Chapter 2: The Historical Context of Middle English Medical Manuscripts
2.2 The Vernacularisation in England
2.2.1 The Languages of Medieval England
A memória é uma construção no processo dinâmico da vida social. A memória social é um campo de disputas que inclui múltiplos processos de articulação das lembranças e esquecimentos dos diferentes sujeitos sociais em interdependência com a rede de poderes que imperam nas sociedades, em conexão com a construção das memórias.
A abertura de novos rumos para o estudo da história contemporânea em meados do século passado tornou relevante o debate sobre a memória e suas relações com a história e outras disciplinas, como a sociologia, a antropologia, a filosofia, a psicologia, a comunicação e a ciência da informação. O conceito de memória tornou-se, nesses campos do conhecimento, uma das grandes e promissoras possibilidades de se analisar o discurso social, uma vez que a memória é vista como um dos pilares da construção de referenciais sobre o passado e o presente das sociedades.
Quando me proponho a fazer um trabalho que tem como objetivo a implantação de um Programa de História Oral para a criação de um acervo de depoimentos orais de vereadores e como objeto de análise a Câmara Municipal do Rio de Janeiro (que, como já vimos anteriormente, é uma das mais antigas instituições públicas de nossa cidade), não posso abrir mão de apresentar algumas referências aos estudos sobre os conceitos de memória, pois a Câmara faz parte da história da cidade e o trabalho de (re)construção de seu passado através dos relatos dos parlamentares e dos funcionários é uma etapa importante do trabalho de reconstituição de sua memória, de preservação do capital simbólico relacionado a seu passado e, conseqüentemente, de sua identidade como instituição. Meu objeto de análise, a história da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, será recuperado e recriado por meio da memória dos entrevistados.
No caso da Câmara Municipal, necessário se faz estudar mais especificamente a memória institucional, ou seja, a importância da recuperação do passado como ferramenta fundamental para a valorização da instituição e entender a necessidade de se considerar a Câmara Municipal como uma instituição de memória fundamental para a preservação do patrimônio histórico, político e cult ural da cidade. Uma instituição viva e atuante que não só preserve o seu passado e a sua memória, como também disponibilize a sua história de forma transparente e eficaz para a produção de conhecimento em prol do desenvolvimento da instituição e, numa visão mais abrangente, que colabore para a transformação do indivíduo e da sociedade.
Objetiva-se verificar se a reconstituição desse passado e da trajetória institucional pode se tornar fator positivo no sentido de legitimar o Legislativo carioca e fortalecer sua imagem perante a população, de divulgar o papel da Câmara na sociedade, mostrar os significados históricos e as relações sociais presentes no seu espaço, trazer à luz as formas de atuação dos políticos do Rio e suas mentalidades e garantir ao cidadão comum o acesso à cultura histórica e política da cidade, transformando o patrimônio público em fonte de conhecimento e garantindo o direito à memória como elemento fundamental do exercício da cidadania.
A memória “é um elemento constituinte do sentimento de identidade tanto individual como coletiva, na medida em que ela é, também, um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si.”49 Esse conceito de Michael Pollak nos indica que é através da
memória que podemos nos conscientizar do que nos identifica como povo, como nação, o que nos identifica como grupos.
É a partir da nossa memória que organizamos nossas vidas e nos desenvolvemos. Mantendo uma trajetória comum, as pessoas de um grupo se identificam e garantem a sua coesão. É também pela memória compartilhada por um grupo que ele se une e forma sua identidade, a sua memória coletiva. Por isso podemos dizer que a memória é elemento básico para a afirmação de identidade de uma instituição política como a Câmara Municipal do Rio.
Mas o que é falar em memória? Muitas vezes é se referir a lembranças, recordações. Muitas vezes é se referir à história, à cultura, a arquivos, a memoriais, a museus, a coleções, a depoimentos, a santuários, a festas e comemorações de um povo, às suas ideologias e crenças, ao viver do cotidiano nas suas tradições, seus rituais, seus mitos, tudo o que é relacionado ao passado dos grupos sociais, verdadeiros testemunhos de diferentes épocas e de diferentes culturas. Por isso, ao ser relacionado a grupos sociais, o conceito de memória tornou-se uma das questões bastante discutidas na atualidade, no campo das ciências sociais.
