptico em geral. Embora a entrega da barquinha à meia noite conte com um número razoável de fiéis, não chega aos pés da quantidade de pessoas presentes ao longo do dia 15; nesta ocasião, terreiros da capital e do interior reúnem-se, juntando-se à malta de populares, curiosos e imprensa que participam da assistência do festejo. Nosso Pai de Santo afirma veementemente não gostar, não concordar e sobretudo não participar desta festa diurna, a qual ele considera profana:
“Quem não foi pra praia, ou quem foi e bebeu demais, não era pra ter feito isso.
Ontem o que eu vi de gente bêbada... Meia noite estávamos na praia, o que tinha de cabra embriagado... [...] Isso é bater pra Iemanjá, é? Tinha um terreiro lá que tava batendo pro catimbó do Maranhão! São essas coisas que eu não concordo... Iemanjá é Iemanjá. [...] Eu não gosto de certas coisas que se faz na umbanda. [...] É Iemanjá de vermelho, bebendo cachaça, eu não concordo. Agora quem quiser ir, vá.”
Tal discurso foi proferido na abertura da batida para Iemanjá, ocorrida no feriado que caiu em uma quarta-feira; na semana houve, portanto, duas giras. Na véspera alguns filhos de santo, inclusive eu, participaram da cerimônia na praia, mas como assistentes.
Diferente da maioria dos terreiros, não fomos com atabaques ou roupas de santo. Levamos as guias de todos da Centro, para lavá-las na águas de Iemanjá, energizando- as. Quem deu o ar da graça para lavar as guias e nossas coroas foi Seu Zé Pelintra, sério e mudo incorporado no Pai de Santo. Despediu-se e foi embora rapidamente.
À meia noite, o barco de Iemanjá é entregue no mar. Rosas brancas, champanhe, perfumes e frutas são lançados gentilmente às águas acompanhados de pedidos, promessas e agradecimentos. É um momento bonito, que foi atrapalhado por um grupo de protestantes vestidos de preto que caminhavam de uma ponta à outra da praia entoando hinos de louvor nos quais condenavam Iemanjá, amaldiçoavam os seguidores da umbanda e por fim enterravam nossa rainha nas profundezas. Ninguém pareceu lhes dar muita importância, exceto a polícia que passou a escoltá-los, descuidando da segurança do restante do evento.
Vagner Gonçalves (2007), em coletânea de textos que discute a intolerância com os cultos afro, destaca que práticas como a descrita acima são muitas vezes planejadas e incentivadas, não sendo raras de ocorrer. O autor destaca, dentre as modalidades comuns de ataque, que
Quando as atividades religiosas (festas de orixá, oferendas, procissões etc.) são feitas em lugares públicos (praias, matas, cachoeiras, ruas, largos e ginásios), os adeptos ficam mais expostos a ataques, que englobam desde a simples distribuição aos presentes de panfletos com propaganda contra esses cultos até a tentativa de interrupção forçada dos rituais. (GONÇALVES, 2007, p.14).
No dia 15 houve, portanto, a batida para Iemanjá no terreiro. Iniciou por volta das 16h e os filhos de santo trajavam as roupas brancas de costume com adornos em azul claro. O altar estava enfeitado com rosas brancas, o ponto foi firmado com velas azuis e oferendas como manjar de milho branco foram arriadas.
Iemanjá representa a feminilidade, as origens da vida e da morte, pois é dona do maior cemitério da humanidade: o mar. Suas lendas remetem à maternidade dolorida, pois conta com episódios envolvendo abusos e muitas lágrimas. Na umbanda, suas entidades logicamente vem na linha do mar, realizando saudações como “é mar, é
maresia!” quando chegam ao terreiro. Os trabalhos de Iemanjá contam com a presença das princesas e sereias encantadas do mar.
