2.2 Principled reasons
2.2.2 The sufficiency argument
Ao lado dos sinais de ausência do poder público e da decadência da mineração, sem dúvida que os hábitos e os costumes dos habitantes de Goiás fizeram parte constante e demoradamente dos relatos dos viajantes.
Para ilustres representantes da classe média urbana e ilustrada da Europa Ocidental, a visão e o estilo de vida dos habitantes locais devem ter parecido estranhos para eles. O próprio Luiz Palacín (1976), conforme já descrito, chamou a esse processo de ―indianização‖ da população de Goiás, sendo, segundo ele, a face mais visível e perversa da decadência resultante da ―ruralização‖ goiana.
O próprio termo ruralização não é objeto de discussão deste trabalho, apesar de podermos problematizar a ideia de urbanização do século XVIII no interior do Brasil e seu refluxo posterior. A maioria dos historiadores com os quais dialogamos concorda que, em termos de modos de vida e de economia, ocorreu, de fato, uma mudança importante na forma como as pessoas viviam após o fim do período da mineração. Mas um deles em particular, Paulo Bertran (1994), questionou a preponderância e pioneirismo do modo de vida urbano nas
10 Paulo Bertran (1994) relatou que conseguiu as informações sobre a diminuição das tropas de mercadores a
partir da compilação de documentos disponíveis no Arquivo do Museu das Bandeiras, códices 154 a 156, sob o título ―Entradas da Contagem de São João das Três Barras‖, compreendendo os anos de 1788 a 1818.
11 Os principais gêneros comercializados pelos produtores de Goiás no início do século XIX podem ser vistos
minas de Goiás, bem como o pressuposto de inferioridade do modo de vida rural autossuficiente.
Paulo Bertran (1994) sustentou que, em Goiás, o modo de vida rural baseado na criação de gado, precedeu à mineração. Desde 1697 já havia registros de fazendas criadoras de gado na região compreendida entre o Noroeste de Minas Gerais e os arredores do Rio Tocantins, que ocupavam boa parte da região Centro-Norte de Goiás. ―De fato, quando, em 1722, Bartolomeu Bueno da Silva Filho, adentrou a região já encontrou sinais de gado,
sentindo-se de todo perdido‖. O que o levou a afirmar que ―nas bordas de Goiás e Tocantins a
pecuária antecedia a mineração‖ (BERTRAN, 1994, p. 60). A hegemonia da produção mineradora sobre a pecuária foi circunstancial, segundo Bertran:
Não fosse o relâmpago atordoante da mineração que, tanto em Goiás quanto em Minas, acelerou enormemente os processos econômicos e sociais, o gado teria primeiro chegado aqui [região do Distrito Federal], com seu berro plácido encobrindo o grito de horror do indígena conquistado (BERTRAN, 1994, p. 61). Não apenas o gado, mas a própria agricultura fez parte da paisagem da região Central de Goiás desde o início do século XVIII, conforme a descrição de Bertran (1994) sobre engenhos de açúcar e de outros tipos de produção agrícola na região por volta de 1736, ainda início da mineração. Algumas décadas mais tarde, relata o autor:
Ao pernoitar no dia 10 de outubro de1778 na contagem de São João das Três Barras, em pleno Distrito Federal o Governador Luiz da Cunha Menezes, a quem referimos em outra parte, depois de viajar todo o dia pelo Distrito Federal na trajetória de Formosa – Mestre d‘Armas, escreve: ―[...] um nascimento de agoas excelentes as fazendas a maior parte delas são rossas e engenhos de Certão [...]‖. No dia seguinte, indo dormir nas proximidades de Brazlândia, comentava em seu diário: ―[...] bons campos por taboleiros cubertos, chapadas por entre fazendas e rossas‖ (BERTRAN, 1994, p. 171).
O que o levou a concluir: ―Fazendas e rossas, ... rossas e engenhos do certão...‖
(idem). De fato, antes que se entranhasse a decadência da mineração e sobreviesse o império da subsistência, existiram grandes fazendas de engenho na região. Bertran (1994) descreveu uma fonte para a confirmação de suas afirmações:
Segundo a ―Relação das Couzas mais Notáveis e notícia formal destas Minas do julgado de Santa Luzia‖, integrante da Notícia Geral da Capitania de Goiás em 1783, havia no julgado 14 ―engenhos de moer cana‖ e 3 ―engenhos de pilões‖ de fazer farinha de milho. A maior parte encontrava-se nas imediações de Luziânia e citamos os maiores: de Manoel Dias Roriz, com 75 escravos, o famoso engenho da Palma do Coronel João Pereira Guimarães com 78, e o maior de todos, do Capitão José da Costa Vieira, com 118 escravos. Nas nove lavras de ouro citadas nesse ano,
apenas duas tinham uma quantidade superior em escravos a esses três engenhos que não eram, portanto, negócios de somenos (BERTRAN, 1994, p. 171).
