4. TOXICITY ASSESSMENT
4.3 Tier II Assessment
108 http://ricmais.com.br/pr/dia-a-dia/noticias/indios-invadem-parque-nacional-do-iguacu-e-instalam-
aldeia-na-mata/
109 Plano das Aldeias é o capítulo I do livro de Luiz Felipe Baetê Neves: O Combate dos Soldados de
Cristo na Terra dos Papagaios: colonialismo e repressão cultural. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1978. p. 25 a 43.
Figura 13: Foto como ilustração As visitas ao seu Aleixo eram sempre acompanhadas dos jovens
índios, Inácio e Graciela, para as traduções. Na terceira foto ele segura a certidão fornecida pela Funai. Apesar de todos garantirem que ele tinha 105 anos, a entidade máxima sobre questões indígenas disse não. As imagens reúnem as visitas de 2008, 2009 e 2010.
Deitado na rede armada no Puxadinho, seu Aleixo Bogado110, 105, dormia
numa manhã de domingo do ano de 2008. Ele foi o primeiro a rebelar-se contra as casas entregues pelo Governo Federal por meio da Itaipu Binacional. Ele recusou-se a entrar na residência. Foi assim que um novo projeto foi executado, desta vez tendo como elementos de apoio, os próprios índios.
A casa onde seu Aleixo morava, ao invés de ser quadrada, tinha o formato oval, não tinha vidro e nem assoalho ou piso. As paredes eram alternadas com tábuas e com pinos de eucalipto. Sem o processo de industrialização, pois a madeira é colocada “in natura” após o processo de secagem.
No quarto tinha uma cama, mas ele preferia a rede. Na cozinha uma geladeira desligada, pois ele não conseguia ter renda suficiente para pagar a conta da luz. No aviso da Copel o valor devido era de R$ 4,00 reais. Havia sempre um foguinho aceso no meio da cozinha. Em nenhuma das casas foram vistas labaredas ou grande quantidade de madeira queimando ao mesmo tempo, nem quando a comida estava sendo preparada.
Ali o tempo é outro. É o “tempo em camadas111” no sentido bakhtiniano citado
por Ferreira na releitura “o tempo de empilhando como se empilham pedras em lugar”. Nada ali lembrava as manobras do mouse amarrado às mãos indígenas jovens. Fora da sala de informática “o tempo era algo que se podia, inclusive, ver112”.
110 Seu Aleixo Bogado morreu em 2010, após um queda e fratura da bacia e de ter ficado acamado por
três meses. Com dificuldade de alimentar-se por meio de sonda, que rejeitava a todo custo, ele não resistiu. Deixou uma vasta família, dos 16 filhos que teve com quatro esposas. Disse sentir saudade da época em que era possível caçar a pescar.
111FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da Memória e Outros Ensaios. Cotia, SP: Ateliê Editorial,
2003, p. 17.
Ao contar sobre os guaranis, Seu Aleixo é Antonio Brasileiro “situado no sertão e em nenhuma parte, tem em sua construção uma espécie de caminho através da lembrança113.Ele era a memória da tribo. Lúcido e gentil, sempre mostrava-se disposto
a longas conversas. No trecho a seguir, ele conta como era a vida dele antes da Terra Prometida.
– Onde o senhor morava antes da Aldeia Tekoha?
– Eu morei na aldeia Jacutinga, por 14 anos. Eu sempre luto pela terra. Eu sou puro índio guarani.
– Por que o senhor luta por essa terra?
– Porque eu sou puro índio. Porque, antigamente, tinha só três ou quatro casas, mas agora nós estamos todos espalhados por todos os lugares. Antigamente, os caciques da aldeia, sem as comunidades saberem, vendiam as terras para os brancos de volta.
— Antes de o senhor morar aqui, onde havia morado?
— Não é como vocês brancos, que é a nossa religião. Toda a quarta-feira, a gente se reúne entre as famílias dos pajés para rezar e dançar, que é costume dos indígenas. Se isso acabar, como que a gente vai viver, e o que aconteceria se os pajés desistissem? Depois que saí da Jacutinga, eu morei em São Miguel do Iguaçu, na Ocoy.
— Quando começou a formação do Lago de Itaipu, o senhor estava na Jacutinga?
— A Itaipu comprou essa área para nós, após a gente morar na Jacutinga e no Ocoy.
