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De momento, temos o primeiro desafio: Entender a forma como se cristalizou as ideias de atraso e decadência como representações do século XIX para a história de Goiás. Essas representações, fundamentadas nas experiências econômicas da Capitania, depois Província de Goiás, baseiam-se, principalmente, nos relatos de cronistas e viajantes, bem como nas fontes oficiais esparsas e foram encampadas na historiografia oficial, tornando-se hegemônicas, sobretudo, a partir dos escritos de Luís Palacín et al. (2001), do final da década de 1960 em diante. De acordo com o autor:

A partir da década de 1760, especialmente depois de 1770, a mineração declinou progressivamente, mergulhando a Capitania em estado de profunda depressão – em certas áreas, de miséria absoluta –, o qual se estendeu até depois do período colonial. Arraiais murcharam, sertões despovoaram-se, rendas governamentais despencaram, impostos, antes suportáveis, tornaram-se abusivos. Pouco a pouco, Goiás paralisou- se, voltando-se para o penoso auto sustento e para a agropecuária, que, entretanto, devido à situação geral de decadência, demoraria quase um século para firmar-se definitivamente (PALACÍN et al, 2001, p. 85).

Muitos outros autores compartilharam por décadas da tese de esplendor e decadência da história de Goiás, tal como Eurípedes Funes (1986), para o qual:

Goiás, que possuía vários recursos naturais que lhe possibilitavam ser uma próspera Capitania da Colônia, foi, no entanto, uma das que mais penúrias conheceu; passou gradativamente do período de euforia e esplendor da mineração a uma crise econômica da qual sairia somente algumas décadas depois (FUNES, 1986, p. 27). Poucas foram as vozes que se levantaram contra a tese de um período de decadência a seguir um período de opulência e esplendor. Nem todas, devemos notar, contestando pura e simplesmente a ideia de decadência, mas a forma como esta foi construída e introduzida na historiografia goiana até sua hegemonia enquanto ferramenta interpretativa do século XIX goiano.

Paulo Bertran (1994) foi, provavelmente, o primeiro autor a questionar a forma como a tese da decadência se tornou o instrumento conceitual principal da interpretação e

construção da história de Goiás. Mas, mesmo Bertran, não chegou a questionar se essa decadência aconteceu ou não.

No prefácio do livro de Nasr Chaul, ―Caminhos de Goiás‖ (2002), Paulo Bertran enumerou três ocasiões em que a documentação permitiu perceber que a ideia de decadência era já uma realidade ou, pelo menos, já fazia parte de alguns discursos oficiais ao longo do século XVIII e início do século XIX em Goiás.

Em primeiro lugar, expressões como ―dado à decadência destas minas‖, ―dado ao

estado calamitoso desta Capitania‖, ―dado à miserabilidade destes povos‖, de acordo com

Bertran, faziam parte do vocabulário dos Governadores da Capitania de Goiás já no ano de 1731, ou seja, período em que as minas goianas ainda estavam sendo descobertas e que mal se iniciara, de fato, a exploração do ouro.

A explicação, de acordo com Bertran (apud CHAUL, 2002), residia no fato de que propalar a decadência das minas era uma forma de defesa dos Governadores ante a Coroa pelo fato de não alcançarem as metas de exploração de ouro e a consequente cobrança de impostos, seja pela corrupção, pela péssima administração ou, principalmente, pela sonegação ou contrabando de ouro. ―Convinha, portanto às autoridades coloniais, como precaução política, antes bradar ao trono a decadência da mineração, do que por a mão no fogo pelo seu desempenho‖ (CHAUL, 2002, p. 14).

Em segundo lugar, Bertran lembra que a diminuição da produção mineral, seja por conta da diminuição efetiva ou pelas exigências cada vez maiores de tecnologias apropriadas para a extração mineral em determinados lugares, é uma realidade, ―decadência intrínseca aos depósitos aluvionares, geralmente do quaternário geológico, com decréscimo da produção em patamares sucessivos de dificuldades geológicas e

mineralógicas‖ (CHAUL, 2002, p. 14-15).

A falta de controle das administrações oficiais, o contrabando, a diminuição natural do ouro por conta dos motivos já citados, levou, portanto, ao que se poderia chamar de decadência da mineração como atividade econômica e com ela toda a cadeia de atividades e de modos de vida construídos, mas não de forma como foi cristalizado no imaginário e na historiografia oficial, pois, para Paulo Bertran (apud CHAUL, 2002), ao mesmo tempo em que se estabelece a virada do século XVIII para o século XIX como o momento oficial para a instalação da decadência, ―Até 1800, no entanto, há notícias de grandes minerações em Goiás‖ (CHAUL, 2002, p. 15).

