3. EFFECTS CHARACTERIZATION OF ROAD SALTS ON PLANTS
3.5 Effects Summary
3.5.3 Woody Species
O “modo de ser guarani” foi observado também fora da aldeia, entre gestores de metas onde as comunidades indígenas são alvos de negociação. Em uma reunião em julho de 2009, na Prefeitura Municipal de São Miguel do Iguaçu, o assunto era: o plantio de cebolinhas na aldeia, o grupo formado por agrônomos e o cacique Daniel Alvez, 32, da Aldeia Ocoy Guarani tentava encontrar uma solução para distribuir 17 mil mudas do tempero doadas pelo Município na época em que a Aldeia preparava- se para a colheita do milho.
— Se não replantar agora as mudas ficam velhas e perde as mudas — insistia o representante da Funai. Ele também chamava a atenção do Cacique para a penalidade que seria imposta à tribo caso fossem abertas novas “brocas”, na área preservada.
— Não pode abrir mais broca. Já cansamos de pedir: chega de broca — repetia. O termo “broca” na linguagem da Funai significa: novas moradias. Os índios não podiam receber nenhuma família, ou casar os filhos e tê-los como vizinhos porque haviam sido remanejados para uma área preservação ambiental, ás margens do Lago de Itaipu. A contingência havia sido esgotada.
Ignorando a reprimenda e já sabedor de que seria inútil impor o Modo de Ser Guarani diante do quadro ali apresentado onde maioria havia estabelecido que as mudas tinham que ser distribuídas antes do recesso de fim de ano, o cacique apenas responde:
Na manhã seguinte ele pede para ser fotografado junto com a filha Franciele de sete anos. O local escolhido foi a plantação de milho de cerca de três hectares, mantido pela família de Daniel. O quadro vivido em no final do ano de 2009 aproximava, sem mudança, da frase dita por padre Vieira em 1549 e reproduzida por Eduardo Viveiros de Castro no capítulo o Mármore e a Murta: Sobre a Inconstância Selvagem: “O gentio do país era exasperadoramente difícil de convencer79”.
Por outro lado, o domador do “gentio” continua a ignorar não apenas o “gentio”, mas o direito de ser índio e viver dentro do Modo de Ser Guarani. Sobre as cebolinhas? Dias mais tarde, elas foram plantadas mas não pela mão indígena. Foi o próprio Bernardes junto com alguns servidores da prefeitura de São Miguel a executar a tarefa na terra do índio.
Parecia apesar de já terem se passado quase cinco séculos do encontro do branco com o índio que a doutrina do poder de escolha criado por Suarez e difundida pelos Jesuítas na Universidade de Coimbra e nos Colégios de Portugal, da África e do Brasil havia morrido junto com a expulsão do autor pelo Marques de Pombal, em 1759.
Suarez acreditava que “Deus certamente concede o poder, mas não diretamente, pois este decorre de um pacto de sujeição. O povo todo, como um único corpo de vontades unificadas, um seja, como um único corpo místico, aliena-se do poder e o transfere para a pessoa mística do rei, que é pessoa sagrada porque representa soberania popular”. No episódio das cebolinhas o Rei era a Funai.
Na doutrina que na época discutia a religião na tentativa de catequisar índios no modelo cristão “o poder implica que a educação deve levar os indivíduos a uma integração harmoniosa como súditos no corpo político do Estado, difundindo-se liberdade”. Ele segue:
A Liberdade Cristã não consiste em estar isento das justas leis humanas nem de estar imunes da justa coação do castigo dos pecados quando se cometem conta a paz e a justiça, mas consciente de uma servidão livre, por amor e caridade que não contradiz o regime humano, mas antes o ajuda, se definitivamente existe, e se não existe o supre com o coração80
79 VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem e Outros Ensaios de
Antropologia. São Paulo: Ed. Cosac Nafity, 5ª ed., 2013. p. 148.
80 Todas a citações foram retiradas do capítulo do livro de JA Hansen. A Civilização pela Palavra.
Figura 9: Foto como ilustração O milho é um dos principais alimentos Guarani. A importância do grão
ganha um contexto desde o plantio até o preparo. Todo o processo de socar a semente até transformá- la em farinha ou canjica acontece na Casa de Reza (Opy). “Tinha um lugar só para preparara a comida para todos da aldeia, era assada e cozida na água quente sem sal81”. Da fermentação também resulta
a bebida usada durante rituais de cura. Na aldeia os casos de alcoolismo ocorrem por meio de ingestão de bebida comprada em bares próximos da reserva
Fonte: VENDRAME, 2008.
O Guarani planta milho ao longo do ano. Para ele não existe safra ou entressafra. Semear com frequência é o ‘segredo’ para manter o alimento sempre em estado de grãos próprio para o consumo ainda na forma de espigas. O milho é mais do que alimento, é um ritual entre eles.
Contribuí para o exemplo acima o observado na casa do avô de Daniel, seu Aleixo Bogado. Na época dos encontros, três deles, ele tinha 105 anos. Era o mais idoso da tribo e do estado. O bisneto de Aleixo, Inácio, 13, sempre esteve presente. Ele gostava de filmar, fazer fotos e muitas vezes ajudava a identificar quem era e a que família pertencia a casa. Na casa do ancião, havia três áreas plantadas em diferentes períodos.
