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Reagindo contra os pressupostos estruturalistas, os defensores das teses monetaristas afirmavam que a inflação teria origem monetária (daí o nome conferido a essa vertente). As causas da inflação brasileira seriam, portanto, as mesmas que alavancavam a inflação em qualquer outro lugar: A expansão da moeda, as políticas emissionistas e expansionistas e o elevado déficit público aumentavam a demanda em um ritmo mais rápido que a produção, tornando inevitável o aumento dos preços. Não haveria nada de novo ou peculiar na inflação latino-americana que a tornasse diferente das demais. Como em todos os outros lugares, seria necessária uma política de austeridade fiscal, sem a qual seria impossível resolver o problema.

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GRÁFICO 5: O Modelo Monetarista

Fonte: FRANCO, Gustavo. Políticas de Estabilização no Brasil: Algumas lições do Plano Cruzado.In: Revista

de Economia Política, v.8, n:2, abr/jun de 1988, p. 136

A política de estabilização ortodoxa tradicional (quando não combinada com uma política de rendas) consiste em buscar um desaquecimento econômico global (recessão) que leve a economia do ponto A para o ponto B: um processo que os próprios monetaristas reconhecem ser muito doloroso socialmente. Principalmente, quando a inflação inicial é muito elevada. O grande problema é que para os monetaristas, a estabilização econômica requer sacrifícios. "There is no such a thing as a free lunch" ( Não existe almoço grátis ) costumam dizer os monetaristas e ortodoxos, revelando total descrença no poder estabilizante de uma política econômica expansionista.

Já a política heterodoxa tradicional tende a ser menos custosa socialmente e se concentra "em deslocar o trade-off para baixo, trazendo a economia instantaneamente para o ponto D. Note-se que, na transição da inflação para a estabilidade de preços, é provável que algumas influências expansionistas se façam presentes. (FRANCO, 1988, p. 136).

O termo monetarismo está, portanto, profundamente ligado à idéia de que a inflação é causada por um excesso de dinheiro em circulação em relação ao produto da economia. Segundo os monetaristas, os índices de preços dependem dos índices de produção física, da velocidade-renda da moeda e do estoque nominal de moeda. Milton Friedman, um dos ícones da tendência em questão, entendia que os movimentos do índice geral de preços refletiriam unicamente os movimentos do estoque nominal de moeda, determinados pela política econômica. Dessa forma, podemos dizer que:

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Os programas ortodoxos baseiam-se no diagnóstico monetarista da inflação. Déficits orçamentários e rápido crescimento da moeda conduzem inevitavelmente a um excesso de demanda que se expressa em inflação e em déficits em conta corrente. Se fixada a taxa de câmbio, a inflação promove uma sobrevalorização,o que agrava ainda mais os déficits de conta corrente. O mais antigo remédio ortodoxo para a crise de BP e inflação consiste de dois ingredientes principais: uma desvalorização (ou corte nos salários reais) e um corte no déficit orçamentário. Esses remédios fazem tradicionalmente parte dos programas do FMI. (CARDOSO, 1989, p. 33).

Os Planos desenvolvimentistas do governo, ao exaurirem os recursos do Estado, representavam gastos excessivos em relação à capacidade de tributação e endividamento do Tesouro Nacional. Seriam então expandidos os meios de pagamento para cobrir esses gastos. Como não haveria aumentos equivalentes no produto real ou na velocidade com que a moeda circula, os preços subiriam.

Os monetaristas tendem a concordar com os preceitos da chamada Curva de Phillips, que grande poder persuasivo possui para explicar o fenômeno inflacionário. Para melhor compreendermos a curva de Phillips, observemos o gráfico a seguir:

GRÁFICO 6: A Curva de Phillips

Fonte: CURADO, Marcelo Luiz; NEDUZIAK, Luiz Carlos Ribeiro; SILVA, Rodrigo Cardoso de Lima e. A

Curva de Phillips e sua Aplicação na Economia Contemporânea. Disponível em: < http://www.pet-

economia.ufpr.br/banco_de_arquivos/00002_Rodrigo_cl_lima_e_silva_-_curva_de_philips_e_aplicacao.pdf> Acesso em 03/12/11.

