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Trandum: Et fengselsliknende ikke-fengsel

Obviamente, o estilo de formação baseado na supressão do indivíduo em favor do coletivo institucional trouxe consequências para a forma como os Irmãos vivenciam hoje a sua afetividade. Para aprofundar esse tema, toma-se por ponto de

partida o conceito de afetividade construído por Arcuri (2006, p. 294): é uma “estrutura elementar presente desde o nascimento do indivíduo, que preside o pensamento e a ação, o intelecto e a vontade”. Se a afetividade perpassa as operações mentais e volitivas, a forma como a dinâmica institucional lidava com os afetos provavelmente incidiu sobre toda a estrutura psíquica do sujeito.

Uma consideração inicial é que os Irmãos mais velhos ingressaram quase crianças na instituição. Nas palavras do Ir. Gaspard, “na idade de namorar, eu já era irmão!” Depois, também se tornaram adultos num espaço exclusivamente masculino, como lembra o Ir. Ambroise: “Não tinha contato com mulheres”. O contato feminino era possível “no catecismo e [no convívio com] uma ou outra funcionária do colégio”. E, finalmente, todos os Irmãos fizeram voto de celibato, que confirma a opção por não estabelecer relações matrimoniais. Dito isto, cabe destacar que, especialmente no campo da afetividade, não há regras estabelecidas: a síntese elaborada pelos sujeitos tem caráter idiossincrático, em medida menos sujeita a normatizações do que outras questões pertinentes ao envelhecimento.

Daí, algumas pontuações. Primeiro, que o contato do adolescente/jovem com a família tendia a ser interrompido, pois, após o ingresso na congregação, o formando passava no mínimo três anos sem contato presencial com nenhum parente; nesse período, mesmo as correspondências eram controladas pelo Irmão Superior. Para os Irmãos que estão na faixa dos 60 anos, vale observar, já não houve esse corte brusco dos laços familiares. No entanto, os formandos de períodos anteriores recebiam, depois da formação inicial, a permissão para passar alguns dias de férias em casa – naturalmente, usando batina e mantendo os hábitos da cultura institucional. Para os Irmãos europeus (06 vivos, no período da pesquisa), devido ao custo e duração da viagem, o intervalo de tempo sem contato com a família era bem maior.

Ainda a respeito da afetividade no período da formação, as “amizades particulares” não eram bem vistas. Os Irmãos eram educados para não cultivar preferências por uma ou outra pessoa, o que incluía os colegas de formação e se estendia, mais tarde, aos alunos: o professor não podia manifestar afeto específico por um ou outro. Um dos preceitos fundacionais maristas, originário do século XIX, ilustra o preceito: “Para bem educar as crianças, é preciso amá-las e amá-las todas

igualmente” (FURET, 1999, p. 501). Enquanto princípio pedagógico, alude ao tratamento igual dispensado aos estudantes; do ponto de vista da afetividade, é uma contradição: amar a todos equivalia a não se vincular especificamente a ninguém.

Havia, ainda, nas casas de formação, uma hierarquia de relacionamento que não podia ser quebrada: mesmo quando eram três grupos na mesma casa – juvenistas, junioristas, noviços e escolásticos –, eles não se encontravam, porque era proibido a um formando falar com alguém de outra etapa da formação – ainda que fosse parente. O Ir. Bonius conta: “Quando eu cheguei [à casa de formação], o meu irmão já era escolástico, três anos à frente. E eu não podia falar com ele, nem ele comigo.” Ele conta como a comunicação da família para os dois passava pela hierarquia:

quando chegava uma carta da família, entregavam ao diretor, o diretor entregava pra ele [o irmão mais velho] e ele não podia entregar para mim, tinha que devolver ao diretor do Escolasticado, que entregava ao diretor do Juvenato, pra ele entregar pra mim. Só nas grandes solenidades, que era na Páscoa, no Natal, umas três, quatro vezes ao ano, a gente podia falar meia hora, depois do almoço.

Fazendo uma ponte entre o período de formação, na qual a afetividade era sinônimo de amor ágape, e a vida atual como religioso idoso, na qual se compreende o afeto como inerente ao ser humano, é interessante analisar como os Irmãos vivenciam a afetividade hoje e que meios utilizam para suprir essa necessidade, inerente ao ser humano, de se sentirem amados. Interessante perceber que nenhum deles negou que receber afeto é uma necessidade humana; alguns deles, entretanto, demonstraram dificuldade em se colocar nesta situação e tentaram se esquivar à pergunta ou lançaram mão do bom humor, como o Ir. Sébastien-Camille: “Eu nem sei como é que eu lido com isso!”. Apesar da resistência, todos responderam à pergunta, como pode ser visualizado no Gráfico 14.

