Como revelado em 54,6% do corpus analisado, 200 notícias, os jornalistas utilizam a opinião de especialistas ou envolvidos nos fatos relatados na construção da narrativa noticiosa. A presença das aspas, que trazem a versão dos acontecimentos relatada pelas fontes noticiosas é empregada como elemento que garante o ideal da objetividade e dá legitimidade ao texto e por isso, é alvo de análise deste tópico.
De acordo com Soloski (1999) e Sousa (2005), o ideal de objetividade é uma importante norma de atuação jornalística, que influencia diretamente na escolha das fontes e legitima o produto jornalístico – a notícia – junto à sociedade. A presença de depoimentos entre aspas, o jornalismo declaratório é visto como procedimento fundamental para que o jornalista mantenha “distanciamento e frieza” em relação aos fatos, de modo que ao inserir a opinião de alguém ele deixaria de participar da notícia (TUCHMAN, 1999).
Ademais de ser empregado como ritual estratégico do ideal da objetividade, o uso das fontes e, em especial, a sua escolha, é importante para dar credibilidade à notícia, desde que o entrevistado seja alguém de prestígio, ocupe um cargo ou atue em uma instituição legitimada socialmente.
Outro ponto importante relacionado às fontes é a polifonia. Uma vez que cada entrevistado ao emitir opinião fornece a sua versão do acontecimento e da “realidade”. Enunciados que costumam ser múltiplos e distintos e, além de serem elementos essenciais à construção da narrativa, influenciam na formação das imagens e dos sentidos do tema relatado.
Por exemplo, quando uma fonte afirma que somente “um louco” seria capaz de tal ato de violência, ela emite a sua versão e reitera a representação social que relaciona os transtornos mentais e de comportamento à violência, animalidade e periculosidade. Por outro lado, se outro entrevistado diz que é importante alterar a imagem da loucura na sociedade e inserir socialmente seus portadores, ele também fornece a sua visão do acontecimento, mas nega a crença de que eles sejam perigosos, defendendo que sejam incluídos na teia social.
Desse modo, as fontes da notícia, além de acrescentar legitimidade ao texto, fornecem variadas versões e imagens, que são criadas na “realidade”, mas ao serem veiculadas pela mídia também ajudam a construí-la.
Diante de tal importância, analisou-se quem são as fontes das notícias sobre os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens ouvidas pela Folha de S.Paulo e,
quais pistas a sua escolha fornece a respeito da construção da narrativa noticiosa e as versões e imagens sobre os distúrbios veiculadas pelo jornal.
Porém, para isso, analisou-se apenas as notícias que compõem os blocos temáticos Ciência, Personagem e Geral. Eles concentram 67,5% (135 matérias) das fontes ouvidas pelo jornal e, neles predominam textos apenas informativos em que o repórter não deixa clara sua opinião, tentando manter “distanciamento e frieza” do fato relatado.
Geral Opinião e Opinião do Leitor foram excluídas por serem blocos temáticos, cujo foco é apresentar notícias opinativas, que também fornecem versões e imagens sobre os transtornos, mas não seguem os rituais estratégicos de objetividade: jornalismo declaratório, texto em 3ª pessoa e distanciamento do jornalista em relação ao tema relatado (HERNANDES, 2006).
Já Metáforas e Outras Mídias, ainda que sigam esses rituais em muitos de seus textos, foram excluídas por não se referirem diretamente aos transtornos mentais e de comportamento e as seus personagens. Elas apenas os “tomam emprestados” para adjetivar as situações descritas ou por comporem os enredos da obra destacada na notícia, que muitas vezes é de opinião (crítica).
4.4.1 As vozes da notícia científica
Das 107 notícias alocadas no bloco temático Ciência, em 66 (61,7%) ouvem-se fontes, seja para exemplificar o transtorno ou a pesquisa divulgada e, em especial, para explicá-los. Dos 41 textos em que o ritual estratégico de objetividade não é empregado, 13 (31,7%) são opiniões – artigos ou ensaios. Ao todo, são ouvidos nas notícias 154 fontes, sendo que alguns especialistas são procurados mais de uma vez.
