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4.8 E R MARGINSKVISTESTENE HENSIKTSMESSIG UTFORMET ?
4.8.2 Tidsdimensjonen
Como visto no Capítulo 3, ainda não há um consenso científico em torno do que sejam os distúrbios mentais e de comportamento e de quais seriam suas causas. Mas, enquanto
organicismo, existencialismo, psicanálise e comportamentalismo tentam sobrepor-se como paradigma, o jornal Folha de S.Paulo, em sua cobertura sobre os transtornos, tende a apresentar um veredicto próprio, no qual predomina a visão do poeta Gullar e eles são vistos como doenças, problemas biológicos causados pelo mau funcionamento do cérebro, como observado na matéria: “Experimento desliga área cerebral e faz rato perder o medo de gato” (MIOTO, 2009). Ela relata um estudo realizado pela USP e publicado no periódico norte-americano PNAS (Proceedings of the Nacional Academy of Sciences), que visa entender os circuitos neurais dos ratos a fim de ajudar a elucidar os mecanismos “tanto da ansiedade quanto da síndrome do pânico”. Se a pesquisa defende que a compreensão dos transtornos pode ser encontrada na atividade dos neurônios, consequentemente, ela afirma ser essa a origem dos distúrbios, portanto, uma causa orgânica, biológica.
O estudo dos neurônios para compreender os mecanismos de um transtorno mental é o método divulgado em “Biólogo quer fazer cobaia com neurônio de criança autista” (GARCIA, 2009a). Na notícia, um cientista brasileiro radicado no EUA planeja produzir camundongos para experimentos que possam revelar como o autismo se manifesta biologicamente. Compreender de modo orgânico a psicose é o objetivo de pesquisadores da Fiocruz, que trabalham para desenvolver um novo método de mapeamento cerebral que permita diagnosticar o transtorno por meio de um biomarcador (COLLUCCI, 2009d).
Já a dieta mediterrânea e, em especial, o Ômega 3 nela encontrado são apontados como fatores que podem combater a depressão, de modo que seus adeptos são “30% menos propensos a desenvolver a doença” (ABRAMCZYK, 2009). “Uma das explicações é que o ácido graxo ômega 3 (presente em peixes de água fria, como o salmão) influencia na estrutura do sistema nervoso central e no transporte de neurotransmissores” (SILVEIRA, 2009i).
O viés organicista é bastante enfatizado em textos como “Autismo: Luto na gestação não eleva riscos” (AUTISMO LUTO..., 2009), no qual se afirma que a morte de um parente próximo à mãe pouco antes ou durante a gravidez não aumenta riscos da psicose. Entretanto, a mesma pesquisa não prova que o estresse pré-natal não tenha papel no desenvolvimento da doença mental, pois: “Teoricamente, estresse severo na gestação pode afetar o desenvolvimento cerebral do feto de modo a aumentar as chances da desordem” (AUTISMO LUTO..., 2009, grifo nosso).
O organicismo explorado em artigo do físico Marcelo Gleiser, “O eu no cérebro” (2009), que adota o viés biológico para explicar o mau funcionamento do cérebro humano, diferenciando o órgão do portador de esquizofrenia ao de uma pessoa saudável. O mesmo acontece com o ensaio “Sonhos são exercício para o cérebro” (CAREY, 2009b), ele afirma
que estudos para entender o sono poderiam ajudar na compreensão das alucinações da esquizofrenia. Pois “Os esquizofrênicos sofrem alucinações de origem desconhecida. Hobson sugere que esses voos da imaginação possam estar relacionados à ativação anormal da consciência sonhadora. Como disse Jung: ‘Deixe o sonhador despertar, e você verá uma psicose.”
