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Dentro do antonismo, podemos considerar o clero universitário o grupo mais importante e o que mantinha as mais estreitas ligações com D. Antônio. No capítulo anterior, observamos o período de formação de D. Antônio no mosteiro de Santa Cruz, o que levou esta instituição a apoiá-lo na crise dinástica, sendo muitas vezes o seu refúgio e local de reuniões das lideranças do movimento. De acordo com uma descrição coeva:

Com a hida d´El-Rei para Almerim se mudou o Sr.D.Antonio para Coimbra, e se aposentou no convento de Santa Cruz, mas como o Sr.Antonio era muito amado do povo e dos estudantes da

384 SOARES, Pero Roiz, op. cit., 1953, p. 170.

385 Carta de Sancho de Ávila ao duque de Alba; Porto, 9 de dezembro de 1580, apud. SERRÃO, Joaquim

Veríssimo, op. cit., 1956, p. 188.

386 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit., 1956, p. 188. 387 Ibidem, p. 193.

171 Universidade, por também ahi estudar sendo moço, huns para com as letras, outras para com as armas o favorecerem 388.

O mosteiro de Santa Cruz estava ligado à universidade de Coimbra, que institucionalmente estava comprometida com D. Antônio. O fato de D. Antônio ter sido um estudante era lembrado na crise dinástica. Em 2 de junho de 1580, o Conselho da Universidade designou Frei Luís de Sotomaior e D. Fernão Martins de Mascarenhas para receberem, com todas as solenidades, D. Antônio como rei, alegando que era “honde Sua Alteza se criara e estudara”389.

Os jovens estudantes tinham uma grande admiração por D. Antônio. Por exemplo, durante as cortes de Almerim, chegou a notícia que na câmara de Coimbra alguns cidadãos e estudantes “Soltarão palavras de dezobediençia em favor do sõr dom Antonio”390. O que era um ato de desobediência ao rei, pois D. Antônio naquele momento já tinha sofrido o desterro da corte. Questionado, o cardeal rei mandou Martim Correa da Silva para punir a cidade, mas os estudantes reagiram através de uma trova que foi entregue a Correa, onde acusavam as autoridades de entregarem o reino aos castelhanos e desfavorecer o prior do Crato:

La fee sea alha dada como el pueblo lo meresse Pues ves que não favoresse Al grão Antonio em nada ya que a su Rey lê auresse.

Por outro lado, institucionalmente, existiram outras razões para o apoio a D. Antônio. O Conselho Universitário era um tradicional adversário de D. Catarina, D. Sebastião e, especialmente, de D. Henrique e dos jesuítas, que tudo fizeram para submeter à universidade aos seus interesses391. Em outubro de 1570, a insatisfação com o governo de D. Sebastião e o poder dos irmãos Câmaras já era visível em Santa Cruz de Coimbra. Diante do rei, foi representada uma peça de teatro intitulada Sedecias, sobre o último rei de Judá. Era uma metáfora para a destruição de Portugal pelos irmãos

388 Chronica do cardeal rei D. Henrique e vida de Miguel de Moura. Lisboa: Sociedade Propagadora dos

Conhecimentos Úteis, 1840, p. 100.

389 RODRIGUES, Manuel Augusto. A cátedra de Sagrada Escritura na Universidade de Coimbra.

Coimbra: Inst. de Estudos Históricos, 1974, p. 189.

390 SOARES, Pero Roiz, op. cit., 1953, p. 132.

391 ALMEIDA, M. Lopes de. BRANDÃO, Mario. A Universidade de Coimbra: Esbôço da sua história.

172 Câmaras, e a destruição de Jerusalém, por Nabucodonosor. Uma série de pasquins circulou por Coimbra contra os irmãos Câmaras e os padres da Companhia392.

Um dos motivos do apoio da universidade de Coimbra também era que esta instituição era um reduto tradicional dos dominicanos, especialmente nas cadeiras de teologia. A ordem de S. Domingos foi uma grande apoiadora de D. Antônio, ao ponto das autoridades castelhanas classificarem os dominicanos como “especialmente danados”393. Duas razões ajudam a explicar este apoio. Primeiro, são os laços pessoais e de clientela em relação a D. Antônio, pois além de ter tido vários professores dominicanos, D. Antônio ainda doou um mosteiro para a ordem. Segundo, é a oposição da Ordem contra os jesuítas e cardeal D. Henrique394. Ao longo da segunda metade do século XVI, a ordem dos jesuítas começou ocupar espaços tradicionalmente de domínio dos dominicanos, como no Tribunal do Santo Ofício e na Universidade, fustigando a ordem de S. Domingos, acusando-os de terem cristãos-novos em seus quadros – ou mesmo através da Inquisição, em que alguns célebres dominicanos, como frei Simão da Luz, religioso do mosteiro de S. Domingos de Lisboa e lente de prima no Colégio de Nossa Senhora da Escada, foram acusados de negar a salvação pelo purgatório, o que lhe rendeu um pedido de perdão público humilhante. Tudo os aproximava do prior do Crato. Assim, não é estranho um testemunho como de António Lacerda, prior de Elvas, partidário de Filipe II, no qual declarou que “Em este nostro convento de S. Domingos de Lisboa nom houve nenhum frade que neste negocio do levantamento de Dom Antonio nom fosse culpado ou pouco ou muito”395.