A afirmação do autor desfaz a tese da origem mineradora única da Capitania, bem como da atividade mineradora ao longo do tempo da exploração das minas goianas. Ao lado da atividade mineradora e pecuária teria havido uma atividade agrícola consolidada, como demonstram a existência dos engenhos que rivalizavam, em quantidade de escravos, aos maiores projetos mineradores.
Essas atividades diversas acabaram por ter seu declínio na medida em que a atividade econômica principal diminuiu. Essa foi a interpretação de Bertran (1994) ao afirmar que ―esse pequeno mundo de lavras, de engenhos e de sítios vai se desfazendo, na medida em que o século XVIII escoa as últimas bateias do minério aurífero‖ (BERTRAN, 1994, p. 181).
A diminuição da produção aurífera fez com que as atividades econômicas paralelas – agricultura, pecuária, comércio – também diminuíssem, transformando-se no que Bertran batizou de ―economia da abastança‖, muito próximo do que poderia ser chamado de atividades de subsistência, ao longo do final do século XVIII e início do século seguinte. A economia de abastança tinha como significado o fato de bastar ao produtor e sua família a produção da propriedade, com pequeno excedente para comércio local ou regional. Deixemos que o autor se explique:
O que vai surgir – se é que antes já não viessem proliferando – são os sítios de subsistência familiar, uma fórmula simples, de dois ou três homens plantando um pequeno trato de terra, que fornecia os alimentos do ano. A economia rural da abastança. Estando em Luziânia em 1819, escreve Saint-Hilaire: ―[...] Seria pura perda se os colonos plantassem milho, feijão e arroz em quantidade superior à necessária ao sustento da família; porque excetuando-se os anos de carestia, como aquele em que eu viajava, esses gêneros não poderiam encontrar compradores‖12
(BERTRAN, 1994, p. 182, grifos nossos).
12 Bertran não fez a referência à obra de Saint-Hilaire da qual extraiu a citação. Esta foi retirada do texto
―Viagem à Província de Goiás‖, e a versão que se está utilizando neste trabalho foi publicada em 1975. Nesta versão, a citação completa, desde o início do parágrafo, é: ―A localização de Santa Luzia numa região elevada torna as suas terras propícias não apenas aos vários tipos de cultura a que estão habituados os brasileiros do interior, como também ao cultivo de plantas de origem europeia, tais como o trigo e sobretudo o marmeleiro. Entretanto, seria inútil que os colonos plantassem milho, feijão e arroz em maior quantidade do que a necessária para alimentar suas famílias, pois, exceção feita das épocas de escassez – o que ocorreu no ano em que passei por lá – esses produtos não encontram comprador‖ (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 26). Na verdade, o contexto da afirmação de Saint-Hilaire é a situação de penúria da população da Santa Luzia, frente às possibilidades de produção da terra. Saint-Hilaire credita essa penúria à indolência dos habitantes, que, apesar das possibilidades diminutas de comércio, não chegavam a produzir para seu próprio sustento: ―A indolência contribuiu bastante para levar os fazendeiros da região a essa situação de penúria‖ (Idem, p. 27).