Para perceber por que, tomemos esse conceito no que ele representa a priori de essencial na vida das pessoas, vamos ao conceito original de memória, que seria a guarda de informação no cérebro que nos faz perceber que existimos, que faz reconhecermo-nos como indivíduos a cada dia na história de nossas vidas, que dá sentido à vida: memória é “a faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo quanto se ache associado aos mesmos.”50
49 POLLAK, 1992, p.264.
O historiador francês contemporâneo Jacques Le Goff é um dos cientistas que, nas últimas décadas, valorizou a memória como categoria explicativa do social. Na abertura do capítulo “Memória” em sua obra Memória e história , afirma: “O conceito de memória é crucial.”
Considerando o campo social em seu todo, podemos admitir que a conceituação de memória não é simples e, assim, concorda r com o que Le Goff quis dizer com “crucial”: o conceito de memória é cada vez mais amplo, vai muito além das propriedades de guardar informações e não pode ser estudado apenas como um processo de lembrar fatos passados.
À parte os usos e abusos do termo “memória” na atualidade, há que se admitir que o conceito é polissêmico, ou seja, tem uma multiplicidade de sentidos, e é realmente “crucial”, não só na sua historicidade – estuda -se a memória desde a Roma de Cícero, quando os discursos eram memorizados por meio de técnicas mnemônicas - como na importância que recebeu das ciências sociais ao ser apropriado por diferentes áreas do conhecimento quando se ligou ao social. Porque trata da construção de referências sobre o passado e o presente dos grupos sociais, trata dos “resquícios que os homens precisam para preservar, para minimizar o sentimento de descontinuidade na sua relação com o passado.”51
Dada a sua polissemia, tende -se a confundi-lo principalmente com o conceito de história, porque ambos evocam o passado, são campos que cruzam esquecimentos e lembranças, invenção e registro, passado e presente. Ambos são campos cada vez mais recorrentes nas pesquisas científicas e, nos últimos anos, têm sido parte importante dos trabalhos de sociólogos, antropólogos, historiadores, assim como dos debates acadêmicos.
Importante estudarmos os conceitos de história e memória e verificarmos suas inter- relações porque, ao implantarmos um programa que se baseia na metodologia da história oral – que trabalha com os fa tos e suas interpretações preservados pela memória dos entrevistados -, estaremos trabalhando intimamente com esses conceitos no momento de
selecionarmos o que vai ser recuperado no passado da instituição e como a informação sobre esse passado será utilizada.
Como chama atenção o historiador e professor Carlos Eduardo Sarmento:
“O debate se trava com as perspectivas definidoras da memória, procurando assim uma distinção clara e crítica entre o discurso historiográfico e as formulações memorialistas. Se recorrermos mais uma vez a Pierre Nora encontraremos uma definição concisa, e aparentemente frágil, que define memória como a presença do passado no presente. Desta maneira alargamos o escopo daquilo que poderíamos admitir como sendo memória, chegando à conclusão de que a história tem lidado há muito, mesmo que não tenha se alertado deste fato, com conceitos e objetos que se integram no campo das elaborações de memória, devendo o investigador, portanto, ao recorrer a eles, ter a atenção de promover uma crítica consistente de seus fundamentos e dos possíveis desdobramentos advindos desta constatação.”52
É realmente difícil lidar com conceitos que têm variações de sentido como os de história e memória, se pensarmos que existem variados modos de perceber e registrar a história, que se apropria da memória preservada e trabalha sobre ela, vai em busca dessa memória e alimenta-se dela fazendo seleções.
Através da leitura de relatos de histórias de vida já publicados, percebemos que a memória “é um fenôme no coletivo e social, ou seja, um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes.”53 É, portanto, uma construção do que consideramos significativo e importante em nossas vidas. É uma narrativa construída, é o uso que se faz do passado, é “um fenômeno construído.”54
Daí sua estreita relação com o sentimento de identidade, “um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de
52 SARMENTO, 1997, p.4. 53 POLLAK, 1992, p.201. 54 Idem, p.204.
credibilidade, e que se faz por meio de negociação direta com os outros.”55 A memória nos dá o sentimento de pertencimento e existência.
Apesar da transformação dos suportes utilizados – da oralidade das sociedades ditas primitivas aos suportes virtuais de hoje – o conhecimento, a informação e a memória continuam sendo produzidos no mundo inteiro. Alguns não podem se perder e, por isso, são cultuados, hoje, em lugares especiais, verdadeiros “refúgios onde a memória se cristaliza.”56 Esses lugares especiais são o que Nora chama de “lugares de memória”, ou seja, espaços (físicos e simbólicos) em que a sociedade procura construir memória e preservá -la.