Segundo Phillips, haveria relação inversamente proporcional entre os indicadores de inflação e os de desemprego. Mais pessoas empregadas significam maior número de

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consumidores e maior demanda. Como a produção dificilmente conseguiria acompanhar as oscilações da curva de demanda, os preços tenderiam a subir de acordo com as leis mercadológicas elementares. A principal crença do monetarismo é de que qualquer alteração na demanda agregada que o governo consiga provocar acabará redundando em preços mais altos e não em aumento da produção. (CARDOSO, 1989, p. 25).

O controle da demanda seria, portanto, fundamental para a consolidação de qualquer projeto de estabilização. Seria pura falácia populista e esquerdista afirmar a possibilidade de controle inflacionário com crescimento econômico. A estabilização demandaria necessariamente enxugamento das funções do Estado, corte de gastos, enfim, apertar os cintos como usualmente dizemos. Um aspecto muito importante e pouco observado na curva de Phillips é o de que ela trazia implícita uma ética de grande apelo ao senso comum:

"A inflação era produto de excessos (fiscais, monetários ou salariais) e para combatê-la seria preciso incorrer em sacrifícios, expiar os pecados , ou apertar os cintos . A inevitabilidade deste sofrimento aparecia como algo quase religioso ou moral, que bem se ajustava à ética mais mundana do mundo de negócios anglo- saxão (FRANCO, 1988, p. 133).

O remédio seria, portanto amargo. Mas, a estabilização monetária para a vertente monetarista seria algo mais importante para o conjunto da economia. Em seu nome, o preço valeria a pena de ser pago. Seria legítimo e compensatório sacrificar o crescimento econômico no altar da estabilidade. Até porque, no médio prazo os próprios assalariados seriam os maiores beneficiados com o controle inflacionário, já que não veriam mais seu poder de compra destruído com o simples passar dos dias e semanas.

Historicamente, a América Latina foi palco de inúmeras intervenções macroeconômicas de corte ortodoxo:

Chile (1956-58, 1973-78), Argentina (1959-1962, 1974-1978), Bolívia (1956), Peru (1959, 1975-1978), Uruguai (1959-1962, 1974-1978), México (1983), Brasil (1982- 1983). [...] Os resultados foram considerados pavorosos. Reduções temporárias da inflação e dos déficits externos combinaram-se com grandes aumentos no desemprego e uma redução da participação do trabalho na produção. (Cardoso, 1989, pg. 34).

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A experiência brasileira de meados dos anos 1960 é considerada por muitos como um exemplo bem sucedido de um programa de estabilização ortodoxo. O PAEG Porém não pode ser rotulado automaticamente como um programa ortodoxo, já que lançou mão de políticas de renda também. Os dispêndios públicos foram reduzidos, os impostos aumentados e os salários reais rebaixados. A inflação foi controlada (ficou em torno de 20% ao ano) e foram lançadas as bases para a expansão econômica posterior. Lembremos, porém que os custos não foram menores para o grupo que pagou a conta. A queda dos salários reais com graves efeitos de renda só foi possível graças a uma repressão política em larga escala . (CARDOSO, 1989, p. 34).

Ambos os modelos, portanto são traduções teóricas de um esforço coletivo de tentar pensar a inflação latino-americana e brasileira, explicar sua funcionalidade e os meios de derrotá-la. Ambos possuem virtudes importantes na reflexão sobre o problema, tendo contribuído direta ou indiretamente para os programas de combate à inflação bem sucedidos dos anos 1990. Tomados isoladamente e rigidamente, porém, ambos tendem a fazer leituras carregadas de fortes doses de unilateralismo e seriam inadequados para explicar a complexidade dos problemas econômicos latino-americanos30.

30 O modelo monetarista é inapropriado para a economia brasileira porque deixa de tomar em consideração os

déficits fiscais não financiados por expansão monetária. Ele prediz que o imposto inflacionário guia o sistema. [...] Mas, a experiência brasileira tem de ser interpretada à luz da realidade institucional dos mercados financeiros e de uma crescente dívida externa. Por outro lado, os inercialistas deixam de lado a análise das variáveis fundamentais na determinação da inflação. [...] Na formulação do Plano Cruzado, os economistas enfatizaram a inércia como o fator mais importante da inflação. Escolheram, portanto, um tratamento de choque centrado no congelamento de preços e se esqueceram de prestar atenção à restrição orçamentária. (CARDOSO, 1988, p. 5).

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