A fonte das afirmações de Paulo Bertran é o ―Livro de Lançamento dos Dízimos
de Santa Luzia em 1810‖13, que permitiu visualizar, do ponto de vista econômico, os modos
de vida dos agricultores da região no entorno do atual Distrito Federal, na década de 1810: Até do Parnaguá – Paranoá – registram-se dois sitiantes e é interessante ver o que produziam esses agricultores da região do lago de Brasília. No sítio do Parnaguá de Bernardino da Silva Rezende, escreve o fiscal: ―Aos 10 de dezembro de 1810 avaliamos a sua roça e achamos render de milho quarenta alqueires, feijão cinco, arroz dez, algodão cinco arrobas, quarto de Poldro um, no que nos confirmamos e para constar passamos o presente por ambos assinados, com a assinatura do lavrador – 2/8 e 4/5. Luciano Rodrigues (era o fiscal) – a rogo (ilegível). A conta, equivalendo a 11 gramas de ouro só foi paga aos 27 de setembro de 1814, quatro anos depois, quando talvez já acumulasse de dívidas outras quatro vezes aquele valor. Se estiverem certas nossas tabelas de conversão de medidas antigas, o milho colhido equivaleria a uns 1.400 quilos, o arroz (em palha) a uns 360, e o feijão a 180 quilos. Comparando com nosso próprio consumo de arroz e feijão, achamos que aquelas quantidades bastariam para o consumo anual de uma família de 10 membros. Produzia ademais o Bernardino 75 quilos de algodão, que devia ser o suficiente para vestir a família e ainda vender o excedente. E sem dúvida tinha o meio de transporte da época: um cavalo e uma égua que naquele ano pariu um potro, alçado de nascença, do imposto de seus quartos para a Fazenda Real (BERTRAN, 1994, p. 189/190, grifos nossos).
Esse mundo economicamente autossuficiente, ou de ―economia de abastança‖
encontrou seu elemento mais sintomático na ausência de sistema financeiro oficial, no entendimento de Hamilton Oliveira (2006); o que, conforme notou Angelo Carrara (2008), fez com que as trocas se intensificassem ou que o ouro em pó ocupasse o papel de moeda oficial, a despeito da facilidade de sua falsificação. João Emanuel Pohl (1951), nos relatos de suas viagens, fez menção a isso:
Entre os preparativos de minha viagem figurava a aquisição, a conselho de meu digno hospedeiro, de uma balança de pesar ouro, pois eu teria de percorrer regiões onde não se usam moedas, que são substituídas pelo ouro em pó, incômodo, que diminui muito com a circulação, que se dissipa ao pesar-se, e que frequentemente é falsificado pela adição de minério de ferro (esmeril) em pó, que aliás dá ao ouro uma cor amarelo-acinzentada (POHL, 1951, p. 114).
Independente da forma como se possa designar esse período que abrangeu o final da mineração e a inserção de Goiás em uma economia nos moldes capitalistas, ou seja, do
final do século XVIII ao final do século XIX – compreendendo, portanto, um século ou mais,
a depender dos intérpretes da historiografia goiana – se formou uma cultura goiana, ou
13 ―com o valor do imposto em 8ª (oitavas) de ouro – encontrado nas caixas 01 a 03 dos documentos referentes a
sertaneja, peculiar, que chamou a atenção dos viajantes, interpretada a partir de sua visão de mundo.
Distante dos grandes centros – próxima ou em constante convívio com os
indígenas do lugar – com uma maneira toda sua de vivenciar a religiosidade, essa cultura
sertaneja, ―sedimentou-se [em] um universo cultural próprio do homem do sertão, do roceiro, do camponês e do índio, distante dos padrões europeus e difícil de ser compreendido pelos viajantes do Velho Mundo‖ (CHAUL, 2002, p. 24).
A dificuldade de interpretar a cultura que testemunhavam levou os viajantes a tratá-la como inferior, como uma cultura ainda distante na escala de evolução social, hiato incompreensível após um período de fausto, econômica e culturalmente inserido no capitalismo.
A primeira tese a buscar servir de base interpretativa do período foi a de
retrocesso civilizatório, representado – e perceptível – pelos tipos de devoções populares
estereotipadas como superstição, frutos de um catolicismo deturpado, derivado de uma mistura de elementos indígenas e africanos, um verdadeiro sincretismo religioso que apenas revelava, na visão de Pohl (1951), como ―sua ignorância era tamanha‖ (POHL, 1951, p. 125). O autor, pelo menos por duas outras vezes, se referiu à ignorância da população de lugares por onde passou ao descrever outras situações em que teve a oportunidade de presenciar manifestações da religiosidade popular, como uma festa popular descrita por ele (POHL, 1951, p. 144) e quando relatou a perda – e posterior recuperação – dos animais de carga e montaria, como descreveu:
Passamos os dois dias seguintes, sob constante chuva, à procura de nossos animais, que não víamos desde o aparecimento dos dois cavaleiros noturnos. Receava efetivamente que tivessem sido furtados por eles, mas, apesar de toda a minha cólera, tive que sorrir ante a providência tomada por meu guia, um negro livre, para retomar a presa aos ladrões. Com toda a paixão de sua raça, os olhos cintilantes de furor, murmurando uma fórmula de encantamento, ele deu nós numa corda e dependurou-a sobre o fogo. Depois partiu em busca dos animais e teve a sorte de descobri-los e trazê-los, com triunfo da superstição, compreende-se, pois estava convencido da infalibilidade de sua magia (POHL, 1951, p. 109, grifos nossos).
