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Quando Piedade chegou, ela estava com 40 anos. Na época, havia interrompido por conta própria seu tratamento terapêutico de três anos, pois não via avanços significativos. Mulher de poucas palavras, com uma voz infantilizada e um olhar triste que denunciava seu sofrimento. Por ser evangélica, seus valores morais são muito rígidos. Desde o começo se apresentou como uma pessoa de origem humilde, com pouco estudo, alegando não saber se expressar, pois foi criada numa pequena cidade no interior, no “meio do mato”. Foi assim que Piedade me procurou, incentivada por uma professora de sua filha. Alguns fatores determinaram sua busca de ajuda: nos últimos meses, viu sua saúde piorar, estava deprimida e havia tentado o suicídio, em função das brigas constantes com o marido, quando ele ventilou a ideia de separação. Disse-me: “Casamento é coisa séria, foi um juramento perante Deus e tem que ser para a vida toda.” Havia um imperativo em sua fala, por este motivo interroguei: “Tem que ser? Como assim?” Justificou sua posição de forma radical: “A minha religião não permite a separação.” O outro fator foram os graves reverses financeiros advindos da demissão de seu marido, ocorrida quatro anos antes, depois 15 anos de trabalho numa multinacional.

Nos primeiros encontros, com muita desconfiança contou que vivia muito preocupada com a falta de dinheiro e com a crise que se instalou em seu casamento, sendo que, consequentemente, seu estado emocional vinha se abalando. Em razão de suas tentativas e ameaças de tentativas de suicídio, seu esposo tomou a iniciativa de proteger as janelas de sua casa, de modo a se assegurar de que ela não sucumbiria à tentação de se jogar. Interrogada sobre estas ameaças de acabar com a própria vida, Piedade não soube explicar bem o que acontecia. Contudo, confessou que nessas horas é tomada por uma explosão de raiva, perde o

controle e, ao retornar a si, sente dores por todo o corpo, precisando de alguns dias para se restabelecer. Piedade chorou descontroladamente enquanto falava desses episódios e, ao recuperar o fôlego, continuou discorrendo sobre seus sintomas. Ela disse sofrer há anos com problemas digestivos, o que a impedia de se alimentar corretamente. Também relatou sofrer de insônia, dores de cabeça, sintomas que os tratamentos médicos não conseguem resolver.

Casada há 22 anos, Piedade tinha uma relação difícil com o marido, Rui, a quem responsabiliza pela mudança do padrão de vida familiar. Tiveram duas filhas. A mais velha se casou e saiu de casa muito cedo. A segunda filha é adolescente, e com ela Piedade tem uma relação muito próxima – de amiga e confidente – razão pela qual o marido sente-se preterido, situação esta que contribui para acirrar ainda mais as desavenças do casal.

Tal situação nos faz pensar que os ressentimentos acumulados em sua vida familiar foram transferidos ao seu marido, frente a quem pode mostrar uma aparente submissão, deixando-o impotente, desautorizando-o no escancarado desprezo. Ficava evidente que só sabia ser mãe, casal ali não existia, sua afetividade estava inteiramente voltada para sua filha.

Relatando sua trajetória de vida, Piedade enfatizou que o casal é de origem humilde. Porém, enquanto ela permaneceu como dona de casa, seu marido, por necessidade profissional, conseguiu completar o ensino superior. Todavia, após sua demissão e a dificuldade de encontrar uma nova colocação, resolveram montar um pequeno comércio que, pela falta de experiência, vem dando prejuízo. Por essa situação, Piedade convivia com o fantasma e sob a ameaça de retornar às suas origens humildes, e só de pensar no assunto já adoecia.

O período das entrevistas preliminares, ou tratamento de ensaio como chamou Freud, foi longo. Combinamos encontros duas vezes por semana, e no começo ela faltava muito. Desde o início, era visível sua dificuldade na hora de pagar a sessão. Algumas vezes esquecia

o pagamento, outras trazia um valor menor do que o combinado. Piedade se apresentava e vivia sob a ameaça de que o mundo desabaria a qualquer momento, seu cotidiano era muito pesado. Buscava alívio para sua insatisfação mastigando balas. Comentou que, nos momentos em que fica muito nervosa, chegava a consumir um saco delas. Não tem preferência de sabores, qualquer bala serve, contanto que seja bem dura.