Quanto às fontes ouvidas, notou-se o amplo predomínio dos expertises – profissionais da área da saúde e, em especial, pesquisadores e docentes de grandes universidades nacionais ou internacionais. Eles são os entrevistados preferenciais e, por terem prestígio e reconhecimento no meio acadêmico ou ainda por pertencerem a instituições legitimadas socialmente, raramente têm suas opiniões questionadas ou contrastadas com a de outro especialista. Mesmo nos casos em que assunto divulgado é uma pesquisa por eles realizada.
Ao todo são ouvidos 32 pesquisadores internacionais. Entre os brasileiros, o destaque fica por conta dos especialistas pertencentes à USP, com 27 entrevistados, e à Unifesp, com 16 docentes ou pesquisadores procurados.
De acordo com Burkett (1990), como relatado no Capítulo 2, notícias de uma temática específica tendem a usar fontes comuns ou então especialistas de uma mesma instituição. E ao ouvi-los, os jornalistas buscam confirmar fatos e opiniões a fim de fornecer maior legitimidade ao texto, que agregará confiabilidade e veracidade por parte do público.
O ritual estratégico de objetividade do jornalismo adotado nas notícias científicas, que prioriza o especialista, reduz potencialmente a polifonia e a difusão de versões distintas sobre os transtornos. Ainda que os cientistas ouvidos não sejam sempre os mesmos, e alguns sigam escolas ou linhas de pesquisa divergentes, o fato de o foco dos textos terem sido os psiquiatras aumenta a tendência de explorá-los como doença, cujas causas, tratamentos e provável cura estão no organismo, com destaque à genética.
Com isso, os personagens – portadores e familiares –, pessoas que convivem com distúrbios, tomam os medicamentos e praticam as técnicas descritas nos estudos que originam as notícias, são relegados e têm sua importância – que é a vivencial – diminuída. Eles são ouvidos em apenas 20 matérias, na maioria apenas como anedotas – exemplos da situação relatada. Em três desses textos eles atuam como especialistas, por sua vivência e conhecimento prático sobre o tema e em outros dois são o destaque da notícia, que usa o pesquisador como fonte secundária apenas para corroborar e dar dados técnicos da história contada.
4.4.2 As vozes dos Personagens
Das 60 notícias que compõem o bloco temático Personagem, em 49 (81,7%) há a opinião das fontes. E enquanto as notícias científicas priorizaram pesquisadores e psiquiatras, ele destaca a polifonia de vozes e origens dos entrevistados. De modo que dentre as 73 fontes ouvidas havia 46 diferentes funções - entre as quais estavam o próprio personagem, amigos e familiares, médicos, advogados, secretário de saúde, policiais, órgãos de direitos humanos, representantes de governo, estudantes, promotores, deputado e até mesmo vítimas e testemunhas da ação relatada.
O profissional da área de saúde tem seu espaço para discorrer acerca dos transtornos e, em especial, como eles atuam sobre o portador. Entretanto, médicos e cientistas são minimizados diante da voz de outras figuras que melhor encaixam-se na temática – que tende a abordar o portador por cometer ou ser suspeito de atos violentos -, como advogados, policiais e promotores – pessoas que atuam na área da justiça e são ouvidos 15 vezes. E, assim como o próprio personagem, amigos e familiares, dão suas versões do acontecimento com o
objetivo de acusar ou defender o sujeito da ação que, quando noticiada costuma ressaltar imagens que ligam os portadores de distúrbios mentais à violência, animalidade e a periculosidade social. Raramente, o personagem é a única fonte da matéria, o que só ocorre quando é uma personalidade ou alguém de renome, artistas como Deborah Secco e Roberto Carlos, o jogador de futebol Adriano, entre outros. Em casos em que o portador é desconhecido ou acusado de cometer um ato de violência, irracionalidade ou atentados à sua própria vida (suicídio), sua palavra, quando ouvida – aqui vale ressaltar que muitas vezes eles são substituídos por advogados de defesa, amigos e familiares – é contrastada com a de alguma outra autoridade – da justiça ou de saúde. Pessoas que, em função do cargo ocupado ou por estarem na área de segurança e justiça, dotam de legitimidade e, consequentemente, sua palavra acrescenta confiabilidade e credibilidade à notícia.