George Gardner (1975) fez uma referência direta entre as crenças e superstições a falta de coragem, a covardia, ao narrar a passagem por um local considerado perigoso pelos habitantes locais:
O povo da região tem muito medo desta zona selvagem e desabitada e por isso, antes de nela entrar, frequentemente me perguntavam se não tinha receios de o fazer com
tão poucos acompanhantes. Creio que seu temor se deve em grande parte à covardia, sentimento bastante comum em todas as partes do país que visitei (GARDNER, 1975, p. 144).
Esse olhar superior sobre a religiosidade popular era condizente com a racionalidade cada vez maior na Europa do século XIX, incluindo as instituições religiosas
oficiais, que buscavam ―administrar um conjunto de regras e prescrições visando, senão a
eliminação, pelo menos o controle das crenças populares‖ (ORTIZ, 1998, p. 34) e as identificavam com modos de vida irracionais que deviam ser subjugados.
A irracionalidade dos modos de vida tradicionais não deveria ter espaço em uma sociedade civilizada e progressista. Essa sociedade civilizada definia-se, cada vez mais, por uma visão moralista do cotidiano. No caso dos viajantes, identificar hábitos e costumes entre os habitantes dos lugares por onde viajavam que não se enquadrassem nos valores morais da nova sociedade urbana europeia, equivalia a atestar, uma vez mais, o déficit civilizatório dessa terra inculta.
A descrição da passagem de Auguste de Saint-Hilaire (1975) por Vila Boa em 1819, por exemplo, revelou o exemplo de uma cidade em que os valores morais, típicos de uma sociedade civilizada, ainda não haviam assentado. Assim foi entendido pelo autor ao analisar as relações familiares da capital da Província, marcadas pelo concubinato, bigamia e filhos ilegítimos.
Saint-Hilaire (1975) descreveu essa situação de ―relaxamento dos costumes‖, a
sugerir que houvera tempo e lugares pelo Brasil em que as marcas do bom catolicismo e do triunfo do processo civilizatório teriam preponderantes. A nosso ver é mais realista entender
que seu modelo de sociedade ainda é a europeia e que ao tratar como ―relaxamento‖ de
hábitos, se refere aos colonizadores europeus e descendentes, já que relaciona os hábitos da sociedade em geral ao mau exemplo das elites administrativas e membros do clero. Assim, para o viajante francês, catolicismo e civilização eram dados como sinônimos.
Em nenhuma outra cidade o número de pessoas casadas é tão pequeno (1819). Todos os homens, até o mais humilde obreiro, têm uma amante, que eles mantém em sua própria casa. As crianças nascidas dessas uniões ilegítimas vivem ao seu redor, e essa situação irregular causa tão pouco embaraço a eles quanto se estivessem casadas legalmente. Se por acaso algum deles chega a se casar, passa a ser motivo de zombarias. Esse relaxamento dos costumes data do tempo em que a região foi descoberta. Os primeiros aventureiros que se embrenharam nesses sertões traziam consigo unicamente mulheres negras, às quais o seu orgulho não permitia que se unissem pelo casamento. A mesma razão impediu-os de desposarem as índias. Em consequência, tinham apenas amantes. Nos primeiros tempos deve ter ocorrido a mesma coisa na Província de Minas, mas como ela fica distante do litoral, é mais povoada e sua fase áurea não foi tão efêmera, as mulheres de bons costumes
que para lá foram era provavelmente mais numerosas. [...] Os descendentes dos primeiros colonos goianos devem forçosamente ter seguido as pegadas de seus antepassados; a libertinagem tornou-se um hábito, e o povo vê-se constantemente estimulado a entregar-se a ela pelo mau exemplo dos que o governam. Raramente são casados os funcionários do governo que se dispõem a viver nessas remotas regiões do interior do país. [...]. Mas os magistrados e os funcionários de Vila Boa não são os únicos cuja má conduta parece justificar a do povo. Os próprios padres, cuja vida deveria constituir um permanente protesto contra desregramentos que contrariam não só as leis da religião e da moral, mas também o progresso da civilização e a instituição da família e da sociedade, autorizam por seu mau comportamento a devassidão dos fiéis que lhes estão confiados (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 53, grifos nossos).
