2.1 Pragmatic reasons
2.1.3 Legitimate expectations
A primeira impressão dos viajantes ao chegar a Goiás provavelmente contribuiu para consolidar as representações construídas sobre o interior do Brasil, símbolos da decadência que se cristalizaria como a imagem do Brasil e de Goiás em particular. Ainda na viagem de chegada, antes mesmo de adentrar ao território da Província, a descrição da situação de abandono da região pelo poder público era uma das mais recorrentes nos escritos dos viajantes.
A ausência do poder público se manifestava, para eles, na precariedade das estradas, na inexistência de pontes sobre os rios ao longo dos caminhos para as minas, no abandono geral e despovoamento da região pós-mineração.
Saint-Hilaire (1975) registrou com surpresa a raridade de viajantes em sua passagem pelo registro de entrada dos viajantes em Goiás, vindos de Paracatu, Minas Gerais, com destino à Santa Luzia, atual Luziânia, na estrada que ligava Vila Boa às Províncias de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo ele:
Antes de minha partida (28 de maio) ele [o fiscal] anotou meu nome no seu registro. Lancei um rápido olhar ao livro e verifiquei que desde o dia 19 de fevereiro não havia entrado ninguém na Província de Goiás, e no entanto era aquela estrada que fazia a ligação com o Rio de Janeiro e com grande parte da Província de Minas (1819) (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 22).
A raridade da entrada de viajantes em Goiás pelo caminho oficial de Paracatu a Santa Luzia à época das viagens de Saint-Hilaire coincidia com a diminuição da mineração e a busca de novos caminhos, bem como atividades econômicas alternativas. Ao mesmo tempo em que diminuía o número de viajantes com destino aos locais de mineração, aumentava a
busca por outros lugares, sobretudo no Sul de Goiás, em que despontava a atividade agropastoril com o objetivo de abastecer os mercados do Sudeste de carne.
Hamilton Afonso de Oliveira (2006) demonstrou que nas primeiras três décadas do século XIX houve um crescimento demográfico de mais de 260% no então Julgado de Santa Cruz, que abrangia toda a região Sul de Goiás. Esse crescimento demográfico se deu, principalmente, pelo fluxo de mineiros e paulistas em busca das terras despovoadas da região, interessados em desenvolver atividades econômicas diversas da mineração. Tal interesse decorria, em parte, do exemplo de Minas Gerais, polo principal da mineração no século XVIII, mas que, no início do século XIX já despontava como grande exportadora de produtos oriundos da pecuária e da produção têxtil. De fato:
A pecuária [...] tinha participação preponderante nos quadros de exportação da Província de Minas Gerais e correspondia a 55% da divisas da em 1818/19 e 60% em 1828, seguidas pelas manufaturas têxteis e produção agrícola. No ano de 1818/19 a Província arrecadou com exportações 1.673.447$190 contos de réis e em 1828 2.265.570$650 contos de réis (OLIVEIRA, 2006, p. 30).
É importante lembrar que essas informações não eram do conhecimento dos viajantes, pelo menos não da forma como se pode analisar em retrospecto; nem no momento de suas viagens, nem, pelo visto, no momento em que se propuseram a refletir sobre elas, o que, no caso de Saint-Hilaire, aconteceu quase três décadas depois. O ponto de vista, o olhar do viajante, mesmo tempos depois, continuava impregnado do vício da comparação, ainda que o próprio texto advertisse para a ineficácia de se comparar realidades tão díspares.
Figura 1 – Mapa da Viagem de Saint-Hilaire a Goiás
No prefácio de ―Viagem à Província de Goiás‖, publicado inicialmente em 1848, Saint-Hilaire fez a crítica da ausência do poder público na Capitania de Goiás, comparando-a com Minas Gerais e com a Europa.
Infelizmente – lamento ter de admiti-lo – a comparação não será favorável a Goiás, infortunada região entregue há longos anos a uma administração quase sempre imprevidente e com frequência espoliadora; e eu iria encontrar diferenças ainda mais marcantes ao comparar a parte oriental de Minas Gerais com a região ocidental, que de um modo geral foi povoada pelo refugo das comarcas mais antigas (SAINT- HILAIRE, 1975, p. 13).
Saint-Hilaire (1975) apontou dois problemas como responsáveis para a situação da Capitania. O primeiro deles deveu-se a atuação da própria administração pública de Goiás, como descrito na citação anterior. Paulo Bertran (1994), por exemplo, apontou a ação deletéria do poder público durante todo o período aurífero, que se fez sentir de forma mais contundente no período de declínio da mineração, no final do século XVIII e início do XIX, quando Saint-Hilaire fez suas incursões.
Sobre a economia aurífera cadavérica tornava-se cada vez mais ampla a sombra de rapina do dizimeiro... ―O quinto empobreceu Goiás e o Dízimo acabou de matá-lo‖, escreveria, com toda a franqueza, o Governador José de Almeida Vasconcelos na década de 1770 (BERTRAN, 1994, p. 187, grifos nossos).
