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3 DATA AND METHODOLOGY

3.2 The source material

A Questão Coimbrã que, no início dos anos 60, reuniu um grupo de jovens intelectuais conimbricenses que, com um olhar na sociedade francesa, reagiam contra a degenerescência romântica e o atraso cultural do país, foi o primeiro sinal de renovação ideológica em Portugal e tornou-se numa das mais importantes polémicas literárias. Era o despertar de jovens para as novas ideologias europeias que fomentaram uma nova forma de escrever, afastando esta nova geração dos ultra- românticos e originando uma verdadeira revolução intelectual e moral. O escritor e poeta Antero de Quental (1842-1891) retratou o seu despertar para essa mudança numa carta autobiográfica dirigida a Wilhelm Storck (1829-1905)22, datada de 14 de Maio de 1887:

“O facto importante da minha vida durante aqueles anos, e provavelmente o mais decisivo dela, foi a espécie de revolução intelectual e moral que em mim se deu, ao sair, pobre criança arrancada ao viver quase patriarcal de uma província remota e imersa no seu plácido sono histórico, para o meio da irrespeitosa agitação intelectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as encontradas correntes do espírito moderno. Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungentes quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida. Achei-me sem direcção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os da minha geração, a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição.

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Poeta alemão, germanista, linguista, romanista e tradutor viria a ser o correspondente de Antero de Quental e tradutor dos seus sonetos, publicados numa edição de 1887, da Paderborn und Münster, sob o título de Ausgewählte Sonette aus dem Portugiesischen verdeutscht .

Se a isto se juntar a imaginação ardente, com que em excesso me dotara a natureza, o acordar das paixões amorosas próprias da primeira mocidade, a turbulência e a petulância, os fogachos e os abatimentos de um temperamento meridional, muito boa fé e boa vontade, mas muita falta de paciência e método, ficará feito o quadro das qualidades e defeitos com que, aos 18 anos penetrei no grande mundo do pensamento e da poesia.”23

Neste despertar, a sua poesia tornou-se uma voz de combate empenhada em elogiar a grande capacidade de acção do ser humano mas suscitou duras críticas dos seus contemporâneos, a que ele reagiu com igual dureza.

A biografia saudosista ultra-romântica de Pinheiro Chagas (1842-1895) Poema da Mocidade(1865), cujo posfácio elogioso de António Castilho (1800-1875)24 serviu de crítica irónica à falta de valor e bom gosto que caracterizava a poesia Antero de Quental (1842-1891) e de Teófilo Braga (1843-1824), despoletou uma reacção bem violenta contra o velho mestre. Antero com a irreverência e excesso que caracterizavam a sua juventude, escreveu, em 1865, o panfleto Bom Senso e Bom- Gosto, Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho onde se insurgia contra o desdém manifestado por Castilho em relação à nova geração de poetas:

“O que se ataca na eschola de Coimbra (talvez mesmo v. exª o ignore, porque ha malevolos innocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião litteraria menos provada, uma concepção poetica mais atrevida, um estylo ou uma idea. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se á independencia irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d’uma litteratura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da chancellaria dos grãos–mestres officiaes.[…] Agora quem move estes ridículos combates de phrases é a vaidade ferida dos mestres e dos

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Antero de QUENTAL, Cartas II[1852]-1881, In: Obras Completas de Antero de Quental, Org., Introd. e notas de Ana Maria Almeida Martins, Lisboa: Editorial Comunicação, 1989, p. 834.

