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Outra filosofia passível de análise, em busca de compreendermos como a criança, ou o seu entendimento, foi trilhando espaços dentro da sociedade, é a de São Tomás de Aquino (1221-1274). Para buscarmos entender como ele via a infância, é preciso que nos aproximemos de sua história e do que entendia sobre o homem e sua educação, já que não desenvolve um estudo propriamente sobre os infantes.

Tomás de Aquino nasceu em Roccaseca, filho de um conde chamado Landolfo. De acordo com Reale (1990a p. 553), a educação primária do filósofo foi realizada na abadia de Monte Cassino, escolhida pela família, a fim de que ele pudesse continuar com a honra do sobrenome da família, mas logo a abadia entrou em decadência e, por esse motivo, Tomás de Aquino transferiu-se para Nápoles onde prosseguiu com os estudos na universidade. E foi nesse período que se aproximou e ingressou na ordem dos dominicanos, mesmo com a oposição de sua família, que objetivava outros caminhos para o filho, mas ele foi firme em sua escolha.

Aproximado os vinte anos, Tomás realizou seu noviciado10 e estudos em Paris, onde conheceu seu mestre Alberto Magno. De acordo com Reale (1990a p. 553), após uma indicação do seu mestre e mestre-geral da ordem dos dominicanos e catedrático da universidade de Paris, para que Tomás de Aquino ocupasse um lugar de bacharel, aos 27 anos, tornou-se professor universitário dedicando sua vida inteira ao ensino de Teologia. Lecionou em Paris de 1252 a 1256 e, mais tarde, ocupou uma cátedra, de 1256 a 1259. Depois desse período, como era de costume da ordem na qual estava participando, o filósofo passou por um período de peregrinação e visita às maiores universidades da Europa. Aos cinqüenta e três anos, em 1274, ele morre a caminho de Lyon, onde iria participar do Concílio de Lyon, ordenado pelo papa Gregório X.

A filosofia tomista se desenvolve no cume da filosofia escolástica11, estabelecendo um meio termo entre a fé e a razão, ou seja, distingue o papel da teologia e da filosofia, mas não as separa, pois compreende que as duas podem trabalhar com o mesmo objeto, o que as diferencia é o ponto de onde cada uma vai olhar a verdade. Os estudos filosóficos terão como ponto de partida para análise a razão natural, já a teologia partirá da razão divina.

10Aprendizagem a que se submetem certas pessoas que entram numa ordem religiosa; duração dessa aprendizagem; parte do convento destinada aos noviços.

11 Ciência filosófica-teológica cultivada nas escolas da Idade Média. É uma filosofia cristã a serviço da teologia. (Resende, 1988, p.83).

A antropologia filosófica tomista, inspirada nos princípios do racionalismo e do naturalismo aristotélicos, concebe o homem em sua totalidade, em uma união intrínseca de espírito e matéria. Essa visão de homem está respaldada também na crença teológica de Tomás de Aquino, em que “[...] afirma o homem em sua totalidade (espiritual, sim, mas de um espírito integrado à matéria) e está em sintonia com uma teologia [...] que, precisamente para afirmar a dignidade de Deus criador, afirma a dignidade do homem e da criação como um todo: material e espiritual [...]” (LAUAND 2004, p.6).

No que toca à educação, em Tomás de Aquino, o homem é impregnado de inteligência com alto poder de abstração, assim, o conhecimento se dá de forma dedutiva, na medida em que Deus dotou a alma do homem de luz intelectual por meio da iluminação divina. Esse conhecimento, fornecido ao homem por Deus, está na mente humana como potência, podendo tornar-se ato, “trata-se de um eduzir o conhecimento em ato a partir da potência” (LAUAND 2004, p.21). Esses conhecimentos universais inscritos em nós “são como sementes de todos os conhecimentos posteriores” (TOMÁS DE AQUINO, 2004, p. 34-35).

Ensinar é, pois, uma edução do ato; uma condução da potência ao ato que só o próprio aluno pode fazer. Tomás esta distante de qualquer concepção de ensino como transmissão mecânica; o professor, tudo o que faz é en-signar

(insegnire), apresentar sinais para que o aluno possa por si fazer a edução do ato de conhecimento, no sentido da sugestiva acumulação semântica que se preservou no castelhano: enseñar (ensinar/mostrar): o mestre mostra

(LAUAND 2004, p.21).

Cabe ressaltar, ainda, que o conceito de alma, desta que Deus dotou de luz intelectual, desenvolvido por Tomás de Aquino, está intimamente relacionado aos conceitos de Aristóteles de ato e potência, visto que, em suas análises sobre o ser vivo, o filósofo medieval apodera-se desses conceitos, os quais serão denominados por ele como: matéria e forma. A filosofia aristotélica concebia a potência como possibilidade de vir a ser ato, já o que se refere ao ato é o que propriamente o ser é. Para Tomás de Aquino, a matéria, ou matéria-prima de que as coisas são feitas, é igualmente a potência, ou seja, uma potencialidade que vai se aprimorando e atualizando até receber sua forma substancial, a qual dará ao ente, juntamente com a matéria, a constituição do sujeito.