4.4.3 As vozes das notícias de Geral
Dos 23 textos classificados no bloco temático Geral, 20 (87%) recorrem às aspas de entrevistados na construção da narrativa noticiosa. Por serem notícias em que o foco principal não está no transtorno mental e de comportamento ou em seus personagens, que tendem a ser citados superficialmente, apresentam temáticas diversas e bastante variadas. E, por isso, em suas matérias é observado o maior emprego da polifonia.
Em seus textos são ouvidas 52 fontes entre atores, ministros, personagens e familiares, assessorias de comunicação, advogados, diretor de filme e especialistas – professores e pesquisadores - nacionais e estrangeiros.
Os entrevistados atuam com o propósito de comentar e dar sua versão dos fatos relatados, de modo que o emprego dos personagens dá-se, predominantemente, apenas para exemplificá-los. Exceção feita às entrevistas com dois atores consagrados, em que eles – por sua legitimidade – foram as únicas fontes ouvidas e, com as quais não coube questionamentos.
Os especialistas (pesquisadores) merecem grande destaque, porém, diferentemente do bloco temático Ciência, são provenientes das mais distintas áreas – saúde, humanas e estatísticas, por exemplo - e das mais variadas instituições. Com isso, as notícias dão voz até mesmo a universidades do nordeste, algo inédito na cobertura do jornal sobre os transtornos mentais e de comportamento, que foi centralizada no eixo Rio-São Paulo, com destaque à capital paulista, de modo que é dada maior ênfase aos pesquisadores estrangeiros, em especial dos EUA, do que àqueles provenientes de outros estados ou regiões do Brasil.
4.4.4 O que essas vozes determinam
Além de importante para a execução dos rituais estratégicos que sustentam o ideal da objetividade jornalística, as fontes da notícia são atores que atuam diretamente na construção da narrativa e dos sentidos e imagens sobre os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens a serem veiculados pela matéria. De modo que, quando inseridas no texto, suas visões e versões dos fatos relatados são difundidas para o público-leitor tornando-se parte de sua “realidade”.
Ao buscar fontes para seus textos, o emprego da polifonia torna-se inevitável pelos jornalistas, que veiculam versões distintas e até mesmo discordantes sobre o acontecimento. É isso o que ocorre na cobertura realizada pela Folha de S.Paulo, no ano de 2009, sobre os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens. Seja por meio da declaração dos entrevistados, da temática predominante ou dos enquadramentos culturais utilizados pelo jornalista na escolha da fonte e na seleção, interpretação e transformação do fato em notícia, o jornal veicula significados diversos para um mesmo distúrbio mental.
Um transtorno que ora é uma doença orgânica e condição tratável, ora é algo permanente, incapacitante, ilógico e marcado pela irracionalidade, que transforma o portador em perigo para a sociedade. Essas são apenas algumas das muitas versões dos distúrbios e de seus personagens exploradas pela Folha. Imagens que podem ser reiteradas ou até mesmo alteradas a partir da seleção da fonte da notícia e sua tendência a dar mais destaque a tipos específicos de entrevistados. Fontes que, como vistos, podem ser expertises da saúde, profissionais da lei ou até mesmo personagens com reconhecimento social, pessoas que naquele momento e para o objetivo do texto garantem sua legitimidade e credibilidade da notícia junto ao público-leitor.
5 JORNALISMO CIENTÍFICO E CONSTRUÇÃO SOCIAL DAS NOTÍCIAS