5.1 Tid og Trandum
5.1.4 Tid, mestring og motstand
Relacionando religião e sentido de vida, Estrada (2007) define o saber da religião como uma pergunta sobre o significado transcendente do mundo e do homem, significado este que é comunicado numa linguagem na qual o expressivo e o comunicativo primam sobre o explicativo e o causal. Assim, falar em sentido, na linguagem religiosa, não implica responder racionalmente a “como” algo acontece, mas procurar o sentido de “porque” tal fato se dá. Logo, o sentido atribuído pelos idosos às mudanças decorrentes do envelhecimento, com as consequências já vistas, não nasce da compreensão racional sobre o que mudou em comparação com outros períodos da vida; ao contrário, se origina da busca de significado para a nova etapa de vida.
26 Da expressão em latim Tempus fugit, carpe diem: O tempo foge, aproveite o dia. Refere-se à
Indagados a respeito do sentido do envelhecimento, os Irmãos deram respostas variadas, conforme a geração que estão vivendo. Novamente, o movimento de análise será ascendente.
Para os Irmãos na faixa dos 60 anos, que não percebem grandes mudanças em relação às etapas de vida anteriores, a busca de sentido espiritual não se refere às mudanças provocadas pelo envelhecimento, mas volta-se para as decisões inerentes às funções exercidas, especialmente aquelas que, por envolver questões diversas, são mais complexas. Referindo-se ao ritmo de vida corrido, que implica inúmeras tarefas e decisões, o Ir. Marcien exemplifica:
Vou me apegar a quem? Aos Irmãos? Que nada! Os Irmãos são pessoas que estão como eu, mais novo, mais velho. A gente foi criado por Ele [Deus] e foi criado para Ele. [...] Então você pede forças a Deus para aquela realidade ser superada, para você se conter com o que tem e acabou-se. Quer dizer, se não houve mudanças significativas no estilo de vida e, consequentemente, o Irmão não percebe ter entrado na terceira idade, não há um fator externo que provoque o questionamento a respeito do sentido da existência; permanece a mesma relação com Deus própria de outras etapas da vida. Pode-se reconhecer aí um Deus presente no cotidiano e, portanto, fonte de auxílio e força para as atribulações com que o fiel se depara.
Da mesma geração, o Ir. Adorátor relata que até se preparou para as mudanças na terceira idade, mas estas não ocorreram: “Chego aos 60 anos e, quando penso que Deus ia me aposentar, Ele vem e diz: ‘Não é aquilo que você quer, mas é aquilo que Eu quero!’ E aí me dá um mandato apostólico, através dos Irmãos.” Novamente, sentido divino atribuído às mudanças na função institucional e às responsabilidades dela decorrentes, mas que não implicam questionamentos sobre as transformações características da etapa de vida que inaugura a velhice.
O Ir. Isidoro, por sua vez, concebe a entrada na terceira idade como um convite à reflexão “sobre a fidelidade e a perseverança”, isto é, o quanto o Irmão se mantém fiel à missão para a qual se consagrou e, na mesma perspectiva, como encontra na fé a força para continuar esta missão, frente às limitações que se avizinham. Como nenhum dos Irmãos desta geração se reconhece idoso, percebem que Deus continua conduzindo suas vidas como sempre fez e, logo, não há
necessidade de procurar um sentido para além daquele já encontrado. A vida continua seguindo o fluxo esperado.