— O senhor já morou no meio do mato? — Sim.
— Como era?
— Eu saía para caçar. — O que o senhor caçava?
— Tatu, cateto, mas os bichos são do mato. — O senhor chegou a ver uma onça? — Tinha bastante onça.
— O senhor chegou a pegar alguma? —Sim.
A referência sobre felinos na região e de enfrentamentos, principalmente com onças, entre os colonizadores, foi relatada também por pioneiros. A presença do animal representava que havia muita fauna no Parque Nacional. Os felinos de grande porte representam o topo da cadeia alimentar.
— Feras? Perigo? Era tão perigoso como hoje, porque ainda há tigres no Parque. Claro que naquele tempo havia mais. Nós morávamos perto do Canal Adutor da Usina São João114. A casa era bem cercada. Altas horas da noite,
113 FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da Memória e Outros Ensaios. Cotia, SP: Ateliê Editorial,
2003. p. 17.
114 A Usina São João foi a primeira hidrelétrica de Foz. Ela foi construída para alimentar as serrarias
que ficam dentro do que hoje é o Parque Nacional do Iguaçu. Como havia excedente de energia, a rede foi levada também para as casas da cidade. Há mais de 20 anos a São João foi desativada.
frequentemente, ouvia-se o barulho das onças, que rondavam a casa. Às vezes eu levantava e ia à janela ver os animais ferozes.
O relato é da Pioneira Conceição Ferreira Araújo. Ela conheceu o marido em 1940, quando ele veio a Foz para construir o Aeroporto Internacional da cidade115.
— O meu irmão, junto com o índio Julião, matou uma onça ali na Jacutinga. Ela vinha comer o gado. Eles atacaram ela a faca e mataram.
Contou por telefone o presidente do Sindicato dos Rodoviários de Foz, vereador Dilto Vitorassi116 ao saber que este estudo tinha como universo a presença
guarani na Fronteira. O pai dele foi um dos primeiros da Vila Jacutinga. A família deixou o local antes da formação do lago.
— Eu estudei com dois índios. Um dia um boi caiu e quebrou o pescoço. O meu irmão disse que se os índios quisessem aproveitar o animal poderiam mas desde que eles ajudassem depois na roça. Os índios pegaram o boi, mas não apareceram para trabalhar. Eles eram assim, enquanto tinha comida, eles não trabalhavam.
Vitorassi disse que o nome Jacutinga deve-se à grande presença de aves da espécie.
— Meu pai caçava muito. Eu era pequeno, mas naquela época tudo era muito difícil, então a gente buscava alimento onde tinha e a caça era uma delas — completou.
— Caçava com espingarda, com armadilha, com foice, com machado, com faca e facão. Eu, numa caçada de anta, quebrei dois dedos da mão, mas matamos o bicho. E comemos. Para não estragar fazíamos charque. Carne de anta é igual à carne de gado. De dia se trabalhava na roça. De noite caçava e pescava, de manhã cedo caçava, e todo mundo trazia as caças e pescas para o rancho, como índio.
Esta última narrativa da Pioneira Rafaela Correia117 contribui para reproduzir o
cenário da época em que seu Aleixo disse também ter caçado onça. Em duas falas os pioneiros fazem do índio lombo para descarregar o que consideravam pouco humano ou então não próprio para um trabalhador: “Os índios pegaram o boi, mas não apareceram para trabalhar. Eles eram assim, enquanto tinha comida, eles não trabalhavam”. “De noite caçava e pescava, de manhã cedo caçava, e todo mundo trazia as caças e pescas para o rancho, como índio”.
115 PREFEITURA MUNICIPAL DE FOZ DO IGUAÇU. Fundação Cultural. Retratos. Foz do Iguaçu:
Gráfica Editora Paraná, 1997. p.74.
116 Dilto Vitorassi, 58. Ele havia ligado para dizer que a categoria ameaçava paralisar o transporte no
dia 14 de janeiro de 2014. A ligação foi no dia 12 de janeiro de 2014.
117 PREFEITURA MUNICIPAL DE FOZ DO IGUAÇU. Fundação Cultural. Retratos. Foz do Iguaçu:
Esse modo de fazer do outro espelho, segundo Orlandi: “O que se constrói, finalmente, é a imagem do branco para o branco, através do índio. O índio é mero pretexto para o branco mostrar-se a si mesmo para os seus118”.
