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3 Experiment and prototype description

3.7 Mooring line:

A principal seção do Apocalipse a apresentar o culto é a segunda seção, nesta pesquisa propriamente denominada de “seção do culto no céu”. Ela começa no momento em que o visionário, acessa, por qu,ra hvnew|gme,nh evn tw/| ouvranw/| (uma porta que

foi aberta no céu), o Templo celestial.323

Aune descreveu esta visão de João como “um pastiche de imagens e concepções

extraídas das tradições e ideologias da realeza israelita, das tradições da realeza helenística e da corte e cerimônia imperial romana”.324 Isso indica a forma complexa pela qual o visionário atualiza suas tradições. A principal tradição aqui contemplada, entretanto, é a do culto celestial, como já apresentada em páginas anteriores. A audiência poderia ainda encontrar nesta visão eco de passagens como Êxodo 24.9-11, Isaías 6, Ezequiel 1.26-28, Daniel 7.9-28, 1Reis 22.19-23, 1Enoque 39 e 2Enoque 20-22, entre outras.

Apesar de João ter subido ao céu com o anúncio do anjo de que lhe mostraria coisas que deveriam acontecer (a] dei/ gene,sqai meta. tau/ta), o que ele vê ao

322 AUNE, David A. Revelation 1-5, p. 316.

323 Segundo Aune, visões do trono servem para seis coisas: a) cenas de entronização; b) cenas de julgamento; c)

cenas de comissionamento; d) cenas de festas celestiais escatológicas; e) no contexto do misticismo de merkavah; f) como estratégia literária para comentar eventos da terra. A audiência de João deveria esperar um desses usos da cena da visão do trono. No relato de João, a cena que começa em Apocalipse 4.1 funcionaria de forma pouco usual como cena de julgamento. Cf. AUNE, David E. Apocalypse Renewed, p. 52.

324 AUNE, David. The Influence of Roman Imperial Court Ceremonial on the Apocalypse of John. In: Biblical

adentrar o santuário celestial é o trono de Deus, e em torno dele um grande ato litúrgico. O início da seção (os capítulos 4 e 5) se detém a descrever, num ritmo muito lento, as cenas e os atores deste culto celestial.

Em torno do trono celestial (ou mesmo do Templo celestial), João descreve elementos típicos de uma teofania da Escritura judaica (Is 6.1-4). Como na visão de Isaías, o trono de Deus é o elemento central. Tudo gira em torno dele. Ao redor do trono estão vinte e quatro tronos, nos quais se assentam vinte e quatro anciãos vestidos com roupas brancas, tendo coroas de ouro na cabeça.325 Ao redor do trono quatro criaturas denominadas de te,ssara zw/|a (Quatro Viventes).326 Independente da identificação de cada um destes personagens

celestiais, o essencial é que todos estão envolvidos em atos litúrgicos.327 Eles adoram o ancião que se assenta sobre o trono. Os Quatro Viventes, especificamente, têm como missão, sem descanso, dia e noite, expressar adoração (Ap 4.8).

Dos Quatro Viventes, João ouve: {Agioj a[gioj a[gioj

ku,rioj o` qeo.j o` pantokra,twr( o` h=n kai.

o` w'n

kai. o` evrco,menojÅ

Santo, Santo, Santo

Senhor Deus Todo-Poderoso, o que era,

o que está sendo, e o que há de vir.

O hino começa com uma expressão tríplice, originada em Isaías 6.3: “E clamavam uns

para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” No texto de Isaías, ela é uma canção entoada por Serafins, figuras parecidas

com serpentes aladas. Esta passagem foi largamente usada em textos apocalípticos para compor as cenas do santuário celestial (1En 30.12; 2En 21.1; Ap Abr 16). Os grupos judaicos

325 Prigent arrisca interpretar estas figuras como seres humanos glorificados, já que em nenhuma tradição os

anjos teriam coroas na cabeça. Já os “santos” receberam a promessa de uma coroa em Apocalipse 2.10. Cf. PRIGENT, P. O Apocalipse, p. 101. Pensa diferente Caird, para quem eles formam um conselho de anjos. Cf. CAIRD, G. B. A Commentary on the Revelation of St. John the Divine, p. 63.

326 Na figura dos Quatro Viventes, João combina os seres que sustentam o trono-carruagem de Deus de Ezequiel

1.5 com as figuras de Isaías 6.2. Cf. CAIRD, G. B. A Commentary on the Revelation of St. John the Divine, p. 64.