Os Irmãos na casa dos 70 anos já reconhecem mudanças no estilo de vida e, consequentemente, a reflexão sobre o sentido do envelhecimento se torna necessário. O Ir. Claude-Régis distingue sentido de missão e cultivo da espiritualidade nessa idade:
o testemunho que a gente tem que dar pras pessoas, falando e vivendo, o vivencial, isso aí não muda, mas interiormente acho que muda. Eu falo com Maria, eu falo com Jesus, mas de uma maneira diferente. Não é pra me ajudar na minha caminhada, minha caminhada tá feita, graças a Deus. Muda a base de troca na relação entre o ser humano e o Transcendente: se antes o fiel extraía do Divino a força e discernimento necessários às lidas cotidianas, agora haure Dele a compreensão a respeito das limitações do corpo envelhecido. O que espera de Deus não é a força para cumprir a missão, mas a serenidade para acolher e viver a velhice, na perspectiva de Moral Barrio (2009): não uma postura ingênua, mas uma simplicidade que, conhecedora das complexidades do coração humano, aprende a se libertar delas.
De maneira similar, o Ir. Paul-Dominique relaciona busca de sentido e declínio biofisiológico, assim como as estratégias para lidar com elas:
Para mim, ultimamente, vem sendo mais fácil aceitar minhas limitações [problemas de visão e de locomoção, fraqueza e dependência de remédios]; é quando procuro ir e ver Deus através de todas as coisas e criaturas. [...] aproveitar de meus relacionamentos com as pessoas, [...] participar e entender mais a fundo a Celebração Eucarística [...] com pessoas de nossa vizinhança, [...] fazendo presença nos recreios ou ajudando a elaborar projetos e programações para nossa comunidade marista.
Esse é um movimento que relaciona envelhecimento e experiência de fé: frente às limitações próprias do envelhecimento, é em Deus que o Irmão procura ajuda para encontrar outras possibilidades de apostolado, que garantam a continuidade da sua presença junto à comunidade educativa e eclesial e sejam compatíveis com suas condições físicas e psíquicas. É provável que Irmãos com histórico de experiências diversas, ao longo da vida como religioso, tenham mais facilidade de encontrar estas possibilidades do que aqueles que sempre desempenharam funções semelhantes ao longo da vida; para estes, especialmente se sempre estiveram em funções nas quais o contato com alunos e comunidade é
menos frequente, como os cargos de gestão, é possível que enfrentem mais dificuldades para encontrar esse novo lugar. Se a identidade era construída sobre as funções desempenhadas, sua ausência pode resultar em fragmentação subjetiva. Dias (2005, p. 197) se refere a esta situação e às suas consequências: “não são poucos os sofrimentos expressos por esses sujeitos, que denunciam o quanto também a vida religiosa tem se sustentado no fazer como expressão do ser”. Se o sentido foi dado pela função exercida, terá que ser reinventado quando esta mudar.
O Ir. Amandus reconhece as mudanças da velhice como um convite divino a refletir sobre a própria vida: “Acredito que Deus quer meu crescimento na fé. [...] Preciso vivenciar o refrão: ‘Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé!’” Ele aponta um caminho de busca de sentido que é próprio de quem cultiva intencionalmente a espiritualidade: discernir a vontade de Deus nas situações humanas e comunicá-la aos outros, porque o sentido religioso tem uma expressão pública/comunitária. De acordo com Croatto (2004), o resultado dessa reflexão se expressa tanto na comunicação do vivido como em uma nova vivência, porque ambos os movimentos fazem parte da busca de significado existencial. Mais que o sentido encontrado, a própria busca é, também, uma experiência religiosa, na qual o Idoso reconhece, em todo o processo de perguntas e respostas, a presença de Deus conduzindo o fio da vida.
