4. TOXICITY ASSESSMENT
4.2 Tier I Assessment
Entre os índios o novo endereço também reserva relatos dramáticos. Os registros resultaram dos encontros com o professor, o índio João Alvez, 42, com o Pajé Conselheiro, seu Aleixo Bogado, 105. A longevidade de seu Aleixo poderia ter feito dele o índio a viver mais tempo no Paraná, mas por não possuir a certidão de nascimento original, que ele assegurou não existir na época em que ele nasceu, teve de agarrar-se à certidão confeccionada pela Funai, onde dizia: idade não presumida, 88.
— Logo no começo, quando viemos morar aqui, o João Bernardes chegou, estava agitado. Disse que a gente precisava manter a terra limpa, sem mato para poder colher mais. Ele, muito preocupado, mostrou como se carpe o mato! Como estava muito escuro, não tinha lua naquela noite, ele acabou cortando também o pé de árvore que havia plantado poucos dias antes.
103 CLASTERS, Pierre. A Sociedade Contra o Estado. Tradução Theo Santiago. São Paulo: Cosac
Naify, 2012. p. 186.
104 A denominação de Povo Guarani é usada pelos pesquisadores do Site socioambiental ao responder
a pergunta mais frequente: Os Guarani, são um povo? São um povo sim. “Povo é um conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, têm costumes e hábitos idênticos, afinidade de interesses, uma
história e interesses comuns”. Endereço:
A narrativa acompanhada de gestos corporais que teriam sido feitos por Bernardes, foi reproduzida por Alvez, que é professor de guarani na Aldeia, parecia quebrar a trégua de que até então a “civilização indígena persiste, e resiste de uma forma silenciosa, quase muda105”. João falava do episódio em português.
Ao mesmo tempo, revelava desaprovação do ato, formando uma ruga na fronte. O sinal abria um vinco sobre a memória histórica do encontro entre as duas nações: índios e não-índios. O fato havia ocorrido há mais de 10 anos, época em que Alvez era o Cacique da tribo.
O diálogo aconteceu em 2010, quando foi necessário morar na aldeia, em uma das tantas e longas conversas que eram realizadas no final da tarde, em frente à casa que servia de sede para visitantes. O retorno era para acompanhar o uso da Internet. A sala com 12 computadores conectados à Internet seria entregue à comunidade pela manhã, como está descrito no capítulo 3.
Foi em um desses encontros106 que a frase: — O modo de ser guarani —
estabeleceu-se como indicativo de resistência do Povo Guarani.
— Índio tem um jeito só dele. Às vezes o branco não entende esse modo de ser guarani107 que não depende nem de mim ou de você. Ele é o jeito que já
foi feito antes e que o povo segue. Vocês chamam isso de “jeito deles” como se a gente fosse diferente ou fizesse diferente. Ele também usava a palavra Povo, no sentido de nação, conforme será apresentado no Capítulo 4.
O professor João Alvez fazia resistência contra a construção da Itaipu e a formação do lago que cobriu toda a Terra Jacutinga. Mesmo já instalado na Añetete, Alvez foi protagonista de uma das mais inusitadas invasões no Parque Nacional do Iguaçu, em 2006. O manifesto foi considerado uma “afronta ao Patrimônio Natural da Humanidade”, onde os índios haviam sido vistos pela primeira vez, 150 anos antes.
Recusava-se a ser denominado como invasor: “Essa terra é nossa. Sempre foi nossa”, dizia-me na época da invasão enquanto a mulher dele fritava bolinhos feitos com farinha de trigo para alimentar o grupo. Não havia água e luz. Era uma clareira
105 CAMARGO, Francisco Carlos. Erotismo e Mídia. Francisco Carlos Camargo e Tânia Márcia Hoff.
São Paulo: Expressão e Arte, 2002.
106 Ver íntegra dos encontros em anexo.
107 É o que reza o caput do artigo 231 da Constituição Federativa do Brasil. Texto completo sobre o
no meio da floresta como mostra a foto de Roger Meirelles do Jornal A gazeta do Iguaçu.
Questionado, na época, a respeito do motivo de “deixar o conforto da aldeia para embrenhar-se na mata”, ele foi simples:
— Não sou só eu índio. Têm meus irmãos, meus primos que continuam sem terra.
Tanto a invasão como a desocupação, quase dois meses depois, repercutiram nacionalmente, principalmente quando um policial federal, fortemente armado, foi atingido por uma flecha disparada por um índio. O servidor federal abriu inquérito acusando o autor de “tentativa de homicídio”.
O inquérito só não seguiu adiante por falta de uma identificação conclusiva de quem havia disparado. A flecha havia atingido a região das nádegas do policial. O autor da flechada estava dentro de um ônibus fretado para arrancar da mata os mais 40 índios, entre eles muitas crianças.
Figura 12: Foto como ilustração A invasão do Parque Nacional em 2006 foi decisiva para o Governo
Federal demarcar mais uma área onde hoje é a Aldeia Itamarã, que significa Diamante.
No ano passado (2013), novo grupo tornou a invadir o Parque Nacional do Iguaçu. Na reportagem o diretor do Parque disse: “Não admitimos que os índios permaneçam no local. O Parque Nacional é patrimônio natural público e temos a missão de preservar o local”. Jorge Pegoraro acrescentou: “Estamos conversando pacificamente com os índios, tentando negociar uma saída de forma harmoniosa108”.
A fala de Pegoraro reabria a mesma cartilha usada em 2006 e que havia sido criada pela Companhia de Jesus no século XVI. Ao dizer que “Estamos conversando pacificamente como os índios”, ele esperava que estes fossem capazes de deixar o Parque antes de serem adotadas medidas “mais civilizatórias” como a realizada 13 anos antes. Ou ainda anterior a ela, em 2005 quando a BR-277 foi fechada, o que ocorria todos os anos no Dia do Índio como o bloqueio das rodovias no Paraná.
No livro “O Combate dos Soldados de Cristo na Terra dos Papagaios” no capítulo “Plano das Aldeias109”. os jesuítas, estabeleceram um “plano de
relacionamento com os selvagens”, para “cumprir a missão” como escreve o autor Luiz Felipe Baête Neves: “Primeiramente o gentio se deve sujeitar a fazê-lo viver como criaturas que são racionais, fazendo-lhe guardar a lei natural, como mais largamente já apontei a Dom Leão o ano passado”. Sobre a sagacidade do autor em usar: “Terra dos Papagaios”, pode-se afirmar que existem duas verdades ali: o Brasil tinha, sim, a ave em grande quantidade, mas o mais flagrante é que o país em nada parece ter avançado quando é exigido a tratar com o índio na prática, apesar da infinidade de cartilhas e leis.