Esses “lugares de memória” passam a ser importantes para a sociedade e para os indivíduos no momento em que se assumem como loca is privilegiados para conservar a produção de registros que formam uma memória a preservar. E que guardam a história.
Em suas reflexões sobre história e memória, Nora frisa que a memória é sempre um processo vivido, de caráter existencial, conduzido por grupos vivos, e a história, ao contrário, é ciência, é método, é registro, distanciamento, é crítica (observa e analisa o vivido), é reflexão, interpretação, impessoalidade, administração do passado, de seu sentido:
“A memória é vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações.”57
A memória, para o autor, não é versão sobre acontecimentos passados – um complexo de lembranças apenas -, mas o conjunto de saberes permanentemente atualizado em práticas no presente, um contínuo social e cultural. Memória é, pois, puro presente.
55 Idem, p.204.
O que Nora chama de história “é reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais”. E a memória é um “fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado”. Observando o que diz o autor, vemos claramente a distinção entre história e memória:
“porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções. A história, porque operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso crítico. A memória instala a lembrança no sagrado, a história liberta, e a torna sempre prosaica. A memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, como Halbwachs o fez, que há tantas memórias quantos grupos existem; que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A história, ao contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá uma vocação para o universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória é um absoluto e a história só conhece o rela tivo.”58
E as memórias, segundo o autor, seja por força de seu silenciamento, por conta de seu enquadramento, seja por conta do sentimento de não existir mais memória verdadeira dado o ritmo alucinante das transformações do mundo moderno, acabam morando nesses lugares específicos, depositários sociais que as mantêm e reconstroem como espécie de patrimônio da sociedade. A história “fermenta”, segundo Le Goff, a partir do estudo desses lugares de memória da memória coletiva:
“Lugares topográficos, como os arquivos, as bibliotecas e os museus; lugares monumentais como os cemitérios ou as arquiteturas; lugares simbólicos como as comemorações, as peregrinações, os aniversários ou os emblemas; lugares
57 NORA, 1993, p.3. 58 NORA, 1993,p.9.
funcionais como os manuais, as autobiografias ou as associações; estes memoriais têm história. Mas não podemos esquecer os verdadeiros lugares da história, aqueles onde se deve procurar, não a sua elaboração, não a produção, mas os criadores e os denominadores da memória coletiva: estados, meios sociais e políticos, comunidades de experiências históricas ou de gerações, levadas a constituir seus arquivos em função dos usos diferentes que fazem da memória.”59
Por isso, se percebermos uma instituição como um grupo, como comunidade política, veremos que a preservação e divulgação do passado da Câmara Municipal - sua trajetória histórica, as especificidades institucionais, sua relação com a sociedade – constituem atributos importantes para seu reconhecimento pela sociedade e também para sua valorização como um “lugar de memória”. Um passado que não deve ficar perdido no tempo e que deve ser preservado em algum “lugar de memória”.
A Câmara foi palco, ao longo dos anos, do surgimento e do desenvolvimento de diferentes manifestações políticas. O reconhecimento da importância de seu patrimônio é determinante para a preservação e a divulgação de seu acervo histórico e cultural. A tradição da Câmara Municipal a credencia, portanto, a constituir-se em núcleo de referência para a preservação e a difusão de seus campos de atuaçã o, para a realização, elaboração e desenvolvimento de projetos na área de história política do Legislativo municipal.
A imagem da Câmara é relacionada a seu caráter público e as decisões que são tomadas em seu interior influenciam diretamente a vida do cidadão. Por isso, seu significado e seu passado devem ser socializados. Convém lembrar, construir e transmitir as histórias da Câmara Municipal e sua relação estreita com a trajetória política da cidade do Rio de Janeiro e contribuir para que a instituição tenha uma postura sempre vigilante e reflexiva sobre o papel que desempenha junto à população.
E essas histórias não são narrativas sem sentido, elas refletem o que foi importante ou significativo para os grupos que trabalham na instituição e com ela interagem. É a partir
de como constrói e conta sua história e lembra seu passado que a instituição cria sua identidade: como ela percebe e registra esse passado, quais as histórias que fizeram a sua história, de que maneira esse passado é transmitido entre os grupos que atuam na Casa desde a sua implantação, em 1977, que memórias entram em disputa na instituição.
A relação bastante estreita entre memória e história pode ser utilizada nesse estudo sobre a Câmara Municipal e deverá ser levada em conta no trabalho de seleção, análise, tratamento e difusão do material que vai compor esse “lugar de memória”.
