Jan Amos Comenius nasceu em 1592 na Morávia, na cidade de Nivnice, em uma família religiosa. Seus primeiros estudos foram realizados em Prerov e, acabando essa primeira fase, vai cursar teologia em Herborn e depois na universidade de Heidelberg na Alemanha. Em 1616, é ordenado sacerdote e dedica-se ao ensino mudando-se para Fulnek. Com o estado em que se encontrava seu país, devido à Guerra dos Trinta Anos que havia iniciado em 1618, Comenius passa um longo período na Europa, até o seu falecimento em 1670, em Amsterdãn.
Comenius contribuiu de forma significativa no processo de desenvolvimento do pensamento pedagógico moderno. Em 1657, publicou, em latim, sua grande obra intitulada “Didática Magna”. Este estudo visava lançar novas ideias para uma reforma pedagógica que tinha como princípio ensinar tudo a todos, com ideais fortemente filosóficos, políticos e religiosos. Essa obra é considerada, segundo Château (1978), “o primeiro ensaio importante de sistematização da pedagogia” (CHATEAU, 1978, p.118). Narodowski (2001) salienta, ainda, que alguns mecanismos de ensino desenvolvidos por Comenius perduram até nossos dias.
Comenius instaura, mediante numerosos escritos, alguns dos mais relevantes mecanismos que se perpetuam ao longo destes últimos quatro séculos, na pedagogia moderna. [...] A hipótese mais geral consiste em afirmar que em seus textos se desenvolvem vários dos dispositivos fundantes das novas relações educativas instaladas na pedagogia; sobretudo os relacionados com alguns de seus componentes; como a simultaneidade, a gradualidade e a universalidade (NARODOWSKI, 2001, p.59).
A didática elaborada por Comenius inaugura uma nova forma de ensinar. Ela é pensada em um momento em que preceitos medievais e modernos se chocam e se contradizem, mas isso não quer dizer que ele elimina totalmente o velho modo de ensinar que era o tradicional e, sim, soma a esse novos princípios no processo de ensino. Nas análises de Cambi (1999), o modelo educativo de Comenius “veio mediar reciprocamente ciência, história e utopia sobre um pensamento fortemente original e, ao mesmo tempo, rico de passado e carregado de futuro” (CAMBI, 1999, p.280).
Os preceitos religiosos consagrados desde o período medieval, ainda estão presentes na didática comeniana, não na forma de um indivíduo totalmente dependente de Deus, mas de um ser que por meio dos ensinamentos e exemplos de uma moral religiosa, pode se constituir homem. Essa concepção está vinculada à ideia de um ser criado à imagem e semelhança de Deus.
Comenius elabora seu projeto de ensino entendendo que, desde o nascimento, estamos cercados pelas coisas do mundo exterior, do qual, pelos sentidos, adquirimos conhecimento, o que nos torna humanos. Esta explicação nos direciona para a matriz filosófica na qual o projeto comeniano está respaldado, ou seja, parte do princípio de que a origem do conhecimento está nos fatos particulares nas experiências práticas. Para o autor, Deus nos concede a natureza humana desprovida de conhecimento, o qual se deve buscar, a partir da formação pelas experiências de costumes e hábitos vivenciados pelos homens para nos tornarmos humanos.
[...] a natureza dá as sementes do saber, da honestidade e da religião, mas não dá propriamente o saber, a virtude e a religião; estas adquirem-se orando, aprendendo, agindo. Por isso, e não sem razão, alguém definiu o homem um animal educável, pois não pode tornar-se homem a não ser que se eduque [...] (COMÉNIO, 1996, p. 119).
Essa concepção de que é o conhecimento, pelas experiências, que humaniza o homem, torna o papel do professor fundamental, na medida em que é ele que deve organizar o espaço para garantir que a criança esteja em condições favoráveis para apreender o mundo em sua volta. Ele deve ser, ainda, uma pessoa com princípios morais e religiosos que possam conduzir a formação do ser humano de forma correta, para que ele aprenda a controlar seus instintos naturais e a percorrer retamente o caminho de encontro com Deus.
O processo de escolarização deve seguir o propósito maior do projeto comeniano, que é o desenvolvimento da sociedade a partir de uma reforma social e escolar. Para tanto, a
escola deve desempenhar o papel de formar o homem desde a infância para que este saiba distinguir o que é certo e o que é errado, o que é o bem e o que é o mal, tornando-o um homem virtuoso, capaz de realizar a reforma da sociedade e também dos costumes.