4.3.4. Escravos

Os escravos que viviam em Portugal, especialmente em Lisboa, tiveram grande participação na causa antonina. Na capital do reino, em 1551, temos uma população de cerca de 100.000 habitantes em que 9950 eram escravos, ou seja, 10% da população396. Eram empregados nos trabalhos mais duros, mesmos os libertos, como, por exemplo, o

392 VELLOSO, Queiroz. D.Sebastião (1554-1578). 2 ed. Lisboa, Empresa nacional de Publicidade, 1935,

p. 131.

393 RODRIGUES, Manuel Augusto, op.cit., 1974, p. 191-193, Nota (5).

394 Seguiremos aqui a análise de PAIVA, José Pedro. Os dominicanos e a inquisição em Portugal (1536-

1614). Braga: s. l., 2005.

395 Apud. PAIVA, José Pedro, op. cit., 2005, p. 219.

173 trabalho nas docas, carregar alimentos, vender azeite ou água – também penetravam dentro da família portuguesa no que se refere aos serviços domésticos.

D. Antônio percebeu que este enorme contingente de homens poderia ser usado na guerra e assim ordenou que todo o “negro cativo” que quisesse servir “nesta Iornada e defensão de purtugal” tornar-se-ia foro e ainda lhe pagariam um soldo. Imediatamente, “se fez huma abndeira de mais de quatrocentos negros e depois de sabido pelo Reino o preghão sobre os negros se vierão outros tantos a Lisboa asentar para servirem Sahio logo mais hum tambor da parte da cidade (...).”397. O que contribui para que os senhores de escravos se posicionassem contra o prior do Crato398, pois a aderência foi grande, e a que tudo indica muito superior a quatrocentos homens iniciais399.

Os negros aparecem como um grupo bastante ativo do antonismo. D. Antônio até mesmo confiou a importantíssima torre da pólvora sob a sua guarda. A fidelidade à causa antonina explica-se pelo simples fato que uma vitória de Filipe II representava o seu retorno ao estado de escravo, sendo que mesmo após a derrota de Alcântara seguiram D. Antônio em sua fuga pelo país, em que “muita gente de pee, & de cavallo, &muitos negros, dos q escaparão das mãos do inimigo (...)”400.

Por este mesmo motivo é preciso ser desfeita a imagem tantas vezes sugerida de que não eram bons combatentes. A documentação sempre destaca a sua atuação, capturando e armando emboscadas contra os soldados castelhanos. Na queda de Setúbal, além de capturar vários presos, uma testemunha relata que “também vir os Negros da banda dalem donde adnvao ao salto tomando e matando castelhanos os quais em vindo marcharão Caminho de cascais. (...).”401.

Também existem indícios de uma organização interna. Em 20 de abril de 1583, após alguns anos da derrota de D. Antônio, os castelhanos prenderam cinco homens que tentavam ir para a França: “nos quais entrava hum dom pedro Negro de abito de Santiago embaxador neste Reino do Rey de Congo que hera o que serviu de capitão mor

397 SOARES, Pero Roiz, op. cit., 1953, p. 168-169.

398 SOUSA, D. Antônio Caetano de Sousa, op.cit., Tomo II, Parte II, p. 133-138.

399 “[em] fins de julho [1580], militavam nas fileiras do exército de D. Antônio muitos negros libertos,

pois se dera alforria a quantos quizessem servir como soldados. Nos fornos de Coina havia, guardando os víveres, três ou quatro Companhias de negros, que, a 24 de julho, os solados de Sancho de Avila e D.Fernando de Toledo foram afugentar. Antes que chegassem, já cerca de mil negros tinham embarcado, ficando ainda uns sessenta prisioneiros dos castelhanos”. PERES, Damião. 1580 o Governo do Prior do

Crato. Barcelos: Companhia Editora do Minho, 1928, p. 67-68.

400 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit., 1956 p. 509. 401 SOARES, Pero Roiz, op. cit., 1953, p. 171.

174 dos Negros no tempo do senhor Dom Antonio”402. Seu destino foi ser preso e levado a Castela, onde acabou morrendo. Os outros foram imediatamente enforcados.