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2.0 Introduction

2.1.10 Barriers to the Utilization of Adolescent Reproductive Health Services

Erasmo nasceu em 1469, na cidade de Roterdã, Holanda. Cresceu rodeado por uma cultura religiosa fortemente católica. Sua educação também de cunho religiosa se deu nas escolas secundaristas dos Frades Franciscanos e depois na ordem dos agostinianos. Com 47 anos, abandonou o celibato, e, em 1536, morreu na cidade de Basileia na Suíça.

A filosofia de Erasmo emerge em um momento histórico em que ocorria na Europa o movimento conhecido como Renascimento. Esse movimento se projeta sobre fortes mudanças sociais, econômicas, políticas, culturais e também filosóficas, pois com o desenvolvimento ainda do humanismo, que exalta o homem e sua capacidade de fazer e agir, o que o tornava empreendedor e ativo, é direcionado um novo lugar para o homem no universo. Os humanistas entendiam o homem como ser criativo e ágil, caracterizando-o numa nova forma de vida, em que ocupava um papel central dentro da cultura moderna, renovando sua dimensão racional.

Somado a esse importante contexto em que a filosofia de Erasmo se configura, está sua relevante defesa pela iniciação da educação e pelo cuidado com as crianças. Assim, a fim de compreender como a concepção de infância trilhou seu caminho na modernidade, buscamos na obra: De Pueris – A Civilidade Pueril, de Erasmo, uma explicação sobre essa concepção, visto que, nesta obra, ele retrata sua visão de mundo, de educação, de homem e também de infância.

Segundo Erasmo, a criança deve ser vista a partir de suas individualidades, as quais refletem sua natureza que pode ser dócil e violenta. E é pela educação que o homem se humaniza, visto que ele não nasce completo, mas com uma natureza racional que deve ser desenvolvida, e é pelo processo educativo que essas potencialidades são atualizadas no indivíduo. Por esse motivo, a educação tem valor capital na filosofia desse autor, pois ela é condição para a humanização do homem.

Essa natureza humana, para a qual Erasmo chama nossa atenção, é, segundo ele, composta por três etapas, uma de natureza individual, outra da natureza da espécie e uma última de natureza educativa. A primeira etapa da natureza do homem é marcada pela docilidade, que é totalmente aberta ao processo educativo e de civilização, e pela violência que resiste à educação e à imposição dos valores sociais. Portanto, a natureza do indivíduo

está voltada tanto para os desejos e prazeres imediatos, quanto para o processo de humanização.

Para Erasmo, enquanto esses instintos da natureza individual não estiverem disciplinados, a criança viverá presa a esses impulsos bestiais, e não participará do processo de civilização, que caracteriza a natureza da espécie, que é um conjunto de ações próprias da espécie humana, ou seja, a natureza que é comum a toda espécie é, segundo Erasmo, o que aproxima os homens e os diferencia dos outros animais. Assim, a terceira dimensão, que é a educação, mediadora das duas primeiras, deve se valer do ideal de buscar desenvolver o intelecto humano, pois, sem a inteligência, as pessoas ficam escravas de opiniões e ideologias que não permitem a humanização do homem.

Especificamente no período da infância, tais opiniões estão acentuadas, pois não atuam ainda a partir de pensamentos lógicos e racionais, portanto, isso marca o que Erasmo chama de negatividade do período infantil, e apenas a educação, nesse período, pode alterar o estado de bestialidade. Segundo Erasmo, a educação já se inicia no ventre materno, pois as crianças devem aprender as lições básicas o mais cedo possível, pois é nessa fase que elas estão mais maleáveis para receberem as molduras que definem sua humanidade.

[...] não te amoldes à opinião e ao exemplo muito em voga, deixando decorrerem os primeiros anos do teu filho sem tirar proveito algum da instrução. Faze-o aprender as primeiras noções antes que a idade fique menos dúctil e o animo mais propenso aos defeitos ou até mesmo infestado com as raízes de vícios tenacíssimos (ERASMO, s/d, p. 21).

