• No results found

5. Heat rejection pressure control strategy, gas cooler performance and heat recovery implementation

5.3. Heat recovery implementation

Caio conta que, na faculdade, fez duas amigas muito especiais para o resto da vida: Sheila55 e Sofia56. Segundo ele, Sofia foi a pessoa que o ensinou a viajar. Ela era escoteira e curtiu fazer passeios em meio a natureza... “me levou para a minha 1ª trilha,

foi em Teresópolis. Fiquei loucamente apaixonado, esse período todo que eu fazia trilha, subia a montanha, não sei o que lá, era um jeito de usar essa energia que eu não sabia onde enfiar. Hoje é como eu vejo, e fiquei viciado em fazer esse tipo de viagem”.

Depois de pedir demissão da empresa em que trabalhou por 9 meses, Caio, que já tinha assumido para si que “gastar dinheiro com viagem não é gasto, é investimento”, foi com suas amigas para aquele que ele classifica como seu “2º momento de

independência absoluta”. Ele conta que: “tinha 1.220 reais na conta, e fiz meu 1º mochilão, na verdade, foi uma mochilinha, com a Sheila e a Sofia. A gente pegou o carro que a Sheila tinha acabado de ganhar do padrinho dela, e a gente rodou todas as Minas Gerais, cidades históricas, não sei o que lá, Sul da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro... que foi a 1ª grande viagem, foi aquela coisa sabe? Nooossa! [...]. Voltei, não satisfeito, ainda tinha uma graninha, eu peguei um ônibus até Natal, fui até Natal e vim descendo de Natal até Boipeba na Bahia, a Sheila me encontrou em Recife e a gente foi viajando juntos”.

Caio finalmente consegue realizar seu sonho de viajar, de sair por aí, conhecendo coisas novas, passando por situações novas... ele se lembra com muito carinho e saudades dessas duas primeiras grandes viagens que fez e as classifica como um dinheiro muito bem investido. Essas viagens encarnam uma grande metamorfose identitária para Caio: por meio do consumo, ele experimenta e realiza um projeto de vida antigo, o de viajar, descobrindo novos lugares, vivendo novas situações.

55 Nome fictício. 56 Nome fictício.

Porém, talvez não de forma totalmente consciente, Caio começa a viver um dilema: quer aproveitar a vida, quer passear, conhecer lugares novos, se divertir, mas, para isso, precisa de dinheiro. Se vê frente à lógica sistêmica e não vê saída... não consegue reunir condições para se emancipar... dessa forma, voltando dessa 2ª viagem, Caio vai até a faculdade e vê no mural de estágios que um importante jornal de São Paulo estava com um processo seletivo aberto para contratação de trainees e viu que, diferentemente da grande maioria dos processos de trainees, esse aceitava estudantes de 1º e 2º anos. Ele pensou: “Nossa, trainee... ganha uma puta grana, e pode já no 2º ano,

eu gosto de ler e escrever e tal” e se inscreveu.

Participou de várias etapas do processo seletivo e, segundo ele: “eu passei

porque eu fui muito honesto e muito naïve57..., porque eu concorri com pós-doutores, pessoas que tinham 3 graduações, mestrado, doutorado, gente que veio do exterior, foi um ano muito concorrido. E elas me perguntaram, ‘Ah quais foram os seus momentos mais importantes?’, e eu coloquei, ‘Ah o meu 1º beijo’, e eu acho que eu fui romântico, mas eu acho que elas viram que eu escrevia bem, que, academicamente, eu era um excelente aluno, estudioso e tudo, que eu tinha potencial e uma das diretoras virou um dia para mim, na semana de palestras, antes de terminar o processo [...], ela falou, ‘Eu acho você muito imaturo para entrar aqui... , você tem um histórico, até pela questão financeira, você não teve acesso a cultura’, e, depois, eu fui descobrir que todos os meus colegas tinham estudado no Santa Cruz, tinham 10 sobrenomes, era altíssima elite”. Entretanto, a diretora havia gostado do jeito de Caio e disse: “Você não tem vivência, cultura, eu sugeriria você adquirir isso antes de voltar, mas, se você falar que você quer, eu vou te passar agora”. E, dessa forma, mais uma vez, Caio passa em um

processo seletivo concorridíssimo e passa a integrar o time de jovens jornalistas trainees desse famoso jornal.

Vemos, nas palavras dessa diretora, um pouco do que Bourdieu (2008) fala sobre a “Teoria dos Gostos” e sobre como o capital cultural é determinante para a identidade social do sujeito. Mais à frente, veremos que essa consciência dessa “deficiência cultural” que foi apontada por essa diretora será determinante no processo de metamorfose e emancipação de Caio.

Mas precisamos lembrar o que moveu Caio para aquele lugar. Ele estava ali pelo dinheiro. Queria um salário para poder explorar o mundo. Não estava ali pelo amor ao

jornalismo (nem faculdade de Jornalismo ele fazia... estudava Administração e tinha o sonho de ser presidente do Citibank). Então, como ninguém tinha falado ainda sobre salário, no segundo dia de trabalho, ele perguntou: “Qual que é o salário do trainee que

ninguém falou o que eu vou receber e como”. Como resposta, Caio diz que recebeu:

“aí riram da minha cara: “Como assim? é um favor que o jornal te faz, sorria. Mas

você tem a grande vantagem de comer no bandejão do 5º andar”. Foi isso, aí foi um ano duro, bem duro para mim, porque eu não tinha dinheiro...”.

