4.3. Other state-of-the-art transcritical R744 refrigeration systems for supermarket applications
4.3.2. Thermal energy storages
Daí em diante, Caio diz que foi como um divisor de águas nesse aspecto da forma como os pais o viam: “Foi muito simbólico, muito, muito, e é muito forte isso
para mim hoje, que, a partir daí, eu conquistei realmente... depois desse fato, de passar no cursinho, meus pais me largaram para o mundo. De um jeito bom, não me abandonaram, mas me deixaram para o mundo, passaram a me respeitar, respeitar todas as minhas escolhas, foi um processo muito bom”.
Nessa passagem, Caio registra um marco simbólico no seu processo de individuação e no reconhecimento dessa individuação pelos seus pais que o “deixaram
para o mundo”. Podemos discutir que a forma como se deu o processo de individuação de Caio (aqui simbolizado pela relativa independência que seus pais lhe conferiram nessa fase da vida) foi determinante para a construção de sua identidade política e consequente emancipação.
Caio se dedicou naquele ano no cursinho e fez as provas de algumas escolas técnicas. Quanto ao curso, tinha preferência por Administração e, para tal, fez o vestibulinho em uma escola técnica na Móoca. Como na escola na qual ele fazia o cursinho não tinha o curso de Administração de Empresas, optou pelo curso de Processamento de Dados. Passou nas duas! Nessa segunda, em 1º lugar, inclusive! Apesar de a preferência por curso ser para Administração, não foi estudar nessa escola técnica da Móoca: “fui assaltado no dia em que eu voltei da matrícula. Indo para o
metrô... eu tinha muito azar, eu tinha cara de japonês bobo, e aí eu fiquei com medo e decidi não estudar lá, e também eu queria fazer na outra escola, fiquei lá!”.
Ali naquela escola, Caio diz que: “Ali, para mim, foi o período mágico da minha
vida, onde eu me senti incluído pela 1ª vez, eu me senti com pares, com pessoas que me entendiam, cada um mais bizarro que o outro, mas que vinham com sofrimentos muito parecidos, muitas vezes, e um monte de gente batalhadora, muito pouco que era rico e tal... Enfim, eram pessoas que realmente pareciam muito, e eu acho que a gente criou um vínculo absolutamente especial no colegial, foi quando eu me apaixonei pela 1ª vez...[...] Foi, ah foi muito bom o período naquela escola!”.
Caio fala com mais paixão ainda sobre a turma que conhecera e de quem se aproximara, criando fortes vínculos: “era uma turma muito inteligente, muito especial, e
que me puxou para cima, absolutamente competitiva, e com uma série de coisas ridículas que foram feitas, exageros, excessos, tanto de nível acadêmico, quanto de relacionamento, era algo barroco eu achava..., foi uma vida um tanto barroca, porque foi a nossa adolescência, foi quando a minha cara encheu de espinha, que ainda me marca até hoje, quando estava todo mundo se descobrindo e tentando se entender, uma bagunça...”.
Ali, naquela realidade, Caio conseguiu (talvez pela primeira vez em sua vida) se ver como uma pessoa normal, uma vez que esse novo grupo de colegas que encontrara nessa nova escola tornou-se uma comunidade de sentido para si, um universo simbólico no qual poderia exercer de forma mais livre sua identidade (ou, ainda, em que a política de identidade se encaixava mais ao seu perfil)... também foi ali que criou convicção de qual carreira seguir na Graduação. Aqui é importante resgatar algo que Caio já pensara
antes mesmo de entrar no cursinho pré-vestibulinho: “eu tinha muito em mente que eu
ia ser um grande empresário, eu queria ser rico e poderoso... então, eu comprei o Instituto Universal, eu tinha um monte de moedas que eu ia juntando, juntei todas as minhas moedas, mandei pelo correio e comprei o Instituto Universal Brasileiro53”. Isso
Caio fez quando ainda estava no cursinho pré-vestibular.
