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Tilbringersystemet og regional

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6. SAMFUNNSMESSIGE VIRKNINGER

6.3 Tilbringersystemet og regional

A ética na educação popular em saúde, no contexto do PEPASF, também envolve o enfrentamento de dilemas, que requerem reflexões no campo da ética.

Ao exercer esse trabalho em saúde, os estudantes se deparam com a dinâmica da vida marcada pela pobreza e por problemas sociais e de saúde. Durante as visitas domiciliares, eles podem se deparar com situações complexas e de difícil solução a envolver crianças, jovens, adultos ou idosos, como por exemplo: maus-tratos, violência contra a mulher, alcoolismo, envolvimento com as drogas, limitações físicas importantes. O contato com essa realidade desafiadora é capaz de gerar muitos dilemas, que demandam diálogo e problematização coletiva da realidade para a discussão e decisão da melhor atitude a ser tomada.

Nessas situações de opressão, é importante não desamparar a pessoa ou a família acompanhada e procurar estar presente e cuidar daqueles que estão sofrendo. É necessário também construir o cuidado com eles, e não, para eles. Essa é uma dimensão ética importante da educação popular em saúde, pois, gradativamente, as pessoas vão se tornando mais altivas e ativas. Elas aprendem a lidar com a situação de forma diferente. Constroem uma nova forma de enfrentar o problema, procuram viver melhor, sofrer menos.

Extensionistas participantes do estudo relataram algumas situações dilemas que vivenciaram. Nesse sentido, destaca-se o depoimento a seguir:

Uma das casas que eu visito, fica vizinha da casa de uma mulher que já sofreu muito por maus tratos, e eu tinha em mente que a Unidade de Saúde poderia intervir e denunciar a violência daquele caso, mas como é que eu ia fazer? [...]. E o pior é que a mulher que sofria não queria falar, porque mesmo sofrendo, ela poderia estar perto da família, perto das filhas e netos; então ela se sentia bem, mesmo com aquele sofrimento. Eu fiquei pensando: e aí? Eu faço a denúncia para a Unidade de Saúde? Ou então, eu posso ir naquela casa conversar, mas me disseram que se eu fosse, iam querer me maltratar também. Então, eu fiquei sem saber o que fazer, porque se eu fizesse uma denúncia poderia gerar até confusão do Projeto com a comunidade, como também entre as próprias pessoas da comunidade que são ali vizinhas, podia gerar um conflito muito grande. [...] Chegou num ponto que ultrapassava minhas possibilidades, eu já não me sentia seguro para agir de qualquer maneira, então eu procurei os professores do Projeto que estavam ali para dar o apoio [...], problematizar aquela situação dentro do grupo, porque às vezes, aquela situação que possa não ter nenhuma resolução na minha visão, outras pessoas podem achar uma saída, e nesse caso eu procurei os orientadores do Projeto (EE1).

Esse relato diz respeito a uma senhora de sessenta anos, que reside com a filha, o genro e sete netos. A filha é viciada em álcool, e o genro e um neto são envolvidos com drogas ilícitas. Durante muito tempo foi vítima de maus-tratos pelos próprios familiares. Além disso, era obrigada a conceder-lhes mensalmente grande parte do dinheiro proveniente da aposentadoria que, na verdade, pode ter ajudado a sustentar o vício dessas pessoas por vários anos. Elas não tinham responsabilidades com a casa, e os cuidados com a saúde dessa senhora, portadora de hipertensão e de sequela de Acidente Vascular Cerebral (AVC), eram muito fragilizados. Com o dinheiro mal administrado, além de sofrer com a situação de violência, a mulher passava fome e não utilizava remédios considerados essenciais à manutenção da sua saúde. Encontrava-se fragilizada pela doença e pela situação de abandono. Inclusive, sabe-se que, muitas vezes, ficava andando pela comunidade, sem saber para onde ir.

