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2.1 Pragmatic reasons

2.1.2 Counterfactual reasoning

É a partir desse ponto que o historiador Nasr Fayal Chaul (2002) problematizou as conclusões de Palacín (1976) e dos demais que se tornaram hegemônicas na historiografia goiana. Sem querer receber a pecha de revisionista, Chaul buscou reinterpretar as representações e imagens de decadência utilizadas pela historiografia goiana para justificar o ―atraso‖ do Estado e buscou demonstrar que:

[...] há, na cultura moderna, uma representação em torno das ideias de decadência e atraso, traduzidas pelo embate entre o agrário e o urbano, o atraso e o desenvolvimento, o antigo e o moderno, pares antitéticos que se associam à representação mais abrangente e tradicional da relação campo x cidade (CHAUL, 2002, p. 23).

Ao analisar a historiografia goiana Chaul (2002) percebeu que, subjacentes à ideia de decadência, três fatores geralmente surgiam, como causa e legitimação: 1) as precariedades das estradas e transportes, logo, da comunicação em geral de Goiás com o restante do país; 2)

a falta de incentivos financeiros da Coroa (primeiramente portuguesa e, posteriormente, brasileira) para com a Província, o que resultaria em pouca circulação monetária e, consequentemente, pouco desenvolvimento urbano; 3) a letargia social da população goiana, observada pela expressa maioria dos viajantes europeus que passara por Goiás durante o século XIX.

No entanto, como analisou Chaul (2002), eram dois os fundamentos essenciais da construção desse discurso de decadência e atraso decorrentes dos citados fatores: 1) um mito criado e vivido pelos próprios agentes históricos de que a Província goiana teria vivido uma época de auge e esplendor durante toda a mineração da segunda metade do século XVIII; 2) o olhar preconceituoso dos viajantes europeus que passaram no interior do Brasil por uma experiência de variação temporal singular, cujo âmago correspondia às disparidades entre uma Europa em processo de industrialização, um litoral brasileiro em vias de urbanização e ―progresso‖, um sertão goiano em completa alteridade com a ―civilização‖ geográfica e temporalmente experimentada distante dali.

Os testemunhos nos quais a historiografia goiana se baseou para cristalizar a tese da decadência correspondem, geralmente, a relatos dos viajantes que estiveram no Brasil no século XIX.

Na verdade, entre os séculos XVI e XIX, dezenas, senão centenas de viajantes visitaram o Brasil. Muitos deles como convidados – alguns como membros de representações

ou expedições oficias – outros, ainda, a partir de projetos pessoais, que registraram suas

impressões sobre o que viam, os modos e costumes, a paisagem, o clima, entre outros. Tanto estrangeiros quanto brasileiros, que saíam de grandes centros e percorriam os interiores remotos.

De modo geral, estrangeiro ou brasileiro, o olhar do viajante sobre o Brasil, para além dos testemunhos pretensamente oculares, diziam mais deles próprios, de sua cultura, sua visão de mundo, preconceitos e juízos de valor, do que da terra que peregrinavam.

Para Chaul (2002, p. 41), essa imagem de decadência – ―imagem gravada como se

fosse a memória de um povo‖ – tinha como vício de origem o fato de os viajantes fazerem a leitura da paisagem e realidade local a partir do filtro da Europa em industrialização. Ao continente então mais urbanizado se contrapunha o sertão sem fim de uma terra ainda em fase de descoberta e conquista. Essa comparação foi diretamente empregada por Saint-Hilaire

(1975), por exemplo, quando analisou os povoados e edificações públicas em Goiás – e no

Não devemos julgar os povoados do Brasil pelos nossos, pois em geral não passam de um amontoado de casebres miseráveis e de ruas lamacentas. [...] Quando de falo de prédios públicos não se deve imaginar que se trata dos enormes edifícios que se vêem na Europa. Ali tudo é pequeno, tudo é mesquinho, sem beleza e até mesmo, segundo dizem, sem solidez (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 25 e 51).

O olhar do viajante ia do entusiasmo e, muitas vezes, êxtase na descrição da paisagem agreste e praticamente virgem, bem como da hospitalidade quase que universal dos

habitantes – não se pode deixar de levar em conta que eram pessoas ―ilustres‖, que viajavam

com salvo-condutos e recomendações de autoridades – à crítica, frequentemente moral, que

faziam dos hábitos e costumes. A partir de suas próprias experiências de vida, constituíram narrativas que iam além da imagem vista e descrita, tendo relação direta com o próprio ponto de vista, ou, como argumentou Meneses (1996 apud SOUZA, 2014, p. 15), a partir do olhar

particular de cada um, entendendo que ―o olhar, portanto, institui seu próprio objeto. A

imagem não é só instituída historicamente, como é, também, instituinte‖.

Dessa forma, o reparo que devemos fazer é que o olhar do viajante deve, desde já, ser tomado como uma representação da realidade, e não uma descrição pura e simples, mas que acabou por compor e formar o imaginário colonial e imperial do Brasil.

O olhar do viajante se fez, então, como lente, através do qual a realidade – e a

paisagem – foi interpretada. Souza (2014) captou esse fenômeno da seguinte forma:

Trata-se, portanto, de um olhar que busca orientação em uma realidade marcada pela diferença, o que gera um processo de, ao mesmo tempo, simbiose e estranhamento. A partir daí, a alteridade é marcada em sua especificidade, mas esta é pensada em termos da realidade da qual o viajante faz parte, o que gera uma dualidade [...]. Não se trata, portanto, apenas de documentar; trata-se de avaliar o que foi documentado e que, em sua estranheza, reforça a superioridade de quem o descreve, mas que pode surgir, também, como ameaça (SOUZA, 2014, p. 21).

Retomando a ideia de que o sintoma maior da decadência do período pós- mineração era a preguiça e a indolência e que estas se fixaram como sinônimas da própria identidade nacional no imaginário dos viajantes, Barreiro (2002) demonstrou que os brasileiros, para o olhar estrangeiro, ―caracterizam-se basicamente pelo ócio, porque o estágio da ‗economia natural‘, baseada na coleta, não requer o trabalho disciplinado, estimulando o desenvolvimento de hábitos ligados à indolência‖ (BARREIRO apud Souza, 2014, p. 213).

E Souza (2014) acrescentou que ―de fato, as descrições do cotidiano no interior do

país apontam para o que é certamente, a principal característica negativa da população

brasileira na perspectiva dos viajantes, que é sua indolência: o brasileiro e sua preguiça‖

A partir desse olhar, pares antitéticos foram estabelecidos, fazendo com que tempo e espaço fossem pensados como enganadoramente paralelos para, em seguida, voltarem a se distanciar. É assim que presente (dos viajantes) e passado (também deles) se cruzaram e se distanciaram, demarcaram as fronteiras entre o rural e o urbano, o antigo e o novo, o progresso e o atraso.