81 Depoimento de do pajé Gerônimo Vogado da Aldeia Tekoha Añetete. Ele e pai do Cacique Daniel.
O relato está no livro de HENNERICH, Juçara Elza. Olhares de guarani para guarani. Guarapuava: Ed. da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2007. p.92.
— Quando este pedaço está pronto para colher, aquelas as espigas estão molinhas e a outra já começa a florescer — apontava como mão seguras o homem que já havia vivido mais de um século.
Também na casa do ancião, mudas de erva-mate cresciam com vigor. A planta demora cinco anos para produzir folhas para serem colhidas sem atingir a vida da espécie. Imersa em água quente ou por meio do tererê, ela é consumida em larga escala. O produto faz parte da cesta básica distribuída pela Itaipu Binacional.
As folhas apreciadas como bebida também ganha destaque no sagrado: É o ritual do batismo. A cerimônia acontece sempre na virada do ano. É o momento em que as crianças nascidas ao longo do ano que termina recebem a proteção espiritual assim como o alimento que está na roça.
A solenidade acompanhada na virada do ano de 2008 para 2009 ainda durante a pesquisa para o mestrado onde o tem foi: Comunicação, Recepção e Consumo Entre os Guarani: o Índio na Mídia e a Mídia na Vida do Índio82 começa fora da Casa
de Reza com a ‘benção’ de tudo que esteja sendo produzido. Em seguida é a vez de as crianças serem ungidas.
As meninas recebem uma pequena quantidade de erva mate. O composto é totalmente triturado. “Para elas saberem que a vida não é fácil”, sussurra dona Santa, 55. Ela é a mãe do Cacique Mário, 23. Na época ele já anunciava que em breve a aldeia teria Internet. Os meninos receberam pequenos ramos. “Eles serão como a árvore quando crescerem, bonitos e com presença”, acrescentava Santa que era casada com um paraguaio de jeito bem dominador.
A erva-mate é símbolo de saúde e fé na Aldeia. No ritual do Ano Novo – quando acontecem os batizados (ikarai) das crianças e dos alimentos –, a planta é um dos elementos principais consagrados. Os índios homens se apresentam na Casa de Reza (Opy) carregando os galhos. As índias participam do ritual também carregando o chá, mas a erva tem de estar triturada, como relata o índio Nilson Florentino, da aldeia Guarani Palmeirinha.
O batismo é realizado na época de outubro a janeiro porque neste mês é época mais quente e época de colheita. (...) No primeiro dia são os homens que batizam a erva-mate. Cada família prepara um feixinho desta erva para cada filho e também para os presentes de outras aldeias que comparecem à cerimônia. No segundo dia são as mulheres que batizam a erva. Elas levam as folhas secas para socar no pilão, depois de moída é colocada em um
potinho feito de cabaça (porunga) e a cerimônia então é feita pelas mulheres sob o comando do xamói (pajé) 83.
O mesmo relato sobre a importância da erva-mate na cultura Guarani foi registrado por Ladeira ao estudar os hábitos dos Guarani que habitam o Paraguai, a Argentina e o Brasil, na região do Estuário do Prata, conhecida também como Bacia do Prata, envolvendo os rios Paraná, Paraguai e Uruguai.
No final do inverno (ara yma), sempre vem uma ventania (yvytu vaekue), anunciando os tempos novos. Nesse momento de passagem de um tempo/estação a outro, costumam realizar o kaa nhemoingüe, o batismo das folhas do mate. Ritual realizado na Opy, se intensificará e, com isso, o uso da erva-mate, o que pede o ritual de nhemoingüe. Se nessa época houver, no Tekoha, crianças ou adultos que precisam receber nomes, estes podem ser revelados, realizando-se conjuntamente o ritual da benção (nheemongarai)
84.
Na casa de seu Aleixo, cada muda da planta estava coberta com ramos de ervas daninhas que o centenário havia capinado. O modo natural de proteger a plantinha do sol. No entorno da casa, como registrado detalhadamente no Diário de Campo85, o plantio de milho cerca o local. As batatas, melancia e quiabo haviam sido
devastados pela geada do final de agosto. Motivo também que fazia com que seu Aleixo reforçasse a cobertura da erva-mate.
83 HENNERICH, Juçara Elza. Olhares de guarani para guarani. Guarapuava: Ed. da Universidade
Estadual do Oeste do Paraná, 2007. p.122.
84 LADEIRA, Maria Inês. Espaço Geográfico Guarani: significado, constituição e uso. Maringá, PR:
Eduem; São Paulo: Edusp, 2008. p.173.
85 Diário de Campo – realizado entre os dias 31 de dezembro de 2007 e 7 de janeiro de 2008, como
Figura 10: Foto como ilustração Casa do índio Aleixo Bogado, 105 anos. Ao fundo o milho e a erva-
mate. Pendurados ossos, resultado da caça. No “Modo de Ser Guarani”, deixar em exposição carcaças de animais significa: sorte e também serve de amuleto contra ‘pragas humanas’
2. A TERRA PROMETIDA: ENDEREÇO DA QUINTA MUDANÇA EM 150