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3 Experiment and prototype description

3.2 The towers

O prólogo do Apocalipse já contém elementos litúrgicos. Nele, Deus é louvado como “aquele que é, que era e que há de vir” (Ap 1.4). Jesus, por sua vez, é adorado como a “testemunha fiel, o primogênito dos mortos, e o rei dos reis da terra” (Ap 1.5). Estas pequenas expressões litúrgicas já indicam o tom do livro. Nele, diferentemente das demais tradições judaicas, Deus compartilhará a adoração com outra figura. Jesus foi exaltado em status e dignidade a ponto de ser a principal figura no Apocalipse.301

A segunda parte do versículo 5, junto com o versículo 6, por sua vez, é uma doxologia,302 a primeira do livro de João,303 significativamente devotada a Jesus:

298 O papel sacerdotal dos anjos está implícito na resposta que Deus deu a Enoque para a petição dos Vigilantes

caídos, acusados de terem se contaminado com mu lheres (1En 15.2-4), como já discutido no capítulo anterior.

299 Segundo Himmelfarb, o quadro da liturgia celestial no Testamento de Levi também sugere que o céu de Levi

continha sacrifícios e hinos. Cf. HIMMELFARB, Martha. Ascent to Heaven in Jewish and Christian

Apocalypses. New York: Oxford University Press, 1993, p. 30-32.

300 Conferir uma discussão sobre essa relação na forma de background em DAVILA, James R. The Old

Testament Pseudepigrapha as Background to the New Testament. In: The Expository Times, 117/2, p. 53-57.

301 Gloer divide os hinos do Novo Testamento em “Hinos para Deus” e “Hinos para Cristo”. Cf. GLOER, W

Hulitt. Homologies and Hymns in the New Testament, p. 123.

302 PRIGENT, Pierre. O Apocalipse, p. 23; FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Revelation, p. 42.

303 Fiorenza argumenta que os versos 4-6 contem material tradicional que foi transformado em hino por João. Cf.

Tw/| avgapw/nti h`ma/j

kai. lu,santi h`ma/j evk tw/n a`martiw/n h`mw/n evn tw/| ai[mati auvtou/(

kai. evpoi,hsen h`ma/j basilei,an( i`erei/j tw/| qew/| kai. patri. auvtou/(

auvtw/| h` do,xa kai. to. kra,toj

eivj tou.j aivw/naj Îtw/n aivw,nwnÐ\ avmh,nÅ

Ao que nos ama

e libertou-nos dos pecados nossos através do seu sangue, e fez-nos reino, sacerdotes

para Deus e seu Pai a ele seja a glória e o domínio

para todos os tempos. Amém!

Esta doxologia exalta o amor de Jesus como a base de sua obra, que aqui é descrita duplamente: primeiramente, ele libertou304 os “santos” dos seus pecados através do seu sangue, o que é uma referência à sua crucificação. Em segundo lugar, ele constituiu os “santos” como um reino e como sacerdotes para Deus.

A expressão “fez-nos reino e sacerdotes” evoca, aparentemente, Êxodo 19.5-6:

Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel.305

Em Êxodo, a passagem era uma referência à peculiaridade de Israel diante das demais nações. Nesta posição, não apenas os descendentes de famílias sacerdotais seriam santificados ao Senhor, mas toda a nação. O que se esperava dos sacerdotes (santidade) seria estendido a todo o povo, e talvez o mesmo poderia ser dito dos privilégios sacerdotais, como o acesso especial a presença divina. Israel seria uma nação de sacerdotes.306

Ao evocar estas condições para os seguidores de Jesus em função de sua obra, a doxologia reivindica para eles o papel de verdadeiro e único povo de Deus. “Quem é o

304 Prigent destaca a força dos verbos. Enquanto “amar” está no particípio presente, “libertar” (que ele traduz

como “remir”) está no aoristo, o que vincula ambas as ações com o evento da crucificação de Jesus. Cf. PRIGENT, Pierre. O Apocalipse, p. 23.

305 Destaques acrescentados.

131 verdadeiro povo de Deus” é a principal questão identitária do período do segundo Templo,307

e significativamente surge já no prólogo do livro de João. Nesta doxologia, a resposta para esta pergunta está no grupo de seguidores de Jesus. Estes formam o verdadeiro povo de Deus.308 São também seus sacerdotes. Ao assumirem identidade sacerdotal, estes que estão subjacentes ao pronome h`ma/j (nos) tomam o lugar dos sacerdotes descendentes legais, principalmente porque estes não têm mais onde exercer o ofício sacerdotal após a destruição do Templo de Jerusalém. Os seguidores de Jesus, entretanto, ainda podem exercer este ofício, mesmo sem o Templo judaico. Eles não precisam de templo para serem sacerdotes, pelo menos de um que tenha sido construído por mãos humanas. Estes sacerdotes exercem seu ofício durante os cultos das igrejas.

Estas pessoas receberam nova dignidade, o que leva Fiorenza a sugerir traduções como “investiu-nos” ou “instalou-nos”.309 Eles foram investidos de um status diferenciado. Ela também destacou a maneira peculiar como a passagem de Êxodo foi evocada. Lá se fala de

~ynIßh]Ko tk,l,îm.m

; (um reino de sacerdotes). A LXX, por sua vez, também fala de basi,leion i`era,teuma (um reino sacerdotal). João, entretanto, prefere “basilei,an( i`erei/j” (reino, sacerdotes). A primeira expressão está na forma acusativa singular, mas a segunda aparece como acusativo plural, o que leva à tradução “reino, sacerdotes” ou “reino e sacerdotes”, em vez de “reino de sacerdotes” (como no texto Hebraico) ou “reino sacerdotal” como na LXX. A sugestão de Fiorenza é que este uso se deve ao recurso de João a uma versão distinta desse texto.310

De qualquer forma, na versão de João os “santos” são investidos por Jesus do reinado e do sacerdócio. Como reino de Deus, são seus servos exclusivos. Como sacerdotes desse reino, são os únicos com dignidade suficiente para lhe prestar culto. No cotidiano desses “santos”, estas expressões teriam a tendência de alimentar a perspectiva da santidade inerente às investiduras. O que se esperava de um sacerdote em termos de santidade, esperava-se de todo seguidor de Jesus.

Em função dessa obra de salvação, Jesus é adorado com a glória e o domínio para todos os tempos. O fechamento da expressão (amém) explicita o caráter de recitação da

307 NEWSOM, Carol A. The Self as Symbolic Space, p. 13; BAUMGARTEN, Albert I. Ancient Jewish

Sectarianism, p. 388; PAGELS, E. As origens de Satanás, p. 75.

308 CAIRD, G. B. A Commentary on the Revelation of St. John the Divine, p. 17. 309 FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Revelation, p. 43.

310 FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Revelation, p. 43. Prigent sugere que a versão de João é próxima de

algumas traduções gregas (Símaco e Teodocião) e aramaicas (Jub 16.18). Cf. PRIGENT, Pierre. O Apocalipse, p. 24.

doxologia. Ele demanda uma resposta de quem ouve a doxologia, quase como um responsório litúrgico, como evidenciado pela passagem de Neemias 8.6, quando o povo respondeu com um duplo “amém” à oração de louvor de Esdras. Prigent sugere que no momento desta expressão, o leitor do Apocalipse poderia dar a oportunidade para que a audiência respondesse com o amém.311