Aristóteles contenta-se com descrevê-los: potencia é a possibilidade, a potencialidade de vir a ser ato. E o ser-em-ato é aquele que propriamente é, enquanto o ser-em-potência pode vir a ser ato. [...] Tomás, seguindo Aristóteles, aplica o binômio ato-potência, sob a formulação matéria-forma. [...] matéria ou matéria-prima deve ser entendida simplesmente como potencialidade, como pura possibilidade de ser ente físico. Uma potência que

se vê realizada (atualizada) pela união com o ato que é a forma (substancial) [...] (LAUAND 2004, p.10-11, grifo do autor).

Em busca dessa forma substancial, e considerando que o homem é imbuído de inteligência com forte poder de abstração, a educação se dá a partir do conhecimento das potências e a elevação destas ao conhecimento do ato. Mas não se trata, na filosofia tomista, de uma educação como temos hoje, mas uma edução, que seria deduzir, extrair do aluno, visto que ela é uma “condução da potência ao ato que só o próprio aluno pode fazer” [...]

(LAUAND, 2004, p. 21).

[...] o professor, portanto, estimula o intelecto a conhecer aquelas coisas que ensina como um motor essencial, que faz surgir o ato da potência; [...] Daí decorre o fato de que qualquer coisa que é conhecida com certeza depende da luz interior da razão posta em nós por Deus, com a qual Deus fala em nós, e não de um homem que fala exteriormente [...] (TOMÁS DE AQUINO, 2004, p.37).

A partir da concepção inatista de educação acreditada por Tomás de Aquino, outra questão se apresenta, ou seja, para quem esse projeto educativo era pensado, visto que, no período medieval, a mulher, a criança e também o jovem eram marginalizados. Contudo, no contexto da Baixa Idade Média, em que se insere a filosofia tomista, a criança é concebida como um homem em miniatura, nesse sentido, trata-se apenas de uma aparência física semelhante, ou seja, tratada como adulto sem impetrar maiores cuidados, representando um papel social mínimo, ilusório, muitas vezes, até comparados aos animais. Segundo Cambi (1999), “as crianças na Idade Média têm um papel social mínimo, sendo muitas vezes consideradas no mesmo nível que os animais [...], mas não na sua especificidade psicológica e física, a tal ponto que são geralmente representadas como “pequenos homens”, tanto na vestimenta quanto na participação da vida social [...] (CAMBI, 1999, p.176).

O que Cambi (1999) nos mostra, sobre essa visão reservada à criança no período medieval, é o que o estudo de Ariès (1981), História Social da Criança e da Família, nos apresenta, salientando, ainda, que o sentimento de infância nesse período não existia,

[...] o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia. Por essa razão, assim que a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante de sua mãe ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes (ARIÈS, 1981, p.99).

Sobre a educação dessas crianças, era num primeiro momento função da família. Esta ensinava algum oficio e suas técnicas, depois, eram direcionadas às oficinas ou ainda à Igreja. Segundo Ariès (1981), o sentimento medieval sobre a infância não está desconectado do sentimento que apresentavam e de como se constituía a família, ou seja, não podemos compará-la com a que temos hoje. A família dessa época, de acordo com as observações de Ariès, era pouco estruturada, não era um núcleo fechado com pai, mãe e filhos, ela se estendia para a sociedade em seu todo, o que possibilitava o convívio das crianças com os mais velhos sem muitas restrições, assim, as crianças se vestiam como os adultos e se misturavam às suas tarefas. Até mesmo alguns aspectos relativos à brincadeira e aos brinquedos eram compartilhados entre as crianças e os adultos.

Na Idade Média, no início dos tempos modernos, e por muito tempo ainda nas classes populares, as crianças misturavam-se com os adultos assim que eram consideradas capazes de dispensar a ajuda das mães ou das amas, poucos anos depois de um desmame tardio – ou seja, aproximadamente, aos sete anos de idade. A partir desse momento, ingressavam imediatamente na grande comunidade dos adultos, participando com seus amigos jovens e velhos dos trabalhos e dos jogos de todos os dias. [...] A família cumpria uma função – assegurava a transmissão da vida, dos bens e dos nomes – mas não penetrava muito longe na sensibilidade. [...] Podemos imaginar a família moderna sem amor, mas a preocupação com a criança e a necessidade de sua presença estão enraizadas nela. A civilização medieval havia esquecido a

paidéia dos antigos, e ainda ignorava a educação dos modernos. [...] Essa preocupação não era conhecida da civilização medieval, pois para essa sociedade não havia problemas: assim que era desmamada, ou pouco depois, a criança tornava-se a companheira natural do homem. As classes de idade do neolítico, a paidéia helenística, pressupunham uma diferença e uma passagem entre o mundo das crianças e o dos adultos, uma passagem que era realizada por meio da iniciação ou de uma educação. A civilização medieval não percebeu essa diferença, e, portanto, não possuiu essa noção de passagem (ARIÈS, 1981, p. 193-194).

Portanto, é nesse contexto que Ariès nos apresenta, que a criança do período medieval se desenvolveu, e também no qual a filosofia de São Tomás de Aquino foi elaborada. A forma, ou o modo de se relacionar com as crianças nesse período esclarece o entendimento que a filosofia tomista nos apresenta nas entrelinhas dos seus escritos. Assim, a criança aqui é vista como um vir a ser, uma potência que, a partir da educação, buscará no seu interior, onde está à forma substancial das coisas, a substância do sujeito.