A segunda tese – perceptível nas narrativas de Pohl (1951), Gardner (1975) e
Saint-Hilaire (1975) – se tornou praticamente a representação de todo um modo de vida do habitante do interior do Brasil e da cultura sertaneja goiana em particular: a tese da apatia, resultante da preguiça, ou da indolência. Essa visão acabou por se tornar a principal explicação para o antes e o depois, ou seja, durante o período de prosperidade da mineração, e, principalmente, após seu declínio.
Durante o período de prosperidade a falta de visão dos habitantes das cidades e vilas mineiras em relação ao futuro foi creditada à tese da apatia. As igrejas inacabadas; a ausência quase completa de estrutura física adequada ou de serviços; o esbanjamento dos que conseguiam ter algum lucro – como mostra a observação de Pohl (1951, p. 129), para quem ―tão facilmente era extraído o ouro quanto rapidamente era dissipado no luxo, na indolência e na preguiça‖; o emprego exclusivamente de escravos para o trabalho braçal e o abandono de lavras ainda produtivas, mas que exigiriam investimentos maiores de equipamentos e energia. Todos esses elementos foram analisados de forma rápida e diagnosticados como produtos da preguiça, indolência e ociosidade.
Já presente e criticada na sociedade mineradora, a representação da apatia como característica da cultura local e do modo de vida sertanejo e goiano se cristalizou de forma definitiva em relação à sociedade pós-mineração. Luiz Estevam (1997) apontou a ruralização e o isolamento como fatores fundamentais, na visão dos viajantes, para a consolidação da apatia:
O processo de ruralização e isolamento na decadência da mineração, de acordo com viajantes, instigou um sentimento de ―derrotismo moral‖ inebriando os habitantes. A transmutação de irrequietos aventureiros das minas em desolados matutos do interior levou tempo e acarretou profundas consequências psicológicas; o sentimento de fracasso resultou numa apatia e tristeza aparentemente sem qualquer esforço de superação [...] (ESTEVAM, 1997, p. 31).
Nasr Chaul (2002) também destacou que a solidão, fruto das grandes distâncias entre o sertão de Goiás e os grandes mercados, foi fundamental para a consolidação – entre os viajantes primeiro e para a historiografia goiana posteriormente – da representação da apatia, da preguiça, da indolência.
Em síntese, criava-se, por intermédio dos relatos citados, uma ideia de isolamento, de amargura, de tristeza atávica, de letargia social, de marasmo econômico, de dias iguais a todos os dias. Criava-se uma imagem de solidão, que tinha no sertão o cenário ideal, a expressão mais exata, o preço mais caro (CHAUL, 2002, p. 61). Independente dos motivos que levaram os viajantes ao seu diagnóstico, tanto este quanto os motivos foram apresentados como certeza cabal, sem deixar margem à dúvidas.
Pohl (1951), em vários momentos de seu trabalho se referiu à preguiça como característica dos habitantes de Goiás, responsável pela pobreza e penúria. Sem exceção, afirmou ele, ―ademais, são todos muito preguiçosos‖ (POHL, 1951, p. 112). Um pouco mais adiante detalhou um pouco mais suas impressões ao narrar seu diálogo com um morador
local: ―Ele muito se queixou da pobreza dos habitantes. Pareceu-me que deveria antes se
queixar da preguiça deles, pois aqui o solo, a mata e a serra abundam em riquezas para o homem laborioso‖ (POHL, 1951, p. 116). Em seguida, ao observar a reduzida produção de
subsistência de um povoado, Pohl concluiu que, ―se os moradores não fossem avessos ao
trabalho, a cana de açúcar daria aqui mais resultado‖ (POHL, 1951, p. 123).
Dois elementos se destacam nas observações de Pohl (1951). O primeiro deles é a referência ao ―homem laborioso‖, uma alusão a uma ética do trabalho consolidada na Europa Ocidental urbana, oriunda das transformações no mundo do trabalho pós-Revolução Industrial, que Edward P. Thompson (1998, p. 280) descreveu como um processo de sincronização entre o tempo do relógio e o da produção. Ou seja, o homem laborioso é aquele