5. REGNSKAPSMESSIG SKILLE
5.2 E R REGNSKAPSMESSIG SKILLE HENSIKTSMESSIG UTFORMET ?
Notícias que retratam a relação entre ter um distúrbio mental e desenvolver outros problemas, ainda que divulguem ciência e suas versões tradicionais, agem no sentido de reforçar representações sociais que enfatizam o caráter negativo dos transtornos mentais e de comportamento. Esse fato, porém, não ocorre somente em matérias sobre relações causa- consequência, mas é disseminado em toda a cobertura da Folha sobre os transtornos enquanto jornalismo científico, seja ao ressaltá-los como doença ou ainda no ato, que parece ter se estabelecido como hábito padrão entre os jornalistas, de afirmar que a pessoa SOFRE DE um transtorno mental. Ação que se repete com muita frequência no jornal.
Em “Ecstasy é usado para tratar veteranos de guerra” (ECSTASY..., 2009), o repórter afirma que pesquisadores norte-americanos estão usando a droga para tratar “veteranos de guerra que sofrem de estresse pós-traumático”. O mesmo ocorre em “Despreparo leva mães a optarem por bala e miojo” (CARUSO et al., 2009), matéria que aborda o fato de crianças e idosos serem os grupos mais suscetíveis à desnutrição, e uma das causas para os mais velhos é
o fato de que eles “sofrem com o abandono familiar, a depressão e com as alterações no funcionamento do corpo provocadas pelo envelhecimento.” Pessoas que ingerem grandes quantidades de alimentos industriais têm 58% mais chances “de sofrer de depressão” (ALIMENTO..., 2009), já aqueles que têm enxaqueca são mais propensos “a sofrer de estresse pós-traumático” (ENXAQUECA..., 2009) e “Coreanos no Brasil sofrem transtornos” (COREANOS..., 2009) como ansiedade e distúrbios psiquiátricos.
A nota de Mônica Bergamo, de 16 de setembro, que retrata um projeto da USP para a reinserção profissional de portadores de esquizofrenia, além do sofrimento reforça outro ponto do senso comum, a doença como condição permanente do indivíduo e, portanto incurável. Isso ocorre quando a pessoa deixa de ser o portador da psicose para ser nomeado apenas como o esquizofrênico, termo que carrega grande conotação negativa e cujo uso na mídia é orientado a ser evitado pela ABP (2009). A notícia revela que o Instituto de Psiquiatria da USP está desenvolvendo um projeto “para preparar os pacientes que sofrem de esquizofrenia para o mercado de trabalho, com o uso de terapia em grupo focada em reinserção vocacional. Dos 13 esquizofrênicos que participam do projeto, sete já conseguiram emprego ou estão estudando” (BERGAMO, 2009c, grifo nosso).
Já a notícia “Fala de papagaio assinala avanços dos deficientes” (FALA..., 2009) define um personagem ouvido no texto como alguém que “sofre de desordem bipolar e tem um histórico de explosões psicóticas violentas”. Ou seja, retrata o transtorno bipolar como uma desordem e reitera o senso comum do portador de transtorno mental como violento.
Além do sofrimento, da desordem, da violência e do estigma que carrega o termo esquizofrênico, ao adotar o padrão de remeter-se aos transtornos mentais e de comportamento como doença, a Folha de S.Paulo reforça seu sentido negativo e vai ao encontro daquilo que se estabeleceu como padrão na cobertura de Comunicação e Saúde, o protagonismo da doença (BUENO, s/d). Como retratado no Capítulo 2, a mídia baseia-se no binômio saúde/doença, sendo a segunda a ausência de enfermidade, um estado que afeta o organismo do indivíduo (ADAM; HERZLICH, 2001) e, por isso, impede seu bem-estar e causa sofrimento. Por isso, deve ser combatido e o será por meio da ciência e daquilo que nela está embutido, as pesquisas científicas, os medicamentos e claro, a genética, mecanismo capaz de estabelecer os padrões de uma saúde perfeita.
6.5.1 Desordem incapacitante, o problema e a causa de transtornos e sofrimentos
Como já observado, ainda que tenha como objetivo divulgar os transtornos e acontecimentos que interfiram sobre ou contribuam com seus portadores, as notícias que os exploram em nome do jornalismo científico na Folha de S.Paulo não ficam imunes ao senso comum e as imagens dos distúrbios como uma desordem ou problema, algo incapacitante e a causa de sofrimento e outros transtornos, fato que teve destaque em textos que mencionavam a depressão.