A situação remete às sábias palavras de Freud (1913 :148): “nada na vida é tão caro quanto a doença - e a estupidez”.

No início do tratamento, aconteceu de Piedade ficar até semanas sem comparecer às sessões. Sua filha era quem telefonava para justificar suas ausências, alegando que ela estava doente, e para remarcar um novo horário. Quando interrogada sobre a preocupação de seus familiares, Piedade respondeu que seu marido e sua filha cuidavam para que ela não fizesse nenhuma “besteira”, referindo-se às suas ameaças de suicídio, que viraram moeda de troca. Nesse momento marquei: “Besteira?” Perguntei-a qual o endereço disso.

Indagada sobre quando começou a adoecer, Piedade comentou que sempre sofreu por ser muito rígida, mas foi capaz de localizar que, no período em que seu marido trabalhou como executivo, e cursava faculdade noturna, começou a se sentir abandonada. Pude perceber que Piedade sentia o marido cada vez mais distante e tinha medo de perdê-lo, então, adoecer foi uma forma de chamar sua atenção. Na sua maneira de pensar, via o marido e as filhas se desenvolvendo enquanto ela estava “parada no tempo”. Sua insegurança era muito grande, tinha dificuldade de participar de reuniões escolares, achava-se inadequada e começou a perceber que buscava a ajuda da filha mais velha até para pequenas tomadas de decisão. Sentia-se envergonhada ao acompanhar o marido em eventos sociais. Momentos que para alguns eram prazerosos, para ela viravam um pesadelo. Ali, na sessão, se deu conta de que naquela época não tinha problema de dinheiro, mas sentia-se insatisfeita da mesma forma.

Piedade se questionava por que era tão insegura. Não conseguia entender, embora reconhecesse que já tinha sido pior.

Tal quadro permite considerar a disjunção da pobreza no contexto da economia financeira daquela que se situa no contexto de outra economia, a saber, da economia psíquica, uma vez que, mesmo no momento de ascensão e abundância que a família experimentou, Piedade se sentia muito pobre, o que parecia mantê-la presa a uma posição que tinha história. Assim, mesmo que a situação financeira tivesse melhorado, Piedade continuaria a se sentir da mesma forma. Nunca deixou de ser “miserável”.

No período crítico de sua trajetória, Piedade começou a se sentir muito deprimida e com vontade de acabar com a própria vida. Numa das crises, tentou cortar os pulsos, foi internada e chegou a procurar a ajuda de um psiquiatra, que a medicou com Rivotril. Após apresentar melhoras, o médico suspendeu o medicamento e recomendou uma terapia, tratamento que durou três anos. Relatou que, cada vez que começava a ficar angustiada, recorria por conta própria a algumas gotas do remédio, o que a deixava mais calma, porém tinha receio de ficar dependente.

A experiência clínica nos mostra que toda dor, sendo originária de uma lesão real ou não, remete o sujeito às suas experiências mais primitivas de desamparo. Sendo assim, todo sofrimento, acompanhado por sensações corporais difusas, merece ser escutado de outro lugar.

Nos encontros, Piedade buscava respostas prontas, receitas para acabar com seu sofrimento. Como não respondia à sua demanda, ela não perdia a oportunidade de rivalizar comigo. Sempre que possível, tratava de desqualificar o trabalho que estava sendo realizado. Logo que percebia suas exigências, procurava não entrar em seu jogo provocativo.

A presença do analista na posição de objeto “a”, estando fora da cadeia significante, orienta a direção do trabalho. Então, só me restava acompanhá-la.

Por seus relatos, ficava clara a transferência que Piedade mantinha com o tratamento anterior. Por algumas vezes perguntei-lhe se ela tinha pensado em retornar para sua antiga terapeuta, com quem havia estabelecido um forte vínculo. Ela desconversava, o que deixava dúvidas sobre o que a levara a interromper o antigo tratamento.

Adoecer, então, seria um modo de arcar com os custos de uma situação através do sacrifício, ou seja, de se manter atrelada ao gozo do status quo ante.