Assim, uma vizinha amiga, movida pela compaixão, começou a dar-lhe alimento, perguntar se estava tomando os medicamentos e até acompanhá-la à Unidade Básica de Saúde para consulta médica, quando era preciso. A atuação dessa vizinha foi muito significativa no enfrentamento da situação. A partir de quando a mulher começou a ser acolhida e receber os cuidados espontâneos da vizinha, a situação começou a tomar novos rumos e se pensou sobre a possibilidade de cuidar também de sua aposentadoria. Assim, as duas tomaram coragem e reivindicaram essa decisão, junto à família da idosa. Nesse momento, o papel dos professores e dos estudantes do Projeto foi o de dar apoio à presença tão significativa de sua vizinha.

Com essa mudança, a situação melhorou muito. A vizinha se tornou responsável por receber e administrar a aposentadoria. Atualmente, ela faz uma pequena feira de alimentos e os pagamentos de água, luz e gás da tal família. Além disso, cuida de providenciar, em sua casa, a alimentação e os medicamentos que essa senhora faz uso diariamente.

Decidir enfrentar os familiares da idosa a fim de se tornar responsável por receber a aposentadoria foi uma atitude bastante altiva e corajosa das duas. No início, essa mudança ocasionou desentendimentos, mas teve o apoio dos netos, que sofriam com a situação de pobreza, e dos vizinhos que conheciam a problemática. Essa decisão também recebeu o apoio de estudantes e professores que faziam parte do Projeto na época. Foi uma decisão difícil de ser enfrentada, mas que recebeu muita força de extensionistas. A intervenção passa pela pesquisa de iniciativas comunitárias que já estavam se esboçando.

Embora a situação, hoje, esteja bem diferente do passado, essa senhora ainda sofre com a situação que enfrenta cotidianamente em sua família, uma vez que não quer ficar longe

da filha e dos netos. Então, continua convivendo com eles, dorme com eles e ainda é vítima de maus-tratos, embora de forma mais branda. Observa-se também certa exploração no que diz respeito à realização de trabalhos domésticos pesados para uma idosa e sequelada de AVC, como lavagem de roupa e de banheiros.

Esse é um exemplo de problemas profundos demais para serem curados, mas não, para serem cuidados. Sobre esse aspecto, Vasconcelos (2006c, p. 300) afirma:

Muitos problemas enfrentados são complexos demais para serem curados. [... ]. São problemas profundos demais para serem curados apenas pelo trabalho em saúde, mas não para serem cuidados. Cuidar significa ocupar-se dos problemas passíveis de serem enfrentados na circunstância do momento [...]. Significa responsabilizar-se mesmo não tendo soluções técnicas bem- definidas, não deixando que pessoas, com pouca capacidade de enfrentamento da crise de vida a que estão submetidas, fiquem abandonadas e sozinhas.

Assim, a senhora tem recebido cuidados contínuos muito importantes para sua vida. Até hoje é acompanhada por estudantes do Projeto, principalmente através da casa da vizinha. Convém enfatizar que sua é de difícil acesso. A desorganização do ambiente doméstico, o envolvimento com uso de drogas ilícitas e com atividades ligadas ao narcotráfico podem ser motivos da resistência em deixar estudantes e professores adentrarem a residência. Mas a abordagem continua. É na casa da vizinha que os estudantes a encontram e a acompanham semanalmente. Foi a partir desses encontros que o estudante participante da pesquisa teve acesso à gravidade da situação e se percebeu diante de um dilema de difícil solução.

É importante ressaltar que, mesmo sofrendo, a mulher não quer denunciar nem separar, mas estar junto da filha e dos netos e sabe de seu papel de provedora do lar. É a sua aposentadoria que sustenta a família, que contribui para que eles não passem fome.

Segundo Lopes et al. (2007), para atuar eticamente na violência doméstica contra a mulher, é preciso considerar o respeito ao direito da mulher em decidir sobre a sua pessoa e as pessoas envolvidas. Portanto, é importante respeitar a decisão dessa senhora em não querer denunciar. Ela conhece os motivos que a levam a tal decisão. Esses são problemas complexos. Mas, o que importa é estar próximo, acompanhando, cuidando, não deixando que se sinta sozinha ou desamparada. O Projeto já a acompanha há bastante tempo. Há um vínculo afetivo construído, firmado, que se fortalece constantemente nessas ações de cuidado. A simples presença do estudante anima-a, traz uma sensação de que está sendo apoiada, e isso tem sido muito significativo para ela e tem trazido um aprendizado importante para os estudantes. O olhar e a presença de estudantes têm o efeito de inibir ações de violência e opressão intensas,

mesmo que eles não se posicionem abertamente. Representam um olhar e uma presença da sociedade e de seus valores coletivos, nesses casos particulares de desrespeito aos direitos humanos.