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Castilho foi um escritor que se formou aquando da dissolução do neoclassicismo arcádico que o viria a influenciar no modo como ele eivou as formas românticas desse pseudo classicismo e como impediu a tão desejada renovação social e literária que a geração intelectual coimbrã ambicionava. Castilho era um homem influente e as suas relações facilitaram a vida literária de jovens que, hipocritamente, o bajulavam para atingir os seus propósitos.

pontifices; é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; […] combatem-se os hereges das escholas de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da imprudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem- -se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes de submissão estúpida, de baixeza e pequenez moral e intellectual. […] a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime – commetteu uma grande falta: quis innovar. […] como escriptor é que não posso calar-me; […] a immensa missão do escriptor[…] é um sacerdócio, um officio publico e religioso de guarda incorruptível das idêas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras[…]O escriptor quer o espirito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração livre de vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras. 25

Pinheiro Chagas acorreu em defesa de Castilho com Bom-senso e bom-gosto. Folhetim a propósito da carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao Senhor António Feliciano de Castilho,

“Publicou-se ha tempo e tem-se espalhado em Lisboa uma carta dirigida pelo sr. Anthero do Quental ao sr. Antonio Feliciano de Castilho, carta em que o poeta das Odes modernas protesta violenta e virulentamente contra a censura, irrogada pelo cantor do Amor e Melancholia á desastrada escola, de que o sr. Anthero do Quental teve a triste honra de ser um dos fundadores. […] Não intento responder á carta; ainda que a pessoa, a quem ella é dirigida, esteja dispensada de responder pela inconveniencia do ataque, não me compete a mim substituil-a. Penna mais competente e mais authorisada por todos os motivos se está preparando para isso; mas eu, que fui um dos primeiros a accusar de falso, de affectado, de absurdo, de gongorico o estylo da escola de Coimbra, hoje, que uma das pythonizas desce da tripode, e vem, em linguagem accessivel aos mortaes, explicar os oraculos, e lançar a luva aos que zombaram dos livros sybillinos, não desamparo o meu posto, e apresso-me a descer á liça, onde encontro afinal

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Antero de QUENTAL, Bom-Senso e Bom-Gosto. Carta ao Excelentissimo Senhor Antonio Feliciano

um adversario.[…]o sr. Anthero não é um barbaro, é um grego do Baixo Imperio. A sua escola é a turba de vermes, que brota da putrefacção de uma litteratura. É para os grandes homens do romantismo o que foi Claudiano para Virgilio, Marini para Tasso, Campistron para Corneille. A apparição da sua escola é um facto mil vezes repetido na historia litteraria, e a que inevitavelmente se segue uma reacção salutar. Cumpram a sua missão; mas, ao resvalarem no precipicio, não se aferrem a essas arvores gigantes, que resumem em si uma litteratura inteira. Parasitas do ideal, não se enrosquem nos robles; mosquitos do coche litterario, não queiram ser como a sua collega da fabula, que zunia em torno dos corseis que puxavam o vehiculo, e andava n'uma azafama constante, esfalfada e ufana, persuadindo-se a si, e querendo persuadir os outros de que era ella e ella só quem arrastava o carro”26

Contudo, e ao mesmo tempo, Teófilo Braga solidarizou-se com Antero no folheto As theocracias litterarias. Relance sobre o estado actual da litteratura portuguesa onde salientava que a prosa de Castilho era quinhentista e seiscentista e, por isso totalmente ultrapassada:

“Todos nós sabemos o que particularmente se pensa e se diz do auctor da Joven Lilia, como caracter e como artista, mas uns diante dos outros não se atrevem, talvez por servilismo, a proclamar a verdade crua. O sr. Castilho assiste de dia para dia ao esphacelamento do seu caracter; indole viperina, reservado, como o rancor de cego, bifronte como o deus antigo cujos fastos ainda commemora, não tem, não tem direito a esta sagração que vae sanctificando a edade e o trabalho.[…] Elle apparece-nos como Chiron ensinando o mysterio da força aos que o cercam, mas é n'isto que está o attentado á arte, ensinando uma rotina arcadica, palavrosa, nulla de idéas, de sentimentos falsos, que já se nota na mocidade, que o admira. Sobre tudo a má fé, é o que mais depressa se communica; um critico chama ingrato a um auctor, que preoccupado com o seu trabalho não soube, nem teve tempo para ir agradecer-lhe as inepcias; e promette verberal-o, alludindo fóra de proposito á sua nebulosidade. Cada vez me convenço mais do celebre dito de Pope, que

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Manuel Pinheiro CHAGAS, Bom-senso e bom-gosto. Folhetim a propósito da carta que o senhor

Anthero do Quental dirigiu ao Senhor António Feliciano de Castilho, Lisboa, Imprensa de J.G. de

se pode applicar á maioria dos que escrevem: «Que um mau escriptor é sempre um mau homem.»

