4. TOXICITY ASSESSMENT
4.4 Detailed Risk Characterization
4.4.1 Substrate (Soil) Exposure
Os primeiros índios avistados na região Oeste do Paraná é anterior a 1887120.
O relato é feito pelo navegador Alvar Nuñes Cabeça de Vaca, considerado
119 Entrevista completa, ver apêndice B e pendrive anexo.
120 Em 1881, Foz do Iguaçu recebeu seus dois primeiros habitantes: o brasileiro Pedro Martins da
Silva e o espanhol Manuel González. Pouco depois, chegaram os irmãos Goycochéa, que iniciaram a exploração da erva-mate. Oito anos após, foi fundada a colônia Militar na fronteira - marco do início da ocupação efetiva do lugar por brasileiros e do que viria a ser o município de Foz do Iguaçu.
historicamente como o descobridor das Cataratas do Iguaçu, que conta ter tido ajuda dos índios para a travessia dos Rios Paraná e Iguaçu.
A passagem do colonizador foi em 1852 e, ao completar 400 anos da descoberta, o Google utilizou como ilustração o cenário das Cataratas, tendo os guaranis como habitantes121. Também a ata escrita pelo então capitão de Fragata,
Lindolfo Siqueira Bastos, em 1897, diz ter encontrado a cidade abandonada, ou mais “precisamente entregue à exploração predatória de estrangeiros122”. Na época, havia
treze casas cobertas com tabuinhas e alguns ranchos de palha. Os “ranchos de palha” presumem a presença indígena.
Um livro, escrito em 1997, tendo como personagens os primeiro imigrantes residentes na fronteira revela a presença guarani. No relato feito sobre a etnia: “Eles [índios] vinham aos bailes de gravata123”. Sobre o vestuário, a pioneira Amanda Fritzen
Holler, que chegou a Foz com doze anos, em 1929 e classificada como exímia costureira, contou ter costurado muito para a “família e vizinhos, fazia vestido de noiva, bombacha e os artigos que não se encontravam aqui tinha que mandar vir do Rio Grande do Sul”124. A viagem feita de carroça ou a cavalo levava em média trinta dias,
tornando a aquisição de uma “gravata” um artigo de luxo. “Só duro mesmo era conseguir roupa125”, soma Florentino Correia, que chegou a Foz em 1905, aos dez
anos de idade.
Mesmo estando em terra indígena, pouco é dito sobre o primeiro morador da fronteira126. Os entrevistados contam em trezentas páginas elementos do cotidiano do
início do século, como o primeiro acidente, ocorrido em 1939, entre um dos três carros que existiam na cidade com uma bicicleta guiada por um cabo do exército. E a chegada da Coluna Prestes (1924), quando, temendo serem mortos pelos chamados “revolucionários”, os poucos moradores fugiram para a Argentina e o Paraguai, permanecendo lá até a debandada, quase um ano depois, dos temidos visitantes.
Ao falar do lugar, sem citar o índio, fica a sensação de que parte da história deixou de ser contada. Há pistas por todos os lados sobre a presença indígena, porém
121 Imagem e narrativa sobre Cabeça de Vaca pode ser acessada pelo
http://www.h2foz.com.br/noticia/google-homenageia-cabeza-de-vaca-o-descobridor-das-cataratas
122 PREFEITURA MUNICIPAL DE FOZ DO IGUAÇU. Fundação Cultural. Retratos. Foz do Iguaçu:
Gráfica Editora Paraná, 1997. p.25.
123 Ibid., p.49. 124 Ibid., p.49. 125 Ibid., p.103.
126 Definição de “primeiro morador” é adotada também em estudos realizados fora deste trabalho.
elas não emergem na língua do colonizador, deixando um vazio. “Fica sempre como se só tivéssemos um “outro”. O nosso outro é o português, o italiano e francês etc. Como nos constróem uma história em que somos apagados como alteridade”127.
Há também a descrição da dança da jovem Marieta Schinke com o já famoso Santos Dumont. “Houve uma grande festa, baile e tudo mais. Eu dancei uma valsa com Santos Dumont. Ele era uma pessoa ótima”128.
Santos Dumont esteve na cidade pela primeira vez em 1915, quando conheceu as Cataratas. Encantado com o que viu, Dumont foi ao Rio de Janeiro e defendeu a desapropriação da área, permitindo a visitação pública. Esses detalhes denunciam a existência de memória para tudo, menos sobre os índios.
Ao serem descobertos, registros mostram que, a exemplo do negro, o índio foi submetido à mão de obra escrava e que sua frequência junto à nobreza era apenas na condição de servil. Não há registros de onde eles compravam as roupas, porém o dinheiro era proveniente do trabalho, uma vez que a própria dona Maria, ao sinalizar “que eles também pediam emprego”, empresta uma pista sobre a origem da moeda.
Engano pensar que na região da fronteira havia uma quebra de paradigma quando o enfoque é igualdade. Pesquisa feita pelo antropólogo paranaense, professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, Igor Schimitz, reproduzida no trabalho de Ladeira, mostra que o índio era mão de obra escrava usada em larga escala. “Material humano de grande valia para o trabalho escravo da imensa colônia que se formava”129.
Ao comparar-se o que foi dito por Maria Inês sobre os índios – “eles eram mansos” – e a fala de Marieta sobre Santos Dumont – “ele era uma pessoa ótima” –, é possível perceber que, em seus discursos, ambas referem-se a pessoas fora dos laços de sangue. Santos Dumont era um estranho, ao contrário dos índios, que eram vizinhos e, mais que isso, eram os donos das terras aonde Maria Inês chegou. Mesmo assim, Marieta desvela que havia estado com “selvagens”, ao adjetivar os índios como “mansos”, para os índios, lembra animal, enquanto “pessoa ótima”, para Dumont, reforça o humano.
127 ORLANDI, Eni Pulcinelli. Terra à Vista!: discurso do confronto: velho e novo mundo. São Paulo: Ed.
da Universidade Estadual de Campinas, 1990. p.49.
128 PREFEITURA MUNICIPAL DE FOZ DO IGUAÇU. Fundação Cultural. Retratos. Foz do Iguaçu:
Gráfica Editora Paraná, 1997. p.153.
LADEIRA, Maria Inês. Os Índios Guaranis e as Ilhas do Paraná. Centro de Trabalho Indigenista, nov. 1990. p. 16.
Ainda sob a narrativa dos primeiros moradores não-índios, foi criada, em 1897, a primeira Agência Fiscal pelo capitão Lindolfo Siqueira Bastos, que teria encontrado a cidade abandonada ou, mais precisamente, entregue à exploração predatória por estrangeiros.
Na ocasião, havia treze casas cobertas com tabuinhas e alguns ranchos de palha. Não há registro se essas casas eram habitadas por índios. No dia 14 de março de 1914, pela lei 1383, foi criada a Vila Iguaçu que, com o desenvolvimento, passou à condição de Município de Foz do Iguaçu. Atualmente, a cidade abriga 309 mil habitantes, segundo o último senso realizado em 2007.
O colono vai chegando devagarinho e depois aumentando, e ele faz o que ele quer. Veio a polícia, queima casa tudo. Era fumaça que sai e tiroteio (...) ta louco (...) assusta tudo. Morreu índio também. Meu pai morre (...) morreu de bala, acertou na cabeça. Daí que eu saí um pouco, fiquei uns oito anos no Paraguai, daí voltei de novo, voltei ali na área que chama Guarani, é uma área grande perto de Foz do Iguaçu, só que o branco tá cheio demais, quando chega lá em 60, 70 tá cheio de branco lá130.