A atitude de buscar o sentido divino nas situações da vida pessoal continua na geração seguinte. Vale lembrar que a subjetividade dos Irmãos com idade acima de 80 anos imbrica indivíduo e instituição de forma indissociável e, certamente, essa especificidade deve ser considerada. Para o idoso que percebe pouca alteração na independência e funcionalidade, o sentido é mais evidente, como mostra o Ir. Abel: “A minha vida, mais ou menos, continua sendo a mesma, sem alteração”. Se não há ruptura, não há necessidade de encontrar sentido distinto daquele encontrado até então. Mas, segundo ele, o Irmão cujas mudanças na velhice incluem depender do cuidado de outros reage de maneira diferente: “fica nervoso, fala uma coisa [desagradável]”. Acostumado a ser independente, encontra dificuldades quando “tudo tem que ser feito pelos outros. Tem que ter fé pra aguentar a vida. Não é fácil, não.” O Ir. Adorátor, na faixa dos 60 anos, referenda que “não é fácil para um Irmão nessa idade [acima dos 80], pelo menos para alguns, ser banhado por outra pessoa,
estar despido...” Quem foi educado para esconder o corpo da visão de outras pessoas dificilmente aceitará tranquilamente ser visto nu, tocado e cuidado, mesmo que seja por um profissional da saúde. Vale observar que a reação é semelhante em idosos de outros grupos que perdem a independência e passam a ser banhados, limpados, etc., por filhos e netos. Embora o pudor seja fator importante, a questão é mais ampla: o incômodo é também pelo fato de ter sido capaz de cuidar de si e, agora, depender do cuidado de outros.
O Ir. Lamberto reconhece a dificuldade de perder a independência e aponta o sentido que nasce daí: “Com as limitações da velhice [refere-se especificamente a um período passado em hospital], senti o abandono total. Para quê? Para a gente ter a coragem de fazer a entrega total.” Entrega total, como visto anteriormente, é um eufemismo para se referir à aceitação da finitude; aqui, ganha também o sentido de acolher a situação desconfortável ou incômoda, na qual as fragilidades do corpo idoso forçam o reconhecimento de que o tempo de cada pessoa na terra é limitado e, consequentemente, terá um fim. Beauvoir (1990, p. 465) constata: “o prolongamento dos meus dias não me arrancaria à minha finitude”. Logo, buscar um sentido para a proximidade da própria finitude não é opcional, como em outras etapas da vida: é parte constituinte da própria vida na velhice.
É certo que o sentido atribuído às mudanças dessa etapa tem a ver com os sentidos atribuídos a outros períodos. Por isso, as reações são distintas. O Ir. Deodato diz encarar isso de forma tranquila: “Tudo que é humano é um desafio. Deus sabe o que está fazendo e o que se pode fazer de melhor.” Ou seja, não vale a pena ficar se remoendo para compreender porque a vida muda tanto na velhice, pois, se Deus é senhor da vida, será também senhor do final dela. Cabe ao Irmão acolher a ação Dele em sua vida e preparar-se para o que há de vir.
O Ir. Audry não percebe ruptura na relação com Deus ao longo do envelhecimento: “mudar muito, não muda não. Depende dos seus hábitos antigos.” Novamente, confirma a relação entre velhice e etapas de vida anteriores, porque, conforme Monteiro (2005, p. 66), “não envelhecemos para ter dificuldades, envelhecemos porque vivemos”. Logo, se a relação entre o Irmão e Deus se baseava na proximidade e costumava resultar em conforto e senso de propósito, é pouco provável que haja rupturas nesses termos. Se o sentido da vida, em outras
idades, era dado por Deus, é provável que o sentido do envelhecimento também seja encontrado Nele. Croatto (2001, p. 240), refletindo sobre os mitos religiosos, define-os como “a busca do sentido de realidades que afetam profundamente um grupo social”, cumprindo, assim, “um papel hermenêutico”. Logo, a experiência religiosa também se propõe interpretar uma realidade em um sentido fixo, permitindo ao fiel compreendê-la. Valle (1998, p. 22) define experiência religiosa como uma apreensão direta da realidade pelo sujeito, que tem a ver com “nossas formas elementares de sentir, conhecer e fazer”. Nesta perspectiva, os suportes utilizados para lidar com as mudanças, ao longo da vida, possivelmente continuarão a ser eficientes na velhice. Diferentemente de outros idosos, para quem as mudanças provocadas pelo processo de envelhecimento serão vistas como um desdobramento da vida, para os Irmãos terão um sentido de Transcendência.