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Studieprogram

2.2 Lærested

2.2.1 Studieprogram

O cântico de abertura é o momento de pedir permissão para girar. Deus, em

algumas nações de Umbanda, é denominado Zambi; o cântico, então, pede licença à Zambi para abrir o Caicó - sinônimo de gira. A letra é:

Auê auê babá Eu vou abrir meu Caicó Eu vou pedir licença à Zambi para abrir meu Caicó É na fé do meu/minha (cita o nome do orixá ou do caboclo) Eu vou abrir meu Caicó

Este cântico possui uma ordem, iniciando por Oxalá e finalizando com Exu. Na última estrofe, quando já se pediu permissão a todos, é cantado “eu já abri meu Caicó/eu já pedi licença a Zambi para abrir meu Caicó/Foi na fé dos meus Orixás/eu já abri meu Caicó”.

Caso haja algum ajuste a ser feito, como mudar alguém de local, incluir um assistente na corrente, corrigir uma postura ou necessidade de mudar de roupa (não se deve permanecer com roupas escuras no terreiro), estes são realizados neste momento. Geralmente há “puxões de orelha” vinculados à baixa entonação ou descompasso das palmas, o que dificulta o trabalho das ogãs, que acabam sendo por demais exigidas devido às faltas do restante da corrente.

A importância de cantar e dançar (também dito baiar, provavelmente corruptela para bailar) na Umbanda chamam a atenção, tanto é que a exploração dos pontos cantados é um importante aspecto destes escritos. É consensual entre meus

interlocutores e qualquer adepto de religiões afro-brasileiras que, quando se canta e baia com ou para a entidade, esta recebe mais força e melhor realiza seu trabalho.

Acompanhar no ritmo, com palmas, dançando e cantando é uma das maneiras mais eficazes de garantir a concretização de qualquer evento, ou seja, não necessariamente uma cura ou um desmanche, mas simplesmente um convite e um pedido - no caso da abertura, quanto em melhor sintonia esteja a corrente mediúnica, maior será a aproximação dos guias e com "melhores olhos" serão vistos os trabalhos da casa pelas entidades. Mauss (2009) nos fala sobre a prece, ponto comum entre a maioria das religiões, estando presente inclusive em ocasiões não religiosas. O autor afirma que ao observar as relações dos indivíduos religiosos com suas orações, é possível localizar o estágio de amadurecimento de uma religião, pois “os progressos da prece são, em parte, os da religião” (p.232). Isto porque, uma vez internalizados gestos, palavras e linguagens corporais e simbólicas que se relacionam diretamente com a prece, pode se deduzir que tais signos já fazem parte do cotidiano religioso, já possui sua eficácia garantida, ou seja, já percorreu o percurso que vai do rito gestual coletivo ao rito individual no pensamento. O autor atribui às formas mais primitivas de religiosidade as preces coletivas, posto que as orações possuem relação íntima com o mito e os ritos, por sua vez, exprimem-no e reforçam-no.

Em primeiro lugar, a prece é o ponto de convergência de um grande número de fenômenos religiosos. Mais do que qualquer outro sistema de fatos, participa, ao mesmo tempo, da natureza do rito e da natureza da crença. É um rito, pois é uma atitude assumida, um ato realizado em vista de coisas sagradas. Ela se dirige a uma divindade e a influencia; consiste em movimentos materiais dos quais se esperam resultados. Mas, ao mesmo tempo, toda oração é sempre, em certo grau um Credo. (MAUSS, 2009, p.230, grifo do autor).

Isto posto, podemos afirmar que a eficácia da oração é garantida quando posta em prática, quando o corpo exprime ou repete ações de mitos que fundamentam aquela crença. Dançar com gestos que remetem à história de orixás ao som de corimbas que contam seus feitos heróicos, por exemplo, é sem dúvida uma forma de prece: “De um lado, o mito não tem quase realidade se não estiver ligado a um uso determinado de culto; e, de outro, o rito quase não tem valor se não implicar o emprego de certas crenças” (p.231). Em 25 de agosto de 2012, em uma reunião de quarta-feira, essa foi a fala do Pai de Santo, em tom de reclamação:

Quanto mais você louva a entidade, quanto mais canta.... Eu não aguento bater palma, porque eu fui acidentado. Quem não sabe cantar, pelo menos bate palma. Tem gente que vem pra gira e fica só olhando. Por isso que às vezes eu pergunto o que é que vem fazer no terreiro. Numa igreja tem o padre e tem os ministros pra ajudar o padre. Os evangélicos tão lá, pode olhar que tá cheio de obreiro ajudando o pastor, mas aqui não tem ninguém pra ajudar o Pai de santo. Toda religião existe, tem os outros pra ajudarem... [...] Dança pro caboclo, no ritmo do caboclo! Porque cada um tem um ritmo que você tem que bater, até o pé que você bate no chão faz parte da corrente. E firma muito mais a corrente.

A contribuição de Mauss aos estudos da prece vai além dos anteriores realizados por historiadores, filósofos e teólogos por atentar a uma dimensão ainda não cogitada ou tida como de pouca importância: suas origens e eficácia não somente simbólica, mas também prática. Se para o primeiro grupo de profissionais a prece é descrita sem maiores problematizações, embora muito bem delimitada espaço-temporalmente, para os segundos a questão remete a um senso de humanidade universal, no qual a oração expressaria tão somente mais uma vertente de possibilidade da introspecção; neste ponto, assemelham-se aos teólogos, que mais descrevem do que analisam a questão à luz de suas próprias crenças. O autor nos diz que a prece é, antes de tudo, social – ainda quando realizada de maneira individual e com ausência de gestos, como na oração mental. É social por ter sido, até alcançar seu formato subjetivo, moldada a manter seu caráter ritual, pois os vocativos, expressões, palavras e nível de atenção são diferenciados no momento da oração.