Questões sobre memória e história são como marcos orientadores para se estabelecer uma maior clareza na definição do objeto de meu trabalho, que é a criação de novas fontes para o estudo do passado da Câmara Municipal do Rio e dos seus processos de decisão. A constituição de um acervo de entrevistas, nesse caso, não é um trabalho de construção de um discurso historiográfico rigoroso, nem uma elaboração meramente memorialista, de cunho celebrativo. Não é um esforço de se fazer história ou memória, mas de se registrarem memórias para que se faça uma história mais crítica. Um esforço de criar novas e singulares fontes que, junto à documentação textual existente, possam permitir aos pesquisadores repensar e reconstruir a história política do Rio de Janeiro com novos olhares, possibilitar a reflexão crítica em vez de arrolar fatos e personagens ou apenas coletar os principais acontecimentos da Casa num discurso para um público indiferenciado.
Um trabalho que tem como objetivo dar aos pesquisadores acesso mais amplo a diferentes vozes e conceitos, construídos em diversos pilares de pensamentos, opiniões e sentidos, pela interpretação dos vereadores. Um trabalho de interligação, de interdependência entre os campos da memória e da história, através da recuperação dos acontecimentos, provendo o pesquisador de dados que permitam novas elaborações da própria história, estudando os significados da “presença do passado no presente”, no dizer de Pierre Nora, e dando novos sentidos e coerência a esse passado, ou seja, “trabalhar o passado para talvez superá-lo.”60
Os registros do passado da Câmara assentam-se no seu acervo documental e iconográfico e no próprio Palácio Pedro Ernesto, em sua arquitetura e suas obras de arte. O Palácio guarda a documentação (estatutos, atas, diários, documentos, fotografias) e objetos. Além disso, práticas do passado sobrevivem nos rituais diários das sessões, nas ações políticas, nos personage ns da Casa, nas suas comemorações, e todos esses registros formam um manancial de fontes que se complementam umas às outras, cada qual com similaridades e especificidades.
O que temos, hoje, da história e identidade da Câmara? O palácio e seus espaços, suas obras de arte, seus arquivos, sua documentação. E temos as práticas inerentes à construção da representação delegada: manutenção do ritual das sessões plenárias, a execução do hino da cidade do Rio de Janeiro, a abertura das sessões, a hierarquia na direção dos trabalhos e na ordem do dia do plenário, nos discursos e moções de louvor dos vereadores, nas formas de conduta, nos modelos de atuação e nas práticas sociais dos edis. As tradições dos partidos mantidas através de seus estatutos, dos processos de construção das lógicas que revelam suas ações.
A documentação oral vai funcionar como mais um tipo de matéria-prima para a compreensão dos conteúdos simbólicos que constituem a história dessa instituição. Quanto maior o número de fontes disponíveis para o estudo crítico dessa história, mais rico e diversificado será esse estudo. O conteúdo das narrativas permitirá entender, por exemplo, quem são os componentes dos grupos políticos que formaram e formam a Câmara Municipal, provenientes das mais variadas tendências políticas e culturais.
O trabalho com memória oral tem como um de seus objetivos, entre outros, preservar o conhecimento intangível, ou seja, a experiência das pessoas, dando à instituição que trabalha com essa metodologia a idéia de que as pessoas que nela trabalharam e ainda trabalham são construtoras dos fatos.
A história da Câmara é a história de seus vereadores, de seus funcionários, da população da cidade, das comunidades, de sua relação com os demais poderes e de todos
que com ela interagem. A compreensão de seu passado deve ser fator de reconhecimento da medida de sua importância, e sua trajetória deve ser compartilhada com a sociedade.
E uma história viva, singular e interessante é uma forma de identificar a instituição com seu público, além de ser um veículo de informação eficiente. As informações coletadas da história de cada um de seus integrantes e de sua relação com os setores da sociedade podem resultar em ricos produtos culturais ou interessantes campanhas de valorização institucional. Importante ressaltar que o objetivo não é só a preservação do passado da instituição, mas a produção de conhecimento a partir desse passado.
A reconstituição de fatos, atitudes, valores, divergências e conflitos, de ideais – aceitos ou não como positivos ou negativos – pode revelar o processo de formação e continuidade da instituição, assim como da identidade do profissional que nela trabalhou, o seu cotidiano, os conflitos e tensões advindas das exigências de seus papéis sociais, a