Com o passar do tempo e apesar dos seus impedimentos, Piedade começou a se implicar no tratamento e a se perguntar por que vivia constantemente doente, e insatisfeita, e observou que as pessoas ao seu redor, mesmo com dificuldades financeiras como ela, eram felizes, sorriam, e ela não. Disse: “O que teria acontecido?”. Devolvi-lhe a questão para que ela pudesse ouvir sua própria pergunta.

Na direção do tratamento, é interessante notar como é importante transformar a queixa em pergunta e a pergunta em questão de análise.

Piedade era cética, só acreditava em seu Deus e, mesmo assim, duvidava por que tinha que sofrer tanto, sempre se culpando por essa sua dúvida, e perguntava-se qual foi o seu pecado. Naqueles momentos, só me restava calar, dar explicações em nada adiantaria. Piedade tinha dúvidas se sua vida poderia mudar, uma vez que desde pequena conviveu com os problemas familiares causados pelo vício de seu pai e atualmente estava vivendo falta de dinheiro. Mais adiante, comentou que, quando se casou, vieram as desavenças com o marido. Lembrou-se de que cresceu vendo seus pais brigarem muito, porém eles eram mais companheiros comparativamente ao seu casamento, onde não havia parceria. Recordou que até seus 14 anos, apesar das dificuldades, ela vivia melhor porque era ingênua, e após esse período tudo passou a ser uma sucessão de sofrimento e sacrifício. Indaguei-lhe: “Então, você perdeu a ingenuidade e nesse lugar vieram os sacrifícios?”

E podemos acrescentar para nossa reflexão aqui: lá onde o sujeito não pensa, ele escolhe?

Em seguida, Piedade fez o seguinte comentário: “Mas, também, com essa herança, tenho que ficar mesmo doente!”. Ao que marquei: “herança”. E, após seu silêncio, encerrei a sessão.

É interessante salientar que o corte da sessão já é, em si, uma forma de interpretação em ato, que vai decidir a direção de produção de sentido.

Piedade comentou que foi na terapia anterior que se deu conta de quanto ela era submissa, principalmente na relação com o marido, e começou a se revoltar. Disse: “Aquela mulher que vivia exclusivamente para a família, cuidando dos afazeres domésticos, engraxando até seus sapatos, resolveu mudar”. Esta mudança de comportamento gerou um verdadeiro caos no seio familiar, pois sua família, mais especificamente seu marido, custou a entender seu radical comportamento. E ali na sessão, sempre repetia: “Chega de ser submissa!”.

Certa vez, fui surpreendida por um telefonema de sua filha adolescente querendo conversar comigo. Por ser pega de surpresa, disse que retornaria a ligação posteriormente. No dia seguinte, Piedade chegou para sessão acompanhada da filha. Ouvi a filha rapidamente. Ela queria dizer que sua mãe não a deixava sair com as amigas e que estavam se desentendendo recorrentemente. Reconheci a importância do que estava sentindo e orientei-a a buscar ajuda, indicando uma outra profissional.

Ao iniciar a sessão, Piedade queria saber sobre o assunto que sua filha havia conversado comigo. Permaneci em silêncio e conduzi sua análise, direcionando para suas questões. Naquele momento, Piedade ratificou que ela e a filha vinham brigando muito. Quando interrogada sobre sua dificuldade em perceber que sua filha estava crescendo,

Piedade confessou que tinha receio em deixá-la sair sem a sua companhia. Tinha medo de que sua filha pudesse ser molestada. Interroguei-a: “De onde vem esse medo?”. Respondeu rispidamente que estranhava a minha pergunta e que era dever de uma mãe proteger a filha nessa idade. Este seu comportamento me fez pensar o que estaria dando suporte a essa preocupação; provavelmente Piedade estaria falando de suas próprias vivências através da filha, vivências essas que, de fato, vieram à tona mais adiante no processo.