Seu Aleixo Bogado foi o entrevistado mais visitado durante as fases da pesquisa. porém em todas as vezes que o assunto “branco” era tocado, ele nunca teceu comparativos de inferioridade. Quando falou sobre vendas de terras disse que quem vendia era o índio. Não que quem comprava era o branco, como segue a entrevista.
– Qual a diferença de morar no mato e, hoje, aqui na aldeia Tekoha? – Aqui, morando aqui, quando saio para caçar, às vezes não acho muitos bichos.
— O senhor gosta de morar nessa casa? Antes de responder, ele pensa muito. — Sim.
— O senhor gostava mais daquela coberta com capim e palha? Ele ri e diz:
— Só tem essa mesma. Eu só tenho essa mesma, porque eu moro sozinho e não tenho mulher. Eu não quero mais mulher, eu quero morar sozinho. — Por quê?
— Porque elas não querem vir.
— E por que elas não querem mais morar com o senhor? — Se quiser vir, eu trago, mas, se não quiser, eu não trago. — Quantas mulheres o senhor já teve?
Primeiro ele conta o número de filhos para saber quantas mulheres. — Eu tive três mulheres.
— O senhor casou com que idade? — Eu tinha 18 anos.
— O senhor morava no meio do mato quando casou?
— Eu morava no Paraguai. Depois eu vim para o Brasil, porque gosto mais daqui.
— O senhor, quando era pequeno, já andava com roupas? — Sim.
— O senhor lembra-se dos seus avós?
— Eu lembro deles quando eu morava lá em Jacutinga. Alguém veio e os matou. A partir disso, não sei mais nada.
— E dos seus pais: mãe e pai?
— O nome do meu pai era Severo, não lembro o nome da mãe. Sempre lembro deles, assim tenho força de viver tantos anos, até agora.
— Com quantos anos os seus pais morreram? — Com 40 anos.
— A que o senhor atribui o fato de estar com 105 anos? Ele ri muito, parecia esperar pela pergunta.
— Eu não coloco na minha cabeça o fato de ter essa idade. Eu penso em viver apenas porque ainda tenho filhos e filhas.
— Onde estão os seus filhos? — O meu filho mora aqui perto.
— O neto do senhor é o marido dessa moça que se chama Graciela. O senhor sabe disso?
Ele olha para a moça tradutora, e parece surpreso e feliz.
118 ORLANDI, Eni Pulcinelli. Terra à Vista!: discurso do confronto: velho e novo mundo. São Paulo:
— Eu vou falar uma coisa: casar é uma coisa, a gente tem de casar só uma vez. Se a gente casar, tem de respeitar. Não sair assim, para ver uma pessoa mais bonita e já briga. É por isso mesmo que a gente tem de pensar antes de casar. Se a gente se casar e separar o tempo todo, a gente encontra uma última flor que tem lá no fundo, e a gente se separa de nova, aí não tem mais outra flor.
Todos aplaudem a fala do seu Aleixo: Graciela, Inácio, Rosalina e eu. Ele ri, está à vontade e, nesse momento, percebo que ele volta a sentir-se com a real importância que detinham os velhos (xamói) na tribo.
— Os índios já chegaram a ter terras?
— Sim, mas o índio vendia. Pajé muitas vezes fazia negócio com a terra. Segundo encontro julho de 2010. Naquele momento, utilizava um balde de cor azul para colocar água em uma das cinco mudas de erva-mate. A planta demora cinco anos para produzir folhas.
— Estou vendo pés de laranja, batatas e melancia. Por que o senhor ainda planta esses alimentos ao invés de comprar?
— Às vezes tenho dificuldade de achar um dinheiro e eu sou um senhor de idade. Então se eu planto, eu tenho o que comer.
— O senhor estava molhando umas plantas quando chegamos. O que era?
— É erva-mate.
—Por que planta erva-mate?
— Porque precisa, e às vezes eu não tenho como comprar.
— O senhor cobre as mudas com outros galhos das ervas daninhas que carpiu. Por que faz isso?
— É para fazer sombra, sombra. — A geada matou algum alimento? — Sim, batata e melancia.
— O senhor já participou de alguma guerra? — Não119.