A depressão foi abordada como “doença” que “incapacita mais o sexo masculino” (SILVEIRA, 2009a, grifo nosso). Ela também “é um dos problemas comuns entre pessoas da 3ª idade” (COLLUCCI, 2009b, grifo nosso). Ainda que a relação entre o luto na gestação e o aumento da probabilidade de gerar uma criança com autismo tenha sido descartada, a notícia afirma que “teoricamente, estresse severo na gestação pode afetar o desenvolvimento cerebral do feto de modo a aumentar as chances da desordem” (AUTISMO LUTO..., 2009, grifo nosso), ou seja, da psicose.
Além de serem os próprios problemas ou desordem, os distúrbios são abordados como a causa de sofrimentos e transtornos ao portador. É o caso de “Depressão pode favorecer queda na densidade óssea” (SILVEIRA, 2009h), o que aumenta a chance de desenvolver osteosporose. Os filhos de depressivas têm mais crises de asma, pois “sintomas da depressão como cansaço e falta de atenção podem afetar a forma como a mãe lida com a doença do filho” (ASMA..., 2009). A depressão e a ansiedade são fatores que contribuem para que pacientes que tiveram câncer na infância sejam dependentes do cigarro (BASSETE, 2009c).
A depressão dos pais pode estar relacionada ao choro excessivo dos recém-nascidos (DEPRESSÃO DO..., 2009). Ela “aumenta risco de prematuros” (PRÉ-GRAVIDEZ..., 2009) e aqui vale ressaltar que a matéria, incluída no tópico ciência normativa, afirma que bebês prematuros tendem a desenvolver ansiedade e o próprio distúrbio. O qual “parece ser um fator chave para” (DIABETES..., 2009) para disfunções sexuais que afetam mulheres com diabetes do tipo 1 e está associadas a dificuldade sexual dos sexagenários (SAMPAIO, 2009). Além de aumentar o risco de insuficiência cardíaca em portadores, mesmo aqueles que usam antidepressivos (POUCAS..., 2009c).
6.5.2 A relação com a morte
Ainda que o jornal tenha dado ênfase a notícias científicas que abordem os transtornos mentais como algo tratável, quatro matérias enfatizam sua relação com a morte. “Campanha quer prevenir suicídio” (SILVEIRA, 2009e) e “Quem quer se matar dá sinais” (MANTOVANI, 2009c) tem a saúde pública como foco e abordam uma campanha da ABP que visa prevenir o suicídio, uma vez que
alguns transtornos mentais frequentemente estão envolvidos com o suicídio. Um trabalho da OMS com mais de 16 mil pessoas constatou que 90% dos casos puderam ser relacionados com problemas como depressão, ansiedade, uso de álcool ou drogas e esquizofrenia. (SILVEIRA, 2009e)
O primeiro texto ressalta que nos últimos 45 anos aumentou em 60% os casos de suicídio no mundo e uma estimativa afirma que de 2002 a 2020 crescerá em 74%. Se em 2009, acontecia um suicídio a cada 40 segundos, em 2020 será um a cada 20. No Brasil, há em média 24 suicídios registrados por dia, entretanto estima-se que essa taxa seja 20% maior e se deve considerar que o número de tentativas é 20 vezes superior ao de mortes.
No segundo texto é apresentada uma entrevista com a jornalista Paula Fontenelle, cujo pai cometeu suicídio. Ela reitera a informação de que mais de 90% dos casos são associados a um transtorno mental não tratado adequadamente, como depressão e bipolaridade ou ainda relacionado ao uso de drogas.
O suicídio também é abordado em “Violência exacerba distúrbios mentais no país” (VIOLÊNCIA..., 2009). O texto afirma que 17% dos iraquianos têm transtornos e que desses, 70% já teve ideia de suicídio, o que se torna ainda mais sério, uma vez que apenas 2% dessas pessoas tenham procurado ajuda de profissionais, que são de difícil acesso e em função do estigma que há no país contra os males mentais.
Em “Depressão eleva risco de morte em doentes com câncer” (SILVEIRA, 2009g), um estudo que não relaciona os mecanismos pelos quais o distúrbio contribuiria para um pior prognóstico do câncer, afirma que sintomas depressivos aumentam o risco em 25%.