Outro exemplo de situação dilema semelhante diz respeito à violência doméstica contra uma mulher portadora de deficiência física, relatado por um dos participantes:

É uma pessoa com deficiência física que vive numa situação de desvantagem e de opressão, que sofre maus-tratos, em que há uma possibilidade até de utilização de drogas, porque a família tem uma historia de utilização de drogas e o meu dilema ético é: e o nosso compromisso com essa pessoa que é oprimida, que sofre violência? Mas por outro lado, até que ponto a gente pode colocar a vida das pessoas da equipe em risco denunciando, porque ali é uma situação que cabe claramente uma denúncia ao Ministério Público. Inclusive, já foi feita uma discussão com toda a equipe de saúde da família, com os estudantes, tentando achar uma solução para isso. Os estudantes ficaram extremamente revoltados porque não podiam fazer a denúncia. À ACS, que é bastante comprometida, ele ameaçou dizendo: olhe se alguma coisa vazar da minha família, eu sei que foi você e vou abençoar a sua vida (GFP2).

Esse caso revela algo muito sério: a ameaça que a ACS recebeu de um dos filhos da mulher. Esse é um aspecto que precisa ser considerado, pois uma denúncia ao Ministério Público pode originar um problema mais sério, de por em risco a vida de uma profissional de saúde ou outra pessoa qualquer. Diante desse dilema, foi decidido, coletivamente, não fazer o enfrentamento explícito com a denúncia, mas continuar tentando as visitas, mesmo contra a vontade dos familiares. O fato de estar indo sempre algum profissional visitá-la incomoda-os. Essa é uma forma de enfrentamento implícito, de procurar ajudar a pessoa em sofrimento, mesmo sem a anuência da família, a fim de que o problema minimize.

Cabe acrescentar que os participantes do Projeto têm procurado processar a busca de caminhos metodológicos para o tratamento de situações complexas como essa. Inicialmente, a situação é problematizada com professores, estudantes, ACS que acompanha a casa específica, lideranças comunitárias. É preciso procurar compreender, por meio do diálogo com pessoas da comunidade, o problema que acontece no âmbito daquela família e buscar parcerias comunitárias para o enfrentamento de tal situação.

Quando há a oportunidade de adentrar o lar em sofrimento, os extensionistas realizam ações de cuidado extremamente importantes para o restabelecimento da pessoa. A situação tende a tornar-se mais branda com a presença deles, pois, como já explicitado, essa presença é capaz de incomodar, de interferir, provocando a diminuição da situação de violência.

É o agir ético voltado para o não conformismo com situações de violência que gera uma pedagogia do enfrentamento implícito, que vai se estabelecendo e procurando intervir

para que a pessoa que sofre seja respeitada. Nesse sentido, a presença do extensionista é considerada uma força política que intervém. A pessoa violenta percebe essa força, por isso, às vezes, não quer a presença de outros no ambiente doméstico. Portanto, em situações como essa, é importante não abandonar as pessoas em sofrimento, que são submetidas à situação de opressão dentro do próprio lar, mas procurar ter uma atitude ética de permanência, mesmo que de forma indireta, pois passam por problemas complexos e precisam receber cuidados.