Luiz Palacín (1976) e Nasr Chaul (2002) – para ficar apenas nos expoentes das
narrativas historiográficas opositoras em relação à história goiana – concordaram sobre o
papel do poder público em Goiás na produção e manutenção da pobreza, pouco ou nada devolvendo, em termos de infraestrutura. Palacín (1976, pp. 188-190), por exemplo, registrou que os dízimos foram os responsáveis diretos pelo insucesso da agricultura como atividade econômica, enquanto Chaul (2002) creditou às ações dos administradores públicos a falta de diversificação das atividades econômicas ainda no período minerador, já que eles estavam interessados apenas ―com o rendimento do quinto‖ (CHAUL, 2002, p. 35), e receavam que a diversificação pudesse fazer com que se perdesse o controle sobre a cobrança dos impostos.
O segundo problema apontado por Saint-Hilaire (1975) dizia respeito aos agentes povoadores da Capitania de Goiás, sobretudo os que chegaram tardiamente, no início do século XIX, considerados pelo autor ―refugo das comarcas mais antigas‖ (SAINT-HILAIRE 1975, p. 13).
Retornando a Hamilton Oliveira (2006) este refletiu que a maioria dos povoadores da região Sul de Goiás na primeira metade do século XIX ―eram mineiros oriundos de São
Francisco das Chagas, Sacramento, Piuhuim, Bagagem, Passos, Brejo Alegre, Campos Belos, Dores de Uberaba, Varginha, Formiga, Pitangui, Campanha, Tamanduá e Araxá‖ (OLIVEIRA, 2006, p. 29). Um pouco mais a frente, o autor, ainda em sua reflexão sobre o aumento demográfico da região Sul de Goiás no início do século XIX, observou:
Neste mesmo contexto histórico conforme os levantamentos estatísticos dos Presidentes de Província, entre os anos de 1804 a 1832, [...] ocorreu um crescimento populacional significativo na então região Sul de Goiás. Com exceção de Crixás e Pilar, os demais julgados apresentaram aumento, sobretudo, Vila Boa, Meia Ponte e Santa Cruz. Isto estava relacionado ao fluxo migratório de paulistas e, principalmente, de mineiros que se deslocavam de suas regiões de origem em busca de novas terras que ainda se encontravam devolutas em Goiás (OLIVEIRA, 2006, p. 29).
Esse crescimento demográfico continuou ao longo da primeira metade do século XIX, conforme relatório apresentado à Assembleia Legislativa de Goiás em 1855, pelo Presidente da Província, Antônio Candido da Cruz Machado, que afirmou que:
[...] depois de 1824, sobretudo, após 1837, a população de Goiás aumentou muito significativamente. Ressaltou o crescimento da população da região Sul da Província, em que os pequenos curatos como Bonfim, Jaraguá, Corumbá, Formosa e Catalão e, as então consideradas insignificantes freguesias de Morrinhos, Santa Rita do Paranaíba (atual Itumbiara), Espírito Santo do Vaivém (atual Ipameri) e a nova Vila de Dores do Rio Verde (atual Rio Verde) e, mais os distritos de Pouso Alto (atual Piracanjuba), Caldas Novas, Santo Antônio do Rio Verde e Torres do Rio Bonito e, finalmente, a Campanha de Santo Antônio entre o rio Anicuns e Turvo, já se encontravam povoadas de lavradores e criadores procedentes das Províncias de Minas e São Paulo (OLIVEIRA, 2006, p. 31).
Muitos autores, Oliveira (2006) entre eles, são adeptos da narrativa segundo a qual, além da diminuição da mineração em seus lugares de origem e nos principais centros auríferos da Província de Goiás, deve-se levar em conta a fertilidade das terras como fator fundamental de atração para essas novas levas de migrantes a povoar a deserta região Sul da Província. Eram terras devolutas, sem uso pelo poder público local. Chaul (2002) concordou em parte com essa tese, mas deu mais ênfase no fato de essas terras se encontrarem disponíveis porque estavam distantes das principais povoações da Província e não serem ocupadas ou disputadas pelos proprietários já estabelecidos. Afirmou o autor que:
Os administradores provinciais já haviam ocupado, desde o auge da mineração, as melhores terras, deixando aos migrantes a opção de se estabelecerem nas proximidades dos caminhos que ligavam Vila Boa a Minas e/ou a Bahia. Aos ―desordeiros da fé‖, homens sem posse, severinos de morte e vida das terras sonhadas, restavam áreas distantes dos centros urbanos. Terras devolutas recebiam ranchos de arquiteturas sertanejas, símbolos de posse, marcas da ocupação fincados
na imensidão de Goiás. A abundância de terras e os parcos métodos empregados na agricultura estimularam a posse – forma encontrada para se adquirir o quinhão de terra (CHAUL, 2002, p. 92).
A ocupação e povoamento das terras ao Sul de Goiás por migrantes vindos de outras Capitanias e de outras regiões da Capitania se transformaram em exemplo do movimento dos fluxos populacionais no final do período minerador e ao mesmo tempo, era sintomática da apropriação das terras próximas aos agrupamentos urbanos, realizada por administradores públicos e pelos proprietários já estabelecidos, mineiros ou não.