Se o declínio, do ponto de vista da diminuição da produção econômica, foi uma realidade, a imagem da decadência que foi construída e se fixou na historiografia

goiana institucionalizou uma ―decadência comum a todos, imagem gravada como se fosse a memória de um povo, como se fosse a realidade vivida por todos‖ (CHAUL, 2002, p. 41), cristaliza uma representação negativa de Goiás e do sertão do Brasil que persiste até hoje no imaginário nacional. Uma decadência que abrangia todos os aspectos da existência, se constituindo como modo de vida.

Luiz Palacín (1976) fez um diagnóstico em que é possível perceber que a ideia de decadência estava atrelada à relação da Capitania com o mercado nacional e internacional. De acordo com ele:

A decadência, nas minas, significa, primeiramente decadência da mineração. A quebra de rendimento das minas, fonte de toda a atividade econômica, arrasta consigo os outros setores a uma ruína parcial: diminuição da importação e do comércio externo, menos rendimentos dos impostos, diminuição da mão de obra por estancamento na importação de escravos, estreitamento do comércio interno, com tendência à formação de zonas de economia fechada e um consumo dirigido à pura subsistência, esvaziamento dos centros de população, ruralização, empobrecimento e isolamento cultural (PALACIN, 1976, p. 171).

De forma bastante clara, pedagógica, Palacín (1976) relacionou o esgotamento das minas à mudança na matriz econômica e à produção de um modo de vida em que a decadência se torna o vetor autoexplicativo a consolidar a imagem definitiva de uma sociedade avessa ao trabalho e apática. Nessa linha, apesar de fazer a ressalva de que não se pode aplicar de maneira completa a tese da decadência para Goiás, estabelece que foram ―três as manifestações profundas e duráveis da decadência: uma de caráter sócio-geográfico, a ruralização, as outras duas, a crise do trabalho e o derrotismo moral, com base na psicologia coletiva‖ (PALACIN, 1976, p. 197).

Ruralização, ou seja, da perspectiva da realidade goiana conforme a interpretação de Palacín (1976), a produção de um modo de vida material fundamentado nas culturas agropastoris, de subsistência, com pouca ou quase nenhuma ligação com os mercados consumidores nos moldes capitalistas. Ruralização, que se tornou a prova definitiva da decadência de um modo de vida, pelo isolamento que representou e representa, pela ausência dos códigos e valores de uma sociedade capitalista, a começar pelo maior de todos, que é a economia monetária. É essa a interpretação de Luiz Palacín (1976), ao afirmar que:

A nova configuração que adquire a Capitania com a decadência é a ruralização da vida: de uma população radicada, quase exclusivamente, em centros urbanos – por pequenas que estas povoações fossem – passa-se a uma dispersão atomizada da população pelos campos (PALACIN, 1976, p. 197/198).

De modo sub-reptício se percebe que o sentido negativo tanto da tese da decadência quanto da ruralização se encontram no fato de que o relativo isolamento que se abateu sobre Goiás acabou por significar uma regressão, em termos de valores civilizatórios, a

modos de vida mais próximos da natureza, ou, como Palacín descreveu, ―numa verdadeira

indianização de grupos isolados‖ (PALACIN, 1976, p. 198).

Essa ―indianização‖, concluiu o autor, se traduziu no ―mal mais profundo da decadência, e que está na raiz de todos os outros, [que] é o desprezo pelo trabalho, o gosto da

ociosidade‖ (PALACIN, 1976, p. 198), que fundamenta então a sua conclusão:

Os testemunhos são unânimes: os brancos não trabalhavam por tradição imemorial, e privilégio de cor; os mulatos, recém-saídos da escravidão, queriam gozar da nova liberdade e se diferenciar dos escravos, seus antigos companheiros, aproximando-se da forma de vida dos senhores na única coisa em que podiam imitá-los: a ociosidade. Trabalhavam, portanto, o indispensável para não morrer de fome. O mesmo faziam os negros forros; se como faiscadores num dia conseguiam o necessário para a alimentação da semana, descansavam o resto dos dias (PALACIN, 1976, p. 199).

Luiz Palacín (1976) citou os testemunhos a corroborar o diagnóstico da decadência da qual a ociosidade era o sintoma maior. Indolência e preguiça seriam os outros termos a compor então a imagem do goiano que, na maioria dos casos, se fixou como traço característico da identidade nacional.