Na verdade, o tal trainee era um curso. Ao final do curso, os melhores alunos poderiam vir a ser contratados pelo jornal. Caio resolveu fazer o tal curso (afinal de contas, gostava de estudar). Quando perguntado por que ele resolveu continuar, mesmo não sendo remunerado (e, a princípio, o que o motivara para aquele processo seletivo era, especialmente, a possibilidade de ter uma boa remuneração), Caio diz que se motivou pelo desafio, por saber que era um investimento de curto prazo (o curso duraria 4 meses) com alta possibilidade de retorno (sabia que, se dedicando, teria grandes chances de ao final ser contratado e com um salário superior ao de um estágio, que seria sua outra alternativa) e “sobretudo, curiosidade. Não é todo dia que se tem a chance de

virar jornalista de um grande jornal, minha ânsia de descoberta, de aprender, de xeretar o inusitado, falou mais forte...”.

Porém, o que parecia ruim, poderia piorar... depois de alguns dias comendo no tal bandejão do 5º andar, Caio descobriu que não é que ele poderia comer de graça... ele poderia comer fiado e pagar tudo ao final do mês. Quando descobriu isso, Caio diz que se desesperou e, daí em diante, levava sanduíche e um Toddynho de casa todo dia. Disse até que ficou conhecido no jornal como o “menino Toddynho” e, como Caio diz: “mal

sabiam eles que eu não tinha dinheiro para comer”. Naquele contexto de pessoas

abastadas, achavam que aquele era apenas um hábito excêntrico de Caio, uma preferência, e não uma questão de sobrevivência dele.

Com o fim do curso, Caio recebeu um convite da editora dos canais semanais do jornal para integrar sua equipe: “E, por algum motivo, ela se encantou comigo, porque

eu sempre fui uma pessoa que conhecia muito as pessoas, ou que movimentava por causa dessa energia, e aí conseguia muitas personagens. E os cadernos dela, semanais, a grande dificuldade de um caderno semanal é a história de vida58. E isso é o que eu

58 Aqui Caio se refere ao fato de que, nesses cadernos especiais dos jornais de grande circulação (que,

geralmente, são editados apenas em um dia da semana), é comum serem publicadas histórias de vida de pessoas que ilustram as matérias abordadas (por exemplo, num caderno de Empregos, frequentemente, é

fazia com maestria [...] e aí foram 11 anos de vida profissional nesse jornal, no total, do que eu entrei até eu sair, só que chegou, foi muito bacana, tudo uma descoberta, assim eu amo, amei o meu período como jornalista, nesse meio tempo eu prejudiquei bastante a minha graduação, porque o horário no jornal é à noite, e eu estudava a noite, pensei em mudar para de manhã, mas desisti.”.

Nesse período em que atuou no jornal, Caio conseguiu experimentar um pouco da vida que sonhava e realizar alguns de seus desejos: “Trabalhar lá me permitia

frequentar os restaurantes mais caros de São Paulo, de fazer viagenzinhas executivas para a Alemanha, as coisas mais luxuosas, que eu não teria dinheiro para... Mas foi bom para eu conhecer um mundo... que eu não sinto a menor falta, para te falar a verdade hoje”.

Caio tem consciência de que aquilo hoje não faz mais sentido: “eu queria poder

me igualar às outras pessoas e poder falar: ‘Eu fui para Paris, eu frequentei não sei o quê’, eu tinha esse desejo de me sentir bem, eu queria... Que eu achava que eu tinha potencial e merecia, sei lá”. Apesar de reconhecer que hoje isso tudo não faz mais

sentido para ele, Caio teve oportunidade, nesse momento, de experimentar um pouco do seu projeto de vida até então, o de ser um alto executivo, de ter acesso àquilo que não tinha quando era criança. Provavelmente, esse sentimento de inclusão que o consumo possibilitou a Caio deu a ele (como a muitos dos sujeitos discutidos no capítulo 8) uma sensação de distinção, uma vez que, como diz Alonso (2006), o consumo serve para ilustrar formas de vida e, no projeto de vida que Caio tinha até então, seu projeto era ser rico para ter acesso à tudo aquilo que desejara.

Entretanto, Caio passa por uma nova metamorfose em sua vida. Já não é mais o menino cujo trabalho é estudar. Ele agora se vê recebendo um bom salário pelo trabalho que desempenha e isso lhe proporciona sonhar. Nesse momento, estudar acaba deixando de ser prioridade, e o trabalho assume esse lugar de destaque em sua vida, afinal de contas, a recompensa (o salário e todo o prazer que ele lhe proporcionava) é mais imediata. Mas, mesmo assim, Caio consegue se virar. Por ser inteligente, consegue, mesmo estudando pouquinho, passar nas matérias, chora com os professores que queriam reprová-lo por falta pelo direito de fazer a prova e provar que se apropriou da matéria, e, dessa forma, vai levando o seu curso de graduação em Administração sem reprovações.

apresentada a história de vida de algum profissional que teve uma trajetória destacada em relação à média).