Herdeiros do Modelo Econômico Nacional Desenvolvimentista e do pensamento da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), os estruturalistas entendiam que a inflação era uma questão distributiva em que grupos sociais mais poderosos se apropriavam da renda criada pelo desenvolvimento. Ao contrário dos monetaristas, os estruturalistas tinham posturas bem mais tolerantes em relação à existência de um certo nível de inflação. Reconhecia-se inclusive, sua funcionalidade (da inflação) como parte inerente ao crescimento econômico e ao desenvolvimento urbano industrial.
Os estruturalistas ligados à CEPAL, não podendo ser chamados de inflacionistas, tinham, de qualquer modo, posturas bem mais condescendentes no tocante à inflação. Esta era vista como funcional, tanto para prover recursos financeiros para que o Estado apoiasse o esforço de industrialização quanto para facilitar os movimentos de preços relativos próprios ao processo de desenvolvimento, sem pressões baixistas sobre os preços absolutos dos bens existentes. (CARVALHO, 1990, p. 62).
Raul Prebisch, um dos grandes nomes da corrente, em texto clássico afirmava que na falta de transformações estruturais,
[...] a espiral inflacionária costuma ser o caminho mais rápido [...] para resolver os problemas do desenvolvimento, ainda que seja um processo [...] socialmente custoso e regressivo de elevar o coeficiente de poupança. Dessa forma, apenas com o desenvolvimento regular e intenso da economia, poder-se-á opor o máximo de resistência contra essas forças inflacionárias e sustentar sobre bases sólidas a política de estabilidade monetária, como parte integrante da política de desenvolvimento econômico. (PREBISCH, 1964, p. 173).
Não haveria, portanto, necessidade de medidas contracionistas nas esferas monetária e fiscal para controlar a inflação. Esse era um dos elementos centrais das propostas heterodoxas de combate à alta de preços. A noção de política econômica heterodoxa foi adotada num trabalho clássico de Francisco Lopes para quem, não haveria uma ligação concreta entre desequilíbrio fiscal, indisciplina monetária e inflação. A inflação na América Latina assumia características peculiares. Suas causas estruturais seriam bem distintas do que era verificado em outras realidades. Na América Latina, dizia-se, a inflação seria "essencialmente inercial,
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isto é, os preços sobem hoje porque subiram ontem, de acordo com o mecanismo perverso de catraca da economia indexada" (VILELA et al, 2005, p. 269). Dessa forma, podemos dizer que a teoria da inflação inercial é uma teoria neo-estruturalista da inflação . Ela sustenta basicamente que as expectativas inflacionárias baseiam-se essencialmente na inflação passada. (...) Se a inflação estiver, por exemplo, num nível de 10% ao mês, cada agente econômico elevará seus preços 10% ao mês. (BRESSER, 1988, p. 51).
Para os estruturalistas, os efeitos negativos dos sucessivos aumentos criavam um mecanismo perverso: a chamada memória inflacionária . O efeito cascata dos aumentos perpetuava a espiral inflacionária, ainda que as condições objetivas da economia não traduzissem a necessidade de aumentos tão constantes e perenes. As expectativas sobre os aumentos de preços criavam às vezes artificialmente a necessidade dos aumentos, transformando o problema numa grande bola de neve de desastrosas conseqüências. A indexação da economia fazia o resto do serviço, tornando a inércia inflacionária um problema central a ser enfrentado, conforme os estruturalistas. A fórmula do estádio de futebol, originalmente associada a Tobin e abrasileirada por Edmar Bacha expressa bem o problema: Quando estamos num estádio de futebol e:
[...] alguém se levanta para ver melhor, os que estão atrás são forçados a se levantar e assim se estabelece um equilíbrio não cooperativo que tende a se perpetuar, a menos que algum mecanismo de coordenação ad hoc seja criado para induzir a ação coletiva na direção de um equilíbrio onde todos estejam melhores. [...] Em termos econômicos, portanto, para passar de um equilíbrio a outro, é necessária alguma política de rendas. [...] Como a coletividade atinge um nível superior de utilidade no novo equilíbrio, há ganhos líquidos a serem repartidos e não há porque imaginar que algum sacrifício necessariamente tenha de ser incorrido individual ou coletivamente. (FRANCO, 1988, p. 133).