Digamos a verdade toda. O sr. Castilho deve a sua celebridade á infelicidade de ser cego. O que se espera de um cego? Apenas habilidade. É uma celebridade triste porque tem origem na compaixão, e a compaixão fatiga- se.”27

O tom duro e polémico28 com que Antero se dirigiu a Castilho e a manifestação irresponsável de Teófilo alusiva à cegueira deste mesmo escritor originou várias censuras, nomeadamente de Ramalho Ortigão (1836-1915) que não deixou contudo de criticar Castilho pela sua falta de inovação, e de Camilo Castelo Branco (1825-1890) que atacou fortemente a irreverência desta nova geração.

A rotura provocada pela Questão Coimbrã abalou, apesar de tudo, as estruturas sócio-culturais do país, mas lançou algumas das sementes que deram lugar a conferências e debates de ideias e a uma reforma das mentalidades que deram corpo à futura geração de vanguarda, a chamada Geração de 70, reconhecida no texto escrito entre 1872 e 1875, porém inacabado, de Antero de Quental com o título Programa para os Trabalhos da Geração Nova. Antero tornar-se-ia figura de proa ao procurar analisar numa série de conferências29, no Casino Lisbonense, a problemática da decadência de um povo que se via afastado social, económica e culturalmente de uma Europa já em plena evolução. Das várias conferências previstas, só se realizaram cinco, dada a interdição por parte do governo que alegava que estas discussões atacavam a religião e as instituições políticas do Estado, mas foram suficientes para o germinar da semente da modernidade do pensamento político, social e cultural, já sentida na França, Inglaterra e Alemanha. Não foi uma semente fácil de germinar e como exemplo temos os Vencidos na Vida - um grupo de onze intelectuais, Oliveira

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Theophilo BRAGA, As Theocracias Litterarias. Relance sobre o Estado Actual da Litteratura

Portugueza, Lisboa: Typographia Universal, 1865.

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Henrique das Neves (1841-1915), militar, editor de vários periódicos açorianos, articulista, e influente intelectual, particularmente na cidade açoreana da Horta, afirmou que Antero lhe confessara o sentimento de desgosto por alguns dos excessos escritos cometidos na sua juventude, concretamente a falta de respeito manifestada na carta dirigida a uma pessoa tão idosa como Castilho, e o mau exemplo que daí adveio confirmado, mais tarde, numa carta dirigida a William Storck.

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As Conferências do Casino que Antero de Quental fundaria em 1871, após a tão badalada Questão Coimbrã, agitaram fortemente a vida política, pela ousadia de serem públicas e de exporem, livremente, as grandes questões contemporâneas, políticas, religiosas, sociais, literárias e científicas, explicando-as à luz do avanço da ciência moderna e da crítica.

Martins (1845-1894), Ramalho Ortigão, António Cândido (1852-1922), Guerra Junqueiro (1850-1923), Carlos Mayer (1871-1910), o Marquês de Soveral (1853- 1922), Carlos Lobo d’Ávila (1860-1895), o Conde de Ficalho (1837-1903), Bernardo de Pindela (1855-1911), o Conde de Sabugosa (1851-1923) e Eça de Queirós (1845- 1900) que os definia como um grupo jantante (reuniam-se para jantar no Hotel Bragança, no Café Tavares e em casa de alguns dos membros) - todos eles vultos da literatura, da política e da alta sociedade, alguns deles ligados à geração de 70, que discutiam, de forma irónica, as frustrações e desenganos de uma juventude cheia de ideais, ao mesmo tempo que eram criticados, duramente, por muitos que os acusavam de serem diletantes e mundanos desencantados com o sistema político. Esforçaram-se por responder, subtilmente, a cada uma dessas críticas, com a dignidade que os caracterizava, e embora todas as réplicas não tivessem sido suficientes para se manterem como grupo (dissolveram-se em 1894), certamente que a sua voz foi um alerta para a necessidade de aproveitar o fôlego de outras culturas e repensar todas as tomadas de posição que social, política e culturalmente mantinham Portugal como um dos países «mais apagados» da Europa.

