Chapter 4: The Contribution of Scribe M: Handwriting and Dialect
4.3 The Language of Scribe M
4.3.3 Morphology: Pronouns and Verbs
Vimos, anteriormente, que o uso do termo “memória” é amplamente discutido na atualidade. Seu sentido original seria a capacidade de o homem guardar e memorizar impressões das suas experiências de vida, e hoje esse sentido está ligado a tudo o que se relaciona à vida em sociedade. Mas a técnica de memorização e transmissão do que se guardava na memória não é coisa nova, foi utilizada desde os tempos mais remotos como meio de manter as tradições dos povos.
Na Roma antiga, por exemplo, os longos discursos eram memorizados por meio de técnicas especiais, e podemos remontar à historiografia da Antigüidade clássica para ver que nessa época já se faziam trabalhos com coletas de testemunhos orais. Heródoto registrava as histórias dos heróis mortos em combate e Tucídides lançava mão de relatos e depoimentos para construir suas narrativas históricas sobre acontecimentos do passado, demonstrando que a utilização de fontes orais como meio de se escrever história não é fenômeno novo.
Temos ainda o exemplo das sociedades sem escrita, que, para codificar o seu saber, desenvolvera m técnicas de memória que repousam sobre o ritmo, a narrativa, a participação do corpo e a emoção coletiva. A origem da utilização da memória é, portanto, muito antiga, mas suas práticas estavam distantes do que hoje chamamos de História Oral.61
A recorrência aos relatos orais para a compreensão da história foi historicamente utilizada até o século XVIII. Essa prática, entretanto, começou a ser desqualificada,
colocada em suspeição, no momento em que a história ganhou o status de ciência, no século seguinte, quando houve uma tentativa de sistematizar os estudos da história criando um método de investigação que lhe era próprio, que visava a objetividade das demais ciências. E só os indivíduos com formação especializada podiam exercer essa tarefa.62
61 LE GOFF, 1990, p. 427-8. 62 FERREIRA, 2002, p.315.
No século XIX, com a predominância da história positivista – a idéia de que se podia chegar ao passado tal como efetivamente ocorreu –, a prática de recolher depoimentos foi, então, considerada fonte insegura para o pesquisador. As memórias construídas a partir de subjetividades, de dúvidas, de esquecimentos, não eram mais vistas como fontes confiáveis para o conhecimento científico. Diz a professora Marieta de Moraes Ferreira:
“A afirmação da história como uma disciplina que possuía um método de estudo de textos que lhe era próprio, que tinha uma prática regular de decifração de documentos, implicou a concepção da objetividade como uma tomada de distância em relação aos problemas do presente. Assim, só o recuo no tempo poderia garantir uma distância crítica. Se se acreditava que a competência do historiador se devia ao fato de que somente ele podia interpretar os traços materiais do passado, seu trabalho não podia começar verdadeiramente senão quando não mais existissem testemunhos vivos dos mundos estudados Para que os traços pudessem ser interpretados, era necessário que tivessem sido arquivados. Desde que um evento era produzido ele pertencia à história, mas, para que se tornasse um elemento do conhecimento histórico erudito, era necessário esperar vários anos para que os traços do passado pudessem ser arquivados e catalogados.”63
Assim, o testemunho oral foi perdendo sua relevância, e sua veracidade foi posta em questão. Achava-se que o depoimento não poderia ter valor de prova, porque estava sujeito a falhas de memória, eram considerados subjetivos, imprecisos e carregados de visões distorcidas, por isso não poderiam ser considerados como fontes. Era a época da exclusão da memória em favor do fato, da desqualificação dos relatos pessoais, da história de vida, das biografias e dos depoimentos orais.64
Essa concepção vinculava os depoimentos orais ao anedótico, às sociedades sem escrita, às classes populares, e colocava a história contemporânea na marginalidade. Nessa
