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Frei José Teixeira foi o mais ativo pensador do antonismo e aquele que, de acordo com Martim de Albuquerque, realizou em Portugal “a formulação mais completa

419 DESWARTE, Sylvie. Ideias e Imagens em Portugal na Época dos Descobrimentos – Francisco de

Holanda e a Teoria da Arte. Lisboa: Difel, 1992, p. 59.

420 Ibidem, p. 241, Nota 7.

421 Carta de Francisco de Holanda endereçada a D.António, Prior do Crato, testemunhando o contexto

da origem da composição das suas armas. Lisboa, 6 de maio de 1579 (in Arquivo Histórico da Casa dos

Duques de Alba, Espanha; facsimilada e publicada in Jorge Segurado, Francisco d´Ollanda, Edições Excelsior, Lisboa, 1970, p. 461-463, 492 e 494; leitura e transcrição paleográficas de Jorge de Matos e Nuno Campos). In: MATOS, Jorge de. O Pintor Francisco de Holanda e as Armas do Prior do Crato – Uma reflexão Epistolográfica. Separata de Tabardo Nº 1. Lisboa: Centro Lusíada de Estudos

Genealógicos e Heráldicos, Universidade Lusíada – Livraria Bizantina, 2002.

422 Para maiores detalhes sobre este autor, ver a análise de ALBURQUERQUE, Martim de. Acerca de

Fr.José Teixeira e da Teoria da Origem Popular do Poder. In: Estudos de Cultura Portuguesa, 2º Vol. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2000, p. 271-289.

182 e arrojada da teoria da origem divina do poder per populum, traduzida na afirmação do direito de eleição dos monarcas.”423.

Nasceu em 1543, filho de Afonso d‟Afonseca e de Leonor Teixeira, família da nobreza e Alcaides-mores de Vila Pouca. Um de seus tios, Manuel Teixeira, fez parte da embaixada portuguesa à França para negociar o casamento de D. Sebastião com Margarida de Valois. Em 1565, entrou na Ordem de São Domingos, no convento de Azeitão. Quando ocorreu a tragédia no Marrocos, era prior do convento de Santarém.

Nesta cidade, assistiu o levantamento de D. Antônio e a partir de então o acompanhou em todos os momentos. No exílio, exibiu dotes de polemista na corte francesa ao defender, em uma série de panfletos e manuscritos, os direitos de eleição popular de D. Antônio. Além da pena, envergou a espada em 1582, quando se alistou na expedição de Strozzia aos Açores, que foi derrotada. Foi então preso em Lisboa, mas conseguiu fugir em 1583, juntando-se à corte de D. Antônio novamente e prosseguindo em sua luta pelos direitos do monarca destronado através de seus diversos trabalhos424.

No entanto, não prestou somente serviços relevantes à corte de D. Antônio. Teve uma notável influência junto a Henrique III e a Catarina de Médici, sendo nomeado Pregador e Conselheiro Régio. Igualmente, foi protegido por Henrique IV, em que

423 ALBURQUERQUE, Martim de, op. cit., 2000b, p. 275. 424 Os textos conhecidos de José Teixeira são:

(1) De Portugalliae Ortu, Regni initis et Denique de Rebus a Regibus, universoque Regno praeclare gestis, compendium; ex fidelibus spectatissimorum Historicorum monim~etis exerptum.... per R.P.F Joseph Teixiera Lusitanum, Ordinis Praedicatorum, et sacrae Theologiae professorem, Regisque Portugalliae concinatorem. Parisiis M.DL XXX II. Neste opúsculo, imprimido em 1582 e que logo se

esgotou, D. Antônio irá patrocinar no final deste mesmo ano uma segunda impressão. Neste livro o autor, Frei José Teixeira, defendia a causa do Prior do Crato. Teve importante repercussão nas cortes europeias na criação de uma atmosfera de simpatia pelo rei exilado.

(2) De electionis jure quod competit viris portugalensibus inaugurandis suis regibus AC pricipubus,

Lião, 1589; 2º Edição.

(3) Confutatio nugarum Duardi Nonii Leonis,... nonnullorumque ejusce farinae interpolatorum qui lingua calamoque venales, ex vafris mendaciis... quaestum sibi parant, molientes Portugalliae regnum Philippo Austriaco, Castellae regi, jure haereditario obvenisse, ignaris priscorum portugallensium morum in suis regibus eligendis... falso persuadere et... domini Antonii, veri... Portugalliae... regis jus vellicare ; excerpta... ex eruditissimi R. P. F. Joseph Texerae,... ″Anticrisi″ cujus pars magna Lugduni, Galliae, anno 1589 typis mandata fuit. - Ticini (Parisiis), 1594. - In-8 ̊, 123 p..