Já a nota “Autismo: Pesquisa investiga possíveis causas” (AUTISMO PESQUISA, 2009) enfoca o caráter orgânico por meio da busca pela identificação de fatores de risco com ênfase na predisposição genética, entretanto afirma que também é importante avaliar o papel dos fatores ambientais na manifestação da psicose. Os textos “Esquizofrenia sob controle” (COLLUCCI, 2009c) e “Com medo do medo” (CUPANI, 2009), ainda que enfatizem as causas biológicas dos transtornos, mostram que foram situações comportamentais – decepções no trabalho e a perda de um filho associada ao estresse pela mudança de país – os respectivos estopins para as crises psicóticas da esquizofrenia e síndrome do pânico.
Outras notícias, porém, vão na contramão da tendência organicista e incluem questões comportamentais como um casamento feliz (sensação de satisfação), o sofrimento de ter o filho da UTI como fatores influem no desenvolvimento de um transtorno mental.
Segundo estudo liderado por uma universidade da Nova Zelândia, o casamento reduz significativamente o risco de depressão e ansiedade, de modo que “a vida a dois traz benefícios à saúde mental tanto de homens quanto de mulheres e o estresse da ruptura deixa as pessoas vulneráveis a ter distúrbios” (CASAMENTO..., 2009). Outro estudo de origem não identificada afirma que “embora pessoas com diabetes tenham mais chance de serem diagnosticadas com depressão do que as demais, (...) essa diferença pode ser atribuída ao contato mais frequente que esses pacientes têm com o sistema de saúde” (DEPRESSÃO DIABETES..., 2009). Ou seja, a tendência se dá não por uma alteração que a diabetes provoca no organismo do portador, mas por ele ter o contato com indivíduos com outras doenças em hospitais ou consultórios médicos. A origem da depressão em mães de gêmeos também não é biológica, mas comportamental. O estresse de cuidar de várias crianças e o medo de parto prematuro contribuem para o desenvolvimento não apenas do distúrbio, mas de quadros que podem evoluir para ansiedade, síndrome do pânico e TOC (SILVEIRA, 2009j). Já a causa do estresse pós-traumático desenvolvido em veteranas de combate nos EUA é atribuída ao sofrimento e ao trauma de vivenciarem a situação de guerra (CAVE, 2009) e em pais de prematuros, ele ocorre em virtude do estresse da UTI neonatal e do sofrimento causado pelo medo de perder o filho (TARKAN, 2009).
Ademais de noticiarem que, nos fatores que influenciam no desenvolvimento dos transtornos mentais mencionados há algo de cunho comportamental, os textos “Depressão: Doença será a mais comum do mundo em 2030” (DEPRESSÃO DOENÇA..., 2009), “Criança: Educados para a perfeição” (MOTA, 2009a), “45% da Grande São Paulo já manifestou transtorno mental” (SILVEIRA, 2009b) e “Violência exacerba distúrbios mentais no país” (VIOLÊNCIA..., 2009) destacam-se por abordar os distúrbios como doenças sociais, reflexo do estilo de vida da sociedade contemporânea.
No primeiro, os países subdesenvolvidos e pessoas pobres em países ricos são definidos como aqueles “que mais sofrerão com o problema”, pois “a depressão tem diversas causas, algumas delas biológicas, mas parte delas vem de pressões ambientais e, obviamente, as pessoas pobres sofrem mais estresse em seu dia a dia do que as ricas” (DEPRESSÃO DOENÇA..., 2009). A paternidade invasiva e a superproteção que tornam os filhos mais frágeis são vistos como causadores do aumento do número de estudantes universitários “com profunda depressão e desordens de ansiedade que incluíam ataques de pânico, automutilações, disfunções alimentares, excesso no consumo de álcool” (MOTA, 2009a) nos EUA.
O fato de 45% da Grande São Paulo já ter manifestado transtorno mental como depressão, estresse pós-traumático, fobias e pânico – número superior à média mundial – é justificado pelo tamanho da cidade, o estresse social, a competitividade e a expectativa social em que vivem seus moradores (SILVEIRA, 2009a). No Iraque 17% das pessoas “sofrem algum tipo de desordem mental” (VIOLÊNCIA..., 2009), como depressão, fobia, estresse pós- traumático e ansiedade e a origem dos distúrbios é atribuída à guerra e a violência do período de Saddam Hussein.