A concepção de infância, que podemos abstrair da filosofia de Erasmo, é de um ser que se encontra num estado de vir-a-ser, ou seja, a criança tem, no seu interior, uma potencialidade racional e, portanto, deve ser bem educada pelos pais e pelos preceptores, buscando a emancipação do indivíduo da condição primitiva em que ele nasceu, pois a criança nasce incompleta e inacabada. A infância, na filosofia erasmiana, é um período profícuo para receber a educação, pois ainda não desenvolveu suas concepções, suas crenças, seus valores e seus hábitos.

A natureza, quando te dá um filho, ela não te outorga nada além de uma massa informe. A ti cabe o dever de moldar até a perfeição, em todos os detalhes, aquela matéria flexível e maleável. Se não levares a cabo a tarefa terás uma fera. Ao contrário, se lhe deres a assistência, terás, diria eu, uma divindade. [...] Manuseia a cera enquanto mole. Modele a argila enquanto úmida. Enche o vaso de bons licores enquanto novo. Tinge a lã quando sai nívea do pisoeiro e ainda isenta de manchas (ERASMOS, s/d, p. 33).

Considerando a citação acima, vemos a importância e a responsabilidade que Erasmo atribui ao papel dos pais na educação dos filhos, ao contrário do período medieval em que as crianças, depois do período de amamentação, deveriam se afastar dos pais para que não fossem influenciadas por maus hábitos e costumes, aqui, eles devem assumir um compromisso com a instrução dos filhos. Primeiro, devem ser exemplo de boas condutas, pois, nessa fase, a criança aprende muito a partir da imitação. Segundo, devem proceder com atenção na escolha de um preceptor para seu filho. Segundo Erasmo (s/d), este deveria ser “um homem de bons costumes e de caráter meigo, dotados de conhecimentos invulgares” (ERASMO, s/d, p. 22).

Portanto, Erasmo foi um defensor da criança e de sua educação, pois acreditava ser nesse momento que se constituiriam as bases do caráter do homem social, desenvolvendo sua predisposição para o trabalho e também para a educação. Fiel à concepção humanista de homem, ele defende também um ideal de homem que preze pelo desenvolvimento racional, que se desgarre dos dogmas e crenças da igreja, que deixa o homem cego para mudanças. Esse homem, segundo Erasmo, só se constituirá mediante de uma boa educação.

Essa ideia erasmiana de que o homem é um animal e nasce com instintos bestiais, é resolvida pela educação, sobre a qual ele busca fazer-se homem por meio da busca por sua humanidade que se dá pela racionalização e pelo processo de civilização do homem. Essa forma de conceber o homem nos apresenta o que ele sinaliza para a infância, que é a educação que deverá instituir o adulto na criança, tirando essa do seu estado natural, movida pelas bestialidades da infância, e levada a um ser com capacidades racionais, educado e ainda cumpridor das regras que regem uma sociedade civilizada. Esse processo educativo, quando tem falhas, leva o homem adulto a viver mais na bestialidade do que no estado racional.

[...] a natureza [...] gera o ser humano flácido, nu e indefeso. [...] dota-o de mente capaz de aprender, incluindo tudo nesse único arsenal, posto que seja exercitado. Por outro lado, na medida em que o animal é menos suscetível de aprendizado, mais provido está pelos instintos. [...] Ao contrário, o homem não come, não anda, nem trabalha a não ser quando ensinado. [...] o ser humano, sem meticulosa aprendizagem que lhe advém dos moldes instrucionais, não passa de um animal inútil (ERASMO, s/d, p. 26).

Conforme Erasmo, é preciso, ainda, respeitar a individualidade do aluno e também abolir os castigos físicos que, até o momento, eram recorrentes. Sob esse aspecto, Erasmo (s/d) comenta que

[...] nada mais contraproducente que habituá-la aos flagelos. Essa enormidade transmuda a índole mais dócil em rebeldia e reduz os desanimados ao desespero. A assiduidade de castigos debilita o corpo enquanto a mente fica insensível à força da palavra. [...] Nossa vara não exceda a admoestação civilizada. Vez por outra, uma correção, porém temperada pela mansuetude e nunca pela cólera [...] (ERASMO, s/d, p. 79).

Portanto, diferente dos filósofos estudados até aqui, que tratavam sobre a infância, formulavam reflexões, mas não a colocavam como centro das discussões, Erasmo apresenta concepções de infância como um tema problematizado por ele para buscar uma sociedade civilizada, e a infância seria o primeiro passo para atingir seus objetivos.