Com o passar do tempo, pude observar algumas vezes uma maneira que Piedade tinha de funcionar. Quando eu fazia uma intervenção que parecia ter sentido, ela imediatamente me retrucava, revelando que não havia compreendido, e dizia: “Não sei, não sei, estou zonza”. Punha a mão no peito e dizia: “Ai, que falta de ar!”. No começo do atendimento, ela percebia minha atenção diante de seu mal-estar. Todavia, com o passar do tempo, começou a se dar conta de que esta encenação já não me assustava mais, eu permanecia em silêncio, o que a deixava bastante irritada, porém foi essa provocação que a fez caminhar em outra direção.

Ao mergulhar em sua história, Piedade passou a relatar fragmentos de sua vida desde o momento de seu nascimento. Sua mãe deu à luz praticamente sozinha, pois seu pai, embriagado, ao invés de ajudá-la, queria comemorar o nascimento da filha, jogando-a pela janela do quarto. Enquanto relatava esta situação, ficou imaginando a aflição que sua mãe havia passado naquele momento. Marquei: “Jogar pela janela, então, ainda bem que seu marido colocou tela.” Piedade se surpreendeu...

Em minhas reflexões, não pude deixar de pensar na consequência deste ato de seu pai em sua vida e no lugar que já estaria de certa forma marcado para Piedade. Por vezes, ela e o marido discutiam no carro, situações nas quais lhe ocorria jogar-se do carro em movimento. Curiosamente, isso foi considerado na análise como traço emblemático, pois era a repetição de uma cena primitiva em sua vida, a saber, a do seu nascimento, quando seu pai, embriagado, comemorou sua chegada ao mundo ameaçando jogá-la pela janela do quarto.

Piedade comentou que os problemas com a bebida começaram muito cedo na vida de seu pai. Sua avó contou-lhe que, aos três anos de idade, devido a grave problema de saúde, ele quase morreu, e o que o salvou foi um remédio à base de cachaça. Por esta razão, seu pai acreditava que a bebida não fazia tanto mal, ao contrário, tinha salvo sua vida. Piedade disse que não concordava com a posição dele, mas foi o álibi que ele usou para continuar bebendo.

Piedade não cansava de ressaltar as qualidades do pai, principalmente seu tino comercial. Relatou que ele frequentou a escola apenas por um dia e, todavia, aprendeu sozinho a ler/escrever e a fazer contas. Montou uma pequena marcenaria nos fundos de casa e recordou que, desde muito pequenos, ela e o irmão trabalhavam ao seu lado. Piedade deixava ver sua insegurança, mas por pouco tempo, logo neutralizava seu mal-estar salientando comparativamente que, embora não tivesse completado seus estudos, era muito esperta e tinha facilidade para aprender. Bastava observar alguém fazendo alguma coisa que, só de olhar, já aprendia. E não demorou a dizer que seu pai também era assim.

As conversas sobre seu pai renderam algumas sessões. Recordou um episódio que lhe aconteceu aos seis anos de idade, e que tal fato continuava muito vivo em sua memória. Ajudava seu pai na marcenaria quando sofreu um acidente, machucando um dos dedos da mão. Seu pai mandou que ela virasse de lado e urinou em cima de seu dedo machucado, sendo que, após este gesto, a dor passou. Ao relatar o fato, disse que se lembrava daquele jato quente de urina em seu dedo como se estivesse acontecendo naquele momento. Naquela hora, foi visível sua sensação de gozo ao contar essa experiência. Em seguida, disse-lhe: “Que pai poderoso!”. Respondeu-me com ar de confirmação: “É, com sua urina ele curava até ferida dos cascos dos cavalos”, e prosseguiu, “até porque naquele tempo não existia veterinário”. Piedade acrescentou: “Não pense que fiquei sem trabalhar. Enquanto me recuperava do problema no dedo, fiquei em casa ajudando minha mãe nos afazeres domésticos”. Para enfatizar o quanto seu pai era muito bom, mas era severo na criação dos filhos, lembrou-se de

outro episódio. Certa vez, retornando da escola, foi com entusiasmo mostrar ao seu pai que havia aprendido a fazer a letra “i”, mas este lhe repreendeu porque ela não havia executado a letra com perfeição. Até hoje, ao escrever esta letra, recorda-se desse episódio e procura caprichar na caligrafia.

