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Caio embarca para o Japão, porém, nesse um mês que passou no Brasil entre uma viagem e outra, começa a namorar Marcia60, com quem já vinha num processo de paquera durante a sua viagem à Europa (Marcia e Caio eram colegas de faculdade, e já eram amigos antes mesmo dessa primeira grande viagem).

Sobre esse afastamento, por conta de sua viagem, Caio diz: “foi a 1ª e única

mulher com quem eu planejei o que eu ia ter na minha geladeira, em conjunto [...], era quem eu tinha escolhido para mim, para dividir, ser a minha companheira. E foi doloroso porque aí eu fui viajar, eu fui para o Japão, que foram os 6 meses mais transformadores da minha vida”.

Apesar dos sentimentos que se desenvolviam pela namorada, o desejo de Caio de ir atrás dessas vivências fora do Brasil era maior... e ele foi... e, por esse primeiro relato que ele nos faz, vemos que a passagem pelo Japão não ficou restrita apenas ao trabalho e ao acúmulo de capital para financiar uma nova jornada. Ele nos conta: “fiquei

6 meses, até abril, alguma coisa assim no Japão. [...] eu tinha preconceito contra o Japão, eu sempre fui, ao contrário de alguns amigos, que são mais japinhas, estudavam japonês e tal, eu sempre fui contra... por quê? Agora, casando as coisas que eu não tinha me tocado, os primos que eu mais tinha querela eram assim. Eram os que iam para o Ypê, que era a balada japonesa, então eu negava tudo isso de alguma forma”.

Pois é... a viagem para o Japão não foi apenas um momento funcional como já dito aqui de acúmulo de dinheiro... houve ali uma reflexão identitária, afinal de contas, Caio era “o brasileiro que era japonês” e o “japonês que era brasileiro”, e houve, nesse enfrentamento, em estar ali no Japão, uma dose de sofrimento: “enquanto eu estava lá

eu não entendia, eu chorava diariamente, ia no ofurô, enchia o ofurô e chorava, o que é isso e tal. Mas foi a única chance que eu me dei, até então, de conhecer pessoas de outros backgrounds, pessoas que haviam perdido tudo, a maioria por vício em jogo, e fazer um trabalho manual”.

Nesse momento, é importante fazermos uma recuperação da história de Caio (e, mais uma vez, essa passagem, reforça a ideia de que identidade é metamorfose). Caio começou a vida em uma família humilde, estudando com pessoas humildes e sentindo- se estranho nisso tudo. Graças à sua dedicação aos estudos, seu empenho e sua

determinação, ele saiu desse contexto e foi estudar em escolas de alto nível, conquistou um emprego no qual se relacionava com pessoas tidas como de grande capital intelectual, passou a frequentar lugares badalados e caros. Essa ida para o Japão era como que um retorno para esse ambiente inicial, das pessoas simples, pobres, porém em uma outra condição. Quando Caio vivia sua infância num ambiente similar, sentia-se “um estranho no ninho” (tal qual se sentiu muitas vezes, por exemplo, trabalhando no jornal e convivendo com pessoas da alta sociedade paulistana). Agora ele era mais um... com a diferença que, num primeiro momento, ele tinha a aprender (e não a ensinar) com aquelas pessoas. Foi um choque muito grande para Caio, mas do qual ele conseguiu tirar muito proveito. Sobre esse período, ele conta: “A minha grande frustração foi que

eu não aprendi a falar nada em japonês, que era todo mundo brasileiro. E foi bem duro assim, foi um período que eu, desde a bola eu já sabia que eu não era bom em coisa motora, e no fim eu descobri que basta persistir... foi um aprendizado. Porque no fim eu acabei me tornando o melhor soldador da fábrica, eu soldava, você não tem a menor ideia.... No começo eu era uma porta total, as pessoas estavam quase desistindo de mim, que eu queimava todos os chips. Era máquina fotográfica da Fuji, e chegou um momento que eu fui evoluindo, a gente fazia, a gente batia a meta do dia, que eram 11 a 12 horas de trabalho, com 3 horas. Então precisou chegar o gerente da linha voltar e falar, “Gente, diminuiu o ritmo senão os japoneses vão aumentar a meta”. E aí a gente ficava fingindo e tal, a gente cantava pagode, louco mesmo, o pessoal era bem mais popularzão, e foi um período que eu convivi com outro olhar, outra história”.

Caio teve que aprender a fazer aquilo do que ele fugiu a vida toda: habilidades motoras. Ao falar sobre sua infância, Caio nos contara a não aptidão que tinha nos esportes na escola, o que reforçou a sua atuação, sua personagem de “o bom aluno”, o “estudioso”. Porém, diferentemente do passado, em que ele pôde optar por não enfrentar aquela sua falta de habilidade, agora havia um motivador muito forte para que ele vencesse esse desafio: se não aprendesse a soldar os chips da máquina fotográfica, ele não conseguiria dar seguimento ao seu projeto de conhecer o Oriente e viver outras experiências por lá. Não conseguiria experimentar mais daquele prazer que tinha sentido em ficar meses conhecendo novos lugares. E, mais uma vez, a persistência, o desejo de superação, a força de vontade, faz com que Caio alcance seus objetivos, que seja “o melhor soldador da fábrica”, o líder da linha de produção, a ponto de o gerente vir pedir para eles diminuírem o ritmo para que isso não se voltasse contra eles, prejudicando-os com um aumento de meta de produção.