O sentimento de frustração e decadência que se vivera no Portugal de Oitocentos apagara, há muito, o brilho e a vontade férrea da descoberta por mares e continentes desconhecidos, conquistado em Quinhentos. Portugal tornara-se frágil politicamente30 e começara a viver um período de crise acentuada, em parte, pela grande falta de confiança política e pela manifesta incapacidade por parte dessa classe em ultrapassar toda esta agonia monárquica. O intelectual viu-se, assim, confrontado com um conjunto de factores de índole histórica, social e ideológica que lhe retiraram a confiança depositada na ciência positivista, fomentando-lhe a dúvida e diminuindo-lhe a auto-segurança.31 A afirmação de Eça de Queiroz de que a civilização moderna e industrial produzira uma imensa miséria humana encerra toda essa falência do

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O Ultimatum britânico de 1890 que foi entregue por um «Memorando» pelo governo britânico a Portugal no dia 11 de Janeiro de 1890 e que a pretexto de um incidente entre portugueses e makololos, obrigava Portugal a retirar as forças militares existentes no território compreendido entre as colónias de Angola e Moçambique (actual Zimbabwe) iria pôr fim ao sonho de restabelecer Portugal através da criação de um novo império colonial na África, com a união de Angola e Moçambique através da conquista das terras que as separavam. A impossibilidade de resistência levaria à queda do governo, ao descrédito da monarquia e a uma crescente afirmação do movimento republicano que se concretizaria a 5 de Outubro de 1910.

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Esta inquietação metafísica e existencial acentuou-se com a divulgação da filosofia de Schopenhauer e Hartmann, e os seus pensamentos tão pessimistas sobre a evolução tecnológica e cultural que em nada beneficiavam aquele sentimento de um saber estar e lutar pela vida. Antero de Quental foi um dos seus mais relevantes representantes, bem patente no seu Hino à Manhã.

positivismo e a postura inquieta que o indivíduo adquiriu perante a vida e o progresso tecnológico, onde a ciência com as suas explicações dogmáticas e certezas unívocas acabara por ocupar o lugar outrora pertença da religião e se tornara, como aquela, incapaz de assumir o direito à diferença, pertença de todo o indivíduo que vive em sociedade. Era necessário agir e denunciar esse sentimento de crise civilizacional e cultural e adoptar uma linha de pensamento que explorasse, lúcida e calmamente, a crise de dissolução de um mundo de valores como já acontecia, concretamente, na França, Alemanha e Inglaterra. Fernando Pessoa na única obra (sem contar os livros de poemas em inglês) publicada em vida, Mensagem (1934) e que ele compôs ao longo de cerca de duas décadas, deixou-nos uma visão sobre Portugal onde procurava um sentido para a grandeza de outrora, agora decadente, numa antecipação de um tempo futuro. Num dos seus poemas Mar Português explorou com lucidez a luta contra as adversidades e defendeu o que achava justo e que devia ser erguido com o esforço de heróis “[…] Quem quer passar além do Bojador/Tem de passar além da dor”32

, para ultrapassar a estagnação e conseguir o desabrochar de um novo ciclo - que para ele seria o Quinto Império, com a chegada do Encoberto, simbolicamente o salvador do Indivíduo, da Nação e da Humanidade - que deveria tornar-se num apelo verdadeiro à renovação cultural.