Gráfico 14 – Formas utilizadas pelos Irmãos idosos para suprir a necessidade de afeto, com recorte por geração

Há diferenças significativas entre as gerações, inclusive ao abordar questões afetivas. Nenhum dos Irmãos se esquivou do assunto, nas entrevistas; alguns, porém, demonstravam desconforto em falar sobre isso. Para os mais velhos, oração e vida comunitária são os recursos mais utilizados para suprir a necessidade de afeto, o que confirma a observação de Morano a respeito da relação entre celibato e afetividade. Para ele (2007, pp. 38-39), é tarefa fundamental, na vida religiosa consagrada, que “a pessoa de Jesus se constitua num objeto de amor e de identificação que transforme as estruturas afetivas fundamentais do sujeito”. O cultivo da mística, na percepção dos Irmãos mais idosos, é fonte de satisfação afetiva.

Aparecem, em seguida, as amizades com outras pessoas, o que não deixa de ser surpreendente, dadas as pontuações anteriores: pode-se perceber que os Irmãos, mesmo estimulados ao amor universal, não personificado, estabelecem relações de afeto com outras pessoas. Morano (2007, p. 57) faz uma distinção entre vínculos fraternos e vínculos de amizade. Uma vez que a comunidade religiosa se constitui em torno da missão institucional, seu fim primeiro não é propiciar a convivência e a amizade, o que não quer dizer que as relações não devam ser cultivadas, pelo contrário: o espaço comunitário deve se estruturar em torno da

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fraternidade, a qual “implica abertura ao outro, busca do bem do outro, capacidade de renunciar em função do outro, um compromisso com o outro”. Ainda que as relações comunitárias nem sempre comportem um vínculo de amizade, é imperativo ao religioso reconhecer o outro como fraterno – amor ágape. Talvez esse dado contribua para que vários dos Irmãos idosos mencionem, de forma carinhosa, pessoas que, em várias etapas da vida, inclusive a atual, são referência de convivência fraterna e afetuosa. A arte também se destaca, o que é coerente com o cultivo intelectual, incluindo o campo da estética, que permeou a formação destes Irmãos. Arte, como refletido no Capítulo 1, é uma das formas privilegiadas de sublimar a energia sexual.

Chama a atenção o contato de vários deles com os familiares. Segundo o Ir. Bonius, “a gente supera um pouco isso [a necessidade de afeto] com a religião. Porque o afeto normal é na família.” Como todos desta geração já perderam os pais, o vínculo familiar é mantido pelo contato com irmãos e sobrinhos, por meio de telefonemas, e-mails e troca de correspondência escrita. A distância – nenhum dos Irmãos nesta faixa etária tem parentes na cidade em que vivem – e as limitações no deslocamento dificultam o contato pessoal. Apesar disso, é interessante perceber que o vínculo familiar não foi rompido.

Além do contato com parentes, os Irmãos apontam a presença na comunidade eclesial como meio para se cultivar os afetos; a atuação apostólica costumava ser parte da formação institucional. A comunidade é, para a vida religiosa consagrada, o espaço no qual o Irmão, que fez voto de assumir uma vida na qual não têm lugar as relações matrimoniais, pode gerar “centenas e centenas de filhos e filhas", conforme as palavras do Ir. Adorátor.

Para a geração dos 70 anos, é curioso que nenhum Irmão tenha apontado a oração como forma de nutrir os afetos, talvez porque o estímulo à sublimação tenha sido menos acentuado. A convivência na comunidade marista e na comunidade eclesial se equivalem como os mais destacados: é a geração que viveu as mudanças do Vaticano II após terminar a formação inicial e, possivelmente, a opção por continuar na vida religiosa consagrada, frente às grandes mudanças da época, estabeleceu laços mais intensos entre os sujeitos que descobriam um outro sentido

na vida comunitária. Nesse novo contexto, puderam fazer outras sínteses, como relata o Ir. Frumêncio:

No relacionamento com alunos, a gente sempre procurou ser rígido, sabendo que a disciplina é um meio que ajuda na formação, na educação... Mas, às vezes, levei isso muito à risca [...], a gente tomou certas atitudes que poderiam ser diferentes. Hoje há outras maneiras de fazer.