Mas quando dizemos que a oração é um fenômeno social, não queremos dizer que ela não é em nenhum grau um fenômeno individual. Interpretar assim nossa tese seria compreendê-la mal. Não pensamos que a sociedade, a religião, a prece sejam coisas extraordinárias, sejam concebíveis sem os indivíduos que a vivem. Mas julgamos que, mesmo realizando-se no espírito do indivíduo, a oração tem sobretudo uma existência social, exterior ao indivíduo, na esfera do ritual, da convenção religiosa. […] Em vez de ver na prece individual o princípio da oração coletiva, fazemos da segunda o princípio da primeira. […] Da mesma forma como cada um tem seu estilo, sua entonação, embora falando a língua nacional, cada um pode criar sua oração, sem que a oração deixe de ser uma instituição social. (MAUSS, 2009, pp.249-250).

Na umbanda é muito clara a função de oração dos pontos cantados e da dança no momento da gira, sendo isso repetido pelas entidades e pelo Pai de Santo recorrentemente. O movimento do corpo em compasso com a letra das cantigas atua em certo grau também com caráter mágico, pois girar ao som de “quando a lua sair ele vai

girar / o inimigo da rua ele vai levar / vai girando, vai girando levantando a baia...”9 significa, coletivamente, que com o movimento do giro o inimigo é afastado, ou seja, a promessa da entidade é concretizada. Mauss (2009) fala sobre o caráter mágico das orações:

Assim, às vezes ainda se agita a questão de saber se a oração vem da encantação mágica ou inversamente. Na realidade, se a deduzirmos, será de um princípio mais complexo que compreenderá ambas ao mesmo tempo. […] É que uma mesma forma contém em si possibilidades muito diversas e até opostas, e de acordo com as circunstâncias, é uma ou outra destas virtualidades que se realiza. (p.260).

É difícil estabelecer o limite de até onde o rito compõe a magia e a partir de quando ele alcança o patamar de religião; na umbanda praticada em nosso centro (e creio que nas demais), afirmo sem reticências que tal limite é impossível de ser estabelecido. Ao mesmo tempo em que a religião institucionalizou-se, passou e passa10 por momentos profundos de racionalização, nos quais se almeja sua desvinculação da feitiçaria ou qualquer coisa que remeta ao “atraso”, as orações de encantamento e as referências à magia são comuns. Um ótimo exemplo é o que ocorre com o álcool. Substância profana, como será discutido no capítulo final, torna-se sagrada no momento do ritual. A transformação não ocorre de qualquer forma: há uma série de etapas que devem ser seguidas e respeitadas, pois sem certos cânticos e gestos que invoquem os espíritos e lhes reforcem a existência, a bebida não passa de elemento mundano imprestável para os trabalhos. A consagração mediante gestos e palavras do objeto, invocando forças que o tornem distinto dos demais, confere-lhe o status diferenciado; esta passagem é, portanto, um ritual.

Assim, a absorção de substâncias tóxicas produz psicologicamente um estado de êxtase, entretanto se trata de um rito para aqueles que atribuem esse estado não às suas verdadeiras causas mas a influências especiais. […] O rito é como que animado de um poder imanente, de uma espécie de virtude espiritual. […] Os ritos que só apresentam estes caracteres podem ser chamados, e com razão, mágicos. (MAUSS, 2009, p. 267).

O fato é que, além do caráter mágico, há também o caráter religioso, embora saibamos que pode não ser muito frutífero discutir tais barreiras, se é que elas existem

9 Trecho de ponto cantado de Seu Tranca Rua das Almas entoado em todas as giras comuns.

10 Há movimentos de liderança política, concentrados no eixo Sul-Sudeste do Brasil, que lutam pela unificação e homogeneização da umbanda com o intuito de melhor delimitar suas práticas ancoradas em sua doutrina “ideal”, embora saibamos, como será discutido adiante, a dificuldade que é distinguir umbanda, quimbanda e feitiçaria. Para mais informações, ver o trabalho de NOGUEIRA, 1996.

em nosso campo. Quando o que é invocado é o sagrado para então ele agir sobre o álcool, diz-se didaticamente que o rito é então religioso:

São as potências sagrada ou religiosas, deuses pessoais, princípios gerais da vegetação, almas imprecisas das espécies totêmicas. Julga-se que o rito age sobre elas e, através delas, sobre as coisas. Isto não significa que o rito não conserve sua força especial, mas há, além disso, outras forças sui generis que concorrem para o resultado e que o rito põe em movimento. Às vezes são elas mesmas que têm o principal poder criador, enquanto o rito tem apenas um poder de provocação. (MAUSS, 2009, p.267).

Para Mauss (2009), por fim, ritos são “atos tradicionais eficazes que versam

sobre coisas ditas sagradas” (p.269, grifo do autor). Na umbanda, esta dimensão ritual é fundamental no que diz respeito à efetivação do transe. A utilização de bebidas alcóolicas, nesse sentido, poderia ser encarada como instrumento de manutenção do transe. Esta constatação, entretanto, não apareceu em nenhuma das falas de meus interlocutores, ficando mais evidente a questão da identificação com tipos marginalizados um dos sentidos deste consumo.