Comenius acreditava que a educação deveria ser iniciada desde a infância, pois a criança, nesse momento, ainda estaria livre dos pensamentos ruins e costumes já instituídos na sociedade. Defende, também, que essa educação deve ocorrer no espaço escolar para que a instrução se dê de forma igualitária e universal, respeitando o desenvolvimento individual e seu grau de instrução. Essa passagem da educação da criança para a esfera pública, ou seja, igual para todos, pode ser explicada, segundo Narodowski (2001), por três questões básicas do processo de ensino almejado por Comenius.
Uma de índole didática: as crianças aprendem melhor ao lado de outras crianças, [...] Um segundo motivo: deixar a educação escolar a cargo de um especialista implica a renovada referência à ordem arrancando-se a atividade educadora da boa ou má vontade paterna; a universalidade necessita de mecanismos suprafamiliares para realizar-se. Por fim, a ordem começa na procura de uma decisão racional quanto à divisão social do trabalho [...] (NARODOWSKI, 2001, P.65).
Com esses preceitos da institucionalização do ensino, já é possível identificar fatores da pedagogia moderna voltada à infância, ou seja, já não é mais interessante deixar a educação das crianças apenas na esfera familiar, até mesmo porque o ideal comeniano de ensinar tudo a todos só seria possível por meio de um processo de ensino institucional, pois a educação partiria de um especialista, com métodos e ideais definidos. Portanto, o processo de ensino-aprendizagem deve se respaldar em um
[...] método universal de ensinar tudo a todos. E de ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados. E de ensinar
rapidamente, ou seja, sem nenhum enfado e sem nenhum aborrecimento para os alunos e para professores, mas antes com sumo prazer para uns e para outros. E de ensinar solidamente, não superficialmente e apenas com palavras, mas encaminhando os alunos para uma verdadeira instrução, para os bons costumes e para a piedade sincera (COMÉNIO, 1996, p. 45-46).
A partir do entendimento comeniano de que a criança, ao nascer, estaria livre ainda dos costumes e hábitos já existentes na sociedade e de que é pela experiência, a partir dos cinco sentidos, que a criança se forma, compreende-se que a educação deveria ser iniciada já no período da infância, o que facilitaria a concretização do projeto social defendido pelo autor, ou seja, dar instrução universal a todos da mesma forma a partir de um método, para garantir uma sociedade igualitária e justa. A infância é um momento profícuo para tal projeto.
No homem, só é firme e estável aquilo de que se embebe a primeira idade [...]. Do mesmo modo, no homem, as primeiras impressões estampam-se de tal maneira que é um autêntico milagre fazê-las tomar nova forma; por isso, é de aconselhar que elas sejam modeladas logo nos primeiros anos da vida, segundo as verdadeiras normas da sabedoria (COMÉNIO, 1996, p. 131).
Assim, é possível identificar dois pontos importantes da obra de Comenius, primeiro, a clarividência de que a infância, para ele, é a melhor fase para se iniciar a educação, uma vez que, nesse período, o ser humano ainda está maleável para ser moldado e esculpido de acordo com o que se espera alcançar com a educação. E não educá-la seria afrontar os desígnios de Deus. Segundo, é evidente também a concepção de infância para o autor, em que a criança nasce desprovida de conhecimento e com possibilidade de ser moldada pelo meio exterior a partir das experiências.
É uma propriedade de todas as coisas que nascem o facto de, enquanto são tenras, se poderem facilmente dobrar e formar, mas, uma vez endurecidas, já não obedecem. [...] no homem cujo cérebro (é semelhante à cera, recebendo as imagens das coisas que lhe são transmitidas pelos sentidos), na idade infantil, é inteiramente úmido e mole e apto a receber todas as figuras que se lhe apresentam; mas depois, pouco a pouco, seca e endurece, de tal modo que nele mais dificilmente se imprimem ou esculpem as coisas [...] (COMÉNIO, 1996, p. 129).
A criança pode ser compreendida, então, como um ser natural que ainda não foi corrompido pelas mazelas mundanas e apenas possuidora de marcas interiores inscritas por Deus, ou seja, a infância tem em potência a capacidade de se desenvolver, pois o homem pode ser compreendido como “a mais alta e perfeita entre todas as criaturas do universo, aquele que possui por natureza “as sementes da ciência, da moral e da piedade”. No homem está tudo, “a lâmpada, o lume, o óleo e o pavio”; trata-se apenas de soltar a faísca [...]” (CAMBI, 1999, p. 287).
Portanto, para Comenius, a infância é um período importante da vida humana, porque a partir dela podemos alterar o caminho e construir a história da humanidade de forma a desenvolver e ensinar aos indivíduos, ainda incorruptíveis, valores e hábitos retos para que sejam cultivados por toda a existência do homem, buscando a construção de uma sociedade livre, justa e feliz.