A consciência da necessidade de mudar é positiva, porque abre espaço para que a mudança aconteça. Para os Irmãos idosos, pode ser ainda mais benéfica, pois possibilita maior capacidade de enfrentar as mudanças trazidas pelo envelhecimento. O envolvimento comunitário, também destacado neste grupo como fonte de afeto, deve ter influência positiva para essa flexibilidade percebida entre os Irmãos: se sempre conviveram em ambientes não maristas, é de se esperar que sejam mais habilidosos para lidar com a diversidade. Na etapa de vida atual, vale apontar outros aspectos positivos da presença dos Irmãos idosos na comunidade eclesial: além da contribuição com a própria comunidade, resulta em valorização do idoso, fortalece sua autoestima, referenda o sentido de continuidade da missão apostólica e possibilita criar vínculos pessoais; no conjunto, tudo isso alimenta a afetividade do religioso.

Nesse grupo, as amizades com outras pessoas nutrem tanto quanto a arte, e esta se destaca mais do que entre as outras gerações. É provável que essa característica seja uma peculiaridade do grupo pesquisado, em que vários são conhecidos pelos dons artísticos, e não um traço próprio de todos os Irmãos idosos nessa faixa etária. Finalmente, os Irmãos dessa idade também reconhecem a família como meio de alimentar os afetos, na mesma medida que os idosos da próxima geração.

Os Irmãos na faixa dos 60 anos destacam a oração e as amizades com outras pessoas como principais formas de cultivo da afetividade, certamente reflexo das mudanças mencionadas anteriormente e acrescidas de novos elementos. Essa é a geração dos Irmãos que trabalharam em colégios mistos e no tempo em que a exclusividade de Irmãos professores tinha ficado para trás; a convivência cotidiana, portanto, se estendia a estudantes de ambos os sexos, professores leigos, mulheres em várias funções e pessoas das comunidades eclesiais. A rigidez e a austeridade já não eram o ponto central da vida consagrada, o elemento feminino deixava de ser

estranho à vida dos Irmãos e a afetividade era tida como algo natural nas relações institucionais e pessoais. Mesmo a figura do Irmão mudou de perfil. A fala do Ir. Auxent delimita o contraste em relação às gerações anteriores: “Eu conheci muito ali [na comunidade religiosa] a bondade dos Irmãos. Tinha um Irmão idoso, o Ir. T., 80 anos, era uma mãe pra gente. Ir. G., era a delicadeza em pessoa.” Dificilmente estas características seriam associadas, pelos mais velhos, aos Irmãos responsáveis pela rígida formação institucional do seu tempo.

Outro dado interessante dessa geração é que a presença na comunidade eclesial não alimenta os afetos tanto como na geração mais velha, o que se explica, provavelmente, pelo fato de exercerem funções executivas institucionais e, por isso, se fazerem menos presentes em outros espaços. A arte aparece com menos destaque, provavelmente devido a dois elementos: a formação estética, bastante acentuada na educação das outras gerações, cedeu espaço às ciências, especialmente as sociais e políticas, na educação destes Irmãos; e as linguagens artísticas, meio tradicional de sublimar as pulsões, foram substituídas pela ação apostólica em diferentes espaços sociais.

Fazendo uma leitura intergeracional, percebe-se que a dimensão relacional, para as gerações mais idosas, tende a ser menos desenvolvida. A tendência é de recolhimento, voltando-se mais para a interioridade do que para a interação social. Às limitações do espaço institucional, que pouco favorecia o cultivo das relações, se somavam traços de personalidade introspectiva. Vários Irmãos que se reconhecem tímidos assinalam que a formação rígida acentuou a timidez, e que essa característica continua hoje. O Ir. Bonius reconhece que

era tímido mesmo, em alto grau, de modo que não tenho muita abertura para o contato com outras pessoas. Talvez seja uma dificuldade grande para convívio, porque não tenho muita intimidade assim com muitas pessoas. Sou um pouco isolado.

A proporção entre pessoas tímidas é maior na geração mais velha; ainda que vários idosos com idade acima dos 80 anos sejam expansivos, a maioria tende a ser mais reservada no contato com pessoas fora da instituição. Vale ressaltar que a timidez como traço da personalidade não é, em si, um problema; torna-se um apenas quando incomoda o sujeito, como o Ir. Sébastien-Camille: “numa reunião, fico incomodado, ver os outros conversando e não ter coragem de dar uma palavra.

[...] Num grupo, os outros conversando, eu não ter coragem de entrar na conversa, isso incomoda”. Quando já há predisposição ao fechamento, portanto, a formação rígida acentua a dificuldade de interação e de abertura às relações interpessoais. Daí a busca por nutrir os afetos por meios que favoreçam a interioridade, e não a convivência.