2 Theoretical framework
2.7 The transition from student teacher to teacher
Devido à singularidade do estilo brasileiro de jogar fute- bol, este esporte se tornou um elemento de identidade nacional. Conforme defendido por Édison Gastaldo (2012), o futebol seria um dos principais meios de construção da memória social e afetiva relacionada ao sentimento de nação para a sociedade brasileira, o que se confirma a cada participação da seleção do país em uma Copa do Mundo.
É o que acontece no caso das vinhetas sugeridas para análise neste trabalho. Embora cada filme escolhido convide o público a acompanhar os jogos da Copa do Mundo de 2014
através da emissora na qual o evento é televisionado, todos eles utilizam elementos característicos do futebol brasileiro (a ginga, o drible, o improviso, a malícia, a festa) bem como da cultura do país, tentando persuadir o telespectador a escolher determinado canal televisivo para assistir às partidas ou se informar sobre o Mundial. Torna-se notório, nestes filmes, a maneira como o discurso publicitário tem atuado como ferra- menta importante na perpetuação da ideia do “futebol-arte” praticado pelos brasileiros, embora a própria academia refute esta classificação, preferindo considerá-la como uma narrativa intensificada pelos veículos de comunicação e assimilada pela sociedade.
Ao lado da ideia da ginga e do drible, chama a atenção também o fato de que, nas vinhetas de Globo e Band, pratica- mente inexistirem jogadas tramadas coletivamente, em que a articulação tática e o desempenho grupal pudessem fazer sentido na obtenção dos objetivos traçados. Tal noção faz coro ao slogan escolhido pelos internautas no site da Fifa (após um leque pouco feliz de três opções aprovadas pelos responsáveis pela organização do futebol brasileiro) para decorar o ônibus que iria transportar a seleção nacional durante a Copa de 2014. Ao contrário de nossos vizinhos latino-americanos, que prefe- riram evocar os conceitos de união pela pátria e de comunhão com o povo, a frase brasileira ignorava a noção de coletividade, estabelecendo uma distância continental entre equipe e torce- dores por meio de uma exortação egoísta e presunçosa. Não é à toa, igualmente, que o afastamento de Neymar – nosso jogador mais virtuoso e melhor exemplo atual do futebol-arte – tenha evocado em diferentes esferas uma iniciativa mimética de nos fantasiarmos todos de Neymar, a fim de buscarmos a redenção individual do craque. Isto pôde ser visto tanto nas ações de nossos jogadores às vésperas da partida contra a Alemanha como nas duas capas dos jornais aqui comentadas.
Deste modo, procuramos identificar neste artigo como o esporte consegue transmitir e influenciar características fundamentais da cultura de uma nação ao desenvolver com ela uma relação de mutualismo. É o que Marques (2000) já sugeria ao afirmar que, no futebol, teríamos a expressão simbólica de energias primitivas a partir de uma representação organizada e ritualizada por meio das regras e regulamentos do futebol. Assim, tão importante como analisar as circunstâncias daquilo que um povo joga, é analisar de que forma tal povo pratica o jogo, ou seja, de que forma se organiza a prática esportiva e quais tensões profundas são com ela descarregadas. Ou ainda: quais os aspectos e as peculiaridades de uma sociedade são mais valorizados pela própria sociedade na prática do jogo.
No caso do futebol brasileiro, temos assistido desde a década de 1930 à valorização de alguns elementos fundantes da cultura nacional (como a malandragem, o jogo de cintura, a sensualidade, a capoeira, o samba). O endeusamento do futebol -arte e o culto à individualidade do craque são duas formas de expressão desta relação construída e ratificada constantemente, em diferentes processos comunicacionais, entre a cultura bra- sileira e o futebol que se quer valorizar em nossas terras – algo que nem sempre corresponde aos exemplos concretos que vemos no dia a dia de nossos campos e estádios.
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