O olhar dos viajantes, no entanto, salientou a ausência do poder público em todas as regiões da Província, tanto as próximas dos grandes agrupamentos urbanos quanto as mais afastadas. Um exemplo disso é a narrativa de Saint-Hilaire (1975), que após comparar a Capitania de Goiás com outras regiões do Brasil e considerar a falta de propriedade em comparar um continente apenas iniciado em termos de colonização e povoamento, colocou-se em sua própria armadilha. Após a descrição do despovoamento, da pobreza e da inospitalidade da Província visitada, Saint-Hilaire acabou por realizar a comparação negada, ao salientar a ausência das condições próprias ao desenvolvimento econômico e social, ao progresso, uma concepção tipicamente europeia.
Muitos serão tentados a acreditar que minhas descrições, ao se referirem a uma época já tão distante,6 perderam sua atualidade. Não se deve julgar, porém, o interior da América segundo padrões europeus. Nas regiões escassamente povoadas as coisas mudam com extrema lentidão. Faltam a eles os elementos que propiciam um progresso rápido. Uma população rala, disseminada por vastidões imensas e entregue à sua própria sorte, atormentada por um clima ardente, sem nenhum estímulo e quase nenhuma aspiração, não deseja e não sabe mudar nada. O botânico George Gardner percorreu em 1840 uma pequena parte do sertão que visitei em 1818 e viu o que eu próprio tinha visto – nada mais (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 13- 14).
A percepção de inospitalidade que atestaria a ausência de poder público foi percebida por João Emanuel Pohl (1951) em sua viagem de chegada a Goiás, na mesma época de Saint-Hilaire. Além de perceber o despovoamento da região, Pohl fez questão de descrever
as dificuldades das próprias estradas – intransitáveis durante parte do ano – e das travessias
complexas dos rios e córregos do percurso.
6 Como já observado, Saint-Hilaire esteve no Brasil entre 1816 e 1822, sendo que passou pela Província de
Goiás no ano de 1819. Suas memórias da experiência goiana foram publicadas pela primeira vez em 1848, na França.
Figura 2 – Mapa da Viagem de Pohl a Goiás
De Minas Gerais, em direção a Goiás, Pohl (1951) apontou as dificuldades da travessia do pequeno rio São Marcos. Por falta de ponte, afirmou o viajante, a travessia teve que ser feita por bote:
[...] demoramos um dia inteiro para a travessia, pois o bote tinha apenas 3 metros de comprimento e meio de largura, não comportando mais de dois baús por vez e, além do mais, a margem oposta era muito escarpada e desfavorável ao desembarque (POHL, 1951, p. 106).
Na divisa entre Minas Gerais e Goiás, a comitiva do viajante chegou ao Rio São Bartolomeu e a narrativa foi minuciosa ao descrever as dificuldades da travessia e da montagem do acampamento na margem oposta.
Depois de termos partido no dia seguinte (21 de dezembro) e de chegarmos duas horas mais tarde, sob um sol ardente, ao Rio São Bartolomeu (que nasce em Cocal, na Serra dos Pireneus, e corre do Norte para o Sul, desaguando no Rio Paranaíba), descansamos um pouco. O Rio São Bartolomeu é profundo e, no ponto onde o atravessamos, tem 33 metros de largura. A nossa barca era tão pequena que a travessia só terminou ao por do sol. A margem oposta, onde acampamos, era tão compactamente coberta de ervas da altura de um homem e de uma espécie de bambu (Arundinearia verticillata), que em alguns trechos não permitia passagem (POHL, 1951, p. 109, grifos do autor).
Após as dificuldades da travessia do rio São Bartolomeu Pohl (1951) chegou à Província de Goiás. Suas observações continuaram repletas de descrições do descaso, da inospitalidade e despovoamento da região, a falta de serviços e melhorias típicas atribuídas ao serviço público. Quando se percebia algum tipo de melhoria nas vias públicas ou na construção de pontes, estes eram de iniciativa de particulares, o que fazia ressaltar ainda mais a ausência do poder público. É isso que aconteceu nos arredores do povoado de Santa Luzia, em que Pohl observou o cuidado com a propriedade onde recebeu pouso, cuidado este que se estendia às estradas e pontes dos arredores.
Despedi-me do Capitão no dia seguinte, por volta do meio dia, e notei com prazer que o seu cuidado em desenvolver tudo que é útil se estendia também para além de sua morada. Uma ponte de madeira bem construída sobre o riacho vizinho e uma larga estrada que levava a Santa Luzia sobre a serra limítrofe, eram, ambas obras suas e provavam seu interesse pela região (POHL, 1951, p. 110).
O fato de que o cuidado do proprietário com sua propriedade se tornasse digno de nota ao viajante, demonstra que isso não era corrente naquele momento. Dos demais viajantes analisados, apenas Saint-Hilaire (1975) fez observação semelhante em suas jornadas pelo
Brasil, mas ao se referir a uma propriedade de São João Del Rei, no início de sua viagem em direção a Goiás.