Estudar nessa escola e conviver com esses colegas, como Caio apresenta, foi “mágico”, porém “eu só não gostava do que eu estudava, basicamente. Foi bom para eu
descobrir o que eu não queria, mas também foi bom para eu descobrir, que eu só decidi fazer administração, de verdade, por causa da professora Bete54 que me inspirou bastante à época”. Caio se refere ao curso profissionalizante de Processamento de
Dados e, mais uma vez, uma professora o ajuda a identificar seu caminho, sendo assim como foram outros professores em outros momentos de sua trajetória, um “outro significativo” bastante importante.
Chegando próximo do fim do curso de Segundo Grau (nessa escola, esse curso era de 4 anos, sendo que o 4º ano era puramente de disciplinas voltadas para a formação técnica, com carga horária menor que nos 3 primeiros anos), Caio já sabia que queria fazer Administração de Empresas na faculdade. Sobre isso, ele ilustra dizendo: “E, no
último ano – foi o ano do cursinho – eu já sabia que eu ia fazer administração [...], a minha meta era ser CEO – não era CEO... na minha época, era presidente – do CitiBank, que eu queria ser muito rico, e eu passava na Paulista e falava para os meus amigos: “Eu vou ser presidente, eu vou subir andar por andar e vou chegar naquele último”. Aí eu lembro que eles falavam, “Ah, você vai limpar janela né, você vai do lado de fora, vai sobe, e sobe” e isso me marcou muito, eu lembro deles tirando sarro. Mas era uma referência para mim, eu realmente entrei em Administração querendo ter dinheiro. Ter possibilidades que eu não tinha até então, porque eu tinha tanta energia, e eu queria fazer, queria viajar, queria estudar, queria fazer muita coisa, que, na época, financeiramente, eu não conseguia”.
Nesse momento, Caio já apresenta um projeto de vida bem definido, porém não se trata ainda de um projeto de vida emancipatório, já que ainda vive a dualidade identidade política versus políticas de identidade, sendo que a última ainda leva
53 Para aqueles que não conheceram, o Instituto Universal Brasileiro talvez tenha sido o grande precursor
da Educação à Distância no Brasil, isso antes mesmo da presença da Internet. Tratava-se de uma instituição que vendia, pelo correio, apostilas respectivas a várias profissões e, após algum meio de avaliação, conferia a respectiva titulação... essa “plataforma” de ensino (se assim podemos chamar) era conhecida por “formação por correspondência”.
vantagem. Ao mesmo tempo, Caio apresenta indícios de uma identidade política sendo construída, mas também se vê reproduzindo a política de identidade do jovem bom aluno que sonha em ser um grande executivo.
Chegando ao 4º ano do Segundo Grau, Caio, então, assim como muitos de seus colegas de turma (agora ele não era mais o único a ter as mesmas vontades), prestou uma prova para conseguir uma bolsa de estudos em um cursinho pré-vestibular particular: “Consegui uma bolsa de 85 ou 90%, não consegui integral, fiquei mal
porque os meus pais não tinham dinheiro, aí minha mãe pediu dinheiro emprestado”
(nesse momento, Caio se emociona...), “nossa eu me emocionei. Ela pediu dinheiro
emprestado para o Roberto que hoje é indigente, ele está morando na rua, a gente não sabe nem se ele está vivo, e pagou esses 15%.”.
Ao relembrar desse ano, Caio traz a memória de um episódio difícil de sua história de vida... a mãe, nesse ano, teve um surto psiquiátrico e Caio diz que toda essa situação fez com que ele se “afundasse no cursinho”. É dessa época também que Caio diz que: “foi aí que eu resolvi ser ateu... neste ano... a minha revolta com Deus. Eu
achava aquilo absolutamente injusto, não sabia o que fazer, foram meses e meses de sofrimento, até que uma tia minha que tinha um pouco de dinheiro falou: “Não, vamos levar ao psiquiatra”, alguém com clareza, e eu acho que eu preciso agradecer ela até hoje”.