Dessa forma, ao contrário do que pensavam os ortodoxos, para os estruturalistas a expansão da oferta de moeda era mais uma conseqüência do que uma causa da inflação. Assim, o controle do déficit público não seria essencial para controlar a inflação. Não haveria necessariamente o imperativo categórico de sacrifícios coletivos para estabilizar a economia.
O estruturalismo, sustenta que os déficits orçamentários simplesmente não importam. As causas da inflação estão nas faltas de oferta, nos pontos de estrangulamento e nas reivindicações discrepantes dos diferentes grupos da sociedade [...]. Para os estruturalistas, uma política de renda é a resposta para conter a inflação. (CARDOSO, 1989, p.23)
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Em alguns casos o aumento do déficit seria inclusive um fator antiinflacionário. Isso ocorre porque os estruturalistas latino-americanos alegam que os diferentes setores da economia se desenvolvem a velocidades diferentes, dando origem aos chamados pontos de estrangulamento . Na presença de situações de rigidez para baixo dos preços em alguns setores, esses pontos de estrangulamento originam:
[...] impulsos inflacionários que não podem ser corrigidos com apertos monetários (...). Os estruturalistas preconizam então o abastecimento em áreas em que os pontos de estrangulamento deverão aparecer, mesmo que o investimento só possa ser financiado com a criação de moeda. (CARDOSO, 1989, p. 30).
Portanto, os estruturalistas cometiam o que para os monetaristas, seria uma verdadeira heresia macroeconômica. Os herdeiros do pensamento da Cepal insistiam que o déficit público nem sempre é fator inflacionário e pode, ao contrário, ser fator decisivo num processo de recuperação econômica, ao impulsionar investimentos e mercados. Para os estruturalistas, o déficit só pode ter efeito inflacionário:
[...] numa economia que esteja funcionando a plena capacidade. Neste caso, ele pode significar excesso de demanda sobre a capacidade de oferta do sistema produtivo, pressionando os preços para cima. No entanto, numa economia operando com capacidade ociosa, o déficit não representa excesso de demanda sobre a capacidade produtiva. Ao contrário, existe capacidade produtiva superior à demanda, isto é, a capacidade de oferta supera o poder aquisitivo do mercado. (SOUZA, 2008 p. 169).
A raiz do problema, portanto, não estaria no excesso de demanda, mas na insuficiência da oferta para o mercado interno, na estrutura produtiva e tecnológica rudimentar, na dependência externa (que drenava recursos para o exterior) e nas imensas desigualdades sociais da região. Os sérios conflitos distributivos29 tornavam a inflação a América Latina um problema possível de ser solucionado somente com o desenvolvimento da região. Percebe-se neste momento, claramente a influência do pensamento da CEPAL permeando os pressupostos da escola estruturalista.
29 Os estruturalistas também apontam discrepâncias distributivas um conjunto de aspirações pela renda real
que não podem todas ser satisfeitas simultaneamente a partir da produção real da economia- como uma fonte de inflação. (CARDOSO, 1989, p. 31).
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Daí porque ser importante para o projeto heterodoxo, a União controlar preços, salários e câmbio. Estavam lançadas as bases das chamadas políticas de renda que fariam tantos adeptos, especialmente no seio da esquerda latino-americana. A própria idéia de que seria possível controlar a inflação, não com austeridade, desemprego e recessão, mas com desenvolvimento e crescimento fortalecerá a proposta estruturalista entre os governantes
populistas ou carentes de legitimidade política na América Latina.
Como vimos, a atmosfera ideológica do momento da redemocratização brasileira e as bases políticas e simbólicas frágeis do governo Sarney tornariam difícil uma política de cunho "ortodoxo", que impõe grandes sacrifícios e privações a uma parcela importante da população. O diagnóstico estruturalista propunha medidas menos impopulares e portanto, ganhava adeptos no seio da nova administração.