Outro caso de dilema vivenciado por extensionistas que também envolve violência doméstica contra a mulher é o de uma mulher vítima de maus-tratos do marido. Segue o relato:

[... ] logo que cheguei no Projeto, eu fui junto com estudantes fazer fisioterapia numa mulher que estava precisando, mas o que eu menos fiz foi fisioterapia. O atendimento foi ouvindo a mulher. Ela contou que o esposo tem deficiência auditiva, mas que era muito perverso. Ela precisava também tomar alguns remédios porque tinha depressão crônica e não tinha como pagar, mas ele só dava o remédio se ela tivesse relações sexuais com ele. Ela, doente, disse que não aguentava, mas se submetia ao sofrimento para receber o remédio. [... ], a gente saiu de lá do jeito que chegou, a gente ficou paralisado porque, quem resolve isso? Isso é um dilema. Porque o cara, primeiro, não fala, e ela tinha filhos e eles sabiam da história. Então para mim, foi um aprendizado

(GFP1).

Nesse caso, os extensionistas tiveram acesso à situação e à sua residência. Assim, ela recebeu toda a assistência de que precisava, não só de ordem biológica, mas, principalmente, emocional, que muito a ajudou em seu restabelecimento. A presença e o olhar do extensionista vão ajudando a mudar a situação gradativamente. A visita semanal de estudantes, em seu ambiente doméstico, os cuidados com a saúde, a força dos diálogos realizados, tudo isso faz parte da busca processual de enfrentamento da situação de opressão. O apoio afetivo levanta a autoestima e promove maior resistência da pessoa, que se torna mais altiva para enfrentar as dificuldades.

Gradativamente, a situação foi mudando. A mulher já recuperou a saúde, mas continua a viver maritalmente com o tal homem. Encontrou formas de lidar com a situação e hoje não é mais vítima de abusos como esse. Embora vivencie um relacionamento difícil com o companheiro, tem enfrentado a situação de forma destemida. Ainda continua recebendo a visita de extensionistas, que permanecem a lhe oferecer apoio e cuidado em suas necessidades de saúde.

Casos de violência doméstica como esse, geralmente, não são denunciados pela mulher. Segundo Lopes et al. (2007), situações de violência contra a mulher pelo

companheiro é muito comum, mas elas não denunciam tal abuso físico, psicológico e sexual, geralmente por temor ao companheiro ou por depender financeiramente dele. Com base nesse caso, poderíamos acrescentar que há mulheres que também não denunciam por gostar do marido. Nesse nosso caso, ela já teve oportunidades de largá-lo e não quis. Apesar de tudo, demonstra preocupar-se com ele, com sua saúde fragilizada pelo fato de ter diabetes, inclusive expressa uma atitude de gratidão a ele por, no passado, ter-lhe retirado da prostituição. Além disso, valoriza a família, os filhos, gosta de vê-los unidos. A violência é apenas um elemento de uma situação muito complexa. Quem tem que optar é a pessoa. É preciso controlar nossos ímpetos de resolver as situações segundo nossos valores. Podemos nos deparar com situações que, a nosso ver, são inaceitáveis. No entanto, é preciso ir apoiando, mesmo discordando de suas escolhas. Essa talvez seja a forma ética de lidar com a situação.

Em nossas observações, pudemos perceber que é preciso aprender que suas estratégias conciliatórias têm uma sabedoria. A denúncia à justiça pode levar a rupturas que eles não querem. Tenderá a provocar destruição de relações familiares que, mesmo sendo precárias e cheias de injustiças, podem ser essenciais para aquela pessoa. Sem a família pode ser muito pior. Na pobreza, as pessoas dependem mais do coletivo. Setores sociais mais abastados podem viver melhor, individualmente. Mas, entre os pobres, a divisão do trabalho na família é muito mais importante para a sobrevivência. Esse é um elemento importante para entender as atitudes conciliatórias de muitos moradores. É preciso cuidar, aceitando a condição deles.

A formação ética do estudante participante do PEPASF traz constantes aprendizados. É preciso problematizar coletivamente as situações dilemas vivenciadas e agir eticamente acolhendo as pessoas em suas necessidades, apoiando-as em suas decisões, respeitando-as em seus valores e em seu modo próprio de pensar a vida. É preciso aprender a criar, de forma processual e compartilhada, um saber direcionado ao agir ético na comunidade que não seja muito articulado aos valores e às emoções de extensionistas, mas, que seja de aceitação aos valores e as decisões destas pessoas que enfrentam situações difíceis, complexas, que envolvem desrespeito aos direitos humanos.

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