A mãe de Caio melhorou depois do começar a tomar os medicamentos (apesar de a família, que, em paralelo, fez um tratamento religioso, creditar à religião, e não aos medicamentos, a melhora da mãe de Caio), e Caio prestou dois vestibulares: Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade de São Paulo (USP). Sua preferência era pela FGV, cujas provas e resultado saíam antes que da USP. Antes de concluir a 2ª fase do processo seletivo da USP, Caio foi aprovado na FGV, mais uma vez, em 1º lugar: “,
quando eu ia prestar FGV eu tinha que passar em 1º lugar, porque, em algum lugar, eu li que quem passava em 1º lugar ganhava uma bolsa de uma empresa, e não precisava pagar, então eu falei, “A minha única saída é passar em 1º”. Eu não passei porque eu queria, fazia questão de passar em 1º, fazia questão de ser um bom aluno, essas questões de 1º nunca foram a minha meta, nunca, em absoluto, e não é falando vazio não. Mas eu tinha a meta de passar em 1º porque eu queria a bolsa, e eu sempre fui muito assim, eu vou e vou, vou até o fim, vou fazer o máximo do meu melhor”.
Ao dizer que o motivo que o fez se empenhar para passar em 1º lugar não fora perpetuar a imagem de “1º colocado”, mas sim um objetivo funcional, ganhar uma bolsa
de estudos para poder estudar na faculdade que acreditara ser a mais adequada para a realização de seu projeto de vida, Caio apresenta uma outra característica que viabilizaria seu desenvolvimento identitário e sua busca por emancipação: não há aí um caráter de fetichização da personagem, pelo contrário, Caio não se importa em ser o “1º colocado”, por mais que isso lhe traga também uma grande satisfação. Prova disso é que Caio, enquanto estudava no Segundo Grau (em que também fora 1º colocado no processo seletivo) dedica-se às aulas, mas sem se impor de ser sempre o melhor aluno, a melhor nota de todas as disciplinas.
Quando perguntado sobre o porquê da preferência pela FGV, Caio diz: “Pois
todos diziam que era a melhor, que todo mundo saía de lá bem empregado. Tinha lido um ranking anual da Folha que a colocava em primeiro. Eu não conhecia bem nenhuma delas, então foi referenciado pelo que lia (e pra ser CEO do Citi, tinha de ser na melhor, né!? hahaha)”. Caio demonstra aí que caminhava sempre guiado pelo seu
projeto de vida do momento (ser “CEO do Citibank”). Não apresentava, até então, apesar de já demonstrar alguns indícios (seu ativismo latente era o mais forte deles... fora até participante do Grêmio Estudantil na escola anterior) uma identidade política totalmente construída. Seu projeto de vida, inclusive, estava associado a políticas de identidade que ele, conscientemente ou não, desejava seguir para alcançar seus objetivos.
Caio, entretanto, reviveu sentimentos quando começou a frequentar a FGV: “entrei na FGV, que era o meu sonho, e consegui a bolsa, mas vi que aquele não era
um lugar para mim, ainda bem que eu tive essa maturidade de desistir de um sonho [...] eu notei que eu ia voltar para o mundo em que eu ia ser ‘o deslocado’”, e isso fez Caio
prestar a 2ª fase da USP, com mais dedicação e empenho e, como já era de se esperar, foi aprovado. Optou por estudar Administração na USP à noite e, de quebra, recebeu um convite de uma empresa na qual tinha feito estágio no 3º ano do ensino técnico para um processo seletivo e começou a trabalhar durante o dia.
Trabalhou nesse estágio por 9 meses, até mais ou menos o final do 1º ano da faculdade. Não gostava do que fazia (era um serviço mais burocrático), trabalhava pelo dinheiro... até que “estava bem deprimido... eu acho que era depressão mesmo [...] eu
achava idiotice pagar psicólogo, uma grana para alguém me ouvir, a história de sempre... que muitas pessoas falam. Mas eu estava muito mal, até o dia que a minha mãe virou e falou, ‘Eu não estou nem te reconhecendo mais, como você, eu acho que você tem que sair desse emprego’. E, para a minha mãe falar isso, minha mãe é bem na
dela e tal, aí eu falei, ‘Puts’, eu estava muito mal, eu fazia alguma coisa que eu era absolutamente incompetente para fazer, só estava lá pelo dinheiro. Foi quando eu me senti realmente me prostituindo, mas eu queria aquele dinheiro, porque eu não queria ganhar o valor de um estágio, enfim. Mas arrastei 9 meses, pedi demissão, tinha 1.220 reais na conta, e fiz meu 1º mochilão... na verdade, foi uma mochilinha”.
E aí, surge uma personagem do qual Caio não conseguiu se separar nunca mais...