Podemos pensar qual o sentido, a importância e a dimensão que tal identificação com o pai implicaria na economia de gozo de Piedade, pois esta parecia sustentar ao mesmo tempo o lugar da que se oferece em sacrifício e o lugar idealizado do pai, diante de quem nenhum outro (homem) poderia ex-sistir5.

Piedade continuou falando de seu pai, sobre a preocupação dele com a família. Trabalhava em dois empregos para completar a renda familiar. Relatou que sempre admirou a fé em Deus que ele tinha e passou a contar outro episódio. Contou, então que, certa vez, apareceu um vendedor oferecendo um consórcio de um caminhão. Seu pai, sem ter a mínima condição de fazer negócio e após insistência do vendedor, disse-lhe: “Vou conversar com Deus hoje à noite e, dependendo do que ele me falar, farei ou não negócio com você.” No dia seguinte, para surpresa e preocupação de todos, seu pai acabou entrando no consórcio, mesmo sem poder assumir dívidas. Ao ser interrogado pela família, sua justificativa foi de que Deus havia lhe enviado um sinal positivo. No mês seguinte, o veículo foi sorteado. O pai começou a trabalhar com o caminhão e, com o dinheiro auferido, pagava as prestações do consórcio e completava a renda familiar. E assim foi em outros episódios narrados por ela sobre o poder e a sabedoria de seu pai para fazer negócios.

Naquela conversa, Piedade dava pistas muito claras da veneração que tinha pelo pai, o que nos levava a pensar, também, o quanto se encontrava presa ao eixo imaginário do

                                                                                                               

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A noção de ex-sistência é empregada por Lacan para designar o lugar excêntrico em que se situa o sujeito do inconsciente. Utilizamos esse mesmo termo, ex-sistência, num sentido vizinho, ao designarmos o lugar do Um, porque o Um é o

significante que representa o sujeito. Em nossas formulações, frisamos um outro sentido da palavra ex-sistência, ao dizermos que o Um faz com que o conjunto ex-sista (Nasio, 1993:62).

ideal, assegurando sua virilidade. O neurótico prefere salvar o pai a se deparar com sua canalhice. Ela preferia sofrer com seu sintoma a saber do crime do pai. Preferia, como Édipo, se sentir culpada de seus atos a desvelar a desmedida do gozo paterno. Se haver com o real do pai é confrontar-se com a consequência da falta radical do Outro, ou seja, é deparar-se com o gozo mortífero para além do desamparo.

Em momentos como aqueles, era evidente o quanto Piedade ficava emocionada, seus olhos enchiam de lágrimas ao falar de seu pai e, quando a saudade apertava, costumava ouvir por várias vezes uma música chamada “Pai”. Lembrou-se de outro momento do cuidado dele com os filhos: a caminho do hospital para visitar sua mãe, que se encontrava hospitalizada, seu pai segurou sua mão e a do seu irmão para atravessar a rua. Contudo, ao contar-me tal episódio, cometeu um ato falho: ao invés de dizer “pegando na minha mão”, disse “pegando no pé”! Eu registrei seu equívoco, repetindo: “Pegando no pé?”. Ela sorriu e retificou: “Não, na mão”. E continuou a conversa. Freud denominou esses fenômenos de “lapsos da fala” (Freud,1901 :70-73), também chamados de atos defeituosos, ou funções defeituosas, que podem ser observados em qualquer pessoa e considerados sem nenhuma importância. Entretanto, acreditava ele, tais fenômenos são manifestações que carregam em si um sentido maior por detrás do que foi dito. Em suas “Conferências introdutórias sobre a psicanálise”, Freud se atém a demonstrar que os atos falhos são resultados do trabalho do inconsciente que seguem operadores específicos – condensação e deslocamento (Freud, 1916:67-68). Tal acepção é contrária ao que geralmente pressupões a psicologia, que sempre procura reduzir esses fenômenos a explicações como fadiga, ou falta de atenção, ao invés de aquiescer com a postura freudiana de que tais fenômenos são da mesma tessitura do sintoma produzido pelo inconsciente.

Caminhando por estas acepções teóricas, cabe ressaltar que um ato falho dribla o