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Como visto naseção 2.1, na escolha é inerente a avaliação dos custos e benefícios de cada opção. Em função disto, Butler (2012) defende o uso da Economia como uma ferramenta de análise para as escolhas. Ele argumenta que a Economia não trata somente de dinheiro, Ąnanças e ganhos privados. A visão mais ampla do termo economia é derivada da palavra grega oikonomia que signiĄca a gestão da casa e do bem-estar familiar. Assim, neste sentido amplo, ele utiliza a economia referindo-se à análise dos custos e benefícios na tomada de decisão, considerando comportamentos do indivíduo como a racionalidade e interesse próprio. ŞA Economia das Escolhas Públicas simplesmente nos questiona para fazer as mesmas suposições sobre o comportamento humano na esfera política como aquelas que fazemos quando analisamos mercados.Ť(BUTLER, 2012, p.11).

Butler (2012) cita que alguns conceitos simples foram deĄnidos para lidar com a escolha coletiva. O custo de oportunidade é o valor associado a tudo que o indivíduo sacriĄca (e.g. tempo ou esforço) para chegar a um objetivo. O benefício é tudo aquilo que o indivíduo ganha (e.g. um cartão de aniversário ou a sensação de uma paisagem). A relação principal entre esses dois conceitos é que a decisão racional é sempre baseada no lucro, ou seja, a diferença entre o benefício e o custo de oportunidade. Ainda segundo

Butler (2012, p.22), os Ş[. . . ] economistas dizem que quando as pessoas fazem escolhas, elas conscientemente procuram trocar coisas que elas valorizam menos por coisas que valorizam mais: em outras palavras, elas são racionais e guiadas pelo interesse próprioŤ.

Entretanto, Butler(2012, p.25) destaca:

Claro que, sendo guiadas pelo interesse próprio não implica que são 5 O benefício público é utilizado no sentido de bem público deĄnido porButler(2012, p.122) como ŞUm bem como um parque nacional ou defesa, que muitos indivíduos podem aproveitá-lo, e do qual é difícil excluir pessoas de usufruí-lo.Ť.

egoístas. As pessoas podem se importar com outras pessoas muito pro- fundamente e podem muito bem querer ajudar seus amigos, família e comunidade, em vez de apenas se beneĄciar. Mas o ponto é que qualquer que seja o objetivo a alcançar Ű de riqueza pessoal à harmonia da comu- nidade Ű é sensato supor que eles vão tentar agir deliberadamente e de forma eĄcaz para aumentar esse objetivo. Como os economistas deĄnem, as pessoas são maximizadores racionais.

A racionalidade e o interesse próprio na representação coletiva já indicam que as características das escolhas coletivas divergem do que seria considerado óbvio. Conforme

Olson(2011), quando indivíduos agem em grupo, espera-se que estes ajam coletivamente naquilo que concordam individualmente. Segundo ele, agir de forma altruísta é exceção, ou seja, o esperado é que o indivíduo aja centrado em seus próprios interesses. Ele ainda complementa como a racionalidade e o interesse próprio são caracterizados no interesse coletivo:

[. . . ] geralmente se deduz que se os membros de um determinado grupo têm um interesse ou objetivo comum, e se todos eles Ącariam em melhor situação se esse objetivo fosse atingido, logicamente os indivíduos desse grupo irão, se forem pessoas racionais e centradas nos próprios interesses, agir para atingir esse objetivo. (OLSON,2011, p.14).

Entretanto, Olson(2011) aĄrma que essa ideia não reĆete a realidade, ou seja, a premissa de que indivíduos com mesmos interesses próprios e racionais não leva, neces- sariamente, todos os membros a agir em função destes interesses. De forma geral, isso acontece porque embora os indivíduos desejem o benefício individual a partir do resultado da escolha coletiva, não têm interesse no que concerne a pagar os custos envolvidos. Ao analisar essa relação entre o interesse individual e o tamanho do grupo,Olson (2011, p.47) aĄrma que Ş[. . . ] quanto maior o grupo, mais longe ele Ącará de atingir o ponto ótimo de provimento do benefício coletivo.Ť.

De toda forma, a racionalidade representada de forma coletiva não é algo novo. Para Amartya Sen (1933Ű ), economista indiano e ganhador do prêmio Nobel de economia em 1998, Aristóteles acreditava que o futuro seria feito por nós, baseando as escolhas de forma racional. ŞA ideia de utilizar a razão para identiĄcar e promover uma sociedade melhor Ű e mais aceitável Ű, e eliminar privações intoleráveis de diferentes tipos, tem fortemente movido as pessoas no passado e continua até o momento.Ť (SEN, 1995, p.1). Entretanto, a racionalidade das escolhas feitas em sociedade são mais complexas do que se pode concluir pelo senso comum.

Vivemos em sociedade e muitas de nossas escolhas não implicam que nós recebere- mos os benefícios, mesmo que tenhamos experimentado seus custos (BUTLER,2012). Para

Mueller(1976, p.410Ű411) há uma diferença entre o comportamento de alguém que compra um bem privado e um eleitor que ŞcompraŤ um bem público. Segundo ele, em uma escolha individual, a pessoa experimenta os benefícios e custos do que escolheu. Já na relação

pública, a ação do eleitor depende da ação de outros. De forma semelhante, Butler(2012) exempliĄca essa relação citando o caso de pessoas que têm suas casas desapropriadas para a construção de uma rodovia. Neste caso, quem percebe os benefícios (e.g. usuários da rodovia) não são sempre as mesmas pessoas que sofrem os custos (e.g. donos das casas desapropriadas). Para ressaltar essa relação, Butler (2012, p.23) aĄrma que:

[. . . ] no mercado ambos os lados em uma negociação devem concordar com ela Ű se tanto o comprador ou o vendedor não estiverem satisfeitos, podem simplesmente sair do negócio. Na política, em contrapartida, a minoria não pode fugir: são forçados a aceitar a decisão da maioria, e suportar quaisquer sacrifícios que a escolha coletiva demande.

Neste cenário, para obter êxito na busca de seu benefício, o indivíduo tenta prever as escolhas dos outros ou mesmo inĆuenciá-los e, da mesma forma, acaba sendo inĆuenciado. Depender da decisão dos outros membros de um grupo coloca a escolha coletiva como uma questão complexa e não trivial. Como se veriĄca, a complexidade individual6 inerente

a qualquer escolha, aliada à incerteza de experimentar os benefícios individualmente e à imprevisibilidade da opção do outro, torna complexa a escolha Ąnal do indivíduo. Aquilo que o conhecimento médio pode encarar como um processo simples, torna-se uma relação de vários fatores do sujeito com sua percepção de mundo.