Uma princesa das águas recorrente e querida é Mariana, que usa faixa azul e dança com os braços em movimento de ondas. No imaginário maranhense, de acordo com os trabalhos de Prandi (1997) e Ferretti (2008), ela faria parte de uma realeza que desembarcou no Brasil, passando a compor as encantadas do Maranhão juntamente com
as senhoras da Jurema. É uma mescla de turca e índia com fortes referências ao mar, cantando assim:
No mar tem dois navios Navio tem dois faróis Salve a bandeira da marinha brasileira
Lá na praia dos lençóis Mariana Filha da terra e do sol
Mariana Minha morada é na Praia do Lençol Entrei de mar adentro pra brigar com tubarão Se meu pai é rei de Moura Ele é mouro, eu sou mourão Em meu castelo de areia Cheio de Pedrinha Azul Sendo eu uma fada encantada
Moro na América do Sul
Mariana é considerada dona de muitas Casa de Mina, nas quais realiza trabalhos de cura e é bastante popular. No Maranhão, como no Ceará, essa entidade passou a ser frequência comum na umbanda. Martins (2011) investigou sua presença em centros de umbanda em São Paulo, entrevistando-a:
Quando pergunto como começou a trabalhar na umbanda, ela me explica que houve muitos filhos que “foram procurar” […] E acrescenta que não são todos os médiuns que trabalham com a encantaria, porque “tem coroa que está aberta para trabalhar com encantaria e tem coroa que não está aberta para trabalhar com encantaria, só com Iemanjá”. Além disso, segundo Mariana, os encantados se adaptam para poderem trabalhar em conjunto com qualquer outra linha da umbanda e ela, que se encantou no mar, gosta de trabalhar mais na linha dos marinheiros. (MARTINS, 2011, p. 72).
Dessa forma, a princesa turca encantada aparece tanto junto com os Oguns quanto com Iemanjá, fazendo companhia aos marinheiros. Nobre que é, não bebe; no máximo sustenta taças com bebidas delicadas, ofertando pequenos goles à assistência e após sua passagem na gira, deixa-a aos pés de sua imagem como oferenda.
Iemanjá, bem como as demais senhoras como Oxum, Iansã e Nanã, bebem pouco ou nada quando incorporadas. Suas filhas, as sereias e as princesas, com as quais nutrem grande afinidade, tendem a reproduzir o comportamento. Em gira de Senhoras, ao fim do ritual os pés de suas imagens estão repletos de taças cheias de champanhes, licores, vinho branco ou ainda cerveja preta no caso de Iansã, devido a sua proximidade
com Xangô.
Dada essa característica, torna-se mais clara a fala do Pai de Santo no início da batida. Seguindo essa linha de argumentação, é para ele muito grave Iemanjá bebendo cachaça à beira-mar. A presença de Oguns, marinheiros e princesas é permitida, mas nunca a de Exus ou feiticeiros, como ele relata. Muito menos o abuso de bebidas.
A licença dos médiuns para pedir bebida quando incorporados com tais entidades e comportar-se com elas de acordo com as diretrizes citadas é uma maneira de provar, perante os participantes cientes de tais normas, de que suas entidades são sérias e verdadeiras. A bebida funciona como agente regulador das relações com o sagrado, evidenciando o conhecimento do médium sobre a entidade em seus gostos e costumes.
Certa feita, um rapaz foi bastante criticado por ter trabalhado com Mariana como se esta fosse uma Pomba-Gira, com trejeitos sensuais, saia levantada e bebendo champanhe; inadmissível para uma princesa! Elas são delicadas e femininas, porém sem o erotismo das Pomba Giras. Se estas vangloriam-se por conhecer os mistérios da sedução, as princesas remetem ao ideal de pureza. Seus pontos cantados não insinuam namoros e sim meiguices de menina, como um cabelo comprido à beira d´água17 ou uma rosa branca no fundo do mar18.
Às mulheres que incorporam é muita cara a possessão com tais entidades, especialmente na hora de despertar; uma princesa para fazer o aparelho tornar à terra garante que o cavalo fique limpo após os trabalhos, principalmente se forem trabalhos com exus e Pomba Giras. Tal versatilidade do médium mostra a capacidade de sua coroa, que pode provocar e seduzir, mas também pode ser pura.
É raro, com já foi dito, um médium sair do transe com alguma entidade que costume beber. Quando isto ocorre, é considerado um erro e a pena é passar a semana sentindo-se embriagado. Um canto comum de despertar é da Princesa Lírio: Princesa
Lírio chegou/Chegou e vem trabalhar/Trazendo a força do encanto/Pra essa ave acordar.
A vigilância nesse sentido é constante. Após cantar com Princesa Lírio ou qualquer outra entidade de despertar, o médium invariavelmente deve despertar e não mais entrar em transe. Caso isso não ocorra, os comentários insinuando fingimento são invevitáveis, especialmente no caso dos médiuns quizilados.
17 Ponto da Cabocla Janaína, uma encantada: Eu vi a moça na beira d´agua/Solte os cabelos, Janaína, caia n´água/Janaína, sou uma princesa real/Sou encantada lá no alto mar.
18 Ponto da Princesa Rosa Branca: Rola, rola as pedrinhas na areia / Rola, rola, as que querem rolar / Eu sou uma Princesa / Rosa Branca lá no mar.