Na fala de Caio, também podemos ver que ele aproveitou de forma diferente a vivência com as pessoas mais simples, mais humildes. Ele se permitiu entrar naquele mundo e curtir aquilo. Ao mesmo tempo, a vida lá não era fácil: “foi duro, ficar 12

horas em pé por dia, eu usava meias Kendall sabe, umas coisas assim porque doía pra caramba... Mas me acostumei, em algum momento, eu tinha um banquinho onde eu me refugiava, eu trabalhava 6 dias por semana, 12 horas por dia, teve um mês de março antes de sair, que eu trabalhei 30 dos 31 dias, e cheguei a fazer 16 horas, mas porque eu queria... eu queria juntar dinheiro e ir embora. A minha meta era juntar 10 mil dólares para viajar pela Ásia. E eu ia para esse banquinho, até um momento em que eu cheguei e falei pra mim mesmo, “Cara, eu nunca achei que eu ia conseguir morar em um lugar pequeno, sem cinema”, a grande atração dali era o supermercado, onde a gente se encontrava, tinha máquina de pegar bichinho de pelúcia, não tinha nada para fazer, era no meio do arrozal, bem distante [...] Mas, de alguma forma, eu encontrei uma paz lá, em vários momentos eu entendi quem eu era. Eu entendi o pedaço que eu falei no começo da conversa, o japonês, aquela coisa toda, que estava largado um pedaço lá que eu não entendia. Porque aqui (no Brasil) é uma cultura 180 graus, é calor, comida diferente, muita alegria, muita energia, por mais que seja um estereótipo, futebol, samba, no Brasil tem muita energia sim, tem sol, tem, e lá é extremo, eu peguei o inverno, eu cheguei em outubro e fiquei até abril, eu peguei justamente o inverno inteiro. Às 3 da tarde já estava escuro, pessoas que não se comunicavam, totalmente na delas e tal, e eu entendi um pedaço de mim que estava ali, que certamente passou de geração em geração, e eu me senti um estranho lá e aqui. Eu cheguei à conclusão de que eu não pertenço a nenhum dos 2 lugares, eu não me sinto totalmente à vontade em nenhum dos 2 lugares, na completude assim, e nem acredito que eu sou aceito na completude, porque lá eu era o japonês que falava com a mão, do jeito que eu estou falando, lá eu era super rude. Para eles, eles olhavam, o que é isso, japonês preto, fala alto e mexe a mão. E aqui vou ser sempre o japonês. Lá eu era ‘o gaijin61’, aqui eu sou “o japonês”, essa coisa que sempre permeou a minha vida toda. Mas eu entendi, fiquei um pouco em paz com isso, porque eu cheguei à conclusão, isso depois da viagem [...] de que eu tenho uma imensa vantagem cultural de poder tirar o melhor de dois mundos. E que isso poderia trazer muitas coisas boas para a minha vida, e, na hora que caiu isso, eu fiquei mais em paz, e eu estou doido para voltar para lá, inclusive”.

61 Gaijin é o termo utilizado pelos japoneses para designar estrangeiros, pessoas que não nasceram no

Caio consegue, no meio de todo o estresse de trabalho e de todas as privações que encontra lá no Japão, se encontrar em sua etnicidade. Ele entende sua condição de descendente de japonês que nasceu e foi criado com muitos valores brasileiros, e fica feliz em ver que pode tirar o melhor desses “dois mundos”, como ele mesmo diz: se libera das identidades pressupostas e das respectivas políticas de identidade étnicas, e assume uma identidade para si, respeitando sua singularidade.

Caio diz que quer voltar ao Japão em breve, como turista apenas: “depois de

alguns anos, eu voltei a ter vontade de ir para lá, mas em uma outra condição, na condição de uma pessoa olhando, porque eu fui subjulgado, tinha preconceito, as pessoas me tratavam relativamente mal... tratavam bem, mas, no fundo, pensando mal”.

Além de todas essas descobertas e metamorfoses, Caio alcançou seu objetivo inicial no Japão: juntou US$ 10 mil e, segundo ele: “aí eu fiz a viagem de

autodescoberta... além dessa parte do Japão, mas uma viagem de pura reflexão e de me encontrar. Que aí fui para a China... na verdade, Tibete, que eu faço questão de dizer que é Tibete e não é China, que aquilo não é da China, a China está destruindo, é outra causa que eu gostaria muito, se eu tivesse 10 vidas, de apoiar, que é uma tristeza o que os chineses estão fazendo com os tibetanos.”.

O próprio Caio já percebe que, se a ideia era deixar a autodescoberta para os próximos destinos dele, ele estava adiantado em seu cronograma: boa parte disso já acontecera no Japão.