327 MORTON, Russell. Glory to God and to the Lamb: John’s Use of Jewish and Hellenistic/roman Themes in

137 do segundo Templo, frequentemente, viam no tríplice “santo” a expressão perfeita do culto dos anjos, deduzindo daí um modelo para o culto na terra.328

É interessante comparar a versão de Isaías, com a LXX e o Apocalipse, e assim verificar a forma como o visionário adaptou o hino de Isaías:329

Bíblia hebraica:

tAa+b'c. hw"åhy> vAdßq' vAdßq vAdßq

LXX: a[gioj a[gioj a[gioj ku,rioj sabawq

Apocalipse: a[gioj a[gioj a[gioj ku,rioj o` qeo.j o` pantokra,twr

A LXX, que normalmente traduz

tAa+b'c.

por pantokra,twr, desta vez simplesmente transliterou o termo: sabawq. João, entretanto, de forma consistente, continuou usando pantokra,twr no lugar de

tAa+b'c.

. De qualquer forma, ambas as expressões denotam um ser soberano sobre todos os outros deuses e senhores da terra. Ele é o Senhor dos Exércitos, o Todo-poderoso, o Senhor da terra toda, descrição que leva Fiorenza a definir o conjunto da canção como de natureza política. São expressões que querem responder a questão “quem é o verdadeiro senhor da terra”.330

No momento em que os Quatro Viventes cantam a kedushá, os Vinte e Quatro Anciãos se prostram diante do que se assenta no trono, depositando aos seus pés suas coroas de ouro. Desta vez, são eles que adoram (Ap 4.11):

:Axioj ei=(

o` ku,rioj kai. o` qeo.j h`mw/n( labei/n

th.n do,xan

kai. th.n timh.n kai. th.n du,namin( o[ti

su. e;ktisaj ta. pa,nta

kai. dia. to. qe,lhma, sou h=san kai. evkti,sqhsanÅ

Digno és

Senhor e Deus nosso, de receber

a glória, e a honra,

328 PRIGENTE, P. O Apocalipse, p. 104.

329 Vassiliadis vê a possibilidade de a adaptação de João da Kedushá, na forma do Sanctus, ser o mais antigo

texto litúrgico do cristianismo. Cf. VASSILIADIS, Petros. Apocalypse and Liturgy. In: St Vladimir´s

Theological Quartely, 41, 1997, p. 99.

330 FIORENZA, E. S. Revelation, p. 58; SMITH, Robert H. “Worthy is the Lamb” and Other Songs of

e o poder, porque

tu criaste todas as coisas

e através da tua vontade passaram a existir e foram criadas.

A forma literária é de aclamação,331 mas configurada em expressão hínica no texto do visionário. A estrutura do hino consiste do adjetivo “digno”, seguido do verbo ser (na terceira pessoa do singular), mais uma série de atributos.

Este é um hino de dignidade. A divindade é adorada porque é digna. E é digna em função da sua obra de criação.

Este hino também levanta a questão de quem é digno de ser adorado. Possivelmente, é uma peça litúrgica que surge em meio à disputa por adoração. Com um hino deste tipo, o Apocalipse tenta apontar quem é digno de adoração e, consequentemente, quem não o é.

Estes hinos atuam na identidade da audiência por via indireta. Ao ouvi-los, a audiência acompanha os seres celestiais declarando o senhorio exclusivo de Deus sobre o mundo. Se Deus é o verdadeiro Senhor da Terra, o que se assenta em Roma não o é.332 Mas este conhecimento do senhorio de Deus sobre o universo é um conhecimento profundo que somente quem acessa as regiões celestiais conhece. Como Newsom destacou na sua análise dos Hodayot, a afirmação de posse de conhecimento profundo era um instrumento importante para a afirmação de identidade sectária entre os membros da comunidade de Qumran.333 De forma bem semelhante, o que estas peças litúrgicas do capitulo 4 de Apocalipse indicam é um tipo de conhecimento que somente os seguidores de Jesus tinham acesso.

Ao afirmar que somente Deus é digno de receber adoração, honra, poder, ele está afirmando a singularidade da figura divina diante das pretensões imperiais romanas. E ao afirmar a singularidade de Deus, o hino também reforça a singularidade de seus adoradores.