(4) Speculum tyrannidis Philippi, regis Castellae, in usurpanda Portugallia verique Portugallensium juris in eligendis suis regibus ac principibus, [a R. P. F. J. Texera] cum annotationibus I. I. F. a V., I. C. Gall., nunc tertio in lucem editum. - Parisiis, 1595. - In-8 ̊, 129 p..

(5) Lê miroir de la procedure de Philipe Roy de Castille em lúsurpation du Royaume de Portugal: & du droit, que les Portugais ont delire leurs Roys & Princês. Nouvellemement traduit de latin em François,

par J.D.M. Avec lês annotations de I.I.F.A.V.I.C.G., Paris 1595, in-8.°, 60 págs. Publicado já no fim da vida do prior do Crato, este livro é uma tradução de outro em francês. O autor, suspeita Serrão, talvez seja o dominicano José Teixeira, que tenta derrubar as argumentações de Franchi-Conestaggio.

Para maiores detalhes, ver Joaquim Veríssimo SERRÃO, op. cit., p. XXXIII-XLIX e SERRÃO, Joaquim Veríssimo. Fontes de Direito para a História da Sucessão de Portugal (1580). Coimbra: Universidade de Coimbra, 1960, p. 128-129.

183 argumentou em favor dos direitos do rei francês ao trono, o que desagradou à rainha Elizabeth, pois acabou por desenvolver a teoria da lei Sálica. Na corte de Henrique IV, ocupou também o papel de Conselheiro, Esmoler e Pregador. Foi também confessor da Princesa, para cuja conversão ao catolicismo teria contribuído. Circulou pela Holanda em 1592 e acabou por falecer em 1604.

4.4.2.4. D. João de Castro

El mejor Rey dellos Reyes Antonio Rey Lusitano Em seu Reyno no reyno o Qu´el pueblo fue muy villano Hablo de aquessos grandes Que grandes llamo em vano - D.João de Castro425.

D. João de Castro certamente é mais conhecido por sua contribuição ao sebastianismo do que como antonista convicto. Mas foi um personagem importante do antonismo, além de sua vida ter semelhanças com a de D. Antônio.

Assim como D. Antônio, D. João de Castro era um bastardo e seu avô foi um grande herói do reino. Este passado glorioso despertou-lhe cedo o gosto pelos estudos históricos, sendo um amante da história romana, imaginando a monarquia portuguesa como o antigo império conquistando todo o mundo conhecido “E de tal modo se me pegou o partido da Patria: que determinei de morrer, & acabar nelle”426

.

Também, como D. Antônio, foi destinado à vida eclesiástica, sendo igualmente confiado aos jerônimos, aos 13 anos de idade, no convento de Nossa Senhora, em Sintra. Também nele se percebe o espírito inquieto e ousado, o que refletia a sua situação de ser bastardo que o obrigava a se lançar em aventuras para obter algum tipo de ascensão social, que pela origem lhe era negada. Assim, fugiu do convento tendo como objetivo cursar a universidade de Salamanca. Mas no caminho deparou-se com a recém fundada universidade de Évora, onde decidiu ficar mesmo não tendo como se sustentar. “não podendo acabar comigo que fosso criado de alguem: resoluime de ser Estudante pobre dos que pediam pellas portas”427.

425 Apud. ALBURQUERQUE, Martim de. O valor politológico do sebastianismo. In: Estudos de Cultura

Portuguesa, 2º Vol. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2000a, p. 277, nota (71).

426 Apud. ALBURQUERQUE, Martim de, op. cit., 2000a, p. 281. 427 ALBURQUERQUE, Martim de, op. cit., 2000, p. 276-278.

184 Mas, ao contrário de D. Antônio, foi muito agradecido dos jesuítas, pois estudou com grande dedicação em Évora, adquirindo uma sólida cultura, mas acabou por sair de universidade. Com a crise dinástica, tornou-se um ardente defensor de D. Antônio. Além do patriotismo já anteriormente destacado, foi um dos pensadores que reforçaram a tese da eleição popular. Quando ficou desiludido com a pobreza e a dificuldade do exílio, valeu-se desta teoria contra os antonistas, afirmando que a sua eleição era inválida e, a partir de então, esperou a volta de D. Sebastião.