63 FERREIRA, 2002, p.315-6.
ocasião houve o fortalecimento da hist ória metódica, factual, centrada no estudo dos grandes eventos históricos e grandes personalidades, gerando, naturalmente, o fortalecimento dos arquivos, museus, bibliotecas, depositários da história registrada, da memória organizada, iniciado no século XI X.65
A desqualificação da utilização dos depoimentos orais como fontes historiográficas foi reforçada no rastro da fundação da revista Annales, em 1929, que propunha uma nova abordagem. Os historiadores da Annales viam as estruturas duráveis como mais importantes do que os fenômenos conjunturais, e os comportamentos coletivos como mais importantes do que os individuais. Junto à revista Annales , a fundação da École Pratique des Hautes Études, em 1948, “deu impulso a um profundo movimento de transformação no campo da história.”66
A nova geração de historiadores, conhecida como École des Annales – que trabalhava com fontes sociais e quantitativas e não considerava central a coleta de depoimentos – dava ênfase à história econômica, à organização social e ao estudo das estruturas, aceitando a idéia de que as fontes escritas possuíam maior objetividade do que as fontes orais, que, para eles, eram dúbias por apresentarem visões distorcidas, resultarem em relatos pouco fidedignos e particulares de cada indivíduo e, assim, não podiam ser representativos de uma época ou de um grupo.
A retomada do uso de fontes orais como fonte de pesquisa está diretamente ligada às mudanças ocorridas na área da história. Foi na segunda metade do século XX, fora da École des Annales , que a História Oral se apresentou como fonte de investigação sobre as conjunturas políticas ou culturais, sobre o indivíduo. Em 1948, o jornalista Allan Nevins, da Universidade de Columbia, iniciou um programa de entrevistas sobre grupos dominantes nos EUA e a participação dos americanos na vida política, econômica e social do país, e inaugurou a prática da História Oral com o uso de coleta de depoimentos com gravador, recurso tecnológico que permitiu armazenar, reproduzir e conservar um depoimento. Esse
65 TREBITSCH, 1994, p.23. 66 FERREIRA, 2002, p.318.
programa constituiu o Columbia Oral History Office , que serviu de modelo para criação de organismos semelhantes nos anos 1950 e 1960.67
Logo o programa iniciado nos EUA iria expandir-se. Foi criada a American Oral History Association, em 1967, presidida pelo próprio Nevins e, mais tarde, em 1973, lançada a Oral History Review. A afirmação da História Oral, entretanto, iniciou-se a partir da guerra do Vietnã e das lutas por direitos civis nos EUA encabeçadas pelos movimentos sociais de negros, mulheres, imigrantes, os primeiros responsáveis pela difusão da História Oral, que procuravam recuperar a trajetória desses grupos, coisa que historiadores e cientistas sociais não tinham o hábito de fazer na época.
O recurso às fontes orais foi usado, assim, como instrume nto de construção de identidade de grupos e de transformação social, como modo de dar voz aos excluídos e marginalizados pela história oficial e acadêmica. Os cientistas sociais começam a utilizá -las como fonte alternativa de se escrever a história, inserindo-as no bojo dos movimentos sociais. Era uma nova forma de se entender os fatos através da versão daqueles que os vivenciaram. Os depoimentos orais, nos EUA, foram amplamente utilizados para entender a pobreza e a expansão de movimentos das minorias.
A pretensão era de se construir uma nova história, pois os responsáveis pela afirmação da História Oral procuravam tirar do esquecimento as histórias que estavam por baixo das histórias oficiais e construir histórias diferentes, consideradas sepultadas pela história oficial: das lutas de classes, das lutas pelos direitos civis, histórias das minorias e voz dos excluídos, a história dos vencidos, dos humildes. Uma história militante, ativista, desencadeada no bojo da contracultura, uma história que não era be m aceita na comunidade acadêmica.68
Assim, nos anos 1960, a História Oral é vista como contra-história, história vista de baixo, história subterrânea. Uma história da memória clandestina, uma nova história social
67 FERREIRA, 2000, p.322 68 TREBITSCH, 1994, p.23.
que nos leva a observar, portanto, que a expansão da História Oral começa com a história dos excluídos. Não havia, porém, uma preocupação metodológica consistente que a amparasse.69
Nesse sentido, a História Oral deparou-se com muitas e fortes resistências: desenvolveu-se fora da comunidade dos historiadores – o método foi usado inicialmente em pesquisas antropológicas e sociológicas –, enfrentou o fetichismo do documento escrito, a crença na objetividade das fontes (que, ressaltamos, não deixou de ser aceita pelos historiadores), e a crença na concentração do interesse de estudos nos períodos mais remotos do tempo.
Esse movimento iniciou a difusão da História Oral e, nos Estados Unidos e Europa, foram implantados programas e pesquisas que se valeram da História Oral como método de investigação. Duas tendências, nessa época, se formaram: a norte-americana, que privilegiava a construção de bancos de depoimentos orais, e a européia, que privilegiava a lógica da investigação científica.70
Os acadêmicos problematizaram o uso das fontes orais por parte da militância: convencida de estar descobrindo “o que realmente acontecera”, ela teria negligenciado a análise das razões que nos levam a recordar de determinadas maneiras. Na perspectiva dos acadêmicos, eventuais distorções de memória passaram, assim, de obstáculo a superar a recurso a ser utilizado. Poderiam elaborar uma história da própria memória.
Com a experiência de americanos e europeus, a História Oral passa a se difundir nos anos 1970, com a implantação de diversos programas de História Oral. Foi nessa década que a metodologia foi introduzida no Brasil quando foi criado o Programa de História Oral do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 1975.71
69 FERREIRA, 2002, p.323. 70 ALBERTI 2004, p.19-20. 71 Idem, p.11.
Nesse mesmo ano, Ronald Grele, em seu livro Envelopes of sound, propôs a avaliação das coletas da profusão de depoimentos até então realizados nos EUA, sugerindo um controle sobre esse material com a organização de bancos de dados. Foi assim que a História Oral, então conhecida como história dos excluídos, foi se expandindo em outros países como Alemanha, França, Inglaterra e Itália, e consolidando-se, ainda que bastante inibida, nos meio acadêmicos, que cultuavam o registro escrito.72
Nos anos 1980 ocorreu a revalorização, a partir da sociologia, da análise qualitativa do campo social, que se opunha à sociologia quantitativa dos questionários. Acenava-se com um novo quadro na pesquisa histórica, com a incorporação de temas contemporâneos, o estudo dos períodos recentes, definido como história do tempo presente. Iniciava-se uma fase de transformaçõe s na história e consolidação da História Oral na academia, com a retomada da importância das experiências individuais (história dos homens, não das estruturas), impulso à história cultural e à história política. A História Oral passou a fornecer, também, material para a análise do trabalho de enquadramento da memória.
A História Oral recebe consagração no Congresso Internacional das Ciências Históricas, em Bucareste, em 1980, quando conquista definitivamente sua legitimação entre as ciências históricas.73 Das preocupações militantes às preocupações metodológicas, hoje a
História Oral está nas universidades, nos museus, nos arquivos, nas instituições públicas e privadas, graças às transformações ocorridas no campo da história, que abriram espaço para vários outros campos.
A década de 1980 caracterizou-se pela multiplicação de encontros internacionais, que permitiram a criação de uma verdadeira comunidade de História Oral,74 adotada em diversos países do mundo por conta do reconhecimento de sua aplicação no campo das ciências sociais. E nos anos 1990 houve “o verdadeiro boom da História Oral”,75 a partir
72 TREBITSCH, 1994, p.27. 73 TREBITSCH, 1994, p.36. 74 JOUTARD, 2005, p.43. 75 FERREIRA, 1998, p.4.
das mudanças ocorridas no campo da história, que passou a aceitar o estudo do tempo presente.
Com esse cenário, a História Oral passou a ocupar novo espaço nos debates historiográficos, espaço definido, principalmente, pela importância assegurada à história do tempo presente, aquela que privilegia os testemunhos vivos, o resgate do político, a revalorização do indivíduo nas experiências coletivas e o estudo das articulações do todo social, além de rever